2 REVISÃO DE LITERATURA E FUNDAMENTOS TEÓRICOS: DIVAGANDO PELO BOSQUE TEÓRICO.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS – “BOSQUES POSSÍVEIS”
5.1 Considerações sobre a hipótese e os objetivos
Através desta pesquisa, pôde-se ver que muito pouco vem mudando na prática educativa: a escola ainda parece um microcosmo, um cenário que divide a cultura adulta, sem nenhuma ligação com esta. Pode-se entrar hoje nas escolas e perceber, em lugares opostos, os humanistas e os cientistas; os artistas e os matemáticos; e os físicos e os intelectuais. Muito pouco se vê o que um tem a ver com o outro. Percebe-se uma fragmentação e um conteúdo disciplinar isolado. Muito pouco foi feito no sentido de se viver ou de se construir uma prática educacional coerente com o modelo científico da atualidade; muito pouco foi agregado à sala de aula: quadro-negro, livro, exposição do professor, todos confinados entre as quatro paredes da sala de aula. O paradigma instrucionista é forte e requer a necessidade de uma reflexão mais aprofundada sobre a situação. Os sujeitos escolares apresentam ainda uma dificuldade em se adaptar a uma nova cultura de trabalho.
A escola ainda convive com uma prática linear; há a prevalência do linear, justificando a postura como mais didática e mais organizada; convive-se dentro de uma cultura de cobrança, de seqüência, de organização e de avaliação. Tudo é pré- determinado, enfatizando-se o controle, abrindo-se espaço para os preconceitos, assumindo-se uma postura autoritária nos métodos e processos, perpetuando-se a ideologia dominante, com concepções tradicionais de ensino. Contudo, o não-linear propicia mais a descoberta e a pesquisa, buscando-se, nas diferentes mídias, programas com amplitude, profundidade e uma saudável dispersão que permitam uma interação significativa com as informações e conhecimentos. A internet é um bom exemplo de mídia que atende a este perfil.
Porém, o olhar para a escola revela, ainda, a coexistência do novo e do velho, gerando um clima de insegurança criado pelas constantes mudanças e incertezas. A
crise paradigmática está instaurada. Todavia, crises significam o fato que é chegada a ocasião de se renovar os instrumentos.
No processo de apropriação da máquina e da tecnologia, pôde-se registrar, durante a pesquisa, duas atitudes: a primeira reativa, e a segunda, interativa. A atitude reativa decorre da necessidade de proteção de sentimentos, buscando a invulnerabilidade diante da ameaça de ser tragado pelo mundo: é preciso apropriar-se da tecnologia para não ser atropelado pela mesma. A segunda atitude – interativa, procura ver na tecnologia uma possibilidade de novas relações com o objeto de conhecimento.
Certas tecnologias (como xérox e computador) são vistas como necessidades apenas para uso administrativo, que podem subsidiar o pedagógico, mas que não representam instrumento algum para o processo de aprendizagem e construção do conhecimento. A informática, quase sempre, é desatrelada dos conteúdos escolares. Os laboratórios de informática não representam extensão das salas de aulas, que continuam as mesmas: tradicionais, transmissivas e com pouco espaço para a criatividade.
A perspectiva racionalista ainda é forte dentro das escolas, com um determinismo mensurável e visão de um universo linearmente concebido. Ao lado do controle rígido, impõe-se um sistema paternalista, hierárquico, autoritário e dogmático, parecendo não se perceber as mudanças ao redor. Observa-se, pois, a fragmentação dos conteúdos, a divisão em partes, a apresentação de fatos isolados em aulas expositivas. Exercícios de fixação, cópias, leituras, horários e currículos rígidos, predeterminados e padronizados são características dos rituais que ainda se perpetuam dentro das escolas. Somam-se a estas características, uma avaliação certificadora, excludente e selecionadora, com normas disciplinares rígidas de submissão e obediência.
Não se nega a importância de se disponibilizarem recursos diferentes e diversificados, até porque se acredita que haja diferentes formas de aprender: aprendizes diferentes exigem formas diferentes de ensinar, com uma variedade de recursos que possa atender às pessoas em suas formas pessoais de entender. A preocupação aqui é com a interatividade: em que medida o uso da tecnologia está possibilitando uma melhoria dos processos cognitivos dos alunos, de sua capacidade de pensar? A tecnologia é algo que vem para acrescentar, não para mudar.
Ensinar não pode ser entendido como reproduzir informações, e, sim, desenvolver habilidades de percepção e criatividade. Vive-se hoje uma nova relação com o espaço, que projeta reflexos no ensino e na vivência prática das pessoas. Torna-se necessário trabalhar a consciência e a explicitação de novos valores e novos princípios, extrapolando o conceito de aula. Este conceito implica transformar a sala de aula em um ambiente de pesquisa, em ponto de troca e comunicação. Isto pode tornar a aula muito mais interessante.
O princípio da interatividade propicia a reflexão: mudou a relação da escola com os meios de comunicação? Verificou-se, nesta pesquisa, que o livro didático é uma tecnologia aceita e dominada pelos professores. Mas é preciso ampliar este instrumento. Pode-se, em sala de aula, discutir criticamente as novelas ou um filme; pode-se apropriar de recursos como TV, CDs, computador, ou mesmo um painel, um cartaz ou uma gravura de jornal ou revista. Novo ou velho, o importante é a relação interativa que se pode estabelecer com o artefato tecnológico. Ainda hoje, a concepção que se tem é a de que o professor é o provedor do conhecimento. A inovação vista nas escolas prende-se e caracteriza-se unicamente pela natureza material da tecnologia: ter ou não ter, esta não é a questão. A inovação está na qualidade das relações produzidas com a tecnologia, fazendo da sala de aula um ambiente inovador, que garanta o desenvolvimento saudável e profícuo dos seus ocupantes.
Apesar das restrições nas concepções sobre tecnologia, os professores reconhecem a sua importância e convivem ela mesma dentro ou fora dos ambientes
escolares e, de alguma forma, isto se reflete em seu fazer; mas ainda falta um projeto coletivo que dê legitimidade às práticas, numa perspectiva institucional e interdisciplinar de apropriação e uso. Prevalece uma postura de trabalho centrada no professor, embora existam experiências e dados apontando mudanças e novas possibilidades. Contudo, “a novidade sempre emerge com dificuldade”, a qual se manifesta através de uma resistência, até a tomada de consciência através da apropriação das “categorias conceituais”; até que “o que inicialmente era considerado anômalo se converta no previsto” (KUHN, 2000:91).
O avanço claudicante do novo, nos termos em que Kuhn (idem) aponta acima, revela uma necessidade premente de formação dos professores. A ciência e a tecnologia modernas alteram fundamentalmente a maneira de viver e de pensar do homem contemporâneo; logo, é preciso ampliar o conceito de educação e investir mais nas pessoas, nas relações e menos em coisas. O homem deve estar acima da tecnologia, e a tecnologia deve vir a serviço do homem. Mais do que nunca, hoje se lida com o virtual e é preciso ter consciência de que “a virtualização reinventa uma cultura nômade, não por uma volta à era paleolítica, nem às antigas civilizações de pastores, mas fazendo surgir um meio de interações sociais em que as relações se reconfiguram com um mínimo de inércia” (LEVY, 1996:21). Embora devagar, que não seja desanimador: a escola e seus sujeitos são protetores e transportadores de valores dignos e da ética, no processo de defesa e construção da história e do conhecimento; não sozinhos, mas apelando para a comunidade, a família ou a sociedade como um todo.