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4.1 O CORPUS SOB A PERSPECTIVA DO GÊNERO DO DISCURSO

4.1.1 Considerações sobre a intertextualidade no corpus

Diante da possibilidade — esta que se nos avista — da ocorrência de ―texto misto‖ em termos de gênero, Fairclough (2003, p. 68) indica a intertextualidade como critério delimitador do gênero discursivo (v.g. o gênero jornalístico, em que a intertextualidade manifesta favorece a ―distribuição entre as vozes autorais e as vozes atribu das‖). Como se pôde observar na exposição Parlamento e Democracia, muitos são os relatos diretos, as citações diretas das falas, mas há textos e imagens de autoria da instituição Câmara dos Deputados, por meio de sua Secretaria de Comunicação Social. E, de resto, toda a composição é de autoria deste órgão.

Nesta busca pelo enquadramento de gênero, imperiosa se faz a verificação e o emiuçamento desse caráter interdiscursivo do texto, ou seja, uma mistura particular de gêneros, discursos e estilos realizados na semântica, na gramática, no léxico.

Assim, busca-se neste ponto, inicialmente, responder à pergunta proposta por Fairclough (2003, p. 64) para a análise da intertextualidade: quais textos e vozes são incluídos? Que ausências significantes há? E, acrescentamos, por que foram incluídas ou excluídas esses textos e essas vozes?

Vale notar que todos os textos internos do folder constituem-se de incorporações de outras vozes, algumas mais recentes, outras bem antigas. Mas todas guardam em comum o

pensamento registrado de personalidades com alguma relevância histórica, e suas manifestações trasladadas apresentam coincidência temática: a democracia, o Parlamento, e os perigos que os rondam.

Todas se expressam em relato direto (Fairclough, 2003, p. 67), ou seja, há a citação das palavras realmente usadas pelos oradores, nominalmente citados. O verbo dicendi se faz representar pelos balões desenhados, que unem os oradores às suas falas, como já mencionado. A dialogicidade ampla caracteriza o texto, pela forte marcação da diferença (o implícito dificulta a dialogicidade e a crítica).

Conforme já se mencionou acima, um dos inimigos da democracia — neste caso, a oposição é óbvia — são os regimes ditatoriais e seus defensores. Contudo, o outro adversário, em relação ao qual o cidadão precisa manter-se alerta, segundo a exposição e o folder, é aquele que se personifica no Poder Executivo. Às vezes citado textualmente, outras vezes tratado como ―governo‖, nunca porém se revela escancarado como alvo de cr tica e oposição.

Mas, se algum inimigo oculta-se em estratégias discursivas de dissimulação ou deslocamento, na totalidade das manifestações os autores encontram-se devidamente nominados e contextualizados historicamente (data de nascimento e morte), teleologicamente irmanados e jungidos na defesa do regime democrático e, por extensão, do próprio Parlamento. Recorre-se à autoridade histórica destas personalidades para, em suas palavras, ver fortalecida a legitimidade e a condição de imprescindibilidade ou indispensabilidade do Poder Legislativo.

Trata-se da busca pela legitimação de um poder sob questionamento, sob a mira de grandiosas e não totalmente compreendidas manifestações populares, que se materializaram e ainda se materializam nas ruas e nas redes. Do que se vem depreendendo desta análise linguístico-semiótica, a exposição Parlamento e Democracia manifesta e concretiza — de forma bastante impactante, forte, enérgica — os esforços envidados pela Casa do Povo para manter uma identidade com o cidadão comum que a conforma, ao mesmo tempo em que se quer demonstrar altaneira e orgulhosa por ser agregadora de homens de elevada honra e estirpe.

Poder-se-ia dizer que se trata de contradição ou ambivalência. Contudo, neste movimento pendular de busca por identificação e simultânea afirmação de autoridade — note- se a presença absoluta dos argumentos de autoridade —, de aproximação e de afastamento,

constrói-se a coerência na prática discursiva: a de uma instituição que guarda em sua própria essência, que é a democracia, a sua maior limitação discursiva. Aquilo que a compõe é, a um só tempo, aquilo que a constrange.

Ao teorizarem o processo político e as noções de hegemonia, Laclau e Mouffer (1985 apud Fairclough, 2003, p. 144) indicam esse trabalho simultâneo de duas lógicas diferentes: a lógica da diferença, que cria distinções e divisões; e a lógica da equivalência, que subverte a existência de segmentações.

Em verdade, ainda neste ponto se apresenta bastante complexo e heterogêneo o objeto de estudo, a começar pelo enquadramento genérico da exposição histórica e dos textos que a compõem. Mas para Fairclough (2001, p. 137) o exame da intertextualidade implica justamente a ênfase nessa heterogeneidade, que demanda um modo de an lise ―que ressalta os elementos e as linhas diversos e frequentemente contraditórios que contribuem para compor um texto‖.

Daí porque não se pode estreitar ou adstringir o exame crítico. Este descreve, explica, interpreta e reinterpreta. Nesse sentido, em coment rio às ―formaç es discursivas‖ de Pêcheux, Fairclough (2001, p. 56) aduz:

Dada a heterogeneidade constitutiva do discurso, partes específicas de um texto serão frequentemente ambivalentes, pondo questões para os intérpretes sobre as FDs [formações discursivas] mais relevantes para a sua interpretação e, como observa Pêcheux em um de seus últimos trabalhos (1988), conferindo à análise de discurso o caráter de uma disciplina interpretativa e não diretamente descritiva.

Coaduna-se tal pensamento com a hermenêutica de profundidade proposta por Thompson (1995), que propõe como último passo metodológico a interpretação e reinterpretação das formas simbólicas. Este é outro viés do exame, a identificação e interpretação dos modos de operação da ideologia, sem perder de vista a persecução maior do estudo: a definição do gênero do discurso.

Mas o foco ajusta-se também sobre os recursos semióticos do modo visual, a fim de se integralizar e consolidar a análise multimodal, o que se dá por meio da aplicação do princípio

que, por ser o coração da análise, encontra-se nela de modo onipresente: a aplicação do princípio de integração dos recursos semióticos (dos modos escrito e imagético, no caso). Por meio desse procedimento, intenta-se maior aproximação ao sentido global do texto sob exame.

Considerando a heterogeneidade constitutiva do discurso, e por não pretender este estudo adstringir-se a um apenas arcabouço teórico-metodológico, prosseguimos este exame de corpus desta maneira, integrada, jungindo as orientações doutrinárias que, afinal, tangenciam-se, em alguma zona da interdiscursividade. O fio condutor desta análise, portanto, é a intertextualidade. E, concomitante e complementarmente, analisam-se os modos de operação da ideologia, por meio da identificação de estratégias típicas de construção simbólica (THOMPSON, 1995). Enfim, vai-se exaurindo aos poucos a análise linguística multimodal proposta, por meio do desvendar dos significados construídos pelos recursos semióticos visuais selecionados pelo sign-maker para a composição do folder. Não se implementa a análise, portanto, de forma estanque, por se entender que a heterogeneidade dos textos clama e justifica a heterogeneidade do método.

Escoimando daqui e dali as partes menos eloquentes para o desvendar do sentido ideológico do texto (conforme a "seleção criterial" desta pesquisadora), atenta-se aos modos semióticos vários que compõem os textos nos modos escrito e visual.

Relembrada a integração dos procedimentos de trabalho, retomamos a análise propriamente dita.