As diferentes definições de investimento estrangeiro di- reto têm elementos em comum, sendo marcante o envio de ati- vos para uma empresa estabelecida em solo estrangeiro e o inte- resse de quem investe em influenciar a gestão do empreendi- mento no estrangeiro, mantendo relação duradoura com o pro- jeto e contribuindo na geração de riqueza local.
A ausência de proteção dos direitos de propriedade dos investidores estrangeiros incentivou em tempos passados certos Estados receptores de investimentos a agirem em benefício de seus próprios interesses políticos e econômicos e sem preocupa- ção genuína com os empreendimentos de capital estrangeiro, co- locando-os em risco, portanto.
72 Lei da Arbitragem (Lei nº 9.307/1996):
Art. 2º A arbitragem poderá ser de direito ou de eqüidade, a critério das partes. § 1º Poderão as partes escolher, livremente, as regras de direito que serão aplicadas na arbitragem, desde que não haja violação aos bons costumes e à ordem pública.
Os riscos de investir em países com ambiente político conturbado estavam a prejudicar, de um lado, o progresso eco- nômico de regiões em desenvolvimento e com bom potencial para atrair investimentos73 e, de outro lado, a encurtar as oportu- nidades disponíveis aos investidores desejosos de atuar em ou- tras economias. Tornou-se fundamental encontrar uma solução para tornar mais atrativo investir em outros Estados.
Os seguros de risco político surgiram em resposta à falta de eficiência na tarefa de proteção dos investimentos estrangei- ros diretos em Estados com riscos políticos, consistindo até hoje em instrumentos dos mais decisivos para transferir riscos políti- cos. Seguramente, seu surgimento deriva dos esforços de Esta- dos economicamente mais desenvolvidos, especialmente a partir da atuação de organizações de iniciativa pública, da década de sessenta em diante.
Considerando o porte econômico dos provedores acima examinados, além da expressiva significação de outras organi- zações que lhes reconhecem e representam – sendo a Berne Union a mais expressiva organização de representação dos pro- vedores de seguros de investimento –, é certo que os seguros de risco político constituem instrumento de transferência de risco consagrado na realidade global dos investimentos estrangeiros diretos, sendo indispensáveis a manter o bom desempenho eco- nômico de diversos Estados receptores. Nesse sentido, são co- nhecidos os exemplos de países em desenvolvimento com
73 Os principais riscos políticos são: (a) crenças ideológicas; (b) ascensão ao poder de
governos com posturas políticas contrárias àquelas assumidas por seus antecessores; (c) sentimentos nacionalistas xenofóbicos, tendentes a expulsar a iniciativa privada estrangeira do território ou, a pretexto de ideais nacionalistas, promover expropriações e nacionalizações; (d) alianças entre investidores e minorias étnicas do país receptor de investimentos; (e) mudanças nos padrões de uma indústria que provocam no Estado receptor de investimentos o desejo de alterar suas relações com os investidores; (f) manobras governamentais para alterar contratos; (g) criação de mecanismos para re- gular a economia; (h) restrições à transferência e conversibilidade de moedas; (i) pre- ocupações do país receptor de investimentos com direitos humanos e meio ambiente; (j) descontrole da criminalidade no país receptor de investimentos.
extensas reservas de riquezas naturais, como petróleo e gás, por exemplo, mas com ambientes políticos conturbados, que exigem atenção da comunidade investidora.74
Outra circunstância que confirma a larga difusão dos se- guros de risco político na prática de investimentos estrangeiros diretos são as distintas atuações dos provedores, sendo exemplo a comparação que se pode fazer entre os provedores públicos e privados. Os primeiros, atuando comumente segundo pautas po- lítico-regionais de desenvolvimento econômico, usualmente exercendo significativa influência política nos Estados recepto- res, e não raro procurando cobrir mercados comercialmente me- nos viáveis. Por outro lado, os provedores privados vêm atuando com crescente nível de especialização, sendo profundos conhe- cedores de certas áreas de investimento estrangeiro direto ou cer- tos riscos políticos.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Nádia de. Direito Internacional Privado: teoria e prá- tica brasileira. Rio de Janeiro: Renovar, 2003.
AZEVEDO, Débora Bithiah de. Os acordos para a promoção e a proteção recíproca de investimentos assinados pelo Brasil. Disponível em: <http://bd.camara.gov.br>. Acesso em 27 nov. 2012.
BAPTISTA, Luiz Olavo. Os investimentos internacionais no
74 A Venezuela é conhecida por suas significativas reservas de petróleo e igualmente
pelas constantes oscilações em seu ambiente político, podendo ser citada como exem- plo de país sul-americano que exige atenção dos investidores estrangeiros. Da mesma forma, o Iraque pode ser lembrado por seu importante papel no mercado de petróleo mundial, possuindo, porém, situação política conturbada, especialmente nos últimos anos.
Direito Comparado e Brasileiro. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998.
BOVESPA. Guia Prático Bovespa para Investimentos Estran- geiros de Portfolio. Disponível em: <http://www.bmfbo- vespa.com.br/pt-br/regulacao/download/guiaportfo- lio.pdf>. Acesso em 23 de jan. 2013.
BREMMER, Ian. Managing risk in an unstable world. Boston: Harvard Business Review, 2005, p. 52.
COMEAUX, Paul E.; KINSELLA, N. Stephan. Protecting For- eign Investment under International Law: Legal aspects of Political Risk, Transnational Corporations, United Nations Conference on Trade and Development Publica- tion Vol. 10, n. 1, Abr./2001.
COOTER, Robert; ULLEN, Thomas. Direito &Economia. tra- dução: Luis Marcos Sander e Francisco Araújo da Costa. 5ª ed. Porto Alegre: Bookman, 2010.
COSTA, Larissa. Arbitragem Internacional e Investimentos Es- trangeiros. São Paulo: Lawbook, 2007.
DIAS, Bernadete de Figueiredo. Investimentos Estrangeiros no Brasil e o Direito Internacional. Curitiba: Jeruá, 2010. INTER ARAB INVESTMENT & EXPORT CREDIT GUAR-
ANTEE CORPORATION. Disponível em<http
://www.iaigc.net/>. Acesso em 26 nov. 2012.
INTERNATIONAL MONETARY FUND. Balance of pay- ments manual. Disponível em <http://www.imf.org/ ex- ternal/pubs/ft/bopman/bopman.pdf>. Acesso em 23 nov. 2012.
_____________. Glossary of Foreign Direct Investment Terms.
Disponível em <http://www.imf.org/exter-
nal/np/sta/di/glossary.pdf>. Acesso em 25 jan. 2013. INTERNATIONAL UNION OF CREDIT & INVESTMENT
INSURERS. Disponível em < http://www.berneun- ion.org/about-the-berne-union/>. Acesso em 15 mai. 2016.
JACKSON, James K. The Berne Union: An Overview. Congres- sional Research Service, Report for Congress, Washing- ton Washington, Abr./2013.
KOBRIN, Stephan J. Managing Political Risk Assessment: Stra- tegic Response to Environmental Change. Los Angeles: University of California Press, 1982.
MUCHLINSKI, Peter; ORTINO, Frederico; SCHREUER, Christoph (org.). The Oxford Handbook of International Investment Law. Oxford: Oxford University Press, 2008. MULTILATERAL INVESTMENT GUARANTEE AGENCY. Disponível em <http://www.miga.org/whoweare/in- dex.cfm>. Acesso em 17 nov. 2012.
_______________.Strategy for fiscal years 2012-2014.Dis- ponívelem<http://www.miga.org/do-cu-
ments/MIGA_FY12-14_Strategy.pdf>. Acesso em 18 nov. 2012.
ORGANISATION DE COOPÉRATION ET DE DÉVELOPPE- MENT ÉCONOMIQUES.<http://www.oecd.org/daf/in- ternationalinvestment/investmentpolicy/capi-
tal%20movements_web%20english.pdf>. Acesso em 25 jan. 2013.
OVERSEAS PRIVATE INVESTMENT CORPORATION. Disponível em <http://www.opic.gov>. Acesso em 18 nov. 2012.
SORNARAJAH, M. The International Law on Foreign Invest- ment. 3.ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.
TIMM, Luciano Benetti (org.). Direito e economia no Brasil. São Paulo: Atlas, 2012.
TRUBEK, David M.; SCHAPIRO, Mário G. (Org.) Direito e Desenvolvimento - Um Diálogo Entre os Brics. São Paulo: Saraiva. 2012.
UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DE- VELOPMENT. World Investment Report 2005. New
York: United Nations Publication, 2006.
_______________. World Investment Report 2012. Disponível em <http://unctad.org/en/Pages/DIAE/World%20Invest- ment%20Report/WIR2012_WebFlyer. aspx>. Acesso em 18 nov. 2012.
VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo: ed. Scipione, 1997.