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2.1 “CATANDO FOLHAS” NA CAPES

2.1.4 Considerações parciais

Tomando como referência o Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, foi verificado como as pesquisas brasileiras direcionam seus esforços para a música do candomblé, com uma atenção especial as produções sediadas no estado de Santa Catarina. Num segundo plano, havia o interesse de ampliar o corpus teórico. Por conta disso, o estudo foi ampliado para outras áreas de conhecimento próximas da etnomusicologia.

Como resultado geral foi possível identificar 178 trabalhos que tratam de algum tema relacionado ao universo do candomblé, sendo 11 de música, 26 de ‘outras artes’, 38 de história, 40 da antropologia e 63 da sociologia. Com esses números podemos iniciar uma visão panorâmica e apontar que a música do candomblé é um assunto pouco procurado pelos pesquisadores brasileiros, principalmente na área de música, sendo ainda mais restrito se o tema de estudo estiver voltado para a percussão. A respeito de Santa Catarina, a única produção

encontrada é a minha dissertação, ainda que, não tenha contemplado um terreiro catarinense.

Analisando a área de música, percebe-se que os trabalhos tendem a estarem vinculados as linhas de pesquisa da etnomusicologia, com uma maior concentração na Bahia, mais precisamente na cidade de Salvador. Esse quadro pode ser explicado pelo grande número de terreiros existentes na capital baiana, onde estão os mais antigos e conhecidos do país, as chamadas casas matrizes. Diferentemente da música, na área da história foi observado que as pesquisas sobre o candomblé estão mais espalhadas em termos de Brasil, estando presente em todas as regiões do país. Além disso, os trabalhos históricos estão mais situados na região Sudeste e o estado da Bahia não é o polo principal.

A antropologia apresenta uma grande concentração de estudos em três regiões principais: São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. Entretanto, foi constatado que muitas pesquisas direcionaram seus objetos de estudo para a Bahia, o que demonstra o interesse dos antropólogos pelo candomblé baiano, fato também observado na área de história. Por outro lado, os dados indicam que a situação inversa não ocorre. Ou seja, não foi encontrada nenhuma produção acadêmica sediada na Bahia que tenha se preocupado em estudar o candomblé em outro estado. Além disso, com certa estranheza, não foram identificados estudos antropológicos específicos sobre a música do candomblé ou da relação da música com outros fatores do contexto religioso.

Os resultados da área da sociologia também apontam para a existência de três polos principais de pesquisas sobre o candomblé: São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro, com destaque para o estado paulista, que detém a maior concentração de estudos. Porém, ressalta-se que, a maioria dos objetos de estudo localiza-se na Bahia, repetindo a mesma característica das áreas de música e de história. Outro fato relevante da sociologia diz respeito à sua abrangência geográfica, que apresentou a maior amplitude dentre todas as áreas de conhecimento aqui pesquisadas. Nota-se também, que as produções do campo da sociologia da música não têm considerado a música do candomblé como eixo norteador das suas pesquisas na pós-graduação brasileira.

Finalmente, levando em conta a grande quantidade de terreiros de candomblé espalhados por todo território brasileiro, a relação da sua música com a música popular brasileira, a complexidade rítmica da percussão, bem como toda a

herança cultural, constata-se que a música do candomblé é um tema pouco estudado na esfera da pós-graduação brasileira. Apontar os motivos não é o meu objetivo aqui, no entanto, alguns indícios podem ser registrados, como por exemplo, o pequeno número de percussionistas populares brasileiros que atuam com pesquisa em música no nível de pós-graduação. É bom lembrar que a pesquisa realizada no banco de dados da CAPES não se restringiu ao candomblé ketu.

2.2 “CATANDO FOLHAS” NA BIBLIOTECA

Nesta seção será apresentada uma breve revisão de literatura apenas de livros publicados por pessoas que fazem parte do candomblé, sendo que parte destas obras foram recomendadas pelos babalorixás, ialorixás e outras pessoas da comunidade religiosa dos terreiros visitados durante esta pesquisa. Tendo em vista que são produções de insiders29, considerei oportuno realizar uma revisão mais detalhada e adicionar alguns dicionários e coleções específicos.

É importante ressaltar que, embora o candomblé ketu seja fundamentado na tradição oral, existe um movimento de regentes espirituais que, conscientes do dinamismo da vida cotidiana e do surgimento de novas tecnologias de comunicação, buscam compartilhar de alguma maneira os seus saberes religiosos. Por isso, a escrita tem sido cada vez mais usada como uma estratégia para a manutenção da própria religião, inclusive para ajudar a memória (BASTIDE, 2001, p.122). Nesta direção, segundo o ebomi30 Erivan dos Santos, a Mãe Stella foi um divisor de águas pois os “mais antigos” não aprovavam a escrita de livros e outros meios porque consideravam um ato de desrespeito aos “velhos tempos” (SANTOS, 201831).

Mãe Stella de Oxossi foi uma importante incentivadora, considerada uma das ialorixás mais conhecidas e respeitadas do Brasil. Mesmo ciente da importância da oralidade, ela acreditava que registrar a religião era uma maneira de preservar a tradição (SANTOS, 2010, p.31). Conforme ela aponta, “Religião é cultura. A religião estática perecerá [...] a tradição somente oral é difícil” (SANTOS, 2010, p.35). Diante disso e atenta as novas tecnologias, compartilhou seu conhecimento em entrevistas, impressos variados, em canal no YouTube, criou um aplicativo para celular32 e publicou alguns livros: Òsósi: O Caçador de Alegrias (ÒSÓSI, 2006); Meu tempo é _______________

29 Me refiro as pessoas que fazem parte do candomblé ketu, pessoas iniciadas na religião. 30 Um tipo de cargo ou categoria social interna. Será visto em detalhes adiante.

31 [Anotação. Conversa informal. Ilê Axé Opô Afonjá, Xirê para Exu. Salvador, 15/10/2018]. 32 SANTOS, 2017.

agora (SANTOS, 2010) e; O que as folhas cantam: para quem canta folha

(SANTOS; PEIXOTO, 2014).

Destes, gostaria de evidenciar o segundo, Meu Tempo é Agora (SANTOS, 2010), que pode ser usado como um guia religioso, na medida que une tradição e inovação. Contando com as contribuições herdadas das antigas ialorixás, Mãe Stella apresenta dados históricos do terreiro de candomblé ketu Ilè Axé Òpó Afonjá, criado em 1910 como descendente do terreiro da Casa Branca do Engenho Velho (SANTOS, 2010, p.17); descreve as principais ações realizadas por suas antecessoras; esclarece sobre os cargos e funções no candomblé e; fornece detalhes sobre modos e costumes.

Realizado a partir da perspectiva de uma equede33 experiente, o livro ‘Equede: a mãe de todos – Terreiro Casa Branca’ (BRANDÃO, 2015) é um registro histórico e fotográfico da vida religiosa no terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, uma das casas de candomblé mais antigas de Salvador, considerada a “mãe de todas as casas” (BRANDÃO, 2015, p.145). Nesta obra, Equede Sinha, iniciada na religião aos sete anos de idade, fornece explicações sobre os espaços internos e externos, objetos sagrados, esculturas, bem como, de outros detalhes relevantes, como a música e os instrumentos de percussão.

Apontando na direção de um único orixá, temos o livro ‘Iemanjá, a grande mãe africana no Brasil’34 (VALLADO, 2008). Por meio de uma narrativa apoiada em mitos revelados via tradição oral, coletados por pesquisadores e ressignificados pela comunidade religiosa, o autor apresenta a trajetória deste orixá de caráter feminino, símbolo da sensualidade e maternidade, desde sua origem na África até sua chegada aos cultos afro-brasileiros. Na condição de babalorixá do terreiro Candomblé Casa das Águas35, Vallado (2008) aborda os ritos de iniciação, as relações simbólicas em torno de Iemanjá e, fala das várias qualidades deste orixá36.

Na lista das produções realizadas por um babalorixá temos as seguintes obras do Pai Cido37 de Òsun Eyin: Candomblé: a panela do segredo (REIS, 2000); _______________

33 Outro tipo de cargo interno.

34 Esta obra é oriunda da dissertação de mestrado do sociólogo e pesquisador Armando Vallado. 35 Localizado em Itapevi, na Grande São Paulo, foi fundado por Armando Vallado em 1987

(VALLADO, 2008, p.13).

36 “As qualidades dos orixás são diferenciações elaboradas a partir de seus atributos, explicitando as várias facetas de uma mesma divindade” (VALLADO, 2008, p.41).

37 Pai Cido é fundador e babalorixá do terreiro Ilê Dará Axé Oxum, situado em São Paulo. Com mais de quarenta anos de iniciação, Pai Cido tem divulgado o conhecimento do candomblé por meio de

Acaçá, onde tudo começou (EYIN, 2002) e; Okutá – A Pedra Sagrada que Encanta Orixá (EYIN, 2014). Destacando a primeira, ela foi escrita com o objetivo de difundir

diversos aspectos do culto dos orixás, como os ritos, as orações, os cânticos, tendo como eixo norteador a história e a mitologia. Nesta obra Pai Cido (REIS, 2000) descreve certos fundamentos religiosos, apresenta a criação do mundo segundo a tradição iorubá e, fala da importância do axé, considerada a força sagrada pelo “povo de santo”38.

Outra publicação de um babalorixá é Casa de Oxumarê: os cânticos que

encantaram Pierre Verger (LÜHNING & MATA, 2010), sendo fruto da parceria entre

a Prof.ª Angela Lühning e Sivanilton Encarnação da Mata, o Babá Pecê de Oxumarê, atual regente espiritual do Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó. O livro enfatiza a importância da oralidade e realiza um resgate de memória por meio de relatos orais, documentos antigos, fotos, bem como, pelos registros fonográficos dos cânticos coletados por Pierre Verger em dezembro de 1958 (LÜHNING & MATA, 2010, p.62), que estão presentes em dois CDs. Além de uma breve biografia de Pierre Verger, consta ainda a história da gravação e da vida dos participantes desse registro, entre eles os alabês39.

Seguindo na perspectiva de valorizar a tradição oral e de registrar o saber presente nos terreiros, o livro Mãe Beata de Yemanjá40: guia, cidadã, guerreira

(COSTA, 2010), revela fatos importantes da trajetória de vida desta ialorixá por meio da narração de histórias, uma prática tradicional do candomblé. Um ponto a evidenciar são os relatos de casos de famílias inteiras que foram separadas durante os leilões na época do tráfico de escravizados, o que nos ajuda a entender a organização das “famílias de santo” no candomblé e o agrupamento de todos os orixás numa mesma casa religiosa.

Utilizando como estratégia narrativa o uso de perguntas e respostas, temos a obra O candomblé bem explicado (Nações Bantu, Iorubá e Fon) (MAURÍCIO,

programas de rádio, documentários, discos e livros. Tem dois CDs gravados, Candomblé: Raízes

de Kétu (1988) e Candomblé Brasil (1999); escreveu uma série de revistas, Orixás: o segredo da vida; tem no seu currículo uma viagem para a África, Benim e Nigéria, com destaque para a cidade

nigeriana de Ilé-Ifè, berço da cultura iorubana; bem como, colabora como informante para a produção de pesquisas acadêmicas (REIS, 2000, p.17-23).

38 Tem o mesmo sentido de comunidade religiosa.

39 O chefe dos tocadores de atabaques. Mais detalhes adiante.

40 Mãe Beata é a ialorixá do terreiro Ilê Omi Oju Arõ, situado em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. É uma experiente contadora de histórias, autora de poemas, contos e livro, palestrante e conferencista. Embora Haroldo Costa assine como autor, o texto foi escrito em primeira pessoa dando voz à Mãe Beata.

2009), elaborado pelo babalorixá Odé Kileuy e sua “filha de santo” Vera de Oxaguiã com o objetivo inicial de servir como cartilha para os recém iniciados da sua casa de candomblé Kwe Axé Vodum Odé Kileuy41 (Axé Kavok). É um livro que responde as indagações do cotidiano religioso e de questões relacionadas a trinta e cinco divindades. Outro aspecto a mencionar, é a presença de dois capítulos, ainda que breves, relacionados a música: sobre os instrumentos musicais e sobre os ritmos.

Soma-se às produções dos regentes espirituais, outras obras escritas por pessoas que fazem parte do candomblé, iniciadas ou não. Destas, gostaria de destacar algumas. Mitos Yorubás: o outro lado do conhecimento (BENISTE, 2011), escrito por José Beniste, escritor, pesquisador e iniciado no Ilê Axé Opô Afonjá, revela aspectos importantes da vida religiosa nos terreiros por meio de mitos oriundos da Nigéria. Nessa linha de abordagem voltada aos aspectos mitológicos dos orixás, também podemos referenciar: Igbadu, a cabaça da existência: mitos

nagôs revelados (OGBEBARA, 2018); Os orixás e o segredo da vida: lógica, mitologia e ecologia (BARCELLOS, 2012); Mitologia dos Orixás: lições e aprendizados (JÚNIOR, 2017); bem como, uma lista de obras de Reginaldo Prandi,

com destaque para Mitologia dos Orixás (PRANDI, 2001), que compreende uma extensa coleção de mitos dos orixás.

Finalizando, gostaria de acrescentar duas referências importantes: Orixás

deuses iorubás na África e no Novo Mundo (VERGER, 2002) e Os nagô e a morte:

Pàde, Àsèsè, e o Culto Égun na Bahia42 (ELBEIN DOS SANTOS43, 2012). Na

primeira, entre tantas informações pertinentes sobre o culto dos orixás no continente africano e de como as práticas religiosas foram adaptadas em terras brasileiras, é possível visualizar uma grande quantidade de imagens relacionadas aos rituais dos orixás na Nigéria e Togo, bem como no Brasil e nas Antilhas. Esse livro é resultado de várias viagens de Pierre Verger realizadas na metade do século passado. Já na segunda obra, tendo como base a concepção da morte e sua relação com os rituais, podemos conhecer parte do sistema religioso e da concepção de mundo do candomblé ketu. Como veremos adiante, este livro foi o eixo norteador para _______________

41 Casa de nação fon situada na cidade do Rio de Janeiro, cuja linhagem está associada a região de Aladá, no Benim (MAURÍCIO, 2009, p.19).

42 O livro é resultado da tese de doutorado em etnologia realizado por Juana Elbein dos Santos na Universidade de Sorbonne, Paris, França.

43 É importante registrar que este livro foi recomendado pelo ebomi Erivan dos Santos dentro do Ilê Axé Opô Afonjá logo depois do Xirê para Exu no dia 15/10/2018.

compreender a estrutura do candomblé ketu, em várias dimensões: simbólica, física, social, ritual e sonora.

Com a intenção de facilitar a aprendizagem das cantigas mais entoadas no candomblé ketu, duas produções se alinham nessa direção: o livro Cantando para

os Orixás (OLIVEIRA, 2012) e a apostila do Curso Afro-Brasileiro de Toques,

Cânticos e Danças44 (MONTEIRO, 1995). Com a preocupação de evitar a emissão

equivocada de palavras nos rituais, nestes materiais os textos das cantigas são apresentados na língua iorubá, com as respectivas transcrições fonéticas e tradução para a língua portuguesa. Fazem parte das seleções, dezenas de cantigas dos orixás mais reverenciados nos rituais públicos.

Por último, é preciso considerar às compilações léxicas. O Dicionário de

Cultos Afro-Brasileiros: com origem das palavras (CACCIATORE, 1977) é uma obra

que descreve os vocábulos mais utilizados nas religiões de matriz africana no Brasil, além de apresentar uma sinopse da formação desses cultos45. O Dicionário Yorubá-Português (BENISTE, 2016) fornece orientações básicas sobre o funcionamento do idioma iorubá, língua oficial dos cultos do candomblé ketu, com uma grande quantidade de vocábulos traduzidos para a língua portuguesa.

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44 Apostila foi fornecida pelo CETRAB - Centro de Tradições Afro-Brasileiras.

45 Umbanda, umbanda “traçada” com candomblé de angola, ou ritual omolocô; ritual nagô (ketu); ritual de nação jeje-nagô; candomblé jeje e; candomblé de angola (CACCIATORE, 1977, p.20-21).