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2. Prática e Gestão Processual

2.3. Nas formas de processo especiais a) No processo sumário

Ocorrendo uma detenção em flagrante delito pela prática de crime punível com pena de prisão, cujo limite máximo não seja superior a 5 anos, mesmo em caso de concurso de infracções, deve o agente do crime ser apresentado ao Ministério Público, para submissão imediata a julgamento sumário, caso não se vislumbre a necessidade de realização de outras diligências, nos termos do disposto nos artigos 381.º a 391.º do Código de Processo Penal. Como é consabido, face aos princípios da celeridade e simplificação processual que enformam esta forma de processo, a lei admite no artigo 389.º, n.º 1, do CPP, que o Ministério Público substitua a dedução de acusação pela leitura do auto de notícia da autoridade que tiver procedido à detenção. Porém, esta faculdade legal deverá ser utilizada com a maior parcimónia, quando, ao crime cometido pelo agente seja aplicável, a par da pena principal, uma pena acessória. Com efeito, os autos de notícia e os autos sumários de entrega são frequentemente omissos quanto aos pressupostos em que assentam a aplicação de uma pena acessória, bem como quanto à indicação das normas necessárias a essa qualificação jurídico- criminal. Por isso, a actuação do Ministério Público deve passar pela confirmação de que estão presentes todos os elementos de facto e de direito essenciais à imputação jurídico-criminal ao agente de uma conduta passível de ser incriminada, não apenas com uma pena principal, mas também com uma pena acessória.

Para tanto, há que recorrer, sempre que necessário, ao disposto no n.º 2 do artigo 389.º, completando, mediante despacho proferido antes da apresentação do arguido a julgamento, o auto de notícia com todos esses elementos essenciais. Do mesmo modo, considerando-se necessária a realização de alguma diligência probatória que se mostre imprescindível para a verificação dos requisitos de aplicação de uma pena acessória, deve a mesma ser requerida, ao abrigo do preceituado no n.º 3 daquele dispositivo.

Só assim conseguir-se-á compatibilizar a celeridade desta figura processual com o rigor exigido na qualificação jurídico-criminal dos factos imputados ao arguido.

b) No processo abreviado

Recolhidas provas simples e evidentes de se ter verificado crime punível com pena de multa ou com pena de prisão não superior a 5 anos e de quem foi o seu agente, deverá o Ministério Público deduzir acusação em processo abreviado, se não tiverem decorrido mais de 90 dias da prática dos factos, ao abrigo dos artigos 391.º-A a 391.º-G do CPP.

Conforme dispõe expressamente o artigo 391.º-B, n.º 1, do CPP, a acusação, sob esta forma de processo, obedece também à obrigatoriedade de menção dos elementos a que alude o artigo 283.º, n.º 3, do mesmo diploma legal, assistindo ao Ministério Público a faculdade legal de remeter a narração dos factos para o teor do auto de notícia ou para a denúncia.

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5. Enquadramento jurídico, prática e gestão processual

Reiterando nesta sede o que ficou dito supra, também neste particular se suscitam cautelas quando o auto de notícia ou a denúncia não contenham toda a factualidade que se revista essencial para a imputação de uma pena acessória ao arguido, importando, pois, aquando se proceda a essa remissão, acrescentar os elementos de facto e as disposições legais em falta, sob pena de sermos confrontados, em sede de julgamento, com uma alteração substancial ou não substancial dos factos, face ao disposto no artigo 391.º-E, n.º 1, do CPP, que manda aplicar à fase de julgamento em processo abreviado as disposições que regulam o processo comum.

c) No processo sumaríssimo

No que concerne a esta forma especial, não estamos perante a prolação de uma acusação mas sim a formulação de um requerimento, pelo que se questiona se é exigível a narração dos factos e a menção das disposições legais atinentes às penas acessórias aplicáveis no caso concreto, atenta a ausência de remissão legal para o artigo 283.º, n.º 3, do CPP.

A resposta terá de ser, necessariamente, afirmativa. Porquanto, desde que preenchidos os requisitos enunciados no artigo 392.º do CPP, deverá o Ministério Público recorrer à aplicação de sanções penais em processo sumaríssimo, observando o disposto no artigo 394.º do CPP que estabelece, no n.º 1, que o requerimento é escrito, devendo conter “a descrição dos factos imputados e a menção das disposições legais violadas, a prova existente e o enunciado das razões pelas quais entende que ao caso não deve concretamente ser aplicada pena de prisão”, terminando, além do mais, “com a indicação precisa pelo Ministério Público das sanções concretamente propostas”, nos termos da alínea a) do n.º 2.

Tais sanções penais incluem, como é bom de ver, quer a pena principal quer a pena acessória que ao caso couber, redundando esta imposição, aliás, do Capítulo IV da Directiva n.º 1/2006, da Procuradoria-Geral da República51, cujo ponto 1 refere, expressamente, que o Ministério

Público pode requerer a aplicação de todas as penas e medidas de segurança previstas no Código Penal – com excepção da pena de prisão e da medida de segurança de internamento de inimputável – concretizando o ponto 4.5 que a indicação da sanção concretamente proposta deverá conter as penas acessórias aplicáveis ao caso, o que, a nosso ver, não prescindirá a prévia fundamentação da sua necessidade, tendo em conta as exigências preventivas que, casuisticamente, se suscitem e a determinação da medida concreta, atendendo aos critérios gerais já enunciados.

51https://www.ministeriopublico.pt/sites/default/files/documentos/pdf/diretiva_sumarissimo_notas_complementa res_1_2016.pdf.

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5. Enquadramento jurídico, prática e gestão processual

IV. Referências bibliográficas

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− ANTUNES, Maria João, Consequências Jurídicas do Crime, 1.ª Edição, Coimbra Editora, 2013, p. 34.

− CARVALHO, Américo Taipa de, Direito Penal – Parte Geral, 3.ª Edição, UCEP, p. 152.

COSTA, José de Faria, Penas acessórias – Cúmulo Jurídico ou cúmulo material? [a resposta que a lei (não) dá], Revista de Legislação e Jurisprudência, Ano 136.º, n.º 3945, Julho – Agosto de 2007, Coimbra Editora, pp. 322-328.

− COSTA, João Pedro Lopes, Da Superação do Regime Actual do Conhecimento Superveniente do Concurso, Almedina, 2014, nota 172, p. 70.

− DIAS, Jorge de Figueiredo, Direito Penal Português, Parte Geral II, As Consequências Jurídicas do Crime, Coimbra, Reimpressão, Coimbra Editora, 2005.

− DIAS, Jorge de Figueiredo, Direito Penal – Parte Geral, Tomo I, 2.ª Edição, pp. 75 e seguintes, Coimbra, Coimbra Editora.

− GASPAR, António Henriques/COSTA, Eduardo Maia, MENDES/ GRAÇA, António Pires da Código de Processo Penal Comentado, 2.ª Edição Revista, Almedina, 2016.

− GARCIA, M. Miguez/CASTELA Rio, J.M., Código Penal Parte Geral e Especial, 2.ª Edição, Lisboa, Almedina, 2015.

− GONÇALVES, Manuel Lopes Maia, Código Penal Português, Anotado e Comentado, 18.ª Edição, Almedina, 2007.

− LATAS, António, As alterações ao Código Penal introduzidas pela Lei n.º 19/2013, de 21 de Fevereiro, Revista do CEJ, 2014.

− MESQUITA, Paulo Dá, O Concurso de Penas, Coimbra Editora, 1997, p. 27.

− MILHEIRO, Tiago Caiado, Cúmulo Jurídico Superveniente, Noções Fundamentais, Almedina, 2016, pp. 141 a 144.

− MONTEIRO, Cristina Líbano, Comentário Conimbricense do Código Penal, Tomo III, Coimbra Editora, 1999, p. 400.

− RODRIGUES, Anabela, O Novo Código de Processo Penal. Jornadas de Direito Processual Penal, Almedina, 1988, p. 75

− SANTIAGO, Rodrigo, O Conceito de Manifesto Infundamento no Código de Processo Penal de 1987, Estudos de Homenagem ao Prof. Doutor Jorge de Figueiredo Dias, Coimbra, Coimbra Editora, 2009, Volume III, p. 1131.

− SILVA, Germano Marques da, Crimes Rodoviários – Pena Acessória e Medidas de Segurança, UCP, 1996, p. 27.

− SILVA, Germano Marques da, Curso de Processo Penal, Vol. II, Lisboa, Editorial Verbo, 2008, p. 194.

REGIME DAS PENAS ACESSÓRIAS E SUA APLICAÇÃO NAS DIFERENTES FORMAS DO PROCESSO PENAL 6. Trabalho de grupo 6. TRABALHO DE GRUPO Ana Amorim Ana Salgueiro Joana Moreira Sara Novo Simões Vânia Tavares

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Título:

Regime das penas acessórias e sua aplicação nas diferentes formas do processo penal. Enquadramento jurídico, prática

e gestão processual Ano de Publicação: 2020 ISBN: 978-989-9018-22-8 Série: Formação Ministério Público Edição: Centro de Estudos Judiciários

Largo do Limoeiro 1149-048 Lisboa [email protected]

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