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Considerações sobre os lapsos que envolvem morfemas no PB

O comportamento dos lapsos de fala em português brasileiro

5.5. Lapsos que envolvem morfemas

5.5.2. Considerações sobre os lapsos que envolvem morfemas no PB

Encontramos um total de trinta e dois lapsos de fala que envolvem morfemas no nosso corpus, dentre os quais a maioria caracteriza-se por deslocamentos de raízes. Ressaltamos que os lapsos do PB também atestam, corroborando Fromkin (1971), que raízes e afixos têm naturezas diferentes, e que, portanto, não interagem, de modo que uma raiz nunca substituirá um afixo ou vice-versa. Nos dados abaixo, ilustramos erros de troca, preservação, antecipação e apagamento de raízes no PB:

(106) Sempre posto a legenda dele nas músicas. ← Sempre posto as músicas dele na legenda

(107) Quando vi o terno em cima da boca. ← Quando vi o terno em cima da cama o coração veio na boca

(108) Quando eu tô bêbada, eu bebo. ← Quando eu tô bêbada, eu choro

(109) Quando você vai me comer no Rascal? ← Quando você vai me [levar pra] comer no Rascal?

Em (106), temos uma troca entre as raízes √LEGEND e √MÚSIC, sendo que, nesse caso, não há o encalhamento do traço de número, com a acomodação do traço de número nos determinantes pós-erro. Isto é, considerando a análise de Pfau (2009) para esse tipo de lapso, temos que a troca acontece antes do processamento da concordância, o que possibilita a concordância correta com os determinantes. O dado (107), por sua vez, representa uma antecipação de raiz, uma vez que a raiz √BOC aparece na posição da raiz √CAM. Em (108), ocorre uma preservação da raiz √BEB, em outro contexto de licenciamento, por isso que o erro tem como resultado o verbo beber. Por fim, o lapso (109) sugere um apagamento de raízes, pois uma parte da sentença não é realizada.

Além dos lapsos envolvendo raízes, também destacamos aqueles cujo elemento afetado é um morfema. Encontramos casos de troca, preservação e substituição de morfemas, conforme os exemplos de (110) a (112).

(110) Preparamentos do casativo ← Preparativos do casamento

(111) Limão é desinfetante pro desintestino. ← Limão é desinfetante pro intestino

O exemplo em (110), discutido rapidamente na seção 3.4, ilustra um caso de troca de sufixos. Esse lapso apresenta a troca dos sufixos –mento e –tivo após spell-out, pensando no sistema de Pfau (2009), uma vez que, preferivelmente, a raiz √PREPAR combina-se com o sufixo nominalizador –ção, formando preparação e não preparamento. Assim, o fato de não ter havido uma acomodação sugere que a troca dos sufixos ocorreu após a inserção de vocabulário, quando a forma fonológica –mento já havia sido selecionada.

O dado (111), por sua vez, representa um caso de preservação de morfemas, caracterizado pela preservação do prefixo des- que se repete em desintestino. Nesse caso, a preservação do morfema pode ter ocorrido após spell-out, pois, de modo geral, o sufixo –des não se afixa a bases nominais. Logo, considerando a análise de Pfau (2009) destacada acima, a agramaticalidade desse dado sugere que a preservação seja apenas de conteúdo fonológico.

Já, o lapso apresentado em (112) ocorre devido à substituição do sufixo –eir por –dor, uma mudança que compromete o enunciado pretendido. Nesse caso, apesar de barbeador ser uma palavra possível e bem formada em português, ela não corresponde ao significado esperado no enunciado-alvo, já que barbeiro pode, informalmente, designar tanto quem exerce a atividade de barbear, quanto o lugar, enquanto barbeador remete ao aparelho usado. O erro acontece, então, na escolha do nominalizador. Conforme Pfau (2009, p. 250), quando há dois sufixos nominalizadores disponíveis para inserção em um lapso de fala, a escolha entre um deles é feita com base na semântica interna do DP. Assim, tendo em conta o modelo adotado por Pfau (2009), há duas possibilidades de análise para o erro em (112): a troca do sufixo –eir por –dor pode estar condicionada a uma falha na codificação da semântica interna do DP, como a falta do traço [+agentivo], ou a troca pode ter sido desencadeada por uma falha na escolha do vencedor da competição entre os sufixos, levando à inserção de um sufixo incompatível. Contudo, além do fenômeno não ter sido amplamente discutido ou descrito na literatura, estamos diante de um dado singular dentro do corpus do PB. Portanto, devido à falta de maiores evidências, as hipóteses ainda não podem ser verificadas e a questão fica aberta à espera de novas contribuições.

Por fim, trataremos de um dado bastante interessante do PB, apresentado em (112), pois o lapso sugerão não respeita a alomorfia da raiz √SUGEST107

que deve ser realizada fonologicamente como /suᴣest/ em contextos nominais, conforme os IVs descritos em (114).

(113) "Se o chefe sugeriu, acho que a gente deve aderir à sugerão" ← Se o chefe sugeriu, acho que a gente deve aderir à sugestão.

(114) Inserção de vocabulário para a raiz √SUGEST dado o lapso em (113): IV: √SUGEST ↔ /suᴣer/ / ⇐ [+v] [-d]

IV: √SUGEST ↔ /suᴣest/

A primeira hipótese seria supor que, nesse caso, o erro ocorreu em decorrência da escolha do IV mais especificado, o que levou ao spell-out da forma fonológica /suᴣer/, embora este IV não seja compatível com o ambiente de licenciamento da raiz no erro. No entanto, não há evidências para supormos que possa haver falhas na inserção de vocabulário de IVs em competição, uma vez que esse é o único dado que poderia ocorrer devido a uma falha desse tipo. A segunda hipótese, então, é pensarmos que a falha de processamento aconteceu depois de spell-out, em decorrência da preservação da forma fonológica /suᴣer/, em sugeriu, que antecede o erro. Assim, esse lapso envolveria apenas a forma fonológica da raiz e explicaríamos a agramaticalidade do enunciado, uma vez que as falhas que ocorrem após spell-out estão além dos limites das operações da MD responsáveis pela acomodação. Nesse sentido, a segunda hipótese melhor descreve o processamento desse dado dentro do sistema de Pfau (2009) e da MD, já que não viola os princípios da competição entre IVs.

Desse modo, tendo em vista os fenômenos aqui descritos, observamos que os lapsos de fala que envolvem morfemas no PB, a princípio, podem ser explicados através do modelo de processamento de Pfau (2009). Além disso, vimos que uma abordagem que opte pela inserção tardia de fonologia, como a MD, revela implicações extremamente interessantes para a análise de lapsos de fala em que há acomodação pós- erro. Ademais, essas são apenas questões preliminares sobre os lapsos de fala que

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A forma para a raiz adotada foi √SUGEST porque ela aparece em um número maior de palavras, como sugestão, sugestivo, sugestionável, sugestionamento, entre outras. O mesmo vale para a forma fonológica do IV menos especificado, /suᴣest/, que aparece nas palavras listadas acima, enquanto a forma /suᴣer/ só é compatível com verbos ou palavras derivadas a partir do verbo.

envolvem morfemas, porque, conforme já ressaltamos, alguns fenômenos demandam mais dados para uma investigação aprofundada.

A seguir, na seção 5.6, veremos como se comportam os lapsos de fala que envolvem traços gramaticais de acordo com a descrição de Pfau (2009), para, então, investigarmos quais traços são relevantes para os lapsos de fala em PB e como eles manifestam-se nos erros.