2 OS ESTUDOS DESCRITIVOS E CIENTÍFICOS DO ADVÉRBIO
2.5 CONSIDERAÇÕES
A importância de retomar os estudos sobre o advérbio a partir da evolução histórica e descritiva, partindo desde os gregos até as pesquisas linguísticas de cunho gerativo, se justifica por demonstrar as diversas visões sobre essa categoria, assim, deixamos claro que herdamos um problema que recai sobre a formalização linguístico computacional em relação aos diversos itens abarcados nesta categoria de comportamentos sintáticos e semânticos diversos, caracterizando uma classe bastante heterogênea.
Observamos que o legado grego constitui as bases terminológicas gramaticais e estabeleceram uma influência nos estudos da gramática tradicional. Baseando-se em Neves (2005), que utiliza fontes diretas e estudos precedentes das quais, destacamos Dionísio o Trácio, por este ter organizado de fato a primeira gramática ocidental. Vimos que a sua gramática abordava apenas aspectos da fonética e da morfologia de tradição da escola de Aristarco, que listava oito categorias gramáticas (nome, verbo, conjunção, particípio, artigo, pronome, preposição e advérbio) e classificava as palavras por critérios formais (flexão e posição). O advérbio era classificado como parte do discurso, sem traços de flexão alguma. Em comparação ao Verbo, podemos observar como eram identificados esses contrastes, a partir da tabela baseada em Neves (2005, p. 253) fica evidente as características:
Indicações Gramaticais
Verbo Advérbio
Tempo Indica tempo Sem Flexão
Caso Sem Caso Sem Flexão
Pessoa Indica pessoa Sem Flexão
Número Indica Número Sem Flexão
Voz Praticada ou recebida Sem Flexão
Distribuição Antes e depois do Verbo
A formalidade que identificava o advérbio em Dionísio o Trácio, se caracterizava por a falta de flexões formais e a sua posição relativa ao verbo, tanto pré-verbal quanto pós-verbal na frase. Diferente do verbo, que possuía traços específicos e definido diretamente na palavra, e não no discurso, como o advérbio que se caracterizava como parte e não se estabelecia como uma palavra fixa, mas como um tipo de circunstancial. Como vimos anteriormente, Apolônio Díscolo, um gramático alexandrino que continuando os estudos de Dionísio o Trácio, foi o
primeiro a tratar de sintaxe e definiu o advérbio como uma palavra indeclinável, de acordo com o conceito demonstrado por Neves (2005, p. 144), o advérbio ―se predica de maneira geral ou particular aos modos dos verbos e que, sem eles, não pode completar o pensamento‖, indicando que o advérbio só tem sentindo se estiver diante de um verbo ou particípio, diferente do verbo que possui significado completo e independe do advérbio para significar. É importante indicar que Apolônio Díscolo identificava a natureza do advérbio como um tipo de palavra formada tanto da junção das palavras (o -mente em português na construção de advérbios) quanto em formas isoladas (como a palavra ―assim‖ ou ―vamos!‖), mas nessa classificação, as interjeições são postas no mesmo grupo do advérbio. Outros estudos que avançam sobre a gramática e o estudo do advérbio mantém muito dessas características definidas pelos Helênicos, se diferenciando na classificação de tipos (modo, tempo etc.), além da herança das categorias deixadas pelos gregos, pois das dez que temos atualmente, sete já pertenciam a gramática grega antiga (nome, verbo, conjunção, artigo, pronome, preposição e advérbio). Apesar de todo o tempo que se percorreu em relação aos estudos gramaticais e a expansão do conceito de modificação do advérbio sobre outras categorias, as modernas gramáticas tradicionais mais atuas aceitaram algumas análises descritivas e alguns avanços das pesquisas linguísticas em que os advérbios ganham mais atenção diante de uma heterogeneidade complexa observada desde o início nos estudos sobre a linguagem.
Ao evidenciar as perspectivas da linguística sobre a categoria advérbio, verificamos que Jackendoff (1972) e Laenzlinger (1998) são motivados por uma análise sintática que determina a categoria a partir das características semânticas. Desse modo, a classificação dos advérbios, essencialmente, são os advérbios de frase e advérbios de VP para Jackendoff, e estes advérbios podem tomar duas projeções funcionais na sentença, de acordo com Laenzlinger. O movimento do verbo para esse tipo de análise se vale do comportamento do advérbio na sentença, pois o mesmo determina se há ou não motivação para o movimento do verbo em línguas como o inglês e o francês, por exemplo, visto em Pollock (1989) este tipo de análise. Ao procurar evidências a partir de outras categorias para elucidar o comportamento do advérbio, Pollock (1989) parte da análise detalhada do movimento dos verbos para analisar o comportamento sintático dos advérbios, pois os mesmos acompanham a categoria verbal. Em Cinque (1999, 2004, 2006) ao propor uma classificação geral para os advérbios e projeções funcionais, expandindo as projeções consideravelmente, Cinque (1999) compara diversas posições dos advérbios diante de verbos e quantificadores em diversas línguas, postulando algumas posições na geração dos advérbios.
Uma das diferenças que marcam os trabalhos desses autores gerativos são as tendências de análise dos advérbios, segundo Sant‘ana (2010), há dois tipos, a primeira é a baseada no escopo que tem como teóricos Ernst (2004) e Costa (1996), na qual adota a perspectiva de que o advérbio é inserido na sintaxe sob a operação de adjunção. Já a segunda é baseada no traço, em que os teóricos Laenzliger (1998) e Cinque (1999) são os pesquisadores que adotam tal perspectiva teórica, determinando os itens lexicais com função adverbial inseridos na sintaxe por projeções passiveis de checagem de traços nas posições sintagmáticas. No nosso caso, adotamos a visão que concebe essas relações de traços.
Apesar de Jackendoff postular diversas posições para o advérbio, Cinque (1999) elabora uma classificação mais detalhada e isso colaborou para pensarmos em utilizar a sua classificação na formalização e modelação, tendo em vista que no PB, o advérbio possui uma maior mobilidade em comparação a outras línguas, como o inglês, por exemplo. O trabalho de Sant‘ana (2015) parte do trabalho de Cinque (1999, 2006) nas suas pesquisas, analisando a partir de teste de avaliação gramatical e agramatical de sentenças com advérbios ditos Altos e Baixos na hierarquia cartográfica, demonstrando as possibilidades e limitações das postulações de Cinque ao ser aplicado no PB. Por estar pré-classificado os advérbios postulados por Cinque, denotam uma formalização aparentemente mais tranquila por já identificar estabelecer as posições desses itens, porém, isso não esgota as análises sobre o advérbio, por não ser um tipo de análise unânime, pois postula os advérbios projetados para ocupar a posição de especificador e não adjunto. Por isso, a modelação não deverá ter um caráter geral.
Na elaboração de um analisador sintático, é preciso ter dados no dicionário e regras gramaticais específicas 16 na sua constituição. Por isso a urgência desse capítulo, pois demonstra que há diversas possibilidades de universalizar os conceitos de modo geral sobre essa categoria tão heterogênea, apesar de ter características em comum que lhes identifiquem o pertencimento a classe. Diante das inúmeras análises linguísticas sobre o advérbio, a representação, aqui, se limitará por questões de espaço e tempo, deixando para a futura Tese o fechamento da modelação linguístico computacional e computacional dos advérbios em um parser. No momento, os dados apresentados demonstraram como são distribuídos estes itens, apesar de a representação se limitar, por vezes, ao nível dos constituintes que formam as sentenças, não significará que não são uteis para a representação dos sintagmas funcionais, pelo contrário, por buscarmos caminhos para demonstrar os advérbios hierarquizados tanto isolados quanto encaixados em sentenças simples com os traços unificados, precisamos utilizar as informações obtidas para as representações, como veremos na seção pertinente.