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A partir do tratamento discursivo que conferimos ao corpus de análise selecionado da telenovela O Clone, visualizada como um produto sócio-cultural, percebemos que nela contracenam aspectos culturais diversos, tendo se mostrado bastante pertinente considerá- la à luz da categoria analítica de intertextualidade, tal como definida por Norman Fairclough (2001). Tal categoria nos forneceu subsídios valiosos na busca por uma compreensão acerca de contextos sócio-culturais impressos na telenovela, sem perdermos de vista a questão da heterogeneidade, o que é muito importante quando temos por pressuposto o fato de que se a sociedade é composta de muitas vozes, assim também serão as suas várias linguagens. Ou seja, se a vida social se carateriza pela multiplicidade, as narrativas que nela circulam (entre as quais, situa-se o discurso ficcional da telenovela) também assim se constituirão.

Concentrando-nos em nosso objeto empírico, O Clone, observamos, na variedade de aspectos subjacentes aos discursos das personagens focalizadas neste trabalho – Jade e

Dona Jura –, como práticas sociais e ritos construídos na formação histórico-cultural

brasileira combinam-se com outros elementos, resultando, em comportamentos sociais orientados ora pela lógica do individualismo autoritário e por uma ética de fundo emotivo (marcantes naquela formação), ora por uma ética da responsabilidade (característica do racionalismo cultural moderno). Tais referenciais valorativos foram estudados e relacionados à realidade brasileira em obras de expoentes das Ciências Sociais, como Gilberto Freyre (2000), Sérgio Buarque de Hollanda (1999) e Roberto DaMatta (1983, 1991). Foi com base nas contribuições de tais estudiosos que definimos os parâmetros

para a análise constituinte desta dissertação, a saber: autocontrole, sofrimento, realização pessoal e relação com o outro.

Desse modo, percebemos que as personagem Jade e Dona Jura apresentam, na base de seu comportamento social, orientações valorativas em sua maioria distintas. De uma forma sucinta, no tocante à temática do autocontrole, concluímos que Jade, ao contrário de Dona Jura, costuma estabelecer relações sem compromisso perante as instituições sociais de um modo geral. Além disso, enquanto as ações de Jade são predominantemente realizadas de maneira impulsiva, as de Dona Jura revelam, em sua maioria, um planejamento prévio. Assim, a primeira personagem apresenta, com respeito ao parâmetro autocontrole, uma preponderância de posturas respaldadas pela lógica do individualismo autoritário e por uma ética de fundo emotivo, ao passo que Dona Jura permite entrever, na maioria de seus atos, um delineamento traçado por uma ética da responsabilidade. Contraditoriamente, também visualizamos no comportamento social de tal personagem a força do personalismo, assentado nos primeiros códigos valorativos citados, o que revela, neste aspecto, uma semelhança com Jade. No que concerne ao parâmetro sofrimento, sobressai a percepção deste, por parte de Jade e de muitos personagens que a rodeiam, como um bem positivo, expressando uma secularização do preceito religioso segundo o qual sofrer constitui um instrumento para a redenção. Nesse sentido, Jade, em função do sofrimento que a acompanha constantemente, é perdoada pelas conseqüências de seus atos, fato simbolizado no final feliz que lhe foi dado. A concepção do sofrimento como um bem positivo vincula-se, portanto, a uma ética de fundo emotivo. Esta acepção não se revela forte no comportamento social de Dona Jura.

personagem demonstra perceber nestas questões a responsabilidade de cada agente social por suas escolhas e pelas conseqüências delas decorrentes. Quanto à visualização do aspecto da realização pessoal pela personagem Jade, destacamos o fato desta isentar-se da responsabilidade por seu alcance, o qual seria uma atribuição do destino ou de terceiros. Assim, considerando os parâmetros sofrimento e realização pessoal, predominam, em tal personagem, concepções ligadas à lógica do individualismo autoritário e da ética de fundo emotivo, contrariamente ao que concerne a Dona Jura. Focalizando, por fim, o parâmetro relação com o outro, ambas as personagens manifestam traços personalistas de conduta. Cabe aqui ressaltarmos, mais uma vez, elementos contraditórios presentes no comportamento social de Dona Jura, que, ao mesmo tempo em que costuma, por exemplo, estabelecer relações de compromisso com as instituições sociais, apresenta posturas autoritárias, contextualizadas em relações sociais marcadas pela proximidade com o outro.

Para contemplarmos essa heterogeneidade de elementos culturais presentes nas práticas sociais das personagens focalizadas, assinalamos, mais uma vez, a pertinência do uso da categoria analítica de intertextualidade, que contribuiu para uma compreensão acerca da dinâmica cultural em seu aspecto complexo e tensional. Vale destacar que a

intertextualidade também se faz presente na linguagem da telenovela O Clone em termos

da junção de dispositivos narrativos convencionais, representados por esquemas do folhetim, sobretudo em seu viés melodramático – com elementos oriundos de outras matrizes discursivas, tal como a do gênero jornalístico, expresso na inserção de depoimentos prestados por pessoas que vivenciaram problemas relacionados ao uso de drogas, com a finalidade de se realizar, no Brasil, uma campanha contra isso. Assim,

visualizamos um entrecruzamento do real com o ficcional. Este fenômeno foi observado não só com respeito ao tratamento de problemas sociais de interesse coletivo, mas também como recurso para se jogar com a fronteira entre aquelas duas dimensões. Nesse sentido, no capítulo final da telenovela em questão, é exibida uma cena na qual Dona Jura recebe um telefonema da autora, que a parabeniza devido ao sucesso da personagem junto aos telespectadores. Além disso, com objetivos de entretenimento, famosos cantores brasileiros de samba e pagode fazem apresentações especiais no bar de Dona Jura, representando a si próprios. Tais exemplos ilustram como O Clone mescla a matriz universal do melodrama com peculiaridades nacionais, incorporando, inclusive, tendências mais atualizadas no plano das temáticas, com destaque para a referida questão do consumo de drogas e para a clonagem de seres humanos e reflexões sobre questões éticas que nascem com ela.

A combinação dos ingredientes acima, bem como a pluralidade de elementos culturais presentes nos discursos das personagens enfocadas da telenovela O Clone apontam para a pertinência, já observada por autores como Martín-Barbero (1997 e 2001), de tratarmos a telenovela como um denso artefato sócio-cultural, fiel a uma certa memória coletiva e capaz de revelar traços da dinâmica cultural característica da sociedade na qual se insere.