O final do século XII viu nascer um dos homens mais marcantes da humanidade, que devido à sua “forma de vida” assinalou de maneira preponderante o segundo milénio, influenciando a nossa forma de socialização e o nosso relacionamento com a natureza. O jovem Francisco (c. 1182-1226) – canonizado como S. Francisco de Assis, deixa a vida mundana, proporcionada pelo estatuto de filho de um mercador, para se estabelecer na igreja de São Damião, no ano de 1205, dando início a uma vida consagrada à oração e penitência, acabando por ser responsável, em poucos anos, por um ponto de viragem e um rejuvenescimento inequívoco do cristianismo medieval. S. Francisco de Assis interpretou um retorno da Igreja às suas práticas ancestrais de evangelização, efetuando uma mudança completamente radical nos hábitos de uma sociedade que se encontrava corrompida na sua génese.
Na Alta Idade Média a Europa achava-se movida por convulsões económicas e sociais, que tiveram como consequência, entre outras situações, o florescimento das cidades e o aparecimento da burguesia, constituída por comerciantes e pequenos artífices, que acabariam por questionar os valores instituídos, mormente sobre o caminho e descrédito em que a sociedade eclesiástica viciada se apresentava. No início do século XIII, os movimentos mendicantes, compostos por leigos e clérigos, que se opunham a este conceito de vida até então instituído, vão ser responsáveis pelas primeiras ações de contestação no interior da Igreja. Esta era uma viragem radical, não só nos princípios de evangelização, mas também no que toca à orgânica económica que movia as ordens religiosas até à data21.
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S. Francisco de Assis e o seu contemporâneo S. Domingos de Gusmão (±1221), foram responsáveis por uma nova ideologia, centrada numa evangelização mais interventiva do espetro social, em que a pregação é um veículo para a difusão da sua mensagem, em especial no emergente conjunto urbano.
“Todos os irmãos se esforcem seriamente em praticar boas obras, pois está escrito: “Vê se estás sempre empenhado em praticar alguma boa obra, para que o diabo te encontre ocupado”; e ainda: “A ociosidade é inimiga da alma”. Por isso os servos de Deus devem estar sempre entregues à oração ou a qualquer outra boa obra.”22
Os prossupostos iniciais da forma de vida franciscana, descritos logo na sua Regra não bulada de 1209, apontaram para uma existência dedicada à oração em itinerância, impelida por uma vida em pobreza, que seria suportada pela mendicidade. Este comportamento entrava em contraponto com o modelo vigente até então, o monaquismo, que assentava no paradigma da oração e trabalho “Ora et labora”, combinado num sistema que tinha como forma de sustento a propriedade religiosa coletiva para os clérigos regulares23. Este era, até à data, o formato de vida religiosa por excelência na Igreja medieval, sintetizada pela Regra de S. Bento, que permaneceu até aos dias de hoje como um modelo de referência na maior parte das religiões cristãs e não cristãs24. No entanto, e apesar de não disporem de poder bélico, estas comunidades religiosas tornam-se poderosos instrumentos de senhorialização medieval, pois dominavam a escrita, o que lhes permitia acumular bens de geração para geração e registar sem falhas a lembrança de foros a pagar. Não se esqueciam de guardar os títulos de propriedade e quando era preciso exibiam-nos perante os tribunais, que por norma lhes davam quase sempre razão25. Para o historiador Jacques Le Goff, o ideal de vida promovido por Francisco de Assis tentava encontrar um ponto de equilíbrio entre a vida ativa e a vida contemplativa26.
22 Cf. Os Escritos de São Francisco de Assis:75.
23 Este tipo de organização religiosa adaptada à vivência cristã havia proliferado desde o século IV,
recorrendo a uma diversidade de textos normativos (regula mixta), para assim criarem um conjunto de Regras que serviam, não só de princípios espirituais, mas também como soluções práticas e normativas para os problemas surgidos, em especial junto da vida comunitária. Vd. Fontes, 2006: 51-57.
24 Cf. Matoso, 2006: 37-39. 25
Cf. Idem, 1997: 156.
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S. Francisco de Assis vai confrontar esta realidade social e religiosa através da espiritualidade, elegendo a penitência e o exemplo de Jesus, que exortou os homens a essa mesma penitência, para que abandonem os pecados e se convertam de todo o coração ao Senhor, acabando ele próprio por morrer pelos nossos pecados e ressuscitar para a justificação dos homens27. Nesta perspetiva, os discípulos de Cristo que tivessem pecado deveriam converter-se a Deus, através de uma transformação interior, que englobaria a contrição do pecado, ou seja, a “dor da alma”, como propósito de não pecar mais no futuro, obtendo, deste modo, o acesso ao reino de Cristo28.
Para o historiador Jacques Le Goff, o ideal de vida promovido por Francisco de Assis tentava encontrar um ponto de equilíbrio entre a vida ativa e a vida contemplativa. Para além do plano teológico, Francisco não tinha a verdadeira conceção de um esquema organizativo para divulgar os seus ideais, o que não impediu a criação uma estrutura de irmãos penitentes, que de forma quase impercetível prosperou até à década de 1220. Na sua ideia primitiva não estaria a fundação de uma ordem religiosa, presidindo apenas um verdadeiro espírito de irmandade onde se congregavam todos os seus discípulos. No seu testamento espiritual “Carta a Todos os Fiéis” é feita uma exortação a todos os irmãos e irmãs da penitência29. Este incitamento é dirigido a todos os penitentes, fossem eles laicos ou seus seguidores, que na altura apenas se denominavam como “Penitentes de Assis”30
. Podemos crer que, na sua génese, estaríamos na presença de um grupo de irmãos penitentes errantes, vivendo de forma eremítica, que após as suas viagens de evangelização se reuniam na Porciúncula, ou em outra igreja de Assis 31.
Este grupo seria composto inicialmente por onze jovens, que em 1208 iniciaram um retiro junto da capela dedicada a N.ª Sr.ª da Porciúncula, nos arredores de Assis, exortando à penitência e, simultaneamente, despojando-se de todos os bens materiais, vivendo apenas de esmolas ou dádivas da população. Nesta mesma altura, Francisco escreve uma Formula
27 Cf. Celebração da Penitência, s/d: 15-18. 28
O sacramento da Penitência representa para os cristãos uma conversão interior do coração, que engloba o arrependimento do pecado e o propósito de uma nova vida, que se exprime pela confissão feita à Igreja. A verdadeira conversão completa-se pela consciência do pecado, e ainda pela reparação dos danos. O processo final deste sacramento chega através da absolvição, ou seja, o sinal de Deus, que dá o perdão dos pecados por meio da Igreja, atuando através do ministério dos sacerdotes. Sobre esta temática iminentemente espiritual, consulte-se a Celebração da Penitência, da Conferência Episcopal Portuguesa.
29 A “Carta a Todos os Fiéis”, disponível na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, Província Portuguesa:
http://www.capuchinhos.org/siteantigo/francisco/escritos/cartas/cf.htm
30 Cf. Thompson, 2012: 70-11. 31
Página 38 de 462 Vitae, redigindo um conjunto de normas para uma vida comunitária, e adota a designação
de Fratrum Minorum, do português Irmãos Menores, habitualmente grafado como Frades Menores (1209), para nomear o grupo que o acompanha32. Para alguns investigadores este documento representa a primeira “Regra franciscana”, embora, e segundo Augustine Thompson, essa situação sugerisse um documento legalmente mais sofisticado, “Um título melhor seria a praepositum de Francisco – a proposta de uma forma de vida (…)”33.
Em 16 de Abril de 1209, Francisco e os seus seguidores deslocam-se à Cúria Romana e perante o Papa Inocêncio III recebem a bênção apostólica. O momento em que Francisco se ajoelha diante do Papa, no sentido de ouvir a aprovação oral, é por muitos visto como a existência oficial da Ordem Franciscana34. Na realidade o que o que Papa Inocêncio fez foi um não compromisso formal na constituição de uma Ordem, no verdadeiro sentido canónico, mas sim a confirmação enquanto grupo de penitentes com o propósito de pregar a penitência. Com este enquadramento teológico o Papa reforça o seu poder pontifício, promovendo de forma cautelosa a integração deste e de outros movimentos religiosos no seio da Igreja, possibilitando assim a sua transformação em ferramenta de pregação do cristianismo, embora obedientes à autoridade da Cúria Romana35.
Em contraponto ao movimento monástico, e segundo André Vauchez, a instituição franciscana marca um ponto de viragem nos laços que existiam entre o estado religioso e a condição senhorial, possibilitando uma nova conceção da espiritualidade através da beneficência 36. Esta nova realidade de frades mendicantes itinerantes acaba por se inserir no meio urbano, exercendo um contato muito próximo com as comunidades locais e desempenhando um importante papel no campo da pastoral, através de um conjunto de missões que incluem a ida à Terra Santa durante as cruzadas. Paralelamente aos Irmãos Menores surge a segunda componente da família franciscana, as Irmãs Pobres, Ordem de Santa Clara, também denominada como Segunda Ordem Franciscana, que apesar da sua ligação ao Patriarca de Assis, acaba por seguir o seu próprio trilho. S. Francisco e St.ª Clara de Assis (1193-1253) tornaram-se, assim, um importante pilar deste inovador 32 Vd. Araújo, 2006: 252-255. 33 Cf. Thompson, 2012: 52-53. 34 Cf. Chaves, 2013: 24. 35 Cf. Camacho, 2011: 4-6. 36 Cf. Vauchez, 1995:127.
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modelo de vida consagrada. Clara e as primeiras companheiras instalam-se em S. Damião, por volta do ano de 121237.
O percurso da irmandade nos dez anos seguintes à aprovação oral de Inocêncio III não foi claro, até porque terá existido alguma intransigência na aceitação do movimento franciscano junto de muitos eclesiásticos, sobretudo de alguns prelados locais. Apesar destas adversidades o grupo cresceu rapidamente, partindo para a internacionalização, através de várias missões de evangelização, caso da ida do próprio Francisco para o Médio Oriente, 1220-122138. Por esta altura os Irmãos Menores encontram a necessidade de uma reorganização do movimento, que em muito beneficiou da ligação de Francisco ao cardeal Hugolino de Óstia, tornando-se este uma espécie de “Tutor” e acabando por exercer uma autoridade dentro do movimento, o que possibilitou um conjunto de pontes entre os franciscanos e a Cúria Romana39. No seguimento desta influência, em 1217 Honório III concede ao cardeal Hugolino plenos poderes para cuidar das irmãs pobres.
No capítulo geral de 1220, Francisco renuncia ao cargo de ministro geral da ordem, abrindo assim caminho a uma maior participação da Cúria na hierarquia do movimento franciscano. Nesta perspetiva, e devido à sua vasta experiência, o cardeal Hugolino, terá um importante papel no enquadramento jurídico da ordem e na redação de um novo texto, que seria o definitivo, a dita “Regra Bulada”, no fundo a única e verdadeira Regra da Ordem dos Frades Menores, redigida por S. Francisco de Assis, com a colaboração dos juristas da Ordem e dos canonistas da Cúria Pontifícia, que se mantém até hoje e se conserva como o documento inspirador básico da Ordem Franciscana, aprovada em 1223, pelo Papa Honório III40.
37 Vd. Araújo, 2006: 83.
38 O movimento, numa fase inicial, orienta um conjunto de irmãos em missões fora da Itália Central, em
especial para localidades onde o movimento ainda não tinha implantação. Seguiram-se missões a França, Alemanha, Hungria, Espanha, e um pequeno grupo, liderado por frei Elias de Assis, aos territórios do Médio Oriente controlados pelos Cruzados. Todos estes empreendimentos contaram com a participação de um número elevado dos efetivos que a ordem dispunha, abaixo das oito centenas em 1217. Cf. Thompson, 2012: 111-112.
39 Ugolino di Anagni, Hugolino de Óstia, foi sobrinho de Inocêncio III e havia sido formado dentro da escola
curial, em diplomacia. A presença do cardeal Hugolino, futuro Papa Gregório IX, no seio dos Frades Menores é um dos elementos do fenómeno da chamada Reforma Papal iniciada no século anterior, tendo desempenhado um importante papel na elaboração dos cânones do IV Concílio de Latrão, junto de alguns movimentos monásticos, nomeadamente dos cistercienses, onde terá absorvido o espírito religioso monástico. A missão de Hugolino junto dos Irmãos Menores seria garantir a proteção da ordem e sua organização mais sistemática. Cf. Camacho, 2011:1-9.
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A importância de Hugolino junto da Ordem de S. Francisco manteve-se mesmo após a morte do fundador da ordem em 1226, mas agora na qualidade de Pontífice Gregório IX. Contribuiu para canonização do santo de Assis, bem como para a difusão do ideal franciscano, através de textos hagiográficos que reproduziam a forma de vida de Francisco. Esta tarefa veio a caber, numa fase inicial, a Fr. Tomás de Celano, no ano de 1228, com a Prima Vita, onde são descritos os primeiros anos do patriarca.