CAPÍTULO VIII – BRASIL
VIII. 4.2 – Considerações sobre a Proposta de PNC
A definição de óleo, apresentada no Art 2º, como petróleo e derivados e toda mistura de água e óleo em qualquer proporção, impossibilita a classificação de incidentes por volume derramado, pois seria dado igual tratamento a misturas com potencial de danos muito discrepantes. Por exemplo, se fosse adotada a classificação da ITOPF, um vazamento de 100 m³ de óleo cru seria classificado como médio; e uma descarga de 1.000 m³ de água contaminada com óleo a 20 ppm seria considerada um grande derramamento, embora contivesse apenas 20 litros, ou seja, 0,02 m³ de óleo. Cabe ressaltar que, embora adotada em outros países, a classificação de incidentes por volume derramado é apenas parcialmente útil pois a relevância dos incidentes
depende de diversos fatores e não somente da quantidade. Pela definição adotada a única escolha coerente seria a adoção do conceito de carga poluidora, inviável na prática, haja vista que mesmo as informações de volume derramado quase nunca são precisas. Nos EUA este problema foi resolvido com a lei1 que proíbe a descarga de
misturas que provoquem iridescência nas águas onde são lançadas.
Pela redação do Art. 3º foram melhoradas as definições de águas interiores e marítimas adotadas na Lei 9.966/2000. Das águas interiores foram retiradas as águas dos arquipélagos. Esta eliminação fez-se necessária, pois o IBAMA seria Coordenador Setorial responsável pelo acompanhamento de incidentes nestas águas, que na maior parte das vezes se situam além da linha de base reta ou de baixa-mar. Na definição de águas marítimas foram explicitadas as águas do Mar Territorial, as da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) e as sobrejacentes à Plataforma Continental, quando esta ultrapassar os limites da ZEE.
São determinadas, pelo Art. 13, as instituições a serem comunicadas, mas não são apresentados os locais e meios de comunicação. Dever-se-ia apresentar um anexo com informações para contato ou, melhor ainda, poderia ser estabelecido um centro único de recebimento de comunicações de incidentes, que repassasse as informações aos atores determinados. Cabe ressaltar que um centro único para recebimento de informações eliminaria dúvidas quanto à necessidade de comunicação ao órgão estadual ou federal de meio ambiente, Comando da Marinha ou Capitania dos Portos ou Fluviais.
O item III do Art. 23 indica que o SISNOLEO deve ser um Sistema de Informações, com acesso em tempo real e que tenha capacidade de coletar, analisar, gerir e disseminar informações relevantes. Melhor seria indicar capacidade de receber, organizar, repassar e disponibilizar estas informações, haja vista que um banco de dados não coleta, analisa, gerencia ou dissemina informações. Cabe ressaltar que para garantir a implantação deste sistema, no prazo de 18 meses estabelecido pelo Art. 28, existe em elaboração pelo Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente (LIMA), da COPPE/UFRJ, uma proposta de desenvolvimento do SISNOLEO, no âmbito de um Convênio com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) com a Fundação COPPETEC.
O item XI do Art. 7º da proposta demonstra que se espera que um potencial poluidor deve responder a incidentes de origem desconhecida, por intermédio dos PA, sem que sejam previstos quaisquer meios de ressarcimento de despesas pelas ações
1 Sheen Act – Lei da Iridescência.
executadas. As despesas de combate a manchas-órfãs, previstas para serem efetuadas pelos PA, têm ressarcimento complicado, especialmente nos casos em que não tiverem fonte fixa posteriormente identificada ou forem provenientes de navios. Para os incidentes com origem em uma das instalações da área de cobertura de um PA o ajuste de contas pode ser feito no âmbito interno do Comitê de Área.
O prazo de um ano, estabelecido no Art. 24 e contado a partir da data de publicação do Decreto, para que sejam expedidos atos normativos que disciplinem procedimentos necessários ao cumprimento das atribuições e responsabilidades das instituições componentes da Comissão Coordenadora faz antever que o PNC só se encontrará efetivamente implementado em médio prazo.
Pelo estabelecido pelos itens I e II do Art. 23, deve ser ressaltado que como o PNC se baseia nos PEI e PA – de responsabilidade da iniciativa privada – e nos Planos de Ação dos Órgãos Estaduais de Meio Ambiente e dos órgãos públicos federais, estaduais e municipais para o caso de incidentes de poluição por óleo, há que se garantir que todos estes planos sejam bem elaborados e prevejam:
estratégias de resposta para todos os tipos de ações envolvidas e que considerem todas as épocas do ano;
definição de papéis dos diferentes agentes participantes em seus níveis de atuação e transição de tarefas e comando quando da ampliação (ou retração) da resposta e/ou acionamento de planos de nível mais (ou menos) abrangente; exercícios simulados que contemplem situações de acionamento escalonado
ou de imediata atuação de todos os níveis;
procedimentos para exigência de emissão de alerta para níveis superiores quando do acionamento de resposta local; e
estabelecimento de cenários possíveis de incidentes, pois isto facilitaria a determinação de estrutura de resposta a ser mobilizada para cada tipo e magnitude de incidente.
A concepção do planejamento de emergência como uma reunião progressiva de subconjuntos, em que cada nível de planos resulta da consolidação dos planos do nível imediatamente inferior, prevista na Lei 9966/2000, exige que sejam elaborados todos (ou pelo menos alguns) dos planos de emergência de um determinado nível para que se possa iniciar o planejamento no nível seguinte. Sendo assim, somente ao final do processo se chegaria à elaboração do PNC, o que ressalta a inadequação técnica desta concepção .
Urge a definição de áreas a serem cobertas por Planos de Área, de modo que se possa designar Coordenador Operacional para as regiões e que se iniciem os procedimentos de integração com todos os atores envolvidos nos planos e de familiarização com as estruturas e condições das regiões.
Para possibilitar a participação de toda a sociedade, as propostas de alteração do PNC, ao contrário do proposto pelo Art. 35 que restringe esta proposição às instituições do Comitê de Suporte, deveriam ser recebidas, também, de entidades privadas, universidades e setores organizados da sociedade civil. Cabe ressaltar que a discussão ampla do PNC e do sistema de preparo e resposta geraria, como verificado em outros países, maior grau de comprometimento.