Não nos podemos esquecer que cada representação iconográfica de um santo, ou de um acontecimento importante na vida da Igreja, encontra sempre uma correspondência, direta ou indireta, com um relato hagiográfico. Nesse sentido, a contextualização da imaginária processional de vestir, efetua uma conexão ao fenómeno hagiológico e à sua divulgação biográfica, especialmente através dos textos hagiográficos que mencionam a fundação da Ordem Franciscana, já que as caraterizações que suportam esta imaginária, e toda a encenação das procissões de penitência, assentam nestes relatos hagiográficos.
Apesar do caráter monoteísta do cristianismo, a Igreja Católica mantém, desde a Era Apostólica, um forte vínculo identitário com todos aqueles que no berço da cristandade tiveram como missão divina a pregação dos ensinamentos de Jesus Cristo, e que acabaram, na sua maioria, por ser alvo das perseguições infligidas pelo Império Romano. Estes homens e mulheres apresentavam um estado de devoção exclusiva ao “Criador”, pondo em causa a sua própria vida, sendo que esta dedicação, segundo Donald Attwater, provocava uma entrega total dos fiéis à própria causa, ou seja, encontravam-se “consagrados a Deus”218
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O estatuto de “Santo”, nos primórdios do cristianismo, não era encarado como um condição de privilégio atribuída a um determinado indivíduo, mas sim um estado de dedicação e de préstimo coletivo a Deus. Esta situação é definida na Igreja como a Santidade ou Sacralidade, estando grafado na sua forma singular através do vocábulo “santo”, proveniente do epíteto latino sanctus, do grego hagios e do hebraico qâdosh. Este estado de Santidade é entendido pelos primeiros cristãos como uma condição coletiva de
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partilha dos mesmos ideais, estando estas comunidades cristãs designadas como “santos do senhor”219
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A aplicação do termo “santo” como uma qualificação individual dá-se, num primeiro momento, com a tradição do culto aos mártires que haviam sido sacrificados pelo Império Romano por professarem a fé de Cristo. Esta situação provocou entre os primeiros cristãos um conjunto de manifestações de respeito por estes homens e mulheres martirizados, nomeadamente junto dos seus túmulos nas catacumbas, situação que levou à celebração ritual nos aniversários do martírio do santo, estando esta posição condizente com o seguimento dos próprios ensinamentos primitivos expressos na Bíblia, que engrandeciam a veneração dos que haviam “morrido no senhor”: “Cada qual ficará no
lugar da sua escolha em vida. Os que morrem no Senhor gozarão de felicidade eterna”220. Este sentido de respeito é descrito no Apocalipse nos versículos 9 a 11 do capítulo 14, através da expressão “bem-aventurados”, como uma bênção para os que morrem por Cristo e em Cristo. Esta ritualização acabou, entre outras, por incidir nos restos mortais dos santos, criando, ao longo da história da cristandade, uma adoração pelas suas relíquias, em especial durante a Idade Média.
O clima de perseguição e de intolerância imposto à cristandade em todo o território do Império Romano, veio a sofrer o seu desfecho com o Édito de Milão, promulgado a 13 de junho de 313, pelo imperador Constantino (306-337), que teve como resultado um novo ambiente de tolerância e liberdade de culto para com o cristianismo. Esta emancipação criou uma nova forma de integração por parte dos cristãos, que se vão inserir no meio comunitário, assentes nos ensinamentos de Jesus Cristo, designadamente através dos exemplos de vida transmitidos pelas Escrituras Sagradas. A existência de vida religiosa na Roma Antiga de caráter politeísta era obrigatoriamente distinta da desenvolvida pelos cristãos, devido à índole antropomórfica dos seus deuses romanos, que em muitos casos recriavam um enfoque na imperfeição das suas próprias divindades.
Após séculos conturbados de perseguições modifica-se o paradigma da consagração plena, já que a sagração a Deus deixa de ser um exclusivo dos que “morrem com o Senhor”. A forma como os seguidores do cristianismo se passam a relacionar com a
219 Idem, ibidem. 220
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religião altera, passando a existir uma relação de auto entrega a Deus, alicerçada numa fé convicta, mas que busca agora a inspiração divina para combater as tentações do mundo terreno: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso
corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”221.
Nesta perspetiva, uma nova casta de homens religiosos vai procurar no estilo de vida ascético, experimentado no isolamento dos desertos, uma nova feição de confessar a sua fé a Cristo. Estes devotos, denominados de “confessores”, vão repartir o estatuto de santo anteriormente conferido apenas aos mártires, partilhando o direito às honras aplicadas pelos fiéis aos santificados. No decorrer da história do Igreja, nomeadamente na Idade Média, vamos encontrar uma generalização da santidade, que acabou por abranger um conjunto de clérigos seculares, monges, frades e freiras222.
Nos últimos dois mil anos o número de homens e mulheres que foram honrados com a santidade é significativo, atingindo mais de 40 000 os nomes de santos e santas que independentemente de serem mártires ou confessores constam no Martirológio Romano223. A evolução do conceito de santidade é definida na atualidade por Jorge Campos Tavares, no seu “Dicionário de Santos” da seguinte forma:
“Santos são todos os fiéis a quem, após a sua morte, a igreja católica venera, evoca, presta culto e rodeia a memória com honras religiosas.
Considerados como modelares no seu comportamento, são pois, os Santos dignos de gozar a Bem-Aventurança Eterna, ficando assim na posição privilegiada de se situarem reconhecidos entre os Escolhidos.
Os Santos eram inicialmente todos os crentes fervorosos falecidos, muitos deles mártires da sua Crença, que, por suas vidas, obras e milagres, o consenso geral dos outros cristãos designava como merecedores desta forma de reconhecimento e veneração224.”
Da relação de santos que nos é dada a conhecer, junto das fontes martirológicas de grande parte destes, pouco ou nada conhecemos sobre a sua história, bem como do percurso que culminou no seu estatuto de santo, sendo apenas fornecidos dados como a sua 221 Cf. Romanos 12:1 222 Vd. Attwater, 1992: 9-11. 223 Cf. Martirológio Romano. 1748. 224 Cf. Tavares, 2001: 7.
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condição de mártir ou confessor, e o dia em que são glorificados. A autenticidade histórica de muitos destes santos, encontra-se por comprovar em numerosos casos, sendo que em algumas ocorrências, a fronteira entre o mito e a realidade é algo ténue. Com o passar dos séculos a essência da santidade vai sendo gradualmente transformada, existindo a necessidade de conceber critérios para a atribuição da dignidade de pessoa santa. Esta competência passa a ser atribuída através de um processo de natureza jurídica, composto por várias etapas, nas quais o candidato aufere os títulos de Servo de Deus, Venerável, Beato e finalmente Santo.
Com esta evolução de caráter legal, a instauração de um processo de canonização passou para a estrita competência do Sumo Pontífice, cabendo a este o direito de conceder e aprovar, ou não, o grau de santidade225. Segundo o historiador André Vauchez, os processos de canonização vão criar no mundo cristão duas espécies de santos: os que são reconhecidos pela Igreja, tendo a bênção papal, e que passam a constar do calendário litúrgico (santidade oficial), e uma outra categoria de santos, que fazendo parte do ideário popular não se encontram reconhecidos, mas que na maioria dos casos, gozam de veneração por parte popular226.