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Considerações sobre a leitura de documentos

Design de bula de medicamentos

2.1 A estrutura gráfica e informacional para documentos textuais

2.1.3 Considerações sobre a leitura de documentos

Há alguns fatores que influenciam na receptividade do documento pelo leitor e na efetividade da comunicação, como, diferenças do nível de conhecimento,

habilidades do leitor para a execução de ações, a relevância do assunto para o leitor (Wright, 1999; Spinillo, 2002).

Portanto, é importante, segundo Schriver (1997) que além da observação do usuário, o profissional de design deve munir-se de uma retórica suficiente para ser capaz de decidir sobre o que seu leitor necessita.

Ao ler um documento instrucional o leitor busca informações que o auxiliarão na montagem de um aparelho, ou, no uso de um medicamento. Wright (1999b) designa esta ação como atividade de leitura e a divide em três categorias: a) a busca por informações relevantes, b) o entendimento e a memorização do que foi lido; e c) a aplicação do conhecimento obtido pela leitura.

A relevância da informação dependerá do tipo de produto ou documento (aparelho eletroeletrônico, manual, bula); o objetivo da informação (auxiliar no uso de um aparelho ou de um medicamento), o contexto (em quais condições o documento será usado), as necessidades do leitor (fazer com que um aparelho funcione, ou, na ação de tomar um medicamento corretamente). Todos estes fatores influenciarão na receptividade do leitor frente ao documento e terão reflexos sobre a responsabilidade do designer ao desenvolvê-lo.

As questões sócio-culturais também são vistas por Wright (1999), como decisivas para a boa comunicação das informações. Ela diz que:

“as diferenças no domínio do conhecimento e na habilidade de resolução de problemas influenciam na interpretação e aceitação das instruções pelas pessoas. Uma das coisas que o designer precisa saber é se a sua questão é relevante para o leitor.” (WRIGHT, 1999, p.47).

Com relação à aplicação do conhecimento obtido pela leitura, é preciso considerar a possibilidade de que o leitor pode, deliberadamente, não seguir as instruções e não aplicar o que leu, ou aplicar parcialmente, tomando para si a responsabilidade de seu ato. Mesmo sendo desde a montagem incorreta de um móvel ao uso incorreto de um medicamento. O usuário/leitor também pode descobrir um novo modo de montar o móvel e isto pode ser positivo. Já, com relação ao uso do medicamento o risco de sua atitude pode ser o prejuízo à saúde.

Caso ocorra insucesso na aplicação da informação depois de seguir as

instruções, o usuário/leitor poderá se frustrar e abandonar o documento. Algumas precauções podem ser tomadas para que isto seja evitado, como se verifica nas palavras de Wright (1999):

“Uma maneira importante é testar em si mesmo os procedimentos para detectar erros dos leitores. Sabe-se que instruções podem falhar quando escritores não fazem parte do processo de design de um produto. O erro do escritor aqui pode ser fatal. Os usuários precisam de informações precisas, corretas e através de pesquisa pode-se chegar a respostas para as questões ‘por que’, e ‘como’ dar este suporte, assim se saberá

‘quando’ e ‘o que’ escrever”. (WRIGHT, 1999, p.50)15.

A postura tomada neste estudo é a de que o designer/emissor desenvolva um trabalho integrado ao usuário/receptor como participante do processo de

desenvolvimento do documento. Busca-se assim um documento final que seja compreensível, de fácil leitura e motivador para o usuário (Schriver, 2006), no intuito de evitar uma relação assimétrica entre emissor e receptor. Desta mesma maneira, com o leitor participante do processo de design, evita-se o

designer/emissor numa postura de controlador da interação.

No processo de comunicação entre designer, documento e leitor, a usabilidade do documento é fator preponderante. Ressalta-se aqui que é na integração entre informação, leitor e designer, que se dá a leitura eficaz do documento e, portanto, sua usabilidade. Waarde expõe:

15 Tradução livre do original em inglês.

“(...) a relação entre o conteúdo informacional pretendido e a apresentação gráfica pode ser chamada de ‘harmonia’. Este processo é contrariado quando o suplemento é usado. O usuário olha a um

suplemento e pode extrair a informação dali. A relação entre a apresentação gráfica e o uso do suplemento, pode ser chamada de

‘usabilidade’” (WAARDE, 2006, p.45).

A informação precisa ser entendida e memorizada para que o usuário obtenha sucesso na sua aplicação. Relembrando que para que isto ocorra é fundamental uma estrutura gráfica e informacional alinhados às necessidades do usuário/leitor.

Nem sempre é possível ter o conhecimento exato sobre as características do leitor. No caso de um documento em que o público/leitor é heterogêneo, o texto deve ser adaptado para que atenda às necessidades de uma forma genérica. O mais importante é que se tenha a consciência desta diversidade.

É evidente a complexidade do trabalho de design de documentos. Pode se constatar que a presença de profissionais especializados não garante o sucesso da comunicação (Schriver, 1997; Wright, 1999). Torna-se evidente, também, a

necessidade de que sejam realizados testes de usabilidade em estudos experimentais, para que ocorra a verdadeira interação entre usuário/leitor, documentos e designer (Wright, 1999; Schriver, 2006).

A organização do texto em documentos instrucionais, sua apresentação gráfica e informacional, são essenciais para a eficácia deste documento diante do usuário.

A leitura de um documento pode ser mais extenuante do que o necessário, caso este não apresente um bom design.

No caso do uso de medicamentos os problemas relativos a estes fatores podem se agravar, pois, a conseqüência do mau uso do documento pode ser o prejuízo à saúde do leitor/usuário. O design de bulas segue regras específicas, pois, seu conteúdo e forma são diferenciados. O design de bulas tem sido negligenciado e necessita de atenção sob vários aspectos, inclusive sobre a responsabilidade dos emissores da informação.

No próximo tópico desse estudo será abordado o design de documentos com foco na estrutura gráfica e informacional do texto para bulas de medicamentos.

2.2 A estrutura gráfica e informacional do texto para bulas de