1. INTRODUÇÃO
4.2 PERDA VISUAL
4.2.1 Constatação e orientação sobre a perda visual
A constatação da perda visual decorrente ao diabetes é um importante momento na vida do sujeito, pois, denota o agravamento do adoecimento crônico já presente e marca o início de um novo processo de conhecimento e cuidado a partir da evolução da doença identificada89.
Esse processo torna-se ainda mais árduo quando o indivíduo se encontra em idade produtiva, considerando que a deficiência visual pode interferir na rotina e favorecer limitações em diversos aspectos, como econômicos, sociais, ocupacionais e psicológicos, influenciando assim na qualidade de vida do sujeito90,91.
No presente estudo, foi identificado que, na maioria dos casos, a constatação da perda visual se deu enquanto os participantes ainda contribuíam economicamente com a família e a sociedade, de forma ativa e independente, como ilustram as falas dos participantes 1, 3, 5, 8 e 10:
“Eu tenho um pequeno restaurante... sabe o que é difícil, fia? Não comer as coisas lá... Eu que cozinhava né, mas de final agora não né, mas já cozinhei muito. Agora tem uma pessoa que faz e eu vou ajudando ela sem enxergar mesmo.” (participante 1)
“Ah... começou foi no... trabalhando né? Pra gente ver, quando ia ler, quando ia assistir televisão, comecei a sentir muita dificuldade pra ver as coisas direito, né?!” (participante 3)
“Olha... que descobri... eu tava no carro, tava em uma outra cidade, né, e eu percebi tudo muito embaçado... e aí foi muito rápido. Eu tava com 26 anos, então foi assim, 26, 27 anos eu não enxergava mais nada...” (participante 5)
“E assim, quando eu operei a primeira vez do olho esquerdo eu parei de trabalhar né, porque quando eu operei a primeira vez do olho direito eu trabalhei ainda, eu trabalhava com um olho só, de um olho eu já tinha perdido mas continuei trabalhando normal, aí eu fui até onde deu, aí chegou uma hora que não... que não deu mais, aí eu tive que me afastar, porque eu trabalhava a noite né, não tinha como, porque eu era vigilante né...” (participante 8)
“É que nem eu ‘tava’ falando aí, há cinco anos atrás, quando eu fui fazer... renovar a habilitação. Quando eu fui renovar a habilitação já deu problema na vista. [...] eu... sempre viajando pra lá, viajando pra cá, beleza, quando foi dessa vez o negócio ficou feio... sem enxergar não dá né...” (participante 10)
A ausência da visão é um acontecimento complexo. As causas que levaram à perda, o momento, a maneira como se deu à constatação, os contextos familiar, social e psicológico são fatores que influenciam o modo como a pessoa lida com sua deficiência92.
É um processo que pode desencadear emoções negativas e sentimentos de angústia, portanto, é importante que esse indivíduo possa contar com uma rede de suporte tanto profissional quanto social, envolvendo familiares e também a comunidade93.
Durante as entrevistas, os participantes relatam sentimentos que envolvem a percepção da perda visual e questões que envolvem também a dependência e a falta de autonomia, como ilustram as falas dos participantes 1, 2 e 4:
“Ah bem... perder a vista é duro né, é difícil, não é fácil não... a gente tem angústia, tristeza né, mexe com a gente.” (participante 1)
“Eu me sinto discriminada, porque tem uma porção de itens contra a gente né, em casa principalmente, porque ‘eles diminui’ a gente, ‘num’ tem segurança, ‘num’ tem confiança mesmo, porque é meio limitado mas eu faço tudo e a gente fica chateada, é pra ficar né...” (participante 2)
“[...]a gente fica com depressão... e eu fico muito nervosa, porque ‘cê’ quer fazer as coisa e não dá pra fazer. A gente faz a rotina do dia mas a gente não sabe como que ta saindo e por isso a gente fica muito irritada, muito nervosa... não pode andar sozinha... antigamente eu podia sair pra ir pro médico, pra cidade, agora pra cidade eu não posso ir mais... não vou em lugar nenhum sozinha mais e isso deixa a gente muito irritada, muito!” (participante 4)
A orientação fornecida a partir da identificação do adoecimento, no caso a perda visual, é fundamental, pois, quando realizada de maneira adequada, favorece a construção do saber, da autonomia e da capacidade de lidar com novas situações48.
Durante as entrevistas, a maioria dos participantes relatou a ausência e/ou ineficiência de informações, situação esta que ocorreu de maneira automatizada, não permitindo esclarecer as possíveis dúvidas, como ilustram as falas dos participantes 1, 7, 8 e 9:
“É... eles falou que era da retina mesmo, que era da diabetes, que não ia ter jeito e é só fazer o tratamento né, mas assim, eu tô esperando o melhor né bem. O que eles falavam é que era pra dá uma, o que eles tavam fazendo era pra estacionar né, mas... esse daqui (apontou para um dos olhos) também tá embaçando bastante. Nunca ninguém comentou assim de perder a visão, entendeu? Eles só falavam que tava fazendo tratamento pra estacionar, pra estabilizar a doença, não... né, pra mim tomar cuidado com a alimentação, mas não explicou em detalhes não.” (participante 1)
“Olha... praticamente não orientou. Só falou assim pra mim cuidar da diabete, falou assim, ó, você cuida da diabete, deixa baixa, não deixa subir também, cuida bem se não você vai perder a vista sua total, e eu cuidei, cuidei, ela ficava sempre 196, é... 120, mesmo assim a vista foi apagando, mesmo assim, mesmo assim que ele falou pra fazer e eu fui fazendo, mesmo assim, a vista foi abaixando, abaixando, abaixando... eu via cada dia que ‘tava’ abaixando, aí até que... chega uma hora que... que não teve jeito mais né, o jeito que ‘tô’ agora.” (participante 7)
“Foi... por causa da diabetes. Tudo é diabetes né, foi só a diabete. Foi a diabete ele falou.” (participante 8)
“não... você vai lá e eles nem olha, só fala você tem que fazer isso, fazer isso, fazer aquilo, não... sempre mesma rotina, não tem aquela... não é aquela... então você... ah, sempre mesma coisa, então não adianta voltar pra ouvir tudo igual.” (participante 9)
A constatação da perda visual pode desencadear sentimentos de ansiedade, medo, desconforto, insegurança, entre outros, que devem receber atenção e suporte da equipe de saúde de forma a acolher o sujeito além das narrativas ou às questões relacionadas ao tratamento concreto ao qual será submetido, mas que trazem também uma carga emocional depositada diante de um histórico o qual culminou a perda da visão94.
No processo de orientação em saúde é importante dar voz ao sujeito, permitindo ao orientador ter acesso à interpretação deste em relação às orientações fornecidas, de maneira a contribuir para um melhor atendimento sob a perspectiva do sujeito adoecido95.
4.2.2 Auto responsabilização pela perda da visão e cuidados com o diabetes após a