5.3. O povo Aikewara e a memória da guerra
5.3.1. Território em chamas: chegada na Terra Indígena Suruí Sororó
No dia 01 de setembro de 2017 cheguei à Marabá. Não era minha primeira vez no local, mas pela primeira vez ficaria duas semanas em uma terra indígena. Em 2013, estive em uma das aldeias do povo Aikewara como representante da Comissão Estadual da Verdade do Rio e participei de uma escavação em busca de restos mortais dos desaparecidos políticos da guerrilha do Araguaia. Quatro anos depois, retornava ao local enquanto pesquisadora elaborando uma tese de doutorado. Para tanto, contei com a ajuda da antropóloga Iara Ferraz, que me colocou em contato com o cacique Iauaretê e, desta vez, regressei à terra indígena na
sua companhia. Ainda que tivéssemos combinado os detalhes do nosso encontro ao telefone, em nada isso diminuiu minha tensão antes do retorno à aldeia.
Cheguei em Marabá às 3h da manhã, acompanhada da professora Ana Maria Motta Ribeiro e do meu colega de doutorado Emmanuel Oguri Freitas. Ambos foram para a região para cumprirmos uma disciplina de conflitos socioambientais ministrada por Ana Motta e Wilson Madeira Filho, orientador desta tese. Era uma sexta-feira de primavera. Esperei o sol ficar alto (meio dia) para encontrar o cacique Iauaretê e sua esposa Drina, em frente a um hotel próximo ao aeroporto. Ali começávamos nosso percurso rumo à terra indígena Sororó. Quando saímos do ponto de encontro fomos direto para um atacado fazer um “rancho”, como nomeiam a compra do mês.
Ao chegar no estabelecimento, havia outros Aikewara a nossa espera, dentre eles, Burivi. Encontrar Buruvi logo na chegada foi impactante, pois eu sabia que ele era um dos indígenas utilizado como escudo humano para encontrar os guerrilheiros na mata durante o período da guerra. Nossa aproximação foi rápida e depois das compras nos despedimos. Eles levaram o rancho e eu fui embora com o cacique Iauaretê e sua esposa Drina. No caminho, paramos para almoçar e abastecer o carro. Já na estrada, rumo à São Domingos do Araguaia, reencontramos a família do Buruvi e paramos um pouco para conversar.
O trajeto entre Marabá e Sororó foi permeado por uma conversa de aproximação entre o cacique Iauaretê e eu, acompanhada por sua esposa Drina, que estava no banco traseiro do carro. Nosso assunto foi dominado pela seca - e não poderia ser diferente, porque falar da devastação do incêndio em toda a terra indígena era falar da sobrevivência do povo Aikewara e dos ciclos de perdas que os afetam a cada verão com o avanço do agronegócio e da mineração na região. O assunto da seca era o mais importante, mas não o único. Iauaretê se incomodava com a política governamental da FUNAI, porque sequer havia um administrador naquele momento e, segundo ele, tudo estava a cargo de um estagiário, sem qualquer poder de decisão.
A Terra Indígena Surui-Sororó está localizada entre os municípios de Brejo Grande do Araguaia, Marabá, São Geraldo do Araguaia e São Domingos do Araguaia, e possui 26 mil hectares. A aldeia dista 110 km de Marabá, 40 km de São Domingos e 55 km de São Geraldo do Araguaia e o acesso à terra se dá na altura do quilômetro 90 na BR-153. Na entrada da aldeia há um muro de alvenaria com uma guarita e uma placa, além de um portão de ferro e uma vigilância permanente armada para controlar o acesso ao local. Cerca de 2 km após o portão começam as primeiras casas da aldeia.
A aldeia seguia muito parecida com o registro da memória que eu tinha de 2013. Dentre as coisas que eu lembrava, uma delas era um resto de asfalto circundando a entrada de
todas as casas da “aldeiona” ou “aldeia grande”, como eles chamavam. Esse asfalto já quase não existia, o que parecia aliviar a sensação térmica em um período de quase seis meses sem chuva. 200
Assim que chegamos na aldeia fomos direto para a casa de Mariano e da Huara, onde eu ficaria hospedada. Eu havia conhecido Mariano em 2013, na mata, durante uma escavação, o que de certa forma facilitou a minha chegada. Ele foi forçado na época da guerra a andar com os soldados pela mata, assim como o seu cunhado Iô, que morava na casa ao lado.
O tamanho da bagagem que eu levava ajudou a descontrair o clima na chegada. Assim que retiramos a mala, Iô perguntou se eu não tinha ficado com medo do avião cair com tanto peso que eu carregava. Ao entrar na casa percebi que Huara, a principal anfitriã, havia separado um quarto só para mim na parte de alvenaria, já que eles dormiam em redes e na extensão de madeira, com chão de terra e teto de palha.
Antes do pôr do sol tomei um banho nos fundos do pátio. A casa de banho era um cercado de madeira com frestas e sem teto. Dentro havia uma caixa d’água, dessas azuis de polietileno que servia de reservatório, algumas tábuas no chão em cima de umas pedras para fazer um degrau e uma prateleira de madeira atravessada com uma caneca de alumínio para o banho.
As casas na aldeia possuem uma disposição espacial em torno do campo de futebol e são todas em alvenaria, entregues pela Companhia Nacional de Habitação (COHAB) em 2010. Todavia, essas casas acomodavam depósitos das famílias, que reelaboravam, a partir do quintal, suas moradias de fato, com cozinha de chão de terra e quartos com tapume e redes. Até o banheiro, na casa em que me hospedei, tornara-se disfuncional, com torneiras e bacias arrancadas.
Nas entradas das casas, os pisos estilo porcelanato, as louças do banheiro, as janelas de ferro que já não fechavam mais. Com o passar dos dias me dei conta de que todo o aparato de metais, alvenaria e porcelanato que compunham as casas demandavam gastos e cuidados incompatíveis com a renda e os costumes locais de moradia do povo Aikewara. Estes, por sua vez, optavam por ficar a maior parte do tempo nos fundos, longe da alvenaria, local mais fresco
200Atualmente com uma população de cerca de 500 indivíduos , desde 2015 os Surui-Aikewara formaram outras quatro aldeias (eram duas até então), no interior da Terra Indígena Sororó, um território com apenas 26.000 hectares, demarcado em 1977 pela FUNAI, hoje a única área florestada numa região em processo de desertificação, resultante de intensos desmatamentos e destruição de nascentes no entorno, intensificado nas últimas duas décadas.Cf: Os Suruí-Aikewara e a guerrilha do Araguaia: um caso de reparação pendente. FERRAZ, Iara. DOSSIÊ CAMPOS V.20 N.2 JUL.DEZ.2019. https://revistas.ufpr.br/campos/article/view/70051/pdf
da casa, e principalmente na cozinha, perto das galinhas que não deixavam passar um cisco no chão.
No primeiro dia na aldeia, Iauaretê me pediu ajuda para conversar com um fazendeiro da área limítrofe que havia colocado fogo na reserva indígena, aparentemente de forma acidental. Na opinião deste fazendeiro, uma negociação direta com aqueles que tiveram o seu território atingido seria mais profícua, já que qualquer intermediação com o IBAMA, consideravam tanto o fazendeiro quanto os Aikewara, não seria exitosa. Iauaretê falava isso diante da ausência de suporte do órgão no período da estiagem. Os parcos recursos dos 14 brigadistas formados para controlar o fogo foram insuficientes para estancar o incêndio.
À noite, ainda na sexta-feira, no dia em que cheguei na aldeia, recebi um convite do cacique Iauaretê para participar de uma reunião em frente à sua casa. Ao atravessar o campinho percebi que havia muita gente em círculo à espera da conversa. A convocatória da reunião era em um alto-falante e se dava da seguinte forma: o cacique registrava em áudio no Whatsapp e depois inseria o fio na caixa de som para reprodução, já que o microfone não funcionava.
Naquele momento o assunto mais premente e praticamente o único era o incêndio na mata. Tratava-se da sobrevivência de todos da terra indígena. Explicou brevemente como se deu o trabalho dos brigadistas naquele dia, reforçou o pedido para que outros voluntários ajudassem no sábado, depois dessa mescla de tragédia com esperança, fui apresentada. Eu estava tensa porque não sabia como seria a reação de todos ali, então dei boa noite e prontamente ouvi comentários de que eu parecia a Iara falando.
Tratava-se do meu primeiro dia na aldeia e optei por mencionar brevemente assuntos que eu já sabia que eram de interesse deles, como por exemplo, a necessidade de desvio da estrada que corta a terra indígena, a regulamentação/regulação da escola e, especialmente, minha vontade de conversar com os mais velhos sobre meu interesse em ouvir a narrativa deles acerca da presença do Governo na terra indígena durante os trabalhos da Comissão da Anistia e Comissão Nacional da Verdade. Senti que pisava em um terreno movediço, já que muitos pareciam não reconhecer essas instâncias governamentais, exceto no tocante à reparação recebida da Comissão de Anistia.
Depois dessas trocas, Varelo, que também era professor na escola da aldeia e havia feito parte da turma de formandos da Universidade do Sul do Pará, disse que os jovens conhecem pouco da história da guerrilha. Quando retomei minha fala comentei o quão importante era o conhecimento do passado recente, já que essa é uma das formas de evitar e, ao mesmo tempo, se preparar para enfrentar e resistir no futuro. Consequentemente falei do
governo Michel Temer e dos desdobramentos da ascensão das violações e retrocessos aos direitos indígenas201.