CAPÍTULO II: ANÁLISE EXPLORATÓRIA
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As considerações anteriormente apresentadas são temas que surgem várias vezes nas nossas entrevistas e são eles que orientaram a nossa primeira abordagem ao PIC, como descrita no capítulo que se segue. Além destas, resultado dos objetivos a que nos propusemos no Capítulo II, outras surgem que, não se qualificando como fatores de sucesso, relevam na definição de estudos futuros. Em primeiro lugar, a revisão das teses do Mestrado em Educação da Universidade do Minho diz-nos que projetos de intervenção social devem trabalhar essencialmente a nível psicológico e social (Coelho, 2016) (Simões, 2016) (Alves, 2017). No entanto, nas palavras de Coelho (2016): “todo o processo terapêutico pode ser enriquecido com momentos de aprendizagem e lazer, [] aquisição de conhecimento, que [] seja útil no futuro”. Neste estudo em particular, realizado com ex- toxicodependentes, atividades envolvendo a ciência e o conhecimento são apontadas como facilitadoras do desenvolvimento de competências como autonomia, participação, relacionamento interpessoal; proporcionam novas experiências e aprendizagens; incentivam “o gosto pela vida”, e fomentam a persistência enquanto ferramenta de integração social (Coelho, 2016), competências que, aliadas ao desenvolvimento de competências digitais, também aparecem no estudo de Simões, realizado com veteranos da Guerra Colonial. Estas competências assemelham-se e aliam-se àquelas que achamos fundamental desenvolver com jovens em risco de exclusão social. No caso do estudo de Alves (2017), a ciência surge como forma de ‘atualizar os conhecimentos’ para os séniores que são alvo do trabalho da intervenção da autora. Por esta razão, concluímos que a animação através da ciência e a educação não-formal têm o potencial de servir os nossos objetivos de inclusão social e de envelhecimento ativo. Estas devem ser exploradas em maior detalhe, estudo que faz parte dos nossos objetivos futuros. Adicionalmente, estas considerações revelam a importância de inserir as nossas atividades em projetos de intervenção social mais completos, como é o caso do CAF.
Digital Age vem corroborar todas estas conclusões. Além de recomendarem expressamente a introdução da nossa prática em projetos já existentes, o projeto foi considerado um projeto intergeracional de ciência a posteriori, depois de identificadas as competências desenvolvidas pelos participantes mais novos, nomeadamente nas áreas de resolução de problemas, raciocínio, competências interpessoais, como a comunicação, paciência, e escuta ativa (Anexo A, Tabela 5), competências que remetem para aquelas que esperamos desenvolver com jovens no âmbito do PIC. Mais uma vez, tal como no caso do Ciência para Públicos Incomuns, a ciência é uma ferramenta através da qual se estimula o desenvolvimento de competências relevantes para a cidadania.
No caso dos séniores, os benefícios passam por maior confiança, melhores competências digitais, maior contacto com família e amigos, maior segurança com os mais novos, benefícios que sugerem uma maior qualidade de vida através do combate ao isolamento e à exclusão da sociedade contemporânea altamente digital. Tal como os Mestres da Aldeia Pedagógica, os séniores do Digital Age, especialmente aqueles que residem em lares de acolhimento, ganham novas amizades, o que se traduz numa melhor qualidade de vida e maior resistência à perda de capacidades cognitivas. Adicionalmente, Ciência Não Tem Idade, Ciência Para Públicos Incomuns, e Sachi2, revelam a importância de deixar a ciência dos participantes emergir e adaptar atividades ao seu conhecimento prévio, pois é assim que os adultos aprendem (Simões, 2016) e esta abordagem permite recolher os benefícios da valorização do capital que as pessoas trazem às atividades e à conversa. Em particular, os benefícios de envolver os séniores em iniciativas de ciência (em especial ‘ciência’ cidadã, como é o caso da recolha de memórias e do Memórias das Avenidas) remetem para a valorização do capital cultural de cada um. Por fim, atividades deste género permitem estabelecer pontes entre idades, etnias e culturas, o que é um fator de combate à rutura social característica da exclusão, e permite às pessoas experimentar outras realidades e abrir horizontes acerca da própria identidade, incluindo a identidade enquanto pessoa de ciência (fundamental ao desenvolvimento de capital científico) e enquanto pessoa com poder social. Estas considerações vêm inclusive corroborar as recomendações do National Research Council (2009): o sucesso do PIC depende da criação de atividades que permitam múltiplas formas de interação com os conceitos, práticas e fenómenos; a interpretação do conhecimento com base no conhecimento anterior; o reenquadramento de ideias e conceitos; e a reflexão sobre o valor social da ciência.
32,4% 24,3% 27,0% 10,8% 21,6% 27,0% 24,3% 32,4% 37,8% 32,4% 8,1%
Percebo melhor os assuntos abordados nos meios de comunicação Sinto-me mais confiante a ler e a falar sobre assuntos de Ciência Tenho mais interesse em assuntos de Ciência Conheci pessoas que partilham os meus interesses Desenvolvi os meus interesses e hobbies Sinto-me mais interessado no meio que me rodeia Sinto-me mais ativo Tenho mais consciência do meu impacto no meio ambiente Estou mais confiante em tomar decisões sobre as minhas questões de saúde Saber mais sobre ciência vai ajudar-me a poupar energia e dinheiro Não respondeu
Ainda que não nos seja possível fazer a comparação entre os benefícios identificados para os jovens da Irlanda do Norte e a realidade portuguesa, pois não identificámos projetos intergeracionais de ciência a decorrer em Portugal, podemos explorar um pouco melhor estes benefícios da comunicação de ciência para séniores através do Ciência Não tem Idade. Este projeto foi analisado quantitativamente em colaboração com o CCV de Lagos, devolvendo uma amostra relevante dentro do universo de séniores envolvidos e, portanto, é destes dados que nos servimos agora.
Tal como conclui o relatório de avaliação do Digital Age, no caso dos séniores, os benefícios identificados focam-se, com maior incidência, na aquisição de conhecimentos. Tal como os séniores do Digital Age referem as competências digitais como benefício do projeto, também os séniores do Ciência Não Tem Idade se referem, maioritariamente, ao conhecimento sobre a saúde, energia, meio ambiente e aos assuntos abordados nos meios de comunicação em relação aos benéficos do projeto. No futuro, seria importante explorar em maior detalhe o impacto de projetos de comunicação de ciência para séniores, através de instrumentos e amostragem mais adequados a esse estudo.
No sentido de adequar estes instrumentos, importa também refletir sobre o público que está a relacionar-se com ciência. Como referido anteriormente, Dawson (2018) e Garcia et al. (2016) sugerem que a exclusão de pessoas com menos capital científico/cultural. No caso de Dawson (2018), as conclusões da autora relativamente à exclusão de jovens de escolas e famílias de menos recursos não podem ser transpostas para a realidade portuguesa, pois trata-se de um estudo inglês; apesar disso, também a ‘opinião’ de alguns entrevistados e outros comunicadores de ciência se refere a esse fenómeno de exclusão, mas não identificámos estudos académicos ou científicos relativos a esta problemática na sociedade portuguesa, focando ao invés as iniciativas existentes (Delicado, 2004 e 2006), a cultura científica como um todo (Granado e Malheiros, 2015), ou os públicos que visitam espaços específicos (Garcia et al., 2016). O mais próximo é talvez o estudo de Costa, Ávila e Mateus (2002), Públicos de Ciência, que não foca subgrupos da sociedade portuguesa, nem iniciativas de educação não-formal. Ainda assim, os inquéritos que realizamos permitem algumas considerações relativas ao nosso público sénior que importam referir, ao nível de disparidades que identificámos.
Em primeiro lugar, os participantes são essencialmente mulheres (Figura 4).
Com a exceção da Aldeia Pedagógica e 60+Ciência, em que os números estão mais equilibrados (com vantagem do público feminino), a grande maioria dos participantes são mulheres. Este é um aspeto que devia ser melhor estudado, especialmente no sentido de atrair o público masculino. Muitos destes homens desenvolveram certamente atividades relacionadas com a agricultura, indústria, ou forças armadas, tendo adquirido conhecimentos que podem facilmente ser desconstruídos à luz da ciência, como é o caso do Ciência Para Públicos Incomuns.
Por fim, podemos considerar os meios através dos quais os participantes séniores tomam conhecimento destas iniciativas (Figura 5). Ainda que o gráfico pareça sugerir que ‘Escola’ e ‘Amigos’ são meios relevantes para a divulgação das atividades, pelo facto de termos obtido um número reduzido de respostas em certos casos (devido ao reduzido número de participantes inquiridos), em valores absolutos, apenas em 4 casos a Escola e os Amigos serviram como meio de divulgação, nos projetos Ciência no Dia-a-Dia e Aldeia Pedagógica. Realmente relevante são os valores relativos à divulgação através dos Órgãos de Administração Local (29).
89% 11% 100% 0% 63% 38% 67% 33% F E M I N I N O M A S C U L I N O Ciência Não Tem Idade
Ciência no Dia-a-Dia Aldeia Pedagógica 60+Ciência
Figura 5. Género dos participantes que participam nas atividades do Ciência Não Tem Idade, Ciência no Dia-a-Dia, Aldeia Pedagógica e 60+Ciência.
14% 3% 3% 54% 17% 67% 50% 6,67% 13,33% 60,00% Amigos Redes Sociais e Internet
Fui à procura Órgãos de Administração
Local Escola
Ciência Não Tem Idade Ciência no Dia-a-Dia Aldeia Pedagógica de Portela 60+Ciência
Figura 6. Meios através dos quais os participantes dos projetos Ciência Não Tem Idade, Ciência no Dia-a-Dia, Aldeia Pedagógica e 60+Ciência tomam conhecimento das atividades.
Estes dados explicam não só a importância de estabelecer parcerias sólidas com instituições locais, uma recomendação que surgiu várias vezes ao longo da nossa análise, como explica as dificuldades que o CCV do Alviela tem em trazer séniores às suas atividades: as nossas entrevistadas referem precisamente que planeiam estabelecer parcerias com as autarquias locais, para que estas facilitem a participação do público sénior, como em Lagos (Ciência Não Tem Idade), onde o número de participantes é bastante superior.
Em suma, todas estas considerações, não sendo relativas aos temas que surgem da nossa análise ao conteúdo das sinopses das nossas entrevistas, constituem argumentos a favor do PIC, ao validarem a nossa abordagem e os benefícios de projetos congéneres no contexto português; ou servem o propósito de linhas orientadores no que diz respeito ao estabelecimento de parcerias, a aspetos a ter em atenção relativamente à exclusão acidental de certos subgrupos dos nossos públicos, e à divulgação das atividades e da iniciativa. No Capítulo que segue, fazemos um relatório da nossa primeira abordagem ao PIC, no qual experimentámos algumas destas linhas orientadores e utilizamo-las, devidamente ajustadas, para fundamentar o Plano de Intervenção que propomos.