Uma última nota no que tange, especificamente, à aplicação das penas acessórias em sede de processo sumaríssimo, por ser esta a forma de processo em relação à qual mais dúvidas
76 GARCIA, M. Miguez, RIO, J. M Castela – “Código Penal… ob. cit., Anotação ao artigo 101.º, p. 497.
77 Porém, a menção na acusação à necessidade de aplicação da medida de segurança deve, tal como as penas acessórias, constar do quadro de normas legais a aplicar ao arguido, da própria qualificação jurídica das condutas assumidas por aquele. Pretendemos, com tal consideração, afirmar que a alusão à medida de segurança não deve ser abordada logo em questão prévia à acusação, deixando-se tal abordagem antecipada para questões de que depende a dedução de acusação numa determinada forma de processo, sugerindo-se, a título de exemplo, a referência ao não preenchimento dos requisitos legais para que o Ministério Público possa lançar mão de uma solução de consenso, nomeadamente, da suspensão provisória do processo.
REGIME DAS PENAS ACESSÓRIAS E SUA APLICAÇÃO NAS DIFERENTES FORMAS DO PROCESSO PENAL
1. Enquadramento jurídico, prática e gestão processual
existem. Fazendo uso das palavras de PAULO DÁ MESQUITA78, enquanto forma especial de
processo que almeja o consenso das partes no âmbito da pequena e média criminalidade, bem como a celeridade da própria tramitação processual79, o processo sumaríssimo assume-se
como uma forma de processo célere, eficaz e simplificada, susceptível de comportar um efeito menos estigmatizador para o arguido, assim cumprindo funções de ressocialização. Apelidado de uma das opções mais inovadoras do Código de Processo Penal de 1987, o processo sumaríssimo, enquanto “resposta às exigências de uma política criminal de diversão”80,
comporta em si mesmo diversos requisitos que devem ser cumpridos aquando da opção por esta medida de consenso, os quais constam do artigo 392.º do Código de Processo Penal. Ora, não se tratando este guia de uma análise exaustiva do processo sumaríssimo81, cumpre-nos
apenas, e por agora, pronunciarmo-nos acerca da possibilidade de aplicação das penas acessórias em tal sede. Na verdade, no n.º 1 do artigo 392.º do Código de Processo Penal, o legislador refere que o recurso a tal forma especial de processo apenas deverá ocorrer quando o Ministério Público entender que, perante o circunstancialismo que lhe é apresentado, ao agente deva ser concretamente aplicada pena ou medida de segurança não privativas da liberdade. Porém, em nenhum momento a letra da lei se refere, especificamente, à possibilidade de aplicação de uma pena acessória. Uma interpretação puramente hermenêutica leva-nos a crer que não existe qualquer circunstância que obste a que o Ministério Público proponha, no requerimento, a aplicação de uma pena acessória. Porém, este não tem sido um entendimento líquido no panorama jurídico português, com a doutrina a apresentar entendimentos díspares. Segundo PAULO PINTO DE ALBUQUERQUE82, quando
pretenda lançar mão do processo sumaríssimo, o Ministério Público não pode requerer a aplicação de penas acessórias ao arguido, como seja o caso da proibição do exercício de função e proibição de condução de veículo com motor (artigos 66.º e 69.º, respectivamente, ambos do Código Penal), justificando tal opção no facto de nem o artigo 392.º do Código de Processo Penal, nem o artigo 353.º do Código Penal mencionarem a possibilidade de aplicação de penas acessórias no processo sumaríssimo83. Por outro lado, JÚLIO BARBOSA E SILVA afirma 78 MESQUITA, Paulo Dá – “Os processos especiais no Código de Processo Penal português – respostas processuais à pequena e média criminalidade”, Revista do Ministério Público, ano 17, n.º 68, Outubro-Dezembro de 1996. ISSN 0870-6107, pp. 101-117, pp. 109-110.
79 Acerca dos limites à celeridade processual, vide RODRIGUES, Anabela Miranda – “Os Processos sumário e sumaríssimo ou a celeridade e o consenso no Código de Processo Penal”, Revista Portuguesa de Ciência Criminal, Ano 6, fascículo 4.º, Coimbra: Coimbra Editora, Outubro-Dezembro de 1996, pp. 525-544 e RODRIGUES, Anabela Miranda – “A celeridade no processo penal: uma visão de direito comparado”, Revista Portuguesa de Ciência Criminal, Ano 8, fascículo 2.º, Coimbra: Coimbra Editora, Abril-Junho de 1998, pp. 233-250.
80 FIDALGO, Sónia – “O processo sumaríssimo na revisão do Código de Processo Penal”, Revista do CEJ, 1.º Semestre 2008, n.º 9 (especial), pp. 297-319, p. 297.
81 Para uma breve incursão neste instituto, veja-se RODRIGUES, Anabela Miranda – “Os Processos sumário e …”, ob. cit.; MESQUITA, Paulo Dá – “Os processos especiais…”, ob. cit.; PEREIRA, Luís Silva – “Os processos especiais do Código de Processo Penal após a revisão de 1998, Revista do Ministério Público, Ano 20, n.º 77, Janeiro-Março de 1999. ISSN 0870-6107, pp. 139-154.
82 ALBUQUERQUE, Paulo Pinto de – “Comentário do Código de Processo Penal à luz da Constituição da República e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem”, 4.ª ed. actualizada, Lisboa: Universidade Católica Editora, Abril de 2011. ISBN 978-972-54-0295-5, Anotação ao artigo 392.º, p. 1024.
83 No mesmo sentido se pronunciou ANABELA MIRANDA RODRIGUES, quando em 1996 (em momento temporal anterior à revisão do Código de Processo Penal pela Lei n.º 59/98, de 25 de Agosto, a qual procedeu a uma alteração do artigo 392.º, no sentido de alterar profundamente o seu n.º 2, o qual deixou de prever a possibilidade de ao arguido ser aplicada a inibição do direito de conduzir) referia “[A]ssim ficará definitivamente afastada a possibilidade de aplicação de penas acessórias em processo sumaríssimo, dúvida que hoje se pode colocar, dada a redacção do artigo 392.º, n.º 2. Este esclarecimento é importante, tanto mais quanto esta possibilidade significaria
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1. Enquadramento jurídico, prática e gestão processual
ser relativamente pacífico que o processo sumaríssimo comporte todas as penas – principais ou acessórias – desde que as mesmas não sejam privativas da liberdade84. Continua o autor: “[I]sto inclui, num catálogo não exaustivo, admoestação, multa, prisão suspensa na sua execução, prisão substituída por multa, prisão substituída por trabalho a favor da comunidade
bem como proibição do exercício de profissão, cassação de carta de condução85, pena
acessória de inibição de conduzir, etc”. Parece-nos ser este o raciocínio a adoptar, à luz da tal interpretação literal também acolhida pelo autor, a qual deve ser devidamente conjugada com uma interpretação adequada à prática judiciária86. Cremos ser este também o entendimento
perfilhado pela jurisprudência maioritária, sendo frequente encontrarmos diversos arestos que aplicam penas acessórias no âmbito de um processo sumaríssimo, nomeadamente a constante do artigo 69.º do Código Penal87/88. Assim, por uma razão de coerência jurídica e consequente
harmonização legal, se uma pena acessória é perspectivada como verdadeira pena, então também ela – desde que não privativa da liberdade - deve ser aplicada em sede de processo sumaríssimo, não se encontrando razão que obste a tal aplicação.