Analisando-se o sítio arqueológico Lapa da Dança dentro do contexto arqueológico da Serra do Cabral, chegamos a algumas considerações importantes.
Partindo da premissa que este sítio ocupa uma posição singular neste contexto, uma vez que é dos poucos que, além de pinturas rupestres, possui outros vestígios arqueológicos, acreditamos ser possível, a partir dele, procurar algum padrão de comportamento na elaboração da arte da região.
Com este fim acreditamos ser importante uma abordagem total da área, utilizando-se conceitos de Arqueologia Espacial e Arqueologia da Paisagem, uma vez que, ao contrário da arte paleolítica das grutas européias, as pinturas rupestres dos abrigos da Serra do Cabral marcam a paisagem, transformando o meio ambiente em território das populações que as produziram. Martínez García aborda essa questão em um importante trabalho de síntese que diz que enquanto a presença de abrigos rochosos em um determinado marco geográfico não deixa de ser um fenômeno natural, consequência de processos erosivos, a eleição dos mesmos como suporte simbólico de uma sociedade – isto é, “a aplicação de pinturas rupestres como sistema de aviso, informação ou materialização de uns conteúdos socioeconómicos ou espirituais – se converte em um fator cultural. São muitos os abrigos ou cavidades suscetíveis de conter manifestações de pinturas rupestres; porém o fato de que nem todos hajam sido decorados deve responder a critérios de seleção baseados em uma estratégia cultural, gerada pelos coletivos sociais que se movem em seu entorno, levando a cabo uma
‘culturalização’ da paisagem que a transforma em ‘território’. É o que T. Ingold definiu como ‘apropriação’ simbólica de determinados lugares ou acidentes geográficos destacados, proporcionando uma dimensão cultural ao espaço que se enfoca a partir do controle provisório de áreas especiais de recursos” (COLLADO GIRALDO e ARRANZ, 2005: 28).
Depois de um trabalho sistemático de levantamento de arte rupestre numa área extensa como o Parque Natural de Monfragüe na Extremadura espanhola, uma região cuja formação geológica é semelhante à da Serra do Cabral, referindo-se aqui aos abrigos quartzíticos onde é encontrada a arte em ambos os casos, foram detectados 2 tipos de sítios arqueológicos com arte rupestre na região: 1) sítios localizados em locais estratégicos quanto a vias de comunicação como cursos fluviais ou outros acessos mais fáceis à área montanhosa, são geralmente visíveis à distância; 2) sítios menos visíveis, mais camuflados no ambiente e com maior variedade temática nas representações (IDEM). Muito provavelmente possuem “funções” e significados diferentes a arte nesses dois tipos de sítio. O que vemos aqui é uma diferença de padrão geográfico na confecção da arte.
Determinadas diferenças temáticas na arte rupestre de uma mesma cultura surgem também em sítios de céu aberto. Por exemplo, é o que acontece na Galiza, onde Peña Santos e Rey Garcia “chamavam a atenção para o fato de existir, na arte rupestre galaica, uma diferença entre as gravuras executadas em rochas com planos inclinados, visíveis à distância (…), e as executadas em rochas horizontais, observáveis apenas no local (…). Assim, falam de dois tipos de ‘linguagem’ (…)” (COIMBRA, 2004: 54).
Sainz também assinala três tipos de sítio com arte rupestre paleolítica: 1) Grandes sítios recorrentes com importantes composições, construídos em diferentes épocas do Paleolítico Superior; 2) Sítios onde a maior homogeneidade técnica e
estilística permite supor um maior grau de sincronia. São conjuntos de distintos tamanhos mas quase sempre menores; 3) Conjuntos muito pequenos com representações pontuais, de um animal ou poucos ou conjuntos somente com alguns signos abstratos (SAINZ, 2005: 200).
Na Serra do Cabral ainda não foi feito um trabalho sistemático nesse sentido, mas observando-se o sítio Lapa da Dança em comparação com outros sítios da região, nota-se neste uma grande variedade de motivos e uma grande ocorrência de superposições, o que não ocorre na maioria dos outros. Também a arte aqui não é tão visível como em muitos outros casos. Um trabalho interessante que ainda não foi efetuado seria tentar localizar um padrão geográfico que diferenciasse esses dois tipos de sítio, como foi conseguido no Parque de Monfragüe por Collado Giraldo e Arranz (2005).
O fato de o principal sítio arqueológico da região, o Lapa Pintada III, ter tido a quase totalidade de suas pinturas destruídas por fogueiras acesas na área do abrigo, impede a comparação entre as pinturas dos dois principais sítios da região, o que com certeza traria informações importantes. Porém, comparando-se a Lapa da Dança com outro sítio singular da área, a Lapa do Guará III, notamos algumas semelhanças. A Lapa do Guará III é um conjunto de 9 blocos com pinturas, sendo que em um deles foi recolhido uma quantidade razoável de instrumentos líticos como que guardados em uma pequena área. As pinturas deste sítio exibem também uma grande variedade de motivos, entre eles dois temas que também ocorrem na Lapa da Dança e que são raros nos demais sítios. Um deles é a já mencionada associação peixe-cervídeo, que nos dois sítios exprime-se de forma singular: na Lapa da Dança, diferente de ocorrer lado a lado como de costume, dois peixes superpõem um cervídeo como visto anteriormente e na Lapa do Guará III por duas vezes aparecem cervídeos cujas patas são substituídas por
peixes. O outro é a presença de antropomorfos, raríssimos na região, e mais raro ainda o que parece ser a representação de danças. Na Lapa da Dança aparece um antropomorfo dançando e na Lapa do Guará III há vários antropomorfos no que parece ser uma roda de dança, como num ritual. Com certeza estes sítios apresentam pinturas rupestres com uma “função” distinta das encontradas em outros tipos de sítio.
Uma questão que surge ao fazer-se esta análise é se podemos considerar estes sítios santuários como as grutas européias, uma vez que, como na região de Foz-Côa ou nos sítios pós-paleolíticos do Parque do Monfragüe ou mesmo nos sítios proto- históricos galegos, na Serra do Cabral a arte também marca a paisagem. Acreditamos estar diante de um tipo diferente de santuário, possivelmente com outras formas de rituais, uma vez que a relação com o ambiente, nessas sociedades, se dá de forma simbólica.
Segundo Taçon e Faulstich, “na Austrália muitos sítios de arte rupestre não são sagrados no sentido restrito da palavra mas são reconhecidos como sendo muito importantes, culturalmente muito significante. Sua distribuição está longe de ser aleatória e está relacionada não somente com padrões de habitação mas também com características simbólicas da paisagem” (TAÇON e FAULSTICH, 1992: 81).
Pena Santos e Rey Garcia, ao abordar as duas linguagens ocorrentes em rochas inclinadas ou horizontais da arte rupestre galega, dizem que as gravuras executadas em rochas horizontais, observáveis somente no local, seriam o “reflexo de um ritual simbólico-religioso” (COIMBRA, 2004). Também Baptista aborda a região de Foz-Côa como um grande santuário ao ar livre (BAPTISTA, 1999).
Outra questão que merece destaque é a recorrência de alguns temas, como os peixes e os cervídeos, bem como as situações em que ocorrem associados, assim como na arte paleolítica européia, reforçam o caráter simbólico dos sítios arqueológicos da
Serra do Cabral, o que não ocorre no Parque Natural do Monfragüe (COLLADO GIRALDO e ARRANZ, 2005).
Não se sabe o significado e/ou função dessas associações, mas há um fato que merece ser mencionado. A Serra do Cabral não é uma região muito rica em peixes, uma vez que seus rios são encachoeirados. A grande ocorrência deste tema reforça ainda mais o caráter simbólico desta arte, uma vez que não corresponde a um reflexo direto da realidade (vide figura 30).
Fig. 30 – Lapa dos Peixes – Serra do Cabral
Outro fato que merece ser mencionado é que alguns painéis da Lapa da Dança e vários de outros sítios da Serra do Cabral estão voltados para a “serra” do Palmito, um aglomerado quartzítico que se destaca na paisagem como uma montanha que poderia ter algum significado simbólico. Alguns trabalhos já abordam a questão da relação de sítios com arte rupestre e alguns fatores geográficos. Assim, Mc Donald trabalha a relação de sítios com arte rupestre e o Mount Yengo na Austrália (MC DONALD, 1992).
Fig. 31 – “Serra” do Palmito – Serra do Cabral
Outra questão que deve ser considerada é o fato de existirem diferentes padrões de arte dentro de um mesmo sítio, como diferencia Sainz, na arte paleolítica das grutas européias, entre os painéis localizados na entrada destas, incindindo sobre eles a luz solar, e àqueles localizados nas maiores profundezas (SAINZ, 2005). Freeman trabalha as diferenças da arte das diversas salas de Altamira: “a decisão de colocar as figuras maiores e mais belas na gruta em um lugar tão incômodo reflete uma eleição deliberada de uma área que não só resultava doloroso ao decorá-la, como incômoda para ver” (FREEMAN, 2005: 178).
Num local de formação geológica mais semelhante, como no Parque de Monfragüe, também foram detectados dois padrões. Como na Serra do Cabral, também lá a arte encontra-se geralmente nas paredes de fundo ou laterais dos abrigos, mas não resulta estranha sua localização ocasional no teto, mesmo em casos que possuem uma altura muito reduzida. Igualmente existem casos da presença de pinturas em lugares tão elevados ou inacessíveis que necessariamente exigem a ajuda de cordas ou andaimes artificiais para sua realização. “Já temos indicado que, em muitos casos, as pinturas ocupam posições frontais em relação ao espectador que se situa ante o abrigo, a uma
altura e em zonas que facilitam sua visualização. Porém, em outras ocasiões, a rápida apreciação visual de suas pinturas não parece ser um objetivo propiciado por seus criadores. (…) Em todos eles encontramos painéis pictóricos perfeitamente visíveis em uma primeira vista, mas resulta necessário agachar-se ou revolver-se em seu interior para localizar novas pinturas nos lugares mais recônditos e inesperados” (COLLADO GIRALDO e ARRANZ, 2005).
Na Serra do Cabral em geral e na Lapa da Dança em particular, encontramos todos esses padrões na arte, desde painéis muito visíveis e outros mais camuflados, passando por outros que se encontram em grandes alturas, onde foi necessária a construção de estruturas para a confecção das pinturas, até aqueles casos em que, para se ver a arte, como o foi para pintá-la, é necessário que se deite no solo, onde a arte encontra-se sobre tetos muito baixos.
Outra questão que merece reflexão é se podemos inferir traços de uma religiosidade de tipo xamânica nos sítios arqueológicos da Serra do Cabral. Como já abordado, existem diversos padrões de localização de painéis, o que sem dúvida significa a existência de múltiplas “funções” na arte do local. É bem provável que alguns desses sítios desempenhem algum tipo de papel em rituais xamânicos, uma vez que também tratam-se de vestígios de sociedades caçadoras-coletoras. A temática é muito parecida com a das grutas paleolíticas européias, onde esta hipótese foi levantada, no tocante à tendência ao realismo nos zoomorfos em contrapartida a uma esquematização dos antropomorfos, que em alguns casos parecem utilizar máscaras, e a grande ocorrência de signos abstratos, os ideomorfos. O fato de a arte aqui se encontrar em abrigos e não em grutas não invalida essa hipótese, uma vez que na África do Sul, que serviu de modelo de análise, também a arte encontra-se em abrigos (CLOTTES, 2007).
Ainda há muito que fazer no tocante à tentativa de interpretação das pinturas rupestres da Serra do Cabral e mesmo da Lapa da Dança, uma vez que seu material lítico ainda não foi totalmente analisado e mesmo sua datação absoluta ainda não foi realizada, o que ainda pode trazer algumas surpresas. Mas acreditamos ter contribuído um pouco na direção de um maior entendimento do fenômeno da arte rupestre na região, pelo menos no tocante ao levantamento de questões que acreditamos ser pertinentes e que podem ser utilizadas para um tipo de trabalho diferente na região, uma vez que o levantamento da arte já encontra-se em fase bastante adiantada, sendo muito poucas as áreas que não foram cobertas pelo Projeto de Pesquisas Arqueológicas Serra do Cabral. Acreditamos que já estamos prontos para dar um passo adiante na investigação da área.
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