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336 Construção de Redes de Apoio à Inclusão

A deficiência mental é um quadro psicopatológico que diz respeito, especificamen- te, a alterações e defasagens nas funções cognitivas. Porém, sistematicamente, encontra- mos alterações também nos outros aspectos estruturais, como a estrutura orgânica e psí- quica, e nos aspectos instrumentais, como a psicomotricidade, linguagem e comunicação, hábitos de vida e assim por diante.

Dessa forma, podemos afirmar que a deficiência mental diz respeito exclusivamen- te à possibilidade de conhecer, mas, de forma sistemática, aparece associada a questões relacionadas à estruturação subjetiva, como os quadros de neuroses, psicoses, autismo.

Daí porque é desde o trabalho interdisciplinar que é possível trabalhar as fle- xibilizações curriculares fundamentais no processo de inclusão educativa, as quais só podem ser pensadas a partir do grupo de alunos e da diversidade que o compõe, e não para alguns alunos tomados isoladamente. Portanto, a constituição de uma equipe interdisciplinar, que permita pensar o trabalho educativo desde os diversos campos do conhecimento, é um dos pressupostos fundamentais para que uma prática efetivamente inclusiva seja composta.

A reflexão interdisciplinar também possibilita pensar a capacitação e a formação dos professores. Se a apropriação de alguns conceitos é fundamental, contudo é neces- sário articular esses conceitos com as situações vividas em cada realidade escolar e na experiência de cada profissional da educação. Esse trabalho de articulação é um processo cotidiano e sistemático. Não acontece de uma vez por todas, podendo se dar somente por meio da análise da vivência de cada profissional em seu fazer diário. Caso não se leve em conta o caráter processual da formação desses profissionais, corre-se o risco de desprezar o conhecimento e a experiência prévia que cada um traz consigo.

Para tanto, é necessário um processo contínuo e formalizado de assessoria aos educadores e encontros sistematizados com a equipe interdisciplinar de apoio, na perspec- tiva de manter um canal aberto de escuta para esses profissionais. Assim, é possível lidar com os impasses do cotidiano da sala de aula e do ambiente escolar, trocando experiên- cias e aprendendo novas formas de ensinar.

É imprescindível, portanto, investir na criação de uma política de formação continu- ada para os profissionais da educação. A partir dessa política, seria possível a abertura de espaços de reflexão e escuta sistemática entre grupos interdisciplinares e interinstitucio- nais, dispostos a acompanhar, sustentar e interagir com o corpo docente.

Por uma rede inclusiva

A investigação dos aspectos que necessitam evoluir na política de educação es- pecial requer que se situe como este processo vem acorrendo efetivamente nas redes de ensino. Considerando que a inclusão de crianças com necessidades educacionais especiais produz impasses no cotidiano escolar que exigem um constante repensar das práticas pedagógicas, é importante a análise de alguns aspectos do contexto atual da inclusão no país.

Uma nova concepção de educação e de sociedade se faz por vontade pública e é essencial que o sistema educacional assuma essa vontade. Para operar as transforma- ções nos modos de relação dentro da escola é, também, necessário que os profissionais envolvidos tomem para si a tarefa de se pensar nessas questões de forma reflexiva e co-

III Seminário Nacional de Formação de Gestores e Educadores

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letiva. Dito de outra forma, é necessário que todos os agentes institucionais percebam-se como gestores e técnicos da educação inclusiva.

Nesta perspectiva, é essencial que o exercício social e profissional desses agentes esteja sustentado por uma rede de serviços interdisciplinares, que se entrelacem no traba- lho com as necessidades educacionais especiais dos alunos.

A criação de uma rede intersetorial e interdisciplinar de apoio à implementação da política de educação inclusiva e da política de saúde da pessoa com deficiência se viabiliza por meio de estratégias promotoras de saúde e educação, objetivando o aten- dimento à diversidade social e a atenção às necessidades educacionais especiais dos alunos. Portanto, a implementação de uma Rede de Apoio à Educação Inclusiva tem como funções:

• ampliar a atenção integral à saúde do aluno com necessidades educacionais especiais;

• assessorar as escolas e unidades de saúde e reabilitação;

• formar profissionais de saúde e educação para apoiar a escola inclusiva;

• assessorar a comunidade escolar na identificação dos recursos da saúde e da educação existentes na comunidade e orientar a otimização na utilização des- ses recursos;

• informar sobre a legislação referente à atenção integral ao aluno com necessida- des educacionais especiais e sobre o direito à educação;

• sensibilizar a comunidade para o convívio com as diferenças.

Assim concebida, esta rede de apoio deve contar não apenas com profissionais de competências diversificadas, como também com conselheiros tutelares, agentes comunitá- rios de saúde e outros agentes sociais orgânicos à comunidade, de forma que se interligue permanentemente com as demandas específicas de cada local em que atue.

Claro está que a condição para a criação de uma rede de interesses intersetoriais como a aqui defendida implica o envolvimento de gestores não só da Educação, mas tam- bém da Saúde de forma que as políticas de atenção à criança e ao adolescente possam se complementar articulando esforços e recursos das duas áreas, no sentido de fazer do processo de escolarização um dispositivo de saúde.

Fundamental também não desconsiderarmos a existência de uma rede de institui- ções não governamentais altamente estruturada para prestar os serviços de apoio à edu- cação de pessoas com deficiência que preencheu um espaço inegavelmente importante a toda uma comunidade que durante um longo período não contou com o Estado para esse atendimento. O aproveitamento dos inúmeros aparelhos atualmente distribuídos entre rede privada, organizações não governamentais, escolas especiais, salas de apoio especial e UBS/CAPS deve ser articulado na composição do que se tornariam equipes municipaliza- das de facilitadores da política inclusiva.

Todas as considerações até aqui trazidas apontam para uma concepção de in- clusão que extrapola o espaço restrito da escola. Essa inclusão é percebida como um processo de ampliação da circulação social que produza uma aproximação dos seus diversos protagonistas, convocando-os à construção cotidiana de uma sociedade que ofereça oportunidades variadas a todos os seus cidadãos e possibilidades criativas a todas as suas diferenças.

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