Esta pesquisa demonstrou como as políticas de avaliação de profissionais da educação básica têm se materializado no âmbito estadual no Brasil, a partir da experiência pioneira de certificação de competências de dirigentes escolares realizada na rede estadual de ensino baiana e da avaliação de desempenho em serviço desses profissionais. Ao mesmo tempo, buscou dar voz aos sujeitos avaliados inquirindo-os sobre a visão que eles possuem acerca dessas políticas.
Acreditamos não ser possível pensar a educação e compreender a lógica das políticas públicas implementadas nessa área, em nosso país, de forma descolada da mudança ocorrida no padrão de acumulação do sistema capitalista, a partir da década de 1970, e que, segundo Harvey (2000), passa a assumir um caráter “flexível” e das mudanças ocorridas no mundo do trabalho (principalmente com a adoção lógica das competências na gestão de recursos humanos).
Evidenciamos, neste estudo, que ao mesmo tempo em que ocorriam as referidas mudanças, no cenário mundial, a doutrina neoliberal consegue se firmar e tornar-se hegemônica, delineando um novo quadro econômico, político e social em países centrais e nos periféricos a eles subordinados, onde o Estado passa a ser reformado, redefinindo o seu papel, principalmente com a redução do financiamento de serviços sociais.
Com a introdução do neoliberalismo no Brasil, monitorada principalmente por organismos internacionais como o FMI e o BM, o Estado é reformado na década de 1990, deixando de se responsabilizar diretamente pelo desenvolvimento econômico e social, passando a ser promotor e regulador desse desenvolvimento, através de uma administração pública gerencialista que tem como característica básica o controle por meio da avaliação de resultados.
Essa redefinição do papel do Estado produzida pelo neoliberalismo gerou impactos diretos na educação, que passou por diversas reformas e nos diversos níveis de ensino, sob orientações de organismos internacionais.
Nesse contexto de reformas da educação, o Governo Federal, através de um discurso em defesa da qualidade do ensino, adota a avaliação como um elemento central no controle dessa área, visando apenas aos resultados apresentados pelas instituições de ensino e não aos processos desenvolvidos por elas, responsabilizando-as por esses resultados.
Após ter instituído as competências no sistema de ensino no país, inclusive no curso de formação de professores da educação básica de nível superior, através de uma lógica oriunda do campo do trabalho, o Governo Federal faz uma tentativa de implantar um sistema nacional de certificação e professores. Com a luta de entidades representantes dos educadores, essa proposta não chega a ser efetivada. Contudo, em âmbito estadual, a certificação de profissionais da educação vem sendo realizada, como foi o caso da Bahia.
A política de certificação de dirigentes escolares e dos demais profissionais de educação foi implementada pelo Governo da Bahia, em parceria com uma organização instituída por ele e de forma centralizadora, sem haver consenso com a APLB/Sindicato dos Professores.
Com a exigência de um perfil de dirigente escolar mais voltado para o caráter empresarial, o Governo da Bahia passa a utilizar a certificação como forma de provimento desse cargo, no período de 2001 a 2006, por meio de um processo que denotou a existência do clientelismo político.
Através da reformulação do Plano de Carreira do Magistério Público do Ensino Fundamental e Médio do Estado da Bahia, em 2002, o governo instituiu a certificação como um mecanismo regulador da formação, do salário, enfim, da carreira dos profissionais da educação, com base no mérito individual, promovendo a verdadeira desvalorização profissional.
Pelo fato de ocuparem cargos de comissão, os dirigentes escolares não têm direito à progressão horizontal no plano de carreira, através da certificação, permanecendo apenas com o direito à progressão horizontal por tempo de serviço e à vertical (por titulação), ficando em desvantagem com relação aos demais profissionais de educação.
A política de avaliação de desempenho de dirigentes escolares foi implementada pelo governo, na rede estadual de ensino baiana, da mesma forma que a política de certificação, ou seja, de forma centralizadora. O controle individualizado do trabalho desses profissionais é feito por meio da premiação e da punição pelo seu desempenho em serviço, através de gratificação salarial.
Os diretores entrevistados apresentam uma visão equivocada e contraditória com relação às políticas de certificação e de avaliação de desempenho.
Nossa compreensão, a partir do estudo realizado, é que a avaliação da educação, da forma como vem sendo realizada pelo governo, tem se tornado algo que quase ninguém mais questiona. A postura de aceitação do processo de certificação pelos diretores escolares, assim como o fato de concordarem com a necessidade de avaliação de desempenho em serviço, diante da atual conjuntura político-educacional brasileira acaba reforçando o discurso dos organismos internacionais e consequentemente do governo de que a avaliação pode “’salvar”’ a educação. E onde fica a questão da profissionalização digna dos educadores, as necessidades de maiores recursos para a escola, a melhoria salarial?
Não defendemos a eliminação de propostas de avaliação educacional, desde que sejam construídas de forma democrática e que tenham um caráter emancipatório.
A contribuição deste trabalho não consiste, apenas, em denunciar a realização de práticas de avaliação de profissionais da educação, de caráter regulatório, individualista e meritocrático, em âmbito estadual; mas também em chamar atenção para a necessidade de uma maior reflexão e criticidade por parte dos
educadores, no sentido de poderem compreender com maior clareza a lógica que vem norteando as políticas educacionais em nosso país.
Isto posto, cabe manter a luta iniciada pelas entidades representantes dos educadores em prol da revogação da Resolução CNE/CEP 1/2002, que institui as diretrizes curriculares nacionais para os cursos de formação de professores da educação básica de nível superior, tendo a “competência” como uma noção central, tendendo a secundarizar o conhecimento teórico e suas mediações pedagógicas e o preparo político desses profissionais.
É oportuno também reiterarmos a nossa defesa pela inserção do conteúdo da administração educacional (de forma ampla) no currículo de todos os cursos de licenciatura, visto que a certificação de dirigentes escolares tem se estendido em vários Estados do Brasil e pelo fato de termos constatado, nesta pesquisa, o risco que a certificação pode representar ao promover o convencimento do profissional-educador de que estar certificado significa estar “profissionalizado”.
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APÊNDICE – I
ROTEIRO DE ENTREVISTA COM DIRETOR ESCOLAR
1. Houve participação de dirigentes escolares na elaboração da proposta de certificação?
2. Qual a sua visão acerca da certificação vir sendo utilizada como forma de provimento do cargo de diretor escolar? E em sua opinião, qual a forma mais adequada de escolha desse profissional?
3. Qual a sua opinião a respeito da recertificação vir sendo utilizada pela SEC para atestar se o diretor continua apto a exercer o cargo e como um meio de promover a formação continuada?
4. Qual a sua opinião sobre a questão do diretor não ter direito à progressão na carreira através da recertificação?
5. Qual a sua visão sobre o perfil de dirigente escolar exigido na proposta de certificação?
6. O que mudou na sua prática profissional e que está relacionado à certificação?
7. Qual a sua opinião a respeito do diretor escolar ser avaliado em seu desempenho em serviço e de receber gratificação por este desempenho?
8. Houve participação de dirigentes escolares na elaboração das propostas de avaliação de desempenho implantadas na rede estadual de ensino?
9. Que tipo de acompanhamento é feito das escolas pela Secretaria de Educação durante o ano letivo?
10. Qual tem sido a postura da Secretaria de Educação junto às escolas, ao finalizar o processo de avaliação de desempenho dos dirigentes escolares a cada ano?
11. O que mudou na sua prática profissional e que está ligado às avaliações de seu desempenho realizadas pela SEC?
ANEXO – I
DECRETO Nº 7.684 DE 08 DE OUTUBRO DE 1999 Dispõe sobre a organização do processo seletivo interno para designação de Diretores e Vice-Diretores das escolas públicas estaduais e sua remuneração e dá outras providências.
O GOVERNADOR DO ESTADO DA BAHIA, no uso de suas atribuições,
D E C R E T A
CAPÍTULO I
DO PROCESSO SELETIVO INTERNO
Art. 1º - A investidura nos cargos em comissão de Diretor e Vice- Diretor de unidade de ensino da rede pública estadual dependerá de aprovação prévia em processo seletivo interno, realizado de acordo com os critérios e procedimentos estabelecidos neste Decreto.
§ 1º - O processo seletivo interno de que trata este artigo será constituído de:
a) prova objetiva de caráter eliminatório destinada a avaliar conhecimentos de natureza geral de comunicação, organização, planejamento e liderança, compatíveis com as características do cargo;
b) curso de capacitação em gestão escolar, também de caráter eliminatório, coordenado pela Secretaria da Educação.
§ 2º - As condições gerais e especiais para provimento dos cargos referidos serão definidas no edital de abertura do processo seletivo, que deverá ser publicado com a antecedência mínima de 30 (trinta) dias da