Considerando-se que nossa hipótese9 se organiza a partir do conceito de representação, é preciso discutir como o compreendemos para dar suporte à nossa análise. No âmbito da tessitura teórica com a qual trabalhamos, que mobiliza os pontos de aproximação e de tensão entre perspectivas discursiva, desconstrutivista e psicanalíticas, o conceito de representação é tanto central quanto polêmico, já que é passível de diversas abordagens e implicações.
Uma interpretação possível ao termo “representação” se aproxima da ideia de apresentar novamente (re-apresentar) aquilo que não está presente. Essa presentificação do ausente, em alguma medida se aproxima da ideia de adiamento contida na noção derridiana de différance. Porém, o adiamento derridiano implica em que essa presença jamais se consumará, assim, por essa via, representar nunca tornará presente a coisa mesma. Aspecto que permite uma aproximação com a noção psicanalítica de Real (LACAN, 1982) ainda que, para a psicanálise lacaniana, a representação se inscreva no registro do Imaginário, já que Lacan (1968-69 [2008]), em sua (re)leitura do trabalho de Freud, não concebe a representação como algo unificado e ancorado na realidade, mas como uma trama inconsciente que o sujeito constrói através de significantes. No entanto, como discute Andrade (2008), a estrutura dos três registros impede pensá-la isolada do Simbólico e do Real. Assim,
embora as representações girem em torno do imaginário, ou seja, sejam constituídas nesse nível, as imagens são atravessadas pela ordem do simbólico, uma vez que requisitam a mediação da linguagem, que se estabelece para além da relação dual (imaginária) entre o eu e a imagem, incorporando o terceiro elemento que instaura o discurso do Outro (da lei, da imagem paterna, da cultura, da linguagem) no sujeito. Ao tratarmos, pois da concepção de representação neste trabalho, a vinculamos às noções dos registros (ou ordens) propostos por Lacan, pois as representações implicam, por um lado, numa falta originária que remete ao furo do real e, por outro, numa constituição do imaginário como produto dos sistemas simbólicos em que são construídas. Portanto, são de natureza inconsciente e desempenham papel fundamental na construção das subjetividades. (ANDRADE, 2008, p. 110)
9 Apesar da cultura logocêntrica ocidental contrapor ciência e religião como formas antagônicas de conceber o mundo, o discurso da mídia, apropriando-se e transformando diversos outros discursos, constrói representações de ciência que se assemelham às representações de religião.
Assim, nem para psicanálise nem para a desconstrução a representação pode ser tomada sob a noção de equivalência.
Porém, esse afastamento da ideia de equivalência “não é um privilégio da psicanálise” (GOMES, 2008, p. 15), mas está presente também na perspectiva dos Estudos Culturais, particularmente nos trabalhos de Stuart Hall, que situa a linguagem como central para a cultura. Resgatamos essa aproximação porque a relação que Hall (1997a) faz entre linguagem e cultura enlaça outro ponto de convergência entre as vertentes teóricas que mobilizamos: a ruptura com a metodologia estrutural-funcionalista, principalmente por considerar, em seus estudos, a realidade enquanto processo, não enquanto dado. Essa ruptura implica num conceito de representação apoiado na ideia de prática ou construção constante. Para Hall,
Não existe uma relação simples de reflexão, imitação ou correspondência entre a linguagem e o mundo real. O mundo não se reflete com precisão ou de outra forma no espelho da linguagem. A língua não funciona como um espelho. O significado é produzido dentro da linguagem, e através de vários sistemas de representação que, por conveniência, chamamos de "línguas". O significado é produzido pela prática, pelo "trabalho" da representação. (HALL, 1997a).10 [tradução nossa].
Essa concepção de linguagem aproxima o conceito de Hall ao pensamento de Foucault (1972 [1997]), para quem a realidade não é preexistente, mas se constrói nas tramas do discurso, já que
a preocupação com a linguagem que temos em mente aqui refere-se a algo mais amplo — um interesse na linguagem como um termo geral para as práticas de representação, sendo dada à linguagem uma posição privilegiada na construção e circulação do significado (Hall, 1997b).
Ainda que a corrente dos Estudos Culturais se afaste da perspectiva discursiva, principalmente por desconsiderar o inconsciente como constituinte da identidade (ANDRADE, 2008), o conceito de representação constitui-se em um ponto de aproximação importante para nosso trabalho, já que pretendemos discutir as representações de ciência que se constroem nos dizeres do programa Fantástico, o que implica em que não consideramos que o termo ciência
10
There is no simple relationship of reflection, imitation or one-to-one correspondence between language and the real world. The world is not accurately or otherwise reflected in the mirror of language. Language does not work like a mirror. Meaning is produced within language, in and through various representational systems which, for convenience, we call “languages”. Meaning is produced by the practice, the “work”, of representation. (HALL, 1997a).
seja capaz de definir e recobrir completamente uma realidade preexistente. Ao contrário, ante a incompletude da linguagem e a lei do inconsciente, as representações de ciência, como qualquer outra, será sempre uma construção possível em dado momento histórico-social. Assim, compartilhamos com a concepção de que “as representações constituem-se a partir de um imaginário sociocultural (do Outro) que permeia a identidade do sujeito” (ANDRADE, 2008, p. 99). Esse é um dos motivos pelos quais não limitamos nosso corpus a dizeres de cientistas ou de médicos, mas procuramos abordar todas as referências que contribuem para a criação de representações sobre a ciência médica, independentemente de quem as enuncie ou a que interesses atendam.
2. COMO SE CONSTITUI O DISCURSO DA MÍDIA? DISPERSÕES E