A Comissão Nacional da Verdade surgiu quase 50 anos após o início da ditadura empresarial-militar e embora seu mandato tenha sido para apurar os crimes entre 1946 e 1985, ela se debruçou fundamentalmente sobre o período do regime-autoritário. A CNV não tinha caráter persecutório, portanto, não julgaria ninguém. De fato, seria temerário conferir a um grupo de pessoas essa função de julgamento em um papel persecutório e judicial, uma vez que essa contaminação na busca das informações resultaria em uma justiça às avessas. Nenhum dos integrantes da CNV poderia desempenhar esse papel persecutório, sob pena de avalizar uma atuação estatal punitivista sem qualquer compromisso com os princípios constitucionais. Mas o fruto das investigações deveria ter continuidade pelas instâncias habilitadas em nosso ordenamento jurídico, no caso o Ministério Público Federal. Tudo isso porque as investigações eram sobre os crimes contra a humanidade – imprescritíveis. Assim, a comissão buscou identificar individualmente cada um dos torturadores e perpetradores de graves violações aos direitos humanos e efetivamente publicou, pela primeira vez, em um documento do Estado brasileiro, uma lista nomeando os responsáveis pelo terrorismo de Estado durante a ditadura empresarial-militar. O fato de o Estado brasileiro ter criado essa comissão em 2011 designando um grupo com mandato para requisitar informações, investigar, esclarecer, identificar autoria significou dar nome aos algozes.
Muitos de nós, que trabalhamos na CNV - e me incluo sem dúvida - acreditávamos que com o término do trabalho da comissão, teria início um processo de atuação do Ministério Público e do poder judiciário a fim de dar seguimento à persecução penal dos perpetradores de graves violações de direitos humanos. Tal expectativa acabou por revelar-se de uma certa ingenuidade diante da atuação do judiciário no processo de golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff da Presidência da República em 2016. É importante mencionar que a atuação de alguns procuradores do Ministério Público Federal reunidos no Grupo de Trabalho Justiça de Transição, que tenta levar adiante algumas investigações posteriores ao término do trabalho da CNV e das outras comissões da verdade, como a do Rio de Janeiro, foi um esforço que merece menção, mas que poucos resultados práticos têm tido. Assim, a responsabilização dos torturadores não avançou, e no contexto que vivemos hoje, parece difícil imaginar que ela avançará. Essa sem dúvida é a principal limitação da CNV do ponto de vista de seu legado.
No entanto, a possibilidade de desdobramento em ações judiciais não deve ser vista como o único resultado possível e desejado de uma comissão da verdade. Outro elemento que deve ser destacado é o papel pedagógico das comissões. Algumas ações merecem ser recordadas para destacadas para apontar em que medida houve essa disposição. Por menos que se tenha feito, é fato que com a CNV o debate sobre a ditadura empresarial-militar ganhou capas de jornais de grande circulação, matérias em revistas semanais e atingiu pessoas que não acompanhavam a luta pela memória, verdade e justiça. Isso resultou na aproximação de jovens que não tinham relação direta com as vítimas, mas que fomentaram a produção de pesquisas sobre os temas de memória, tornando as escolas e universidades espaços importantes de resistência e reflexão sobre a questão. Aqui, trata-se de um inequívoco legado positivo da comissão para a sociedade.
Mas para além de apenas pautar o tema na mídia ou fomentar mais pesquisas, seria esperado que a CNV apontasse para uma narrativa histórica passível de se tornar central na memória social sobre a ditadura no país. É fato que o monopólio da força do Estado não deve significar monopólio da produção da verdade. Isso nos remete à necessidade de ter sempre em mente que a verdade não é algo absoluto. Somente as ditaduras buscam afirmar uma verdade absoluta, não as democracias. Por isso, as comissões da verdade, pensadas como elementos estruturantes de um regime democrático, não podem jamais buscar impor sua perspectiva como a única possível. Assim, por paradoxal que pareça, a Comissão Nacional da Verdade sempre conviveu lado a lado com o negacionismo. Ela deveria buscar tornar sua narrativa a mais difundida socialmente não pela força, mas pela capacidade de convencimento e de demonstração de que aquela verdade correspondia aos fatos investigados.
Nesse ponto surge uma indagação sobre a capacidade da Comissão Nacional da Verdade do Brasil e de outras comissões terem produzido uma narrativa histórica que contemple o direito à memória a partir dos relatos de quem já viveu essas dores, mas sem um carimbo finalístico. Não se pode afirmar que o trabalho da Comissão Nacional da Verdade era o de fazer uma narrativa histórica nos moldes das pesquisas realizadas por historiadores. A composição da CNV, sem historiadores entre os sete membros, pode ser lida como um anseio das forças políticas naquele momento de fazer um apanhado mais jurídico e nem tão político das graves violações. Assim, os estudos realizados pela Comissão Nacional da Verdade tinham o objetivo de alcançar informações que passavam pela sistematização delas considerando aspectos de cunho administrativo, social, policial, judicial porque existia a obrigação legal de esclarecer fatos, circunstâncias, locais, fontes de financiamento e autoria das graves violações.
Imaginava-se que a partir de 2014 o tema da memória e verdade seria efetivamente estabelecido como um norteador das políticas públicas, mas como todas as políticas de governo que não se convertem em políticas de Estado, a troca de governos pode resultar em comandos de esquecimentos para essas políticas. Assim, em um espaço temporal de sete anos se criou e se encerrou uma Comissão Nacional da Verdade no Governo da presidenta Dilma Roussef (2011-2016), afastada por um processo de impeachment (2016) configurado como um golpe parlamentar com apoio da grande imprensa, do empresariado e do judiciário.
A entrega do relatório da CNV ocorreu em dezembro de 2014, mas o Brasil não conheceu efetivamente o documento porque não houve divulgação efetiva, especialmente na medida em que o término dos trabalhos já se deu em um contexto de crise política posterior às eleições presidenciais daquele ano. Com o avanço da extrema-direita, e com ainda mais força após a vitória de Bolsonaro e da extrema-direita nas eleições de 2018, as menções à Comissão Nacional da Verdade e ao objeto dos seus estudos voltaram a ser frequentes, mas agora muitas vezes na tentativa de desqualificar o trabalho. Limites como a ausência de reflexões mais aprofundadas sobre o tema da ditadura e da Justiça de Transição nos bancos escolares e livros didáticos parecem mostrar que, assim como no caso da persecução penal dos perpetradores, também a possibilidade de construir uma narrativa hegemônica de crítica e repúdio à ditadura não foi plenamente alcançada pela CNV.
Mas então, afinal, qual é o papel de uma comissão da verdade? Talvez seja melhor refazer a pergunta da seguinte maneira: a quem serve uma comissão da verdade? Pode não parecer, mas a resposta é simples: uma comissão da verdade serve exclusivamente às vítimas, deve ouvir as vítimas, responder às vítimas e a seus familiares porque foram essas as pessoas afetadas pelas graves violações de direitos humanos mas, sobretudo, são essas pessoas que podem encontrar seus algozes que continuam circulando sem qualquer nível de constrangimento quando saem para comprar jornais ou passear com seus bichinhos de estimação, sem ter havido qualquer responsabilização pelas torturas, mortes, ocultação de cadáveres e desaparecimentos que praticaram.
O que interessa, aqui, no entanto, é principalmente colocar a questão sobre a relação entre a CNV e o comando de esquecimento presente em nossa história. Penso ser possível definir que, ao fim e ao cabo, a CNV representou um momento em que esse comando foi objeto de uma grande tensão, mas não chegou a ser rompido, especialmente na medida em que a comissão não teve capacidade de se afirmar e perenizar como uma política pública de memória e verdade assentada sobre um caráter pedagógico. Não se trata, evidentemente, de responsabilizar os membros ou a assessoria da CNV, pois como apresentado desde a introdução,
esta tese busca exatamente demonstrar como, a todo momento, houveram indivíduos e grupos interessados em forçar esses limites estruturais do Estado brasileiro em relação à produção contínua de esquecimento. Em suma, a CNV enfrentou, mas não venceu, o obstáculo da Lei da Anistia ainda em vigor.
A COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE DO RIO DE JANEIRO
Até os nazistas, que reduziam suas vítimas a cinzas, registravam os mortos. Cada um tinha um número, tatuado no braço. A cada morte, davam baixa num livro. K, de Bernardo Kucinski
No dia 23 de setembro de 2013, a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-Rio) fez uma diligência ao prédio onde funcionou o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), na Rua Barão de Mesquita, 425, na cidade do Rio de Janeiro76. Na ocasião, um deputado federal tentou impedir a visita do grupo ao local, causando tumulto e inclusive agredindo o senador da República Randolfe Rodrigues (PSOL/AP), presente na comitiva. Esse deputado era Jair Messias Bolsonaro (PP/RJ) atual presidente da República (sem partido). O caso revela uma dimensão aparentemente paradoxal da CEV-Rio e das outras comissões subnacionais: com menos visibilidade que a Comissão Nacional da Verdade, mas ao mesmo tempo menos limitadas por amarras institucionais, essas comissões tocaram em temas mais sensíveis e geraram resistências em setores da sociedade apoiadores do regime empresarial-militar.
O Rio de Janeiro criou sua Comissão Estadual da Verdade em um contexto de efervescência de experiências similares, mas a CEV-Rio surgiu mais de um ano após o início dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. Criada pela Lei 6.335 de 2012, a CEV-Rio começou seus trabalhos em 08 de maio de 2013 e entregou seu relatório final em 10 de dezembro de 2015, um ano após o término da CNV.
Assim como a CNV, a CEV-Rio foi composta por sete membros. Ao lado dos advogados Wadih Damous, João Ricardo Dornelles, Eny Moreira e Marcelo Cerqueira, do jornalista Álvaro Caldas e do sindicalista e ex-senador Geraldo Candido fui nomeada membro da Comissão Estadual da Verdade. Entre os meses de junho e novembro de 2014 assumi a Presidência da Comissão.
Neste capítulo discuto e analiso o processo que levou à criação da Comissão Estadual da Verdade do Rio, bem como seus limites e suas potencialidades, em uma perspectiva
76 O DOI-Codi foi um órgão de repressão política criado por diretrizes internas do Exército assinadas pelo presidente da República Emílio Médici em 1970, com o objetivo de combater as organizações de esquerda. Foi extinto através de portaria reservada do ministro do Exército, general Valter Pires, no final do governo do general João Batista Figueiredo (1979-1985). Disponível em: https://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete- tematico/destacamento-de-operacoes-e-informacoes-centro-de-operacoes-e-defesa-interna-doi-codi. Acesso em 27 de fevereiro de 2020.
comparativa com a Comissão Nacional da Verdade. A proposta é apresentar uma reflexão sobre a particularidade da Justiça de Transição no Brasil no tocante à multiplicação de comissões da verdade em nível subnacional. Dentre alguns registros desse trabalho destacarei o depoimento do torturador Paulo Malhães, cuja narrativa de seu testemunho encontra guarida no argumento proposto nessa tese do comando de esquecimento promovido pelo Estado brasileiro durante e após a ditadura empresarial-militar.