CAPITULO V – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E COMENTÁRIOS DOS DADOS
2. A implementação do Projeto
2.1. Constrangimentos
Os condicionalismos e restrições na contratação docente impedem a continuidade de projetos internos como o desdobramento do ensino das línguas estrangeiras de modo a valorizar a oralidade e permitir um ensino mais individualizado em sala de aula. Condiciona-se ainda o apoio individualizado a alunos com determinadas características e maior insucesso, ficando estas necessidades, involuntariamente, relegadas para segundo plano.
“há uma diminuição de recursos adicionais”
“algumas alterações introduzidas pela tutela, designadamente no que diz respeito à intervenção do corpo docente, poderá vir a prejudicar aquilo que são os resultados das aprendizagens,”
“os professores de Português e de Matemática estão a ser causticados com esta história da sua atividade não letiva ter que ser aplicada em apoios”
“a quantidade dos apoios (...) está a diminuir(...) os apoios adicionais este ano são menos como pelo facto da tal componente não letiva dos professores estar, (...), absolutamente consagrada a outras tarefas e (...) talvez aí os resultados possam (...) não ser tão bons”
“estamos inseridos numa zona suburbana (...) com (...) muitos meninos que infelizmente pertencem (...) a muitas famílias pouco estruturadas (...) não são tão apoiados em casa como nós gostaríamos”(E1)
“Nesta estrutura termos um psicólogo é lamentável” “o psicólogo e a técnica social fazem o que podem,“(E4)
Devido a mudanças relacionadas com as condições de inclusão e permanência no programa TEIP, os atores educativos entrevistados referem que as suas expetativas foram desfraudadas e que as escolas se sentem desvalorizadas. As escolas inseridas no Programa TEIP passaram a estar sujeitas a certas condicionantes ligadas à contratação e seleção de docentes que se tornaram desajustadas perante as características específicas de tais territórios. As suas finalidades essenciais foram ultrapassadas por determinações legais e, na opinião dos entrevistados, tornaram-se desajustadas e opressivas para o sucesso
educativo, além de condicionar mais o grau de autonomia da instituição.
“em termos legislativos, achamos que é perfeitamente absurdo que as escolas que não são TEIP possam reconduzir os seus professores contratados e os TEIP não possam!”
“Este é um constrangimento que tem sido anualmente relatado (...) e que não há maneira de ser resolvido.”
“há, (...) constrangimentos porque temos uma população nada fácil, mas também constrangimentos legais”.
“eu não sei se este projeto continua a ser tão sustentável como foi até agora.”(E1)
O corpo docente diminui, mas também outros recursos humanos. O número reduzido de funcionários ou a sua falta de preparação condicionam o desenvolvimento de diversos projetos nomeadamente alguns relacionados com a Educação Especial, a segurança e o controlo de situações de maior indisciplina ou violência. Apesar de todo o trabalho, segundo os entrevistados, reconhecidamente positivo, do Agrupamento nos últimos anos e das melhorias significativas, mantêm-se outros problemas e estes podem, nas condições atuais, pôr em causa o “bom trabalho” desenvolvido. Além disso, a degradação das instalações interiores e exteriores do espaço escolar foi, dentro do possível, controlada, mas não completamente resolvida.
“nosso pessoal auxiliar que é cada vez menos, pouco qualificado, e que, (...), cria dificuldades enormes ao funcionamento normal da escola”
“importa focalizarmo-nos, enquanto projeto TEIP, também no espaço físico (...). Uma escola bonita, bem equipada é seguramente uma escola com melhores condições para ter melhores resultados ainda, portanto era isso que eu melhorava.” (E2)
Os condicionalismos legais e as imposições da tutela são atualmente considerados “travões” perante a ambição genuína de continuar a lutar por uma efetiva autoridade e autonomia a nível decisório e organizativo.
“a escola não tem conseguido, não tem tido autoridade, autorização, enquadramento legal para manter muitos dos bons profissionais (...) que se enquadram exatamente naquilo que é o espírito do TEIP, na dinâmica que se quer apresentar e criar”
“se nós tivéssemos podido escolher efetivamente com quem ficávamos, nós hoje tínhamos ainda melhores resultados.”(E2)
Além disso, o tempo para o trabalho colaborativo, para a reflexão sobre as práticas desenvolvidas e os seus resultados foi retirado às escolas e aos seus atores o que faz com que a concretização das metas e objetivos acabam por se ressentir disso.
“algumas alterações introduzidas pela tutela, designadamente no que diz respeito à intervenção do corpo docente, está..., poderá vir a prejudicar aquilo que são os resultados das aprendizagens,” (E1) “Não temos muito o hábito de refletir porque custa e não nos dão condições para isso. Infelizmente, tem de haver mudança ai.”(E4)
Perante o desânimo da redução de recursos humanos, os entrevistados reafirmam a sua convicção de que se persistirá determinantemente num percurso ascendente, pois as repercussões do desempenho positivo do Agrupamento não pode ser desprezado.
Verifica-se atualmente um decréscimo do número de alunos no Agrupamento, sobretudo no primeiro ciclo, não só devido às baixas taxas de natalidade de que padece o país, ao fluxo migratório da população e à saída de alguns alunos estrangeiros, mas também devido à concorrência, que consideram desleal, de outros estabelecimentos de ensino corporativos ou particulares, à degradação do espaço físico e à falta de recursos humanos e materiais.
“O espaço físico da escola é potenciador das situações de agressão, de agressividade, porque é um espaço físico feio, agressivo com muito poucos equipamentos”
“situações de indisciplina. Vejo com alguma preocupação esses números, não a voltarem à expressão que tinham no passado, mas com tendência a aumentar” (E2)
“Estamos a perder muitos alunos”
“os colégios tentam captar dando facilidades aos pais que a nossa escola não pode dar por falta de capacidade financeira.”
“as equipas que têm estado no ministério têm afrontado a imagem do professor.”
“constrangimentos da colocação dos professores, o que não se percebe, (...) já deviam estar definidas, não se percebe (...) estes constrangimentos a nível dos recursos humanos.”
“os meninos a irem para fora, para países da comunidade europeia e para fora da comunidade e o facto dos colégios os chamarem” (E4)
A distância entre as diferentes escolas que formam o Agrupamento e o facto de existir outra oferta educativa mais próxima levam os alunos a optar por outros estabelecimentos de ensino para prosseguir os seus estudos ainda que tanto as famílias como os alunos reconheçam o valor do corpo docente do agrupamento e conheçam os bons resultados do Agrupamento nos exames externos dos 4º, 6º e 9º anos. Segundo a entrevistada E5, alguma obsessão pelos resultados finais, pela busca do sucesso fez com que os intuitos do Programa TEIP fossem de algum modo deturpados e descaracterizados.
“... localidades cujas escolas e jardins fazem parte do Agrupamento de escolas de Marrazes, os meninos já não vêm para aqui .“
“Não há facilidade de transportes dentro do Agrupamento, não há esses recursos.”
“O projeto TEIP deixou de ter as características que estavam na sua génese (...). Antes tinha a ver com a inclusão de alunos (...) com problemas disciplinares, mas atualmente está, até demasiadamente centrado nas questões do sucesso, dos resultados.” (E5)
De acordo com o que a entrevistada (E3) afirma, estes constrangimentos não serão tão graves como os existentes noutros territórios TEIP onde não se consegue atingir um clima de trabalho colaborativo que possa motivar os docentes e levá-los a combater em conjunto problemáticas como o insucesso, o abandono ou a indisciplina.
“Um dos objetivos do TEIP é evitar o abandono. (...) é conseguir o sucesso e, muitas vezes, por mais esforços, por mais empenho, por mais medidas que se criem não se consegue no TEIP obter os resultados previstos porque o sistema escolar não é um sistema isolado, interage com outros sistemas,
nomeadamente o sistema cultural e esses outros sistemas impõem-se ao sistema escolar. E por mais esforços que quem está dentro das escolas faça, não consegue ultrapassar estas dificuldades.”(E3) Conforme se constata as condições de permanência nos diferentes programas vão sofrendo alterações, implicando ajustes nos recursos humanos e financeiros previstos, o que condiciona as estratégias definidas para os projetos e até, por vezes, a sua continuidade. A tutela vai sobrecarregando os docentes com outras funções, alterando as suas cargas horárias da componente letiva e não letiva de tal modo que os apoios pedagógicos e outros atividades se encontram fortemente condicionados ou deixam de existir. Os elementos entrevistados consideram que os resultados dos alunos poderão vir a refletir estes condicionalismos.