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CONSIDERAÇÕES FINAIS

No documento Download/Open (páginas 85-92)

O tema Ensino à distância no Brasil e sua vinculação a lógica de

mercado apresenta diversas nuances, que não podem ser completamente

detalhadas somente nesse estudo. As indagações que nortearam essa dissertação relacionados aos condicionantes que levaram ao espraiamento da UNOPAR, os processos que determinaram a ascensão dessa universidade nos diferentes estados e a relação que tem essa ascensão com a precarização da educação do ensino superior, provocaram inquietudes durante todo o estudo e serviram de limites para o desenho da dissertação, pois esse estudo nos apontou vários elementos, tamanha complexidade da temática proposta.

A pergunta sobre o que condicionou o espraiamento da UNOPAR exigiu à análise da relação da indissociabilidade entre trabalho/educação no cenário brasileiro, com prioridade para os estudos sobre o período que segue a 1970, a crise da ditadura militar, a redemocratização do país, a aprovação da Constituição de 1988, a LDB de 1986 e as tendências da política educacional verificadas nos governos que seguiram até o Golpe de 2016, com Michael Temer.

A LDB de 1961 regulamentou o ensino durante os anos de 1970 e foi substituída pela nova LDB em 1996. A Reforma Universitária relacionou educação e mercado, impondo uma formação de eficiência técnica, voltada para uma racionalidade instrumental. Netto (2005, p.66) chama a atenção das respostas que a Reforma da Educação Superior estabeleceu pós 1968: “os vários mecanismos que degradaram intelectualmente a universidade não afetaram o projeto autocrático burguês: antes, constituíram um de seus feitos – a universidade neutralizada, asséptico era funcional a ele”.

A Reforma de 1968 modernizou uma parte significativa das universidades federais e determinadas instituições estaduais e confessionais, que incorporaram gradativamente as modificações acadêmicas propostas por ela e abriu condições para a expansão do ensino privado a partir de estabelecimentos isolados. A ênfase na educação, principalmente na educação superior, se

justificava na medida em que era essa educação que responderia às necessidades imediatas do capital. É dessa necessidade que se amplia o escopo da educação superior no âmbito privado. A expansão das entidades privadas ocorre no campo das faculdades e estabelecimentos isolados, principalmente, por não serem obrigados a desenvolver pesquisa. O sistema educacional foi estruturado nos moldes de empresas educacionais voltadas para a obtenção de lucro econômico e para o rápido atendimento de demandas do mercado educacional.

A partir dos anos de 1970 com a crise do Estado de Bem-Estar-Social e do binômio taylorista/fordista, o ideário neoliberal proposto por Hayek, encontra espaço para influenciar a retomada da acumulação do capital. O modelo toyotista de produção também insere uma nova proposta de produção e relações de trabalho nesse mesmo período.

No mundo do trabalho flexível, as diversas modalidades de trabalho preconizado multifacetado, são os terceirizados, os subcontratados, os part-time, com tendência de redução dos empregos em tempo integral, acompanhada pelo crescimento do trabalho em tempo parcial, com baixos salários e destituídos dos direitos trabalhistas. Um processo produtivo flexível e horizontalizado que se estende a uma extensa rede de subcontratação e terceirizações, conforme nos aponta Antunes (1995).

No cenário brasileiro, os anos de 1970 ainda sobre a ditadura civil militar, a particularidade passou a ser de continuar a assegurar a reprodução do desenvolvimento capitalista dependente em benefício das corporações transnacionais. A educação passou por reformas para uma adaptação das manifestações da burguesia dominante, atentas ao desenvolvimento econômico internacional.

É nesse contexto de efervescência da expansão do ensino superior privado que um grupo de empreendedores se conheceram, em um encontro do cursilho de cristandade, um movimento católico, e decidiram colaborar na administração de um colégio filantrópico em crise. A princípio utilizaram o tempo

ocioso do colégio, à noite, para abrir uma faculdade e aumentar as receitas. Criaram então a Faculdade de Educação Física em 1972 que originou no final dos anos de 1990 na Universidade Norte do Paraná.

A partir da Constituição Federal de 1988, as universidades foram dotadas de autonomia para criar e extinguir cursos sem se submeter ao controle dos órgãos oficiais, como o MEC. Essa prerrogativa abriu a possibilidade de fusão entre diferentes faculdades e estabelecimento isolados, para obter a regularidade de funcionamento nos moldes de universidade conforme legislação vigente.

O desenvolvimento e ampliação das atividades da Faculdade de Educação Física após sua criação se intensificaram na medida em que as relações capital/trabalho se intensificavam exigindo formas mais assertivas na resolução das crises do capital. Sendo que a educação foi inserida como espaço dessa interlocução centrada no ideário burguês de produção e reprodução das relações capitalista.

Nesse movimento a Faculdade de Educação Física se fundiu com outras faculdades e se estruturou como Faculdade Integrada Norte do Paraná, para obter a organização administrativa necessário com objetivo de obter autorização para funcionamento de estabelecimento universitário. Durante os anos de 1980 a final de 1990 a Faculdade Integrada Norte do Paraná investiu nessa proposta de ser tornar uma universidade.

Nos anos de 1990 no Brasil o ideário neoliberal consolidou a nova forma de produção centralizada no acúmulo de capital. Tanto a produção quanto a relação de trabalho são referendados na flexibilização para maior exploração do trabalho. Uma exploração sem limites, o que Netto (2010) chamou de barbárie.

Estabeleceu-se também, nesse mesmo período, um decreto n. 2207/1997 que inferiu às IES privadas filantrópicas sem fins lucrativos mudar a condição jurídica para fins lucrativo, passando a educação a ser, nessa lógica, também um negócio. A institucionalização da educação como mercadoria impulsionou a

fusão de universidades privadas em grupos de empresa educacional que mudou os rumos da educação brasileira, com a formação de uma rede em grande escala com investimento do capital internacional. É nesse contexto que a Universidade Norte do Paraná (UNOPAR) surge, a partir do Decreto de 3 de julho de 1997, e cria novos cursos e campus, impulsionando seu espraiamento no Estado do Paraná.

As novas diretrizes da educação a partir da LDB de 1996, com a regulamentação do EaD em todas as modalidades de ensino, tornou o Brasil um campo fértil de investimento financeiro internacional no âmbito da educação. A lógica de um mercado educacional impulsionou e expandiu o número de IES e o aumento exponencial de matrículas na graduação.

A análise do movimento da UNOPAR nos anos 2000 permitiu respondermos à pergunta: Que processos determinaram a ascensão dessa universidade nos diferentes estados? Essa condição foi favorecida com a entrada da universidade no ensino a distância.

A UNOPAR teve a autorização para ofertar de graduação em EaD no ano de 2002, nas as análises documentais demostraram que a UNOPAR já estava ofertando pré-vestibular no sistema semipresencial com aulas intercaladas entre momento presencial e momentos online.

Inicialmente a autorização da oferta de cursos de graduação EaD foi limitada ao território do Paraná, na redação do parecer o relator acatou a sugestão da Secretaria de Educação Superior (SESu), que orientou pela limitação das vagas e território. O aspecto do limite de vagas sofreu apelação dos gestores da UNOPAR que utilizaram o argumento da autonomia universitária quanto à capacidade de atendimento e gestão. A resposta foi favorável à UNOPAR, que no ano de 2003 lançou os primeiros editais para a oferta de 14.600 vagas no Curso Superior de Tecnologia, Ensino Presencial Conectado em 21 Estados e 3.200 vagas para cursos Normal Superior no Ensino Presencial Conectado, em 19 Estados.

Os dados acerca da expansão da UNOPAR nos diferentes Estados mostraram que a lógica de intervenção estatal é seletiva em relação aos gastos públicos, mas privilegiam a privatização e a mercantilização da educação superior no campo privado e propiciam a expansão de grupos educacionais voltados ao lucro.

Em 2005 foi regulamentado o EaD. Observou-se que a legislação nacional atestou a expansão desse ensino com vistas a garantir contínuo processo de crescimento do setor mercantilista, permissividade de livre concorrência na educação resultou acordos entre grupos educacionais e entidades financeiras internacionais, como o acordo entre a UNOPAR e empresa Kroton Educacional S/A ano de 2011.

O ensino superior, comercializado por instituições de ensino é um negócio altamente rentável no Brasil. No ano de 2017 a empresa Kroton Educacional S/A registrou que o resultado financeiro alcançou R$ 226,1 milhões positivos, aumento de 94,1% frente a 2016.

A formação de oligopólios educacionais aumenta os rendimentos em detrimento da redução de custos na contratação de docentes o que amplia a precarização do trabalho, dando margem para inserir uma nova categoria profissional, no caso o tutor. Essa subdivisão no fazer pedagógico separa o saber do fazer, a teoria da prática. É uma retórica bastante debatida há décadas. Esse hiato é estratégico para contratação de profissionais com salários diferenciados pelas atividades flexíveis que desenvolvem, nesse caso quem planeja não executa e quem executa não planeja.

Os docentes, conforme os Guias de Percurso analisados, são mestres e doutores, que além da função pedagógica exercem a gestão do EaD, são responsáveis por ministrar as teleaulas; selecionar, planejar e desenvolver o conteúdo das aulas; elaborar, redigir o material de apoio e da aula-atividade. As funções instrumentais ficam a cargo dos tutores que são divididos e subdivididos, cuja principal função é acompanhar o processo de ensino e aprendizagem do

aluno como mediador. Essa ruptura entre conteúdo e prática é uma das manifestações da precarização da educação, isso porque,

a atividade teórica só ganha sentido na medida em que se faz como intencionalidade da prática dando-lhe sentido norteador e referência do processo, evitando que a intervenção educativa se torne puramente mecânica. (SEVERINO, 2001, p. 9).

Assim, consideramos que a relação da ascensão da UNOPAR com a precarização da educação do ensino superior se deu mediante a ascensão do EaD, que nos diferentes Estados é um conjunto de expressões do capital e suas mazelas. As mazelas e a forma barbarizante dessa seleção são o território em que, tendo como público a classe trabalhadora de cidade com baixo IDH, com renda per capta menor que o salário mínimo nacional, regiões em que a possibilidade de fazer uma faculdade representa uma oportunidade única na vida dos alunos, é uma chance de realizar sonhos que provavelmente seus pais não tiveram.

Uma classe trabalhadora que vive na miséria e da miséria e que encontra uma educação que inculca nos indivíduos a possibilidade de deixar de ser explorado e ter a ilusão de uma vida diferente das condições que o seu município não tem a oferecer. São trabalhadores que vivem com baixos salários e que dessa quantia pagam o que já deveria ser devolvido como bem público que é o direito a educação.

A construção da dissertação impôs limites decorrentes da identificação dos documentos públicos emitidos pelo MEC para subsidiar o estudo, o que demandou muito mais tempo do que o programado. Outro limite foi a quantidade de fontes sobre o ensino a distância, com informações sobre aspectos metodológicos, instrumentais, concepções, que requerem outros estudos e pesquisas. São documentos e plataformas que advogam teses de democratização da educação na lógica de compra e venda de serviços, de acesso pelo mercado e de formação pela flexibilidade. E ainda domínio de conhecimento mais apurado sobre governança corporativa de grupos educacionais e sobre o mercado e a relação entre empresas e acionista. O que se configura em outro objeto de estudo.

Por fim, reafirma-se que os estudos sobre as relações trabalho e educação são imprescindíveis, sobretudo em uma perspectiva de direito social que segundo Lima (2013), implica reafirmar a concepção de ensino público, gratuito e financiamento público nas escolas e universidades públicas. É esse nosso posicionamento sobre a educação superior, ensino público e gratuito.

Nessa direção analítica apreendemos com Antunes (2018) que as respostas analíticas a questão da EaD, da relação entre educação, tecnologia e mercantilização são sempre no dizer do autor expressões e não o problema. O problema foi e sempre será o capitalismo e suas formas de exploração da força de trabalho como modo de produção que é, em sua essência, processo de acumulação e valorização do capital.

REFERÊNCIAS

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a Centralidade do Mundo do Trabalho. 3a ed., São Paulo/Campinas: Cortez/Editora da Universidade Estadual de Campinas;

.Trabalho e precarização numa ordem neoliberal. In: Gentili P, Frigotto G, organizadores. A cidadania negada: políticas de exclusão na educação e no trabalho. 2ª ed. São Paulo, Buenos Aires: Editora Cortez, CLACSO; 2001. p. 35- 48

.. Da educação utilitária fordista à da multifuncionalidade liofilizada. 38ª Reunião Nacional da ANPEd – 01 a 05 de outubro de 2017 – UFMA – São Luís/MA. Disponível em: <

38reuniao.anped.org.br/.../trabalhoencom_38anped_2017_gt11_textoricardoant unes>, acessado em: novembro de 2018;

.O Privilégio da Servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. 1ª ed. São Paulo. Ed. Boitempo, 2018.

. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2009.

ANTUNES, Ricardo; PINTO, Geraldo Augusto. A Fábrica da educação: da especialização taylorista à flexibilização toyotista. São Paulo: Ed. Cortez, 2017. 117 p.

ANTUNES, Ricardo. 2017, o ano que não deveria ter existido. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/574907-2017-o-ano-que-nao-deveria-ter- existido-entrevista-com-ricardo-antunes, acessado em: maio de 2019;

ASSIS, Elisa Maria de; GIANNASI, Maria Júlia; DINIZ, Paulo Ricardo; NAVARRO, João de Lima. O ensino presencial conectado – uma abordagem

de gestão colegiada. Disponível em:

<http://www.abed.org.br/congresso2005/por/pdf/059tce3.pdf>, acessado em: 20/09/2018;

BARTH, Aline Mariana. UM ESTUDO DE CASO DA EMPRESA KROTON

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