CAPÍTULO 2 DIVERSIDADE ORGANIZACIONAL
2.3 ORIGEM DA IDENTIDADE SOCIAL E CULTURAL
2.3.1 Construção da identidade e relações de poder
Castells (1999a:22-23) entende identidade como uma autoconstrução e concebe a existência de identidades múltiplas. Constituem elas, importantes fontes de significado para os indivíduos. Um conjunto de atributos culturais prevalece sobre outros, tornam-se determinantes e influenciam comportamentos.
Pela ótica sociológica, toda identidade é construída e possui poderosos instrumentos culturais, como os conteúdos simbólicos presentes na sociedade. Ademais, é delimitada pelas relações de poder existentes naquele contexto.
Ao correlacionar identidades e relações de poder, o autor propõe três formas e origens distintas de construção de identidades:
• identidade legitimadora;
• identidade de resistência;
As três formas aplicam-se com propriedade e adequação ao estudo sobre gênero. A primeira, identidade legitimadora, refere-se à imposição da dominação de uns indivíduos sobre outros e pode ser associada ao patriarcado, que faz uso desse mecanismo a fim de manter as mulheres sob o controle dos homens.
A segunda forma, a identidade de resistência, diz respeito a blocos de resistência criados por atores sociais submetidos à lógica da dominação em busca da sobrevivência. Nesse aspecto, é o que vem ocorrendo com as mulheres desde o início do movimento da liberação feminina.
Por último, a identidade de projeto, que parte da construção de uma nova identidade e busca transformar a estrutura social. A identidade de projeto parece possuir os mesmos objetivos que a luta pelas questões de gênero, para a derrubada do patriarcado arraigado nas estruturas sociais.
É o que parece ter acontecido com C. no início da vida, quando as dimensões pessoal e profissional estiveram muito interconectadas e os aspectos pessoais ameaçaram a carreira nas empresas algumas vezes. Mas os obstáculos não a impediram de opor resistência aos padrões vigentes naquele contexto:
Aliás, eu acho que o que me empurrou para a faculdade que era uma coisa muito atípica para aquela época, as mulheres ficavam realmente esperando um marido para se casar, faziam clássico, faziam escola normal (...)
(...) mas o que me fez seguir esse caminho foi porque eu não queria ser uma dona-de-casa dependente de marido. (...) era o tempo certo, digamos assim, dois anos atrasado em relação a minha irmã, por exemplo, que casou com vinte um, mas eu casei no tempo certo. Então, eu conseguia separar na minha cabeça, eu vou casar com essa pessoa porque eu gosto, é uma pessoa importante para mim, mas eu achava nada a ver uma coisa com a outra; que eu podia casar, viver com alguém e ter uma carreira.
Compreende-se, portanto, que, na dinâmica das identidades, essas são indissociáveis de um contexto histórico, podendo migrar, por exemplo, como nas lutas feministas, de identidades de resistência para identidades de projeto, para se livrar da submissão. Percebe-se nesse ponto da discussão das idéias, uma conexão entre os conceitos de “estado nascente”, de movimento e de institucionalização, propostos por Alberoni (1989) para explicar as transformações sociais.
Na concepção de Castells (1999a:25), ainda, a identidade de resistência se manifesta em forma de comunidades de resistência coletiva historicamente situadas, no caso a sociedade em rede, interconectada, sem território fixo e, principalmente, sustenta que a identidade de projeto produz sujeitos para quem “a construção da identidade consiste em um projeto de vida diferente”, uma vez que ambicionam uma transformação social, como materialização desse projeto de identidade.
O conceito de identidade metamorfose criado por Ciampa (1998:146), compreendida como a unidade da atividade, da consciência e da identidade, vem ao encontro e sustenta a proposição de ‘estado nascente’ de Alberoni (1989), bem como o conceito de Castells (1999a) sobre a possibilidade de identidades de resistência transmutarem-se em identidades de projeto e, também, o de Saffioti (1997c) sobre o ser singular que pode incorporar, na práxis, a defesa dos interesses do ser genérico (categoria social). Considera-se nesse arrazoado, a consciência como uma possibilidade, mas que, não necessariamente, está sempre presente no mais alto grau, mas que poderá estar presente em diferentes gradações, do baixo nível ao mais alto nível de conscientização.
Ressalta-se, ainda, a dimensão do inconsciente “campo no qual estão fortemente inscritas as identidades sociais básicas. (...) (no entanto, é preciso deixar claro que as identidades sociais se constroem, sobretudo, no plano inconsciente) podendo ser pequena ou grande sua presença no nível consciente. Isto em nada diminui a importância política destas realidades, uma vez que as
portadores de inconsciente e de consciência. As identidades sociais fundamentais de que se está falando não se explicam pela teoria da aprendizagem e desempenho de papéis. O movimento de apropriação dos resultados de suas relações sociais por parte dos sujeitos humanos (subjetivação), assim como sua objetivação por meio das atividades de produção e reprodução da vida implica o recurso a estratos muito profundos da psique”, explicita Saffioti(1997c) citando Chodorow (1978).
Os papéis, aprendidos, por se situarem em uma dimensão mais superficial, não permitem o encontro do ser singular com o ser genérico, o que só se realiza em uma dimensão mais profunda da identidade. Nesse sentido, complementa Saffioti (1987): “as mulheres vivem (literalmente) negociando papéis, sem abdicar, contudo, de suas identidades”.
Enfim, este trabalho sobre gênero propõe que as identidades do projeto para as mulheres possam se converter em realidade nas comunidades empresariais, no âmbito do trabalho e da profissão, uma vez que o trabalho é um aspecto-chave na formação da identidade social. Portanto, que as mulheres possam criar uma história pessoal diferente, atribuindo novos significados a suas experiências individuais, ou seja, ressignificando suas próprias experiências.