1. Plano individual de readaptação
1.2 Considerações
A primeira consideração que importa efetuar é que o plano referido anteriormente deve ser elaborado para todos os delinquentes a que se aplique uma PRI, ou seja, independentemente da duração da pena e da modalidade de PRI que se aplique (delinquentes por tendência, alcoólicos e equiparados, ou por incêndio florestal) tem que se realizar obrigatoriamente este plano. Não estando expressamente prevista na lei alguma exceção que possibilite a não realização do mesmo.
A segunda consideração a efetuar consiste em assinalar que o sucesso e êxito do plano individual de readaptação depende de duas premissas: 1º conhecimento individualizado de cada delinquente; 2º necessidade de o recluso concordar com o plano que lhe vai ser aplicado (ANABELA RORDRIGUES: 1983 (1), 300-309 e JOÃO OSÓRIO: 2010, 123).
Relativamente ao conhecimento individualizado de cada delinquente importa referir que, em regra, quanto melhor for a caraterização do delinquente, melhor ocorrerá a elaboração do plano capaz de suprir as necessidades concretas e específicas desse delinquente. Realçamos ainda que o plano deve ser orientado e refletir as necessidades inerentes a cada modalidade de PRI que é aplicada107, na medida em que estamos perante delinquentes por tendência, alcoólicos ou equiparados ou por incêndio florestal “(…) em que a «inimizade» para com o Direito se encontra enraizada no próprio carácter do indivíduo” (JOÃO OSÓRIO: 2010, 123) e em que a execução da pena ocorre no sentido de eliminação ou neutralização dos comportamentos criminosos ou aditivos ou da reiteração na prática do crime de incêndio florestal. O plano é da responsabilidade da administração penitenciária dado que é esta que tem de identificar os problemas e as
107 Como nota e bem JOSÉ QUARESMA: 2014, 58: “Reinserir afirma-se uma tarefa difícil e que depende, em primeira linha, da intervenção do próprio recluso (…). Mas, para além disso, seria necessário, atenta a consistência penitenciária (marcada por percursos derivados do fracasso escolar, pela escassa qualificação profissional, pela toxicodependência, pelo alcoolismo, pelas perturbações do foro psiquiátrico), proceder a uma efetiva abordagem casuística do recluso, avaliando as suas reais necessidades, envolvendo essa tarefa meios humanos e alocação de verbas consideráveis”.
95 possíveis soluções. A administração penitenciária e todo o pessoal penitenciário108 devem colaborar ao longo da execução da pena de forma ativa no cumprimento deste plano, nomeadamente disponibilizando as condições materiais e psicológicas necessárias à sua concretização. Os técnicos responsáveis pelo acompanhamento da execução da pena do delinquente têm um papel muito importante no progresso da reinserção social deste. Todavia, os técnicos estão proibidos de conduzir a vida do delinquente no que ultrapasse os limites colocados pelo plano. Na função de aconselhamento que lhes compete, têm que se conter nos limites da legalidade impostos pelo plano (FIGUEIREDO DIAS: 2011, 406- 407).
Quanto à necessidade de o delinquente concordar com o plano que lhe vai ser aplicado, tem sido discutido pela doutrina se, quando a lei consagrou na última parte do n.º 1 do artigo 89º do CP a fórmula «sempre que possível com a sua concordância», admitiu a possibilidade de a reinserção social ou o tratamento ser efetuado de forma coerciva, visto que parece prescindir da sua concordância quando a mesma não for possível.
Sobre o problema da ideologia do tratamento, seguimos a posição maioritária da doutrina e entendemos que não se pode impor coativamente um tratamento a um delinquente (EDUARDO CORREIA: 1983 (1), 7-15; FIGUEIREDO DIAS: 2011, 404; ANABELA RODRIGUES: 1983 (1), 309; ANABELA RODRIGUES: 1983 (2),175-204; ALMEIDA COSTA:1989, 450-451; CARLOTA ALMEIDA: 1996, 124)109. Antes de mais, interessa compreender que a imposição coerciva de um tratamento a um delinquente é incompatível com o Estado de Direito Democrático (artigo 2º da CRP). O Estado oferece ajuda não coativa ao delinquente através da elaboração do plano individual de readaptação, que tem como objetivo torná-lo capaz de não voltar a cometer crimes, e não de o obrigar ou impor que se comporte de determinada maneira que é “aceite” como correta pelo Estado, dada a liberdade humana individual que é intrínseca de cada
108 “Mesmo a nível do pessoal de vigilância (…) se fomenta uma atuação que contribua positivamente para o processo de reinserção social do delinquente. Entretanto, e do mesmo passo, reforça-se a necessidade de o Estado criar as condições necessárias, não só à criteriosa selecção dos funcionários mas também, e sobretudo, à sua cuidadosa preparação técnica”. Cfr. ANABELA RODRIGUES: 1983 (1), 300.
109 Em sentido contrário, pronuncia-se PINTO DE ALBUQUERQUE nomeadamente quando refere que, embora o tribunal ou os serviços de reinserção social devam sempre ouvir o condenado acerca do plano que irá ser aplicado, isto não obsta a que, caso o tribunal não consiga obter o acordo do condenado, esse plano não possa imposto sem a concordância do delinquente. Cfr. PINTO DE ALBUQUERQUE: 2015, 403.
96 indivíduo110. Como nota CARLOTA ALMEIDA, “(…) parece existir uma grande distância entre oferecer ao delinquente meios para uma reintegração bem sucedida e a imposição de planos individuais que mais não visam do que corrigir as suas características consideradas negativas e moldá-lo até atingir uma forma «aceitável»”(CARLOTA ALMEIDA: 1996, 29)111. Logo, concluímos que existe um Direito de tratamento e não um dever de tratamento, por parte do condenado em PRI. Embora o Estado esteja obrigado a facultar a possibilidade de tratamento ao delinquente especialmente perigoso, pois só assim se legitima a aplicação de uma PRI e se atua conforme a ideia de solidariedade112, o Estado não pode obrigar o delinquente especialmente perigoso a reabilitar-se, tratar-se, corrigir-se e emendar-se de modo a não cometer crimes. Aliás, observe-se que, se um delinquente não colaborar de forma ativa e voluntária, o plano nunca terá êxito, pois cabe unicamente ao delinquente dentro da sua liberdade individual decidir intrinsecamente se quer receber ajuda e consequentemente deixar de cometer crimes. Caso um delinquente não queira receber ajuda ou auxílio para se tratar, recuperar ou reabilitar, isso será um problema que transcende o Estado e a Sociedade “(…) e dá aos delinquentes ou marginais que a recusem um «triste direito de ser diferente»” (EDUARDO CORREIA: 1983 (1), 15). Indo mais longe, podemos concluir que de nada vale impor coercivamente um plano, se pensarmos que o mesmo até pode resultar em “uma boa conduta prisional” mas isso “pode não significar uma real reinserção social” (ANABELA RODRIGUES: 1983 (1), 308 e EDWIN H. SUTHERLAND/DONALD R. CRESSEY: 1978, 560), pois, quando o delinquente se encontrar em liberdade, terá mais uma vez de escolher se quer usar as ferramentas que lhe foram ensinadas para não praticar mais crimes ou se o continuará a fazer. Isto é, o êxito do plano individual de readaptação e da reinserção social do delinquente especialmente perigoso depende sempre em última instância da atitude interna do mesmo em aproveitar ou não as ferramentas e a ajuda que o Estado lhe oferece de forma não coativa. Concluímos assim que, mesmo quando o
110 A liberdade humana individual, nomeadamente a liberdade de autodeterminação fundamentada na dignidade da pessoa humana, permite que cada delinquente possa decidir e escolher se quer atuar em conformidade com o Direito ou contra ele. CARLOTA ALMEIDA:1996, 24-33 afirma que obrigar um delinquente a um plano é tratar sem respeito a especificidade de cada indivíduo e o seu modo de estar no mundo, tentando recolocar nos padrões da sociedade todos o que escapam à norma. Traduzindo isto a arrogância de “«se não pensa como eu, não sabe pensar»”.
111 Esta autora vai ainda mais longe e, citando ROXIN, questiona: “«onde obtemos o direito de educar e submeter a tratamento pessoas adultas, contra a sua vontade?”. Cfr. CARLOTA ALMEIDA: 1996, 29. 112 A ideia de solidariedade baseia-se no dever de cada um e da sociedade ativamente colaborarem na regeneração e na recuperação dos delinquentes, que justamente se encontram num particular estado de necessidade e desespero. Cfr. EDUARDO CORREIA: 1983 (1), 15.
97 Estado proporciona as condições necessárias para a ressocialização não coativa, um delinquente só deixará de o ser se efetivamente o desejar.