3. TENSÕES NA ESFERA PÚBLICA: PARTICIPAÇÃO E AUTONOMIA
3.2 A Composição da Autonomia
3.2.2 Construção da Identidade e Missão Institucional
O processo de aprendizagem da autonomia, explorado anteriormente, se confunde com um outro processo, o de consolidação da identidade institucional. Como afirmou o representante do Inesc, “a identidade às vezes é muito mais construída na relação com os
outros do que uma autodefinição nossa, do que... ‘vamos ter essa identidade e pronto’, né”.
Portanto, a construção da identidade institucional está estreitamente ligada ao movimento seguido pelas ONGs de repensar seus valores e posicionamento diante das suas relações seja com instituições da própria sociedade civil ou de esferas governamentais. Dessa maneira, o representante do Instituto Pólis definiu identidade da seguinte forma: “identidade não é uma
coisa abstrata, metafísica, ontológica; identidade você constrói no seu fazer, com quem você faz”.
A questão da identidade foi tema muito presente em todas as entrevistas no sentido de afirmação do que se é e, assim, de constatação de autonomia. Neste sentido, o conjunto das entrevistas apresentou frases com significados semelhantes a essas “a gente não faz qualquer
coisa” e “A gente só faz coisa que está na nossa área” (Ibase):
A gente tem assistido denúncias de organizações criadas só para arrecadar recursos governamentais, ONGs que são de políticos, deputados... Nós pertencemos a um campo de organizações que têm história, que têm tradição. Nós temos CEP, endereço, o dinheiro é recebido em conta institucional, qualquer recurso que saia da organização é assinado por duas
diretoras devidamente reconhecidas, nós temos assembléias
periódicas....(Geledés).
Nós do Cfemea sempre tivemos uma postura... escolhemos um lugar, uma organização que é de pressionar, mobilizar, articular em defesa dos direitos das mulheres. E fazer isso frente ao legislativo e executivo federal junto com o movimento de mulheres. Então nunca sobrou muito espaço para ter uma postura dúbia. A gente nunca foi conselheira dos direitos da mulher. Nunca demos assessoria a parlamentar, ou a bancada ou a partido político porque a gente achou que o Cfemea só podia cumprir bem o seu papel se tivéssemos nós do lado de cá e eles que é Estado, seja executivo, legislativo, do outro lado. Então a gente não prestou serviço para o governo. (Cfemea).
Uma ONG não vale pela sua base porque ela não tem base. Ela vale pela coerência programática. Se você não tem coerência programática, se você critica o superávit primário num governo e se cala no outro eu acho que isso compromete a legitimidade da sua atuação. Eu não acho que deva ser uma posição “principista”, não quero ficar só colado em princípios, mas acho que você tem que ter uma coerência. Eu não posso passar 20 anos criticando os grandes projetos da ditadura militar e depois me calar diante da reprodução de projetos desenvolvimentistas iguais aos da ditadura militar ou parecidos. Isso significa tornar a sociedade civil uma coisa invertebrada.(Fase2, entrevistado2).
Pode-se ver a partir das falas destacadas que a referência à própria história da instituição, à missão institucional, aos objetivos programáticos e às linhas de atuação são elementos que creditam a instituição. Todos os entrevistados reforçaram o fato de terem bem definido sua posição, seus objetivos e sua missão institucional e fizeram questão de pontuá- los. A representante do Geledés destacou, ainda, elementos como “ter um endereço” e “assembléias periódicas” como uma forma de demonstrar a consolidação da instituição
Assim, pode-se dizer que a identidade orienta a ação das organizações e é ela que norteia suas escolhas das organizações ao se depararem com novos contextos. Como afirmou a entrevistada da Fase, “a gente realiza convênio e parcerias com governo na medida em que
isso ta dentro da nossa estratégia. Então, eu acho que isso aumenta sim a nossa eficácia” (Fase2, etrevistado1). O conceito de identidade, portanto, vem atrelado à definição de
critérios e, os critérios surgem de acordo com possibilidades e escolhas. Com a Lei das OSCIPs, por exemplo, as organizações tiveram que decidir se iriam virar uma OSCIP ou continuariam na mesma condição. De acordo com os trechos selecionados, pode-se ver que há um respeito pela identidade da organização e que a questão da OSCIP foi descartada por todas as organizações entrevistadas.
Dentro do campo da Abong sempre houve uma discussão inconclusa sobre as OSCIPs, mas na maior parte do tempo se considerou inapropriado para o perfil das nossas ONGs essa designação. Em certos momentos a OSCIP
ficou até estigmatizada como uma dimensão neogovernamental e não não- governamental. (Geledés).
A gente chegou a conclusão que se é para fazermos outra coisa é para formar outra organização. Essa aqui tem um objetivo. Uma coisa é, ah, então vamos virar Oscip para a gente ter condições de ter mais recursos do governo federal, mais recursos públicos. Mas eu digo, os termos de parceria são praticamente prestação de serviço para o Estado. Se for para fazer prestação de serviço para o Estado, se for para viver disso, a gente fecha essa porcaria e vamos trabalhar direto para o governo porque nós criamos esse negócio aqui para fazer outra coisa. Se for para fazer o que o governo faz em piores condições, não vamos fazer. (Cfemea).
O discurso da dirigente do Cfemea demonstra o compromisso com os objetivos e a missão da instituição como justificativa pela decisão de não se tornar uma OSCIP. Tanto o Cfemea quanto o Inesc, sediados em Brasília, têm como critério não fazer assessoria a nenhum parlamentar. A idéia de que as organizações não governamentais não são prestadoras de serviço permeia o discurso de todos os entrevistados. Neste sentido, todos reafirmam o compromisso da organização em influenciar as políticas públicas.
Um outro exemplo de critério no sentido de respeitar a identidade da instituição foi no que tange o recebimento de financiamento público. Foram ressaltados critérios como só receber recursos que estiverem na área de atuação da organização, ou seja, não abrirem novos temas de trabalho para “se encaixar” em um edital, e que não haja qualquer condicionalidade na forma de formular ou gerir o projeto.
Assim, a identidade foi um dos motivos para que fosse feita, pelos entrevistados, uma separação entre dois tipos de organizações não governamentais. O representante da Fase, por exemplo, ressaltou que “de certa maneira o próprio boom das ONGs ou a sua popularização
foi também uma ruptura do ponto de vista do contexto, foi uma ruptura com o primado daquele tipo de ONG. Passou a haver uma disputa em torno do significado das ONG”(Fase2,
entrevistado2). Como se pode ver pelos trechos selecionados, a emergência de organizações
imbuídas de novas concepções foi um tema recorrente nas entrevistas:
Num primeiro momento as ONGs eram vistas por defenderem interesses comuns. Mas, hoje, tem esse ataque todo que a gente tá sofrendo que se manifesta no próprio Congresso, né. Estamos indo para a terceira CPI das ONGs. Isso passa uma imagem para a população e cria uma certa confusão porque acaba colocando a gente tudo no mesmo saco. Isso é fruto também da década de 80 e início dos anos 90 porque basicamente se você falava em sociedade civil organizada éramos nós. Com a década de 90, outras organizações da sociedade civil começam a surgir. Por exemplo, todas essas organizações que se identificam com o chamado terceiro setor. Esse próprio conceito de terceiro setor eu acho horrível. Começa a ter uma gama maior de organização com um perfil totalmente diferente do nosso perfil, com a história diferente. E essas organizações disputam sentido e significado com a gente. (Inesc).
A gente perdeu muito prestígio. Primeiro tinha todo um conhecimento, uma identidade de defesa de direitos, um determinado tipo de ONG que nos últimos dez anos é um perfil que foi mudando. Passou-se a se chamar ONG um grupo de organizações que é absolutamente diferente desse grupo original que ganhou prestígio e legitimidade. E esse grupo passa, então, a descaracterizar e implica em uma perda dessa identidade. Depois vem toda a história mesmo do Estado, uma nova concepção de Estado, de Estado Mínimo, onde as ONGs, já aí esse grupo amplo passa a ter um outro lugar na relação com o Estado. Não é só este lugar da defesa dos direitos. Mas é um lugar de colaboração, de prestação de serviços para o Estado. (Cfemea).
Como ficou evidenciado nas falas transcritas, os representantes das ONGs acentuam a questão da identidade institucional em contraponto às novas organizações criadas nos anos 90. Nesse sentido, verificou-se uma rejeição do termo terceiro setor justamente por unir “ONGs de perfis diferentes”. Além disso, alguns entrevistados mencionaram a descaracterização das ONGs “com história” e “tradição” com a entrada do termo terceiro setor. Assim, a história da instituição, a tradição e exemplos que demonstrassem prestígio da organização foram recorrentes.
Como foi visto no embasamento teórico deste trabalho, a partir dos anos de 1990 a participação passou a ser projeto político, com diferentes concepções, tanto de uma vertente societal quanto de uma vertente gerencial. O que se verifica nos trechos destacados é
justamente essa separação por parte dos entrevistados entre a forma de atuação das organizações chamadas “sérias”, “históricas” e organizações com “ideais distorcidos”, “grupos da nova geração”. As diferenças apontadas pelos entrevistados foram relativas ao tipo de atividade que a instituição exerce, à forma como foram criadas, à identidade institucional, ao reconhecimento e a legitimidade.
Assim, de acordo com as respostas dos entrevistados, verifica-se uma nítida separação de funções e críticas à condição de instituições executoras de políticas públicas. Essa condição de prestador de serviço foi relacionada, como mostra a representante da Cfemea, com uma orientação ideológica de cunho liberal do Estado. A prestação de serviços é vista como um desvirtuamento da identidade institucional da ONG. Dessa maneira, todos os entrevistados criticaram a substituição da atuação estatal por organizações não governamentais, e, ao fazerem isso, afirmavam que sua autonomia tinha respaldo no “alinhamento ideológico” de seus objetivos.
Em resumo, uma forma de afirmação da autonomia presente nas entrevistas foi a diferenciação entre dois tipos de organização. Por trás dessa separação, vieram atrelados aspectos como o reforço da identidade, a clara definição e explicação da estratégia e o tipo de ação que a organização realiza. Esses elementos estiveram presentes nas entrevistas como uma forma de separação entre suas atividades e a terceirização, a prestação de serviços e a execução de atividades. Pode-se dizer que a autonomia implica em critérios e princípios, e estes se fundamentam na identidade. A consolidação da identidade, o reconhecimento e a legitimidade são essenciais para a construção do sujeito político e, portanto, para a sua formação enquanto organismo autônomo.