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Hierarquia: grau de iniciação e categorias

4 O COMPLEXO CULTURAL NAGÔ

4.6 A ESTRUTURA SOCIAL

4.6.1 Hierarquia: grau de iniciação e categorias

Dentro de cada “comunidade flutuante”, o grau de iniciação é determinado pela antiguidade iniciática e não pela idade real da sacerdotisa” (ELBEIN DOS SANTOS, 2012, p.45). Ou seja, a pessoa “mais velha de santo” será aquela que tem mais tempo de iniciação e não mais tempo de idade biológica. Isto se explica, porque no candomblé ketu, a iniciação é considerada um renascimento, “é renascer para um novo mundo como uma pessoa mais segura e mais forte, religiosa e psicologicamente” (MAURÍCIO, 2009, p.71). Por conta disso, uma pessoa jovem pode ser “mais velha de santo” do que alguém mais velho de idade.

Tomamos o exemplo da menina Pietra tý Yewá, que é filha adotiva181 do

babalorixá Jean. No dia 09/11/2019 “participei” de uma festa no Terreiro do Pai

Jean, na qual a sua filha Pietra, com idade entre sete e oito anos, cumpriu a sua “obrigação” de odú igê, que é a obrigação de sete anos. Este ritual é também um rito de passagem, de iaô para ebomi, porém, no caso de Pietra, ela também recebeu o cargo de ialorixá182. De certa maneira, a história religiosa de Pietra se assemelha com a de Mãe Menininha “que foi iniciada aos oito meses de idade, para o orixá

Oxum” (TERREIRO DO GANTOIS, 2017, p.3).

Convém aproveitar o exemplo acima para explicar o que significa iaô e

ebomi, bem como, para apresentar as demais categorias sociais da hierarquia do

candomblé ketu, hierarquia que é dada pelo tempo de iniciação. Inicialmente, a comunidade nagô pode ser dividida em dois grupos: os “não-iniciados” e os “iniciados”. No grupo dos “não-iniciados” ou “pré-iniciados” fazem parte aquelas pessoas que estão se familiarizando com o funcionamento de uma casa de candomblé, que procuram conhecer quem são as pessoas do terreiro, que participa _______________

181 Normalmente no candomblé ketu, um pai ou mãe de santo não pode iniciar seu conjugue e filhos biológicos, estes últimos chamados de “filhos carnais”. Por outro lado, é permitido para os filhos adotivos, sendo este o caso de Pietra e de seus dois irmãos adotivos Peterson e Rodrigo, respectivamente, alabê e ogã, iniciados pelo babalorixá Jean Ty Onìrá.

182 No dia 09/11/2019, a menina Pietra também se tornou a herdeira espiritual do babalorixá Jean Ty Onìrá. Segundo o mesmo, a herdeira espiritual também herda os anos de religião do pai de santo. Por exemplo, na data mencionada, Pietra estava com 31 anos de “santo”, sendo 7 dela mais 24 do seu “pai” (SILVA, 2019). [Anotação. Sessão de doutrina. Itajaí, 13/11/2019].

passivamente de rituais e festas públicas, que ainda não tem uma dedicação acentuada, ou seja, é aquela pessoa que está no início do aprendizado e que ainda não passou pelo rito de iniciação (MAURÍCIO, 2009, p.69-71). Estas pessoas não-iniciadas são chamadas de abiyan ou abiã: “pré-inicianda do candomblé, geralmente jovem, em estágio anterior à iniciação, tendo cumprido apenas uma parte dos rituais” (CACCIATORE, 1977, p.34). Hoje em dia o termo abiã é usado para homens e mulheres.

O grupo dos “iniciados” é formado por pessoas que passaram pelos ritos de iniciação183, nas quais na sua cabeça foi “plantado” o axé do terreiro [princípio da existência genérica] e dos orixás individualizados [princípio da existência individualizada], transformando estes seres humanos em altares vivos (ELBEIN DOS SANTOS, 2012, p.46). Dentro desse grupo estão as seguintes categorias: iaô ou

iyàwo, ebomi, equede184 e ogã. Por sua vez, estas quatro categorias estão assim

organizadas: os “rodantes”185, iaô e ebomi; e “não-rodantes”, ogã para os homens e

equede para as mulheres. Conforme relatos186 da equede Juliana e da ebomi

Patrícia, os ogãs e equedes já “nascem” com sete anos de iniciação. Os “rodantes” são todas as pessoas que “viram no santo”, que “entram em transe”, podendo ser homem ou mulher. É interessante notar que as palavras abiã, iaô e ebomi são usadas para homens e mulheres, e, portanto, “são palavras de duplo gênero” (CAMARGO, 2020187).

Em outras palavras temos o seguinte percurso iniciático. Quando uma pessoa começa a frequentar uma casa de candomblé ketu, ela se encontra na condição de abiã até passar pelo rito de iniciação. Depois disso e de alguns procedimentos, dos quais faz parte o jogo de búzios, o recém-iniciado seguirá um dos três caminhos religiosos possíveis. Se o homem ou a mulher for “rodante”, de

abiã a pessoa passará para iaô188, e depois da obrigação de sete anos, de iaô para

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183 O processo de iniciação é considerado um renascimento. Por conta disso, todas as pessoas iniciadas recebem um nome próprio em iorubá. “Quando a gente se inicia, a gente está nascendo de novo, está nascendo para o orixá. Então todo mundo que nasce ganha um nome em iorubá” (CAMARGO, 2020). [Gravação. Aula/entrevista. São José, 03/06/2020].

184 Segundo o ogã alabê Willian Camargo, no Terreiro do Pai Edenilson, as equedes também são chamadas de iarobás (CAMARGO, 2020) [Anotação. Aula/entrevista. São José, 01/07/2020]. 185 Termo muito empregado no Terreiro do Pai Jean e nos terreiros dos seus filhos de santo.

186 Relatos obtidos no meio de rituais no Terreiro do Pai Jean e no Terreiro de Mãe Emília, respectivamente.

187 [Gravação. Aula/entrevista realizada no dia 01/07/2020].

ebomi. Portanto, é do grupo dos ebomis que surgem os babalorixás e ialorixás. Por

outro lado, se o homem não for “rodante” ele fará parte do grupo dos ogãs; e se a mulher recém-iniciada também não “virar no santo” ela será uma das equedes. É do grupo dos ogãs que saem os percussionistas que tocam nos atabaques e no gã.

As equedes ou ekédis são consideradas como a “segunda pessoa, aquela que está junto, próximo; figura feminina que não entra em transe e, por isso, exerce atividades189 para atender os orixás e a casa” (BRANDÃO, 2015, p.54); são as auxiliares “das filhas de santo em transe, amparando-as para que não caiam, enxugando-lhes o suor, levando-as à camarinha para vestir a roupa do orixá” (CACCIATORE, 1977, p.109). Em relação ao fato da equede ser a “segunda pessoa”, podemos apontar aqui para uma representação simbólica do orixá Exu. É bom lembrar que Exu é o orixá acompanhante, que para todo orixá há um Exu e que ele está presente nos dois lados, masculino e feminino. Veremos adiante como o simbolismo de Exu se reflete na música dos atabaques.

Ainda no que concerne ao ebomi, este é um termo nativo que é usado para homens e mulheres com mais de sete anos de “idade de santo”. Como já foi dito, no caso dos ogãs e equedes, estas categorias são consideradas como “nascidas” com sete anos de iniciação. Portanto, ogãs e equedes não passam pelo período iniciático de iaô, mas somente pelo de abiã. Conforme explica o ogã alabê Willian, a palavra

ebomi significa o mais velho e por isso ela foi adotada no candomblé ketu para

designar as pessoas com mais de “sete anos”; mas pode também ser usada quando uma pessoa é mais “velha” do que outra, mesmo que a diferença entre elas seja de um dia de iniciação, ou seja, “quem fez santo hoje, chama de ebomi quem fez santo ontem” (CAMARGO, 2020190).

Esta pequena diferença de tempo de iniciação é muito comum acontecer na realização do “barco de iaôs”. “O “barco de iaôs” é um conjunto de abiãs se

sentem no chão durante algumas atividades, uma regra que está relacionada a hierarquia. Segundo o babalorixá Jean Ty Onìrá, os iaôs representam as crianças, os novatos, e por isso eles sentam no chão em sinal de respeito e de humildade. Além disso, esta postura é uma forma de comunicação visual, pois pessoas iniciadas “de fora” saberiam identificar quem são os “mais velhos” e os “mais novos” (SILVA, 2018) [Anotação. Sessão de doutrina: Amalá para Xangô. Itajaí, 10/10/2018]. 189 Segundo o babalorixá Jean Ty Onìrá existe diversos tipos de cargos de ogãs e equedes, como por

exemplo tem a equede que é responsável pela esteira, a que cuida da alimentação, etc. (SILVA, 2019) [Anotação. Ensaio de xirê. Itajaí, 06/11/2019]. Para a Equede Sinha (Brandão, 2015, p.54) a

iarubá é a equede que cuida da esteira e ialabaqué é a que cuida da alimentação do iniciado em

fase de obrigação.

preparando para a sua iniciação. [...] Muitas vezes, conforme cada Axé191, todos ficarão confinados ao mesmo tempo e no mesmo local e passarão a ser chamados de “irmãos-de-barco”” (MAURÍCIO, 2009, p.76). Inclusive, na entrada da propriedade do Terreiro da Casa Branca existe um monumento em homenagem as mães ancestrais chamado de o Barco de Oxum. Segundo a Equede Sinha, equede do Terreiro da Casa Branca, “o Barco de Oxum é a representação da nossa vinda da África” (BRANDÃO, 2015, p.96).

Durante o processo de confinamento do “barco de iaôs”, embora possa haver muitas pessoas192 recolhidas simultaneamente, o “nascimento” dos iaôs seguirá uma ordem pré-estabelecida. O ogã alabê Willian explica que “a ordem é de quem virou primeiro e normalmente é a ordem193 do xirê, porque a gente respeita essa ordem” (CAMARGO, 2020194). Esta hierarquia na “descida” dos orixás determina um conjunto de nomes utilizados durante a “fase de iaô”195. Segundo Odé Kileuy e Vera de Oxaguiã (MAURÍCIO, 2009, p.77), a ordem dos nomes é a seguinte: dofono, dofonitinho, fomo, fomotinho, gamo, gamotinho, vimo, vimotinho,

gremo, gremotinho, timo e timotinho.

Para o ogã alabê Willian, no Terreiro do Pai Edenilson, em Santa Catarina, há uma pequena variação na sequência acima, como segue: “a gente usa dofono,

dofonitinho ou dofonitinha, gamo, gamotinho, fomo, fomotinho, vimo e vimotinho”

(CAMARGO, 2020196). Além disso, ele informa que havendo duas pessoas com o mesmo tipo de orixá, a “idade da entidade” influenciará na sequência destes nomes, sendo sempre primeiro o orixá mais velho: “se a pessoa é de Ogum197, normalmente ela é dofona, mas se tiver mais de um Ogum, aí é o jogo de búzios que vai falar qual é o Ogum mais velho, tipo Oxalufan e Oxaguian; Oxalufan, o Oxalá mais velho;

Oxaguian, o Oxalá novo” (CAMARGO, 2020198).

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191 Casa religiosa.

192 Por exemplo, conforme o ogã alabê Peterson, na terceira semana de abril de 2019, no Terreiro do Pai Jean havia dez pessoas recolhidas para a feitura de santo, além de outras quatro pessoas para outros tipos de obrigações (SILVA, 2019). [Anotação. Conversa informal. Terreiro do Pai Jean: parte externa, calçada. Itajaí, 18/04/2019].

193 Neste caso a ordem dos orixás no xirê.

194 [Gravação. Aula/entrevista. São José, dia 01/07/2020].

195 Depois dessa fase, quando passam para ebomi, esses nomes não são mais utilizados (CAMARGO, 2020). [Anotação. Aula/entrevista. São José, dia 01/07/2020].

196 [Gravação. Aula/entrevista. São José, dia 08/07/2020]. 197 Ogum é o primeiro orixá celebrado no xirê.