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Constru¸c˜ ao do conjunto dos n´ umeros inteiros

No documento Elementos da Teoria dos Conjuntos (páginas 66-103)

(a) S

X/R=X;

(b) ∅∈/ X/R;

(c) Para todos Y, Z ∈X/R, se Y 6=Z ent˜ao Y ∩Z =∅;

(d) Se x ∈ Y e todo Y ∈ X/R, para todo y ∈ X temos que xRy se, e somente se, y∈Y.

Demonstra¸c˜ao: Usaremos a nota¸c˜ao [x] para o conjunto {y∈X :xRy}.

Dado x ∈ X, temos que x ∈ [x], uma vez que, pela propriedade reflexiva, xRx.

Isso prova (a). Como todo elemento deX/R´e da forma [x], para algum x∈X, isso prova tamb´em a parte (b)

Para provar (c), assumindo que Y e Z s˜ao dois elementos de X/R que n˜ao s˜ao disjuntos, mostraremos que Y =Z. Sejam x∈Y ∩Z e y0, z0 ∈X tais que Y = [y0] e Z = [z0]. Dadoy ∈Y, temos, por defini¸c˜ao, que y0Ry. Logo, pela simetria,yRy0. Mas como x ∈ Y, temos y0Rx. Pela transitividade temos yRx. Mas, como x ∈ Z, temos z0Rx e, pela simetria,xRz0. Logo, a transitividade nos d´ayRz0 e, novamente pela simetria, z0Ry, o que prova quey∈Z. Isso conclui queY ⊂Z e um argumento an´alogo mostra que Z ⊂Y, provando queY =Z.

Mostremos a parte (d). Se Y ∈ X/R, existe y0 ∈ X tal que Y = [y0]. Como x ∈ Y, temos que y0Rx e, portanto, xRy0. Se yRx, por transitividade e simetria temosyRy0 ey0Ry, de onde temos quey ∈Y. Por outro lado, sey ∈Y, temosy0Ry

e, portanto, xRy, concluindo a prova do teorema.

Em outras palavras, o Teorema 11.2 parte (d) nos diz que duas classes de equi-valˆencia [x] e [y] s˜ao iguais se, e somente se, xRy.

11.2. CONSTRUC¸ ˜AO DO CONJUNTO DOS N ´UMEROS INTEIROS 67 produto de n´umeros inteiros. Uma defini¸c˜ao informal seria

[(a, b)] + [(c, d)] = [(a+c, b+d)]

[(a, b)]·[(c, d)] = [(ac+bd, ad+bc)]

Por´em, tal defini¸c˜ao n˜ao pode depender da escolha do representante. Nesta primeira vez que fazemos esse tipo de constru¸c˜ao seremos mais rigorosos, definindo explicita-mente as fun¸c˜oes de soma e produto. Como mais um abuso de nota¸c˜ao, denotaremos (Z×Z)×ZporZ×Z×Z, ou, simplesmente,Z3, e o par ((x, y), z) pela tripla (x, y, z).

Definimos:

S ={(x, y, z)∈Z3 :∃a∃b∃c∃d((a, b)∈x∧(c, d)∈y∧(a+c, b+d)∈z}

P ={(x, y, z)∈Z3 :∃a∃b∃c∃d((a, b)∈x∧(c, d)∈y∧(ac+bd, ad+bc)∈z}

Teorema 11.3 Sejam S e P definidos como acima. Temos que (a) S e P s˜ao fun¸c˜oes;

(b) Para todos a, b, c, d em ω temos que S([(a, b)],[(c, d)]) = [(a+c, b+d)];

(c) Para todos a, b, c, d em ω temos que P([(a, b)],[(c, d)]) = [(ac+bd, ad+bc)].

Demonstra¸c˜ao: Para as trˆes partes do teorema precisamos mostrar a independˆencia em rela¸c˜ao `a escolha dos representantes. Isto ´e, mostraremos a seguinte afirma¸c˜ao:

Afirma¸c˜ao: Se (a, b)R(a0, b0) e (c, d)R(c0, d0) ent˜ao (a+c, b+d)R(a0+ c0, b0+d0) e (ac+bd, ad+bc)R(a0c0+b0d0, a0d0 +b0c0).

Provaremos a afirma¸c˜ao assumindo as propriedaes conhecidas da aritm´etica: co-mutatividade, associatividade, lei do cancelamento etc.

Suponha que (a, b)R(a0, b0) e (c, d)R(c0, d0). Isso significa que a + b0 = b +a0 e c +d0 = d + c0. Logo, a +b0 +c +d0 = b + a0 + d +c0, o que significa que (a+c, b+d)R(a0+c0, b0+d0).

Agora veremos que (ac+bd, ad+bc)R(a0c0+b0d0, a0d0+b0c0).

Comoa+b0 =a0+be c+d0 =c0+d, temos que, para todos x, y, z, w em ω, vale a seguinte igualdade:

(a+b0)x+ (c+d0)y+ (a0+b)z+ (c0+d)w= (a0+b)x+ (c0+d)y+ (a+b0)z+ (c+d0)w Tomando x= c+c0, y =a+a0, z =d+d0 e w=b+b0, utilizando as propriedades operat´orias de n´umeros naturais, provamos queac+bd+a0d0+b0c0 =ad+bc+a0c0+b0d0 e, portanto, (ac+bd, ad+bc)R(a0c0+b0d0, a0d0+b0c0). Deixamos os detalhes das contas para o leitor completar.

Vejamos como isso ajuda a provar o teorema. Para provar que S ´e uma fun¸c˜ao de Z2 em Z, primeiro temos que provar que, para todo (x, y)∈ Z2, existe z tal que

(x, y, z)∈S. Mas isso ´e verdade, pois pelo Teorema 11.2, parte (b), existe x e y s˜ao n˜ao-vazios. Logo, existem (a, b)∈ x e (c, d) ∈y. Pela parte (a) do mesmo teorema, existez tal que (a+c, b+c)∈z, o que nos d´a, pela defini¸c˜ao deS, que (x, y, z)∈S.

O mesmo argumento mostra que, para todo (x, y)∈Z2, existez tal que (x, y, z)∈P, tomando, desta vez, z contendo (ac+bd, ad+bc).

Isso j´a prova, quando concluirmos que S e P s˜ao fun¸c˜oes, as partes (b) e (c) do presente teorema.

Agora vejamos a unicidade. Suponha que (x, y, z) ∈ S e (x, y, z0) ∈ S. Pela defini¸c˜ao de S, (x, y, z) ∈ S implica que existem n´umeros naturais a, b, c, d tais que (a, b)∈x, (c, d)∈y e (a+c, b+d)∈z, e (x, y, z0)∈S implica que existem n´umeros naturaisa0, b0, c0, d0 tais que (a0, b0)∈x, (c0, d0)∈y e (a0 +c0, b0+d0)∈z0.

Note que n˜ao podemos, a princ´ıpio, assumir que os n´umeros a, b, c, d que teste-munham que (x, y, z)∈S s˜ao os mesmos que testemunham que (x, y, z0)∈S.

Por´em, como (a, b) e (a0, b0) ambos pertencem a x, o Teorema 11.2, parte (d), nos garante que (a, b)R(a0, b0). Da mesma forma temos (c, d)R(c0, d0). Logo, pela afirma¸c˜ao, (a+c, b+d)R(a0 +c0, b0+d0). Logo, o Teorema 11.2, parte (d), tamb´em nos assegura que (a0+c0, b0+d0)∈z. Portanto, (a0+c0, b0+d0)∈z∩z0, o que implica, pela parte (c) do Teorema 11.2, quez =z0, como quer´ıamos provar.

A demonstra¸c˜ao de queP ´e uma fun¸c˜ao ´e an´aloga.

Sendo x e y n´umeros inteiros, denotamos S((x, y)) por x+y, e P((x, y)) por x·y ou, simplesmente, xy. Como estamos usando os mesmos s´ımbolos em conjuntos diferentes, estamos fugindo um pouco do rigor da l´ogica, e precisamos estar atentos ao contexto. O importante ´e nunca perder a conex˜ao com a linguagem l´ogica estrita, estando ciente de como cada uma dessas nota¸c˜oes funciona como abreviatura.

Definir fun¸c˜ao em classes de equivalˆencia atrav´es de um representante, para de-pois mostrar que a defini¸c˜ao independe da escolha do representatne, ´e uma pr´atica bastante comum no cotidiano da matem´atica, com a qual o estudante deve ter se deparado diversas vezes. Aqui foi apresentada a formaliza¸c˜ao desse processo, que, como podemos notar, n˜ao ´e trivial, apesar de ser bem intuitivo. Reparem que todos os itens do Teorema 11.2 foram utilizados e, na demonstra¸c˜ao desse, foram utilizadas todas as trˆes propriedades de rela¸c˜ao de equivalˆencia.

11.3 Constru¸ c˜ ao do conjunto dos n´ umeros racio-nais

A constru¸c˜ao deQ a partir deZse assemelha muito `a constru¸c˜ao de Za partir deω.

Primeiro definimos o n´umero inteiro 0 (eventualmente denotado por 0Z, quando houver possibilidade de confus˜ao com o n´umero natural 0) como a classe [(0,0)].

Definimos uma rela¸c˜aoR em Z×(Z r{0Z}) como

R={((a, b),(c, d))∈(Z×(Z r{0Z}))2 :ad=bc}

Fica como exerc´ıcio verificar que R ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia.

11.4. CONSTRUC¸ ˜AO DO CONJUNTO DOS N ´UMEROS REAIS 69 Definimos

Q= (Z×(Z r{0Z}))/R

Obviamente, a classe de equivalˆencia representada pelo par (a, b) corresponde ao n´umero racional representado pela fra¸c˜ao ab, eR ´e a equivalˆencia de fra¸c˜oes.

Definimos a soma e o produto de n´umeros reais da seguinte forma:

[(a, b)] + [(c, d)] = [(ad+bc, bd)]

[(a, b)]·[(c, d)] = [(ac, bd)]

Deixamos como exerc´ıcio ao leitor provar que essa defini¸c˜ao independe da escolha do representante. Os demais detalhes para a formaliza¸c˜ao s˜ao iguais aos que foram feitos anteriormente.

11.4 Constru¸ c˜ ao do conjunto dos n´ umeros reais

A constru¸c˜ao que ser´a feita nesta se¸c˜ao deve-se a Richard Dedekind (1831–1916).

Para construirmos os n´umeros reais a partir dos racionais, precisamos, antes, introduzir uma s´erie de defini¸c˜oes para podermos falar da ordem em Q.

Dizemos que um n´umero inteiro x ´e positivo se existe n ∈ ω tal que n 6= 0 e (n,0)∈x.

Dizemos que um n´umero racional x ´e positivo se existe (a, b) ∈ x tal que a e b s˜ao n´umeros inteiros positivos.

Definimos uma rela¸c˜ao<em Qda seguinte forma: a < b se, e somente se, existe um n´umero racional positivo ctal que a+c=b.

Dizemos que um subconjunto C deQ ´e um corte se satisfaz as seguintes propri-edades:

• ´e n˜ao-vazio: ∃x(x∈C);

• n˜ao cont´em todos os racionais: ∃x(x∈Q∧x /∈C);

• n˜ao tem m´aximo: ∀x∃y:x < y;

• ´e fechado para baixo: ∀x∀y((x∈C∧y < x)→y∈C).

Definimos o conjunto dos n´umeros reais como:

R={C ⊂Q:C ´e um corte}

Intuitivamente, pensamos em um n´umero real, nesta constru¸c˜ao por cortes, como o conjunto dos racionais menores do que ele.

Dados dois n´umeros reais A e B (ou seja, dois cortes em Q) definimos a soma e o produto de A e B como:

[A] + [B] ={a+b :a∈A∧b∈B}

[A]·[B] ={x∈Q:∃a∃b(a∈A∧b∈B ∧x < a·b)}

Deixamos como exerc´ıcio provar que as defini¸c˜oes acima est˜ao boas. Ou seja, que os subconjuntos deQdefinidos acima s˜ao cortes. Ao leitor mais paciente indicamos a tarefa de provar todos os axiomas de corpo ordenado completo – com a ordem dada pela inclus˜ao – que s˜ao estudados em An´alise Real.

Exerc´ıcios

1. Seja X um conjunto e sejamx0 e y0 dois elementos distintos de X. Considere a seguinte rela¸c˜ao em X:

R ={(x, y)∈X×X :x=y} ∪ {(x0, y0),(y0, x0)}

(a) Prove que R ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia em X.

(b) Descreva os elementos de X/R.

2. Considere C um conjunto n˜ao-vazio de conjuntos n˜ao-vazios tal que, para todos x e y pertencentes a C, se x 6= y ent˜ao x∩y = ∅. Seja X = S

C. Defina em X a rela¸c˜ao:

R ={(x, y)∈X :∃z(z ∈C∧x∈z∧y∈z)}

(a) Prove que R ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia em X.

(b) Mostre queC =X/R.

(c) Prove que duas rela¸c˜oes de equivalˆencia diferentes possuem classes de equi-valˆencias diferentes.

3. Como fica uma rela¸c˜ao de equivalˆencia sobre ∅? Ela satisfaz o Teorema 11.2?

4. Prove a propriedade comutativa da soma de n´umeros inteiros.

5. Prove que a rela¸c˜ao R definida na Se¸c˜ao 11.2 ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia (podendo assumir as propriedades usuais da soma de n´umeros naturais, como asso-ciatividade e a lei do cancelamento).

Cap´ıtulo 12

Axioma da substitui¸ c˜ ao

Veremos agora o ´ultimo axioma (ou melhor, esquema de axiomas) de ZF (isto ´e, o sistema de Zermelo e Fraenkelsem o axioma da escolha).

Axioma 9 (da substitui¸c˜ao) Seja P(x, y) uma f´ormula e suponha que, para todo x, y, z temos que P(x, y) e P(x, z) implicam y = z. Ent˜ao, para todo conjunto X, existe o conjunto

{y :∃x(x∈X∧P(x, y))}.

A condi¸c˜ao sobre a f´ormulaP diz que, para todo x, existeno m´aximo um ypara o qual P(x, y) vale. Ou seja, P exerce o papel de uma fun¸c˜ao parcial em X, e o axioma da substitui¸c˜ao garante que existe a imagem dessa “fun¸c˜ao”.

Para simplificar a nota¸c˜ao, introduzimos alguns s´ımbolos l´ogicos que ser˜ao utili-zados neste cap´ıtulo. O s´ımbolo ∃0 significa “existe no m´aximo um” e ´e definido da seguinte forma:

0xP ≡ ∀y(Pxy →(x=y)) O s´ımbolo ∃! significa “existe um ´unico” e ´e definido como

∃!xP ≡(∃xP)∧(∃0xP)

Formalmente, utilizando essa nota¸c˜ao, o esquema de axiomas da substitui¸c˜ao diz que para toda f´ormulaP em quev n˜ao ocorre livre a seguinte f´ormula ´e um axioma:

∀x∃0yP → ∀X∃v∀y((y∈v)↔ ∃x(x∈X∧P))

O motivo da restri¸c˜ao dev n˜ao ocorrer livre emP ´e o mesmo que foi discutido no axioma da separa¸c˜ao: reservamos a vari´avel v para definir o conjunto que o axioma constr´oi, e a ocorrˆencia livre de v em P poderia resultar em um paradoxo.

Poder´ıamos suprimir o axioma da separa¸c˜ao da lista de axiomas de ZFC, e prov´ a-lo como teorema, a partir do axioma da substitui¸c˜ao. Para isso basta tomarmos a f´ormula P(x)∧(x=y), escolhendo y uma vari´avel que n˜ao ocorre livre em P (lem-brando que, utilizando os axiomas l´ogicos, ´e sempre poss´ıvel substituirmos uniforme-mente as vari´aveis livres de uma f´ormula). O axioma da separa¸c˜ao nos garante que existe o conjunto

{y:∃x(x∈X∧P(x)∧(x=y))}, 71

o que coincide com o conjunto

{x∈X :P(x)}.

Classes de conjuntos: Para entendermos melhor o axioma da substitui¸c˜ao, pre-cisamos compreender a no¸c˜ao intuitiva de classes de conjuntos. A grosso modo, uma classe pr´opria ´e um conjunto (intuitivamente falando) “grande demais para ser con-junto”. Por exemplo, vimos que n˜ao existe o “conjunto de todos os conjuntos”, nem o “conjunto de todos os conjuntos unit´arios”. Ent˜ao falamos, intuitivamente, da

“classe de todos os conjuntos”, ou da “classe dos conjuntos unit´arios”.

Outras axiomatiza¸c˜oes para a teoria dos conjuntos – como a de Neumann, Bern-nays e G¨odel (NGB) e a de Kelley e Morse (KM) – formalizam o conceito de classes.

Nessas teorias, existem dois tipos de objetos matem´aticos: as classes e os conjuntos.

Todo conjunto ´e uma classe, mas nem toda classe ´e um conjunto. Classes que n˜ao s˜ao conjuntos s˜ao chamadas de classes pr´oprias.

Em ZFC, n˜ao existem classes, mas podemos reproduzir os argumentos usados em NGB e KM “interpretando” corretamente o conceito de classe, na metalinguagem.

Para isso, basta identificarmos classes com uma vari´avel livre que ocorre em uma f´ormula. Por exemplo, podemos escrever a f´ormula “x ´e unit´ario”. Ent˜ao pensamos na classe de todos os conjuntos x que satisfazem essa f´ormula. Se C ´e a “classe” de todos os conjuntos unit´arios, ent˜ao escrevermos (por um abuso de nota¸c˜ao) x∈C ´e o mesmo que escrever “x´e unit´ario”. A primeira frase n˜ao pode ser escrita formalmente em ZFC (apenas em NGB e KM), mas a segunda, pode, e tem o mesmo significado que a primeira.

Assim, dentro de ZFC o conceito de classes pode ser considerado um modo de enxergarmos alguns argumentos e teoremas que, de outro modo, seria menos intuitivo para compreendermos.

Sob esse ponto de vista, vamos explicar o que significa o axioma da substitui¸c˜ao.

A condi¸c˜ao que temos sobre a f´ormulaP(x, y) ´e a mesma que temos para uma rela¸c˜ao ser fun¸c˜ao (parcial). Ou seja, P pode ser vista como uma “fun¸c˜ao entre classes”. O axioma da substitui¸c˜ao diz que, se o dom´ınio de P ´e um conjunto (ou est´a contido em um conjunto), ent˜ao a imagem de P tamb´em ´e um conjunto. Ou ainda, quando restringimosP a um conjunto, a imagem deP restrita a esse conjunto tamb´em ´e um conjunto.

Para aplicarmos o axioma da substitui¸c˜ao precisamos enunciar uma nova vers˜ao do teorema da recurs˜ao finita. Antes, conv´em discorrermos sobre as diferen¸cas entre essa vers˜ao e aquela que vimos no Cap´ıtulo 9, e como aplicaremos para obtermos o fecho transitivo de um conjunto.

O fecho transitivo dex´e o menor conjunto transitivo que cont´em x. Para conse-guirmos isso, iteramos uma sequˆencia infinita de uni˜oes. Isto ´e, o fecho transitivo de x ser´a o conjunto S

z, ondez ´e “definido” como z ={x,[

x,[ [

x,[ [ [ x, . . .}

E claro que essa defini¸c˜´ ao n˜ao est´a boa. Al´em de definirmos rigorosamente o conjunto z acima, sem usarmos as reticˆencias, precisamos provar que ele existe, e ´e nesse ponto que entrar˜ao o axioma da substitui¸c˜ao e o teorema da recurs˜ao “para classes”.

73 Vejamos como poder´ıamos usar o teorema da recurs˜ao finita para provarmos a existˆencia de z. Retome o enunciado do Teorema 9.1. O conjunto x ser´a o mesmo do enunciado, e g a fun¸c˜ao g(y) = S

y. Pelo teorema da recurs˜ao existe uma ´unica fun¸c˜aof de dom´ınio ω tal que f(0) =x e f(n+) =g(g(n)). Isto ´e, f(n+) =S

f(n).

O conjunto z procurado ´e justamente a imagem de f.

Por´em, h´a uma falha nos argumentos do par´agrafo anterior, que ´e justamente a defini¸c˜ao de g. Falta definirmos o dom´ınio e contradom´ınio de g (o conjunto X do enunciado do Teorema 9.1). Se tiv´essemos o “conjunto de todos os conjuntos”, bastar´ıamos tomar esse como X.

Para contornarmos esse problema, trocamos a fun¸c˜aog, no enunciado do teorema da recurs˜ao, por uma “f´ormula funcional” G. Exigimos, ent˜ao, que a f´ormula possua pelo menos duas vari´aveis livres, x ey, e que, para cada x existe um ´unico y tal que G(x, y) ´e verdadeira. Ou seja, poder´ıamos escrever y = G(x) e, nessa concep¸c˜ao, a f´ormula G(f(n), f(n+)) escrita no enunciado do teorema seguinte equivale a f(n+) = G(f(n)).

Teorema 12.1 (recurs˜ao finita “para classes”) Sejamx0 um conjunto eG(x, y) uma f´ormula tal que ∀x∃!yG(x, y) seja verdadeira. Existe uma ´unica fun¸c˜ao f de dom´ınio ω tal que f(0) =x0 e G(f(n), f(n+)) ´e verdadeira.

Demonstra¸c˜ao: SejaF(n, f) a seguinte f´ormula:

n ∈ ω e f ´e uma fun¸c˜ao de dom´ınio n+ satisfazendo f(0) = x0 e G(f(k), f(k+)), para todo k ∈n.

Primeiro notemos que as express˜oes f(0), f(k) e f(k+) da f´ormula acima est˜ao bem definidas. Isto ´e, 0, k e k+ pertencem ao dom´ınio de f. De fato, j´a vimos que 0∈n+, para qualquer n, e ´e f´acil ver que k∈n implica que k+∈n+.

Est´a claro, pela maneira como definimos a f´ormula F(n, f), que essa nunca ser´a satisfeita quando n n˜ao ´e um n´umero natural. A pr´oxima afirma¸c˜ao, que ser´a pro-vada por indu¸c˜ao em n, assegura que F(n, f) satisfaz as condi¸c˜oes do axioma da substitui¸c˜ao, e tem como “dom´ınio” o conjunto ω.

Afirma¸c˜ao 1: Para cada n ∈ω existe um ´unico f tal que F(n, f) ´e verdadeiro.

A afirma¸c˜ao ´e verdadeira paran = 0. De fato,f ={(0, x0)}´e a ´unica fun¸c˜ao de dom´ınio 0+que satisfazf(0) =x0. Como n˜ao existek ∈0, a condi¸c˜aoG(f(k), f(k+))

´

e automaticamente satisfeita, para todo k ∈0.

Suponha que a afirma¸c˜ao vale paran. Mostraremos paran+. Seja f satisfazendo F(n, f). Pela hip´otese, existe y tal que G(f(n), y) ´e verdadeiro. Defina

g =f ∪ {(n+, y)}

Ou seja, g restrita a n+ ´e igual a f, eg(n+) = y. Mostremos que valeF(n+, g).

Como dom(f) = n+, temos que g ´e uma fun¸c˜ao de dom´ınio n+∪ {n+}. Isto ´e, dom(g) = (n+)+. De 0∈n+ e n+ =dom(f) segue que g(0) =f(0) =x0.

Falta mostrar a “´ultima parte” de F(n+, g). Seja k ∈ n+. Temos k ∈ n ou k =n. Se k ∈ n, temos k+ ∈ n+, que ´e o dom´ınio de f, e, portanto, g(k) = f(k) e g(k+) = f(k+). Logo, de G(f(k), f(k+)) segueG(g(k), g(k+)).

Analisemos o segundo caso: k = n. Temos g(k+) = g(n+) = y e g(k) = f(k).

Logo, deG(f(n), y) segue G(g(k), g(k+)).

Conclu´ımos que F(n+, g) ´e verdadeira. Mostremos a unicidade. Isto ´e, se vale F(n+, g0) ent˜ao g =g0.

Seja g0 uma fun¸c˜ao de dom´ınio (n+)+ satisfazendo F(n+, g0). Considere f0 a restri¸c˜ao de g0 an+. Isto ´e, definimos f0(k) = g0(k), para todo k ∈n+. Vejamos que vale F(n, f0).

Temos f0(0) = g0(0) = x0. Se k ∈ n, de F(n+, g0) segue G(g0(k), g0(k+)). Logo, como k+∈n+, vale G(f0(k), f0(k+)). Conclu´ımos que F(n, f0) ´e verdadeira.

Portanto, da hip´otese indutiva sobre a unicidade de f, segue que f0 = f. Em particular,g0(k) =g(k), para todok∈n+. Para mostrarmos queg =g0, basta verifi-carmos queg(n+) = g0(n+). Mas ambas as f´ormulasG(g(n), g(n+)) eG(g0(n), g0(n+)) s˜ao verdadeiras. Como g(n) = g0(n), pois n ∈ n+, da hip´otese sobre G segue que g(n+) =g0(n+).

Conclu´ımos, dessa forma, que a existˆencia de uma ´unica f tal que F(n, f) ´e verdadeira implica na existˆencia de uma ´unica g tal que vale G(n+, g). Portanto, provamos a afirma¸c˜ao 1 por indu¸c˜ao sobren.

Usando o axioma da substitui¸c˜ao, garantimos a existˆencia do seguinte conjunto:

Y ={g :∃n(n ∈ω∧F(n, g))}

Ou seja, g ∈Y se, e somente se, vale F(n, g) para algumn ∈ω. Definimos f =[

Y

Afirma¸c˜ao 2: f´e uma fun¸c˜ao de dom´ınioωsatisfazendoG(f(n), f(n+)), para todon ∈ω.

Para provarmos a afirma¸c˜ao 2, primeiro notamos que todos os elementos def s˜ao elementos de alguma fun¸c˜ao g de dom´ınio contido em ω. Logo, f ´e um conjunto de pares ordenados da forma (n, y), para n∈ω.

Seja n ∈ ω. Existe g que satisfaz F(n, g). Como n ∈ dom(g), existe y tal que (n, y) ∈ g e, portanto, (n, y) ∈ f. Agora, suponha que exista y0 tal que (n, y0) ∈ f. Temos que (n, y0)∈g0, para algumg0 ∈Y. Comon ∈dom(g0), repetindo o argumento feito no final da afirma¸c˜ao 1 conclu´ımos que a restri¸c˜ao de g0 a n+ ´e igual a g e, portanto, y0 =g0(n) =g(n) = y. Provamos que f ´e uma fun¸c˜ao de dom´ınio ω.

Vejamos que G(f(n), f(n+)) vale para todo n. Seja n∈ ω e tome g tal que vale F(n+, g). Temos g ∈ Y e vale G(g(n), g(n+)). Como f(n) =g(n) e f(n+) = g(n+), temos G(f(n), f(n+)).

Com isso, conclu´ımos a afirma¸c˜ao 2 e a existˆencia daf, como no enunciado. Falta provar a unicidade.

Sejaf0 uma fun¸c˜ao de dom´ınioω satisfazendof0(0) =x0 eG(f0(n), f0(n+)), para todon. Provemos, por indu¸c˜ao em n, que f0(n) =f(n), para todo n.

75 Vale f0(0) = f(0) pois ambos s˜ao iguais a x0. Suponha f0(n) = f(n). Pela hip´otese sobre G, e por valer G(f0(n), f0(n+)) e G(f(n), f(n+)), isso significa que f0(n+) =f(n+), como quer´ıamos.

Uma das aplica¸c˜oes do Teorema 12.1 ´e a defini¸c˜ao do fecho transitivo de um conjunto. Dizemos que y ´e o fecho transitivo de x se y ´e transitivo, x est´a contido em y e, para qualquer conjunto transitivo z, se x ⊂z ent˜ao y⊂ z. Ou seja, o fecho transitivo de x´e o menor conjunto transitivo que cont´em y. Est´a claro que o fecho transtivio, quando existe, ´e ´unico. A existˆencia segue do teorema anterior.

Corol´ario 12.2 Para todo x existe o fecho transitivo de y.

Demonstra¸c˜ao: Usando o Teorema 12.1, parax0 =xeG(x, y) a f´ormulay=S x, defina f de dom´ınio ω tal que f(0) =x ef(n+) =S

f(n).

Tome y=S

im(f). Mostraremos que y´e o fecho transitivo de x.

Est´a claro que x ⊂ y, pois x ∈im(f). Se z ∈ y, existe n ∈ω tal que z ∈ f(n).

Logo, z ⊂S

f(n) =f(n+). Portanto,z ⊂y.

Agora suponha que existe um conjunto transitivoztal quex⊂z. Vamos mostrar que y ⊂ z. Para isso, basta mostrar que f(n) ⊂ z, para todo n ∈ ω. Mas notemos que, pela transitividade, se w⊂ z temos S

w ∈z. Assim, como x⊂ z, por indu¸c˜ao provamos que f(n)⊂z, para todo n∈ω.

Exerc´ıcios

1. Prove o Teorema 9.1 como corol´ario do Teorema 12.1.

2. Prove que existe um conjunto x satisfazendo a seguinte condi¸c˜ao: ∅ ∈ x e, se y∈x ent˜ao{y} ∈x.

3. Prove a existˆencia de um conjunto indutivo ao qual ω pertence. Discuta o uso do axioma da substitui¸c˜ao.

Cap´ıtulo 13

Rela¸ c˜ oes de ordem

J´a vimos dois tipos importantes de rela¸c˜ao: as fun¸c˜oes e as rela¸c˜oes de equivalˆencia.

Veremos, agora, um terceiro tipo de rela¸c˜ao: as rela¸c˜oes de ordem.

Defini¸c˜ao 13.1 Uma rela¸c˜ao ≤⊂X×X ´e chamada deordem em X se satisfaz as seguintes propriedades, para todos x, y, z∈X:

• Reflexividade: x≤x;

• Transitividade: sex≤y e y≤z ent˜aox≤z.

• Anti-simetria: se x≤y ey≤x ent˜ao x=y;

Chamamos de conjunto ordenado um par (X,≤), onde ≤ ´e uma ordem em X, e dizemos que X ´e o dom´ınio da ordem ≤.

Uma rela¸c˜ao de ordem tamb´em ´e chamada de ordem parcial, para diferenciar da ordem total, que veremos daqui a pouco.

Um exemplo de ordem em um conjunto X ´e a rela¸c˜ao de inclus˜ao. Isto ´e, o conjunto {(x, y)∈X×X :x⊂y}. De fato, todo conjunto est´a contido nele mesmo, se x est´a contido em y e y est´a contido em z ent˜aox est´a contido em z, e o axioma da extens˜ao nos garante que x=y toda vez quexest´a contido emy ey est´a contido em x. Por abuso de nota¸c˜ao, usaremos, eventualmente, o s´ımbolo ⊂ para designar a rela¸c˜ao de inclus˜ao, como conjunto de pares ordenados.

Veremos que toda rela¸c˜ao de ordem pode ser vista como uma rela¸c˜ao de inclus˜ao.

Para explicar o que isso significa, introduzimos a seguinte defini¸c˜ao:

Defini¸c˜ao 13.2 Sejam≤1 e≤2 duas ordens emX1 eX2, respectivamente. Dizemos que≤1 e≤2 s˜aoordens isomorfas (ou queos conjuntos ordenados(X1,≤1)e(X2,≤2) s˜ao isomorfos) se existe uma fun¸c˜ao f : X1 −→ X2 bijetora em X2 tal que x ≤1 y se, e somente se,f(x)≤2 f(y).

Nesse caso, dizemos que a fun¸c˜aof ´e umisomorfismo de ordens.

O pr´oximo resultado diz que toda ordem ´e isomorfa `a rela¸c˜ao de inclus˜ao sobre algum conjunto.

Teorema 13.3 Seja (X,≤) um conjunto ordenado. Existe um conjunto ordenado (Y,) isomorfo a (X,≤) tal que

={(x, y)∈Y ×Y :x⊂y}

77

Demonstra¸c˜ao: Definaf :X −→ P(X) como f(x) ={y∈X :y≤x}

Tome Y a imagem de f. Mostraremos que f ´e injetora, o que basta para provarmos que ´e bijetora emY.

Suponha que f(x) = f(y). Pela reflexividade, como x ≤ x e y ≤ y, temos x∈ f(x) e y∈ f(y). Como f(x) e f(y) s˜ao iguais, temos x∈ f(y) e y ∈f(x). Pela defini¸c˜ao de f isso nos d´a x≤y e y≤x, que, pela anti-simetria, implica que x=y, provando que f ´e bijetora em Y.

Agora resta-nos mostrar que x≤y se, e somente se, f(x)⊂ f(y). Suponha que x≤y. Seja z ∈f(x). Temos que z≤x e, por transitividade, z ≤y. Logo,z ∈f(y).

Reciprocamente, suponha que f(x) ⊂ f(y). Como x ∈ f(x), temos x ∈ f(y), o que

significa que x≤y.

Listamos agora uma s´erie de defini¸c˜oes usadas para conjuntos ordenados.

Defini¸c˜ao 13.4 Seja≤uma rela¸c˜ao de ordem em um conjuntoX. Para todox∈X e todo S ⊂X n˜ao-vazio dizemos que

• x´elimitante superior de S sey≤x, para todo y ∈S;

• x´elimitante inferior de S sex≤y, para todo y ∈S;

• S ´elimitado superiormente se possui um limitante superior;

• S ´elimitado inferiormente se possui um limitante inferior;

• x´em´aximo de S sex∈S ey ≤x, para todo y∈S;

• x´em´ınimo deS sex∈S e x≤y, para todo y∈S;

• x´emaximal se n˜ao existe y∈X tal que x6=y e x < y;

• x´eminimal se n˜ao existe y∈X tal que x6=z e y < x;

• x´esupremo deS sex ´e o m´ınimo dos limitantes superior de S;

• x´e´ınfimo deS sex ´e o m´aximo dos limitantes inferior de S;

• S ´e umacadeia se, para todos y, z ∈S temos y ≤z ou z ≤y.

Essas defini¸c˜oes dependem da ordem. Portanto, quando n˜ao estiver claro no contexto qual ´e a ordem que estamos considerando sobre o conjunto X, devemos mencionar a qual ordem nos referimos. Ou seja, para ser mais preciso devemos escrever x ´e o m´aximo de X em rela¸c˜ao a ≤. Eventualmente, tamb´em usamos a nota¸c˜ao≤-m´aximo, ≤-maximal etc.

Notemos – pela defini¸c˜ao e pela antissimetria da rela¸c˜ao de ordem – que nem sempre um conjunto possui um elemento m´aximo, mas, se possuir, esse ´e ´unico. O mesmo vale para m´ınimo, supremo e ´ınfimo. Por´em, podemos ter v´arios limitantes superiores e inferiores de um conjunto e elementos maximais e minimais da ordem.

Agora podemos enunciar os principais tipos de ordem usados na matem´atica:

79 Defini¸c˜ao 13.5 Dizemos que uma ordem≤ sobre um conjunto X ´e uma(um):

• ordem total (ou ordem linear) se, para todos x, y ∈X temos x≤y ou y≤x;

• boa ordem se todo subconjunto n˜ao-vazio de X possui elemento m´ınimo;

• ´arvore se, para todo x∈X, o conjunto{y ∈X:y ≤x} ´e uma cadeia em X;

• reticulado se, para todos x, y ∈X, o conjunto {x, y} possui supremo e ´ınfimo.

Aplicamos os termos acima tamb´em para o conjunto ordenado (X,≤) e, por abuso de nota¸c˜ao, para o dom´ınio X.

Uma ordem total tem esse nome porque todos os elementos do dom´ınio podem ser comparados. Tamb´em a chamamos de ordem linear porque podemos visualizar todos os elementos da ordem como se estivessem numa mesma reta. As ordens usuais nos n´umeros naturais, inteiros, racionais e reais s˜ao exemplos de ordens totais.

Nota-se que toda boa ordem tamb´em ´e uma ordem total, uma vez que o conjunto {x, y} tem m´ınimo, o que nos d´ax≤y ou y≤x.

Uma ´arvore ´e uma ordem que pode “bifurcar”, mas nunca “juntar”, como na copa de uma ´arvore, em que o tronco se ramifica em galhos, que se ramificam em galhos menores, mas os galhos nunca se reajuntam. Al´em das numerosas aplica¸c˜oes em teoria dos conjuntos, as ´arvores s˜ao usadas em computa¸c˜ao e em teoria dos jogos. Por exemplo, as poss´ıveis sequˆencias de jogadas a partir de uma posi¸c˜ao numa partida de xadrez formam uma ´arvore, que um programa de computador (ou o c´erebro humano, de uma maneira mais intuitiva) analisar´a para poder decidir o melhor lance.

Uma ordem total ´e uma ´arvore, j´a que todo o conjunto ´e uma cadeia e, portanto, todos seus subconjuntos s˜ao cadeias.

Se considerarmos a ordem da inclus˜ao em uma fam´ılia de conjuntos fechada pelas opera¸c˜oes de uni˜ao e intersec¸c˜ao, essa ordem ser´a um reticulado, onde o ´ınfimo de {x, y}´ex∩y, e o supremo ´ex∪y. Esse tipo de ordem ´e particularmente interessante nos estudos de ´algebras de Boole. O reticulado ´e um pouco mais geral, pois temos as opera¸c˜oes de supremo e ´ınfimo (que correspondem `as opera¸c˜oes booleanas “e” e “ou”) mas n˜ao precisamos do complemento (correspondente `a opera¸c˜ao booleana “n˜ao”).

Tamb´em ´e evidente que toda ordem total ´e um reticulado, j´a que o pr´opriox e o pr´oprioy ser˜ao um deles o ´ınfimo e o outro o supremo do conjunto {x, y}.

Por abuso de linguagem, se (X,≤) ´e uma boa ordem dizemos queX´e umconjunto bem-ordenado. Obviamente, isso s´o faz sentido quando, no contexto, est´a claro qual ´e a ordem≤. Por exemplo, nos n´umeros naturais, sabemos que a ordem usual coincide com a ordem da inclus˜ao. Mostraremos, ent˜ao, o seguinte teorema:

Teorema 13.6 (ω,⊂) ´e uma boa-ordem.

Demonstra¸c˜ao: Primeiro provaremos, por indu¸c˜ao em n, que todo natural n ´e bem-ordenado com a ordem da inclus˜ao. O passo inicial n = 0 ´e trivial, j´a que 0 n˜ao cont´em sub-conjunto n˜ao-vazio. Supondo que n ´e bem-ordenado, considere S um subconjunto n˜ao-vazio de n+. Seja S0 = S r{n}. Observe que S0 ⊂ n. Se

S0 =∅, ent˜aoS ={n}, que possuincomo elemento m´ınimo. SeS0 6=∅, pela hip´otese indutiva existemque ´e o m´ınimo de S0. Comom ∈S0, temos quem∈n. Logo, pelo Teorema 7.8, parte (c), m⊂n, provando que m ´e o m´ınimo tamb´em de S.

Seja agoraS ⊂ω n˜ao-vazio. Sejak ∈Sen0 =k+. Temosk ∈S∩k+e, portanto, S∩n0 6= ∅. Comon0 ´e bem-ordenado, seja m o m´ınimo de S∩n0. Mostremos que m ´e o m´ınimo de S. Seja n ∈S. Pelo item (a), temosn ∈n0, n =n0 oun0 ∈n. No primeiro caso, den∈S∩n0 segue quem⊂n, pois ´e o m´ınimo deS∩n0. No segundo caso, como m∈n0, por (b) temos que m⊂n0 e, portanto, m⊂n. No terceiro caso, como m ∈n0 e n0 ∈ n, pelo Teorema 7.8, parte (c), segue que m ⊂n0 e n0 ⊂n, de onde conclu´ımos quem ⊂n, provando que (ω,⊂) ´e bem-ordenado.

Conjuntos bem-ordenados nos permite fazer um tipo especial de indu¸c˜ao e re-curs˜ao. Suponha que X ´e bem-ordenado e provamos que, para todo x ∈X, se uma determinada propriedade vale para todos os elementos menores que x, ent˜ao essa propriedade vale para x. Conclu´ımos, ent˜ao, que essa propriedade vale para todo elemento de X. De fato, sejam (X,≤) um conjunto bem-ordenado e P(x) uma pro-priedade tal que, para todo x ∈ X, se vale P(y), para todo y ≤ x diferente de x, ent˜ao vale P(x). Suponha, por absurdo, que existex0 ∈ X tal que n˜ao valha P(x0).

Considere Y = {x ∈ X : ¬P(x)}. Por hip´otese, Y 6= ∅, pois x0 ∈ Y. Como X

´

e bem-ordenado, Y possui um m´ınimo (digamos, x1) em rela¸c˜ao `a ordem ≤. Isso significa que todo elemento deX menor quex1 n˜ao pertence aY e, portanto, satisfaz a propriedade P. Logo, por hip´otese, valeP(x1), contradizendo que x1 ∈X.

Como sempre, onde podemos fazer provas por indu¸c˜ao podemos fazer defini¸c˜oes por recurs˜ao. Em particular, se temos um conjunto bem-ordenado e queremos definir uma fun¸c˜ao que tem como dom´ınio esse conjunto, podemos defin´ı-la em cada elemento x usando, recorrentemente, sua defini¸c˜ao nos elementos menores quex.

Para formalizar esse argumento, anunciamos e provamos o pr´oximo teorema, que

´

e mais uma vers˜ao do teorema da recurs˜ao. Desta vez, ela ´etransfinita, pois pode ser aplicada a conjuntos arbitrariamente grandes, a partir de uma boa ordem (veremos uma aplica¸c˜ao do axioma da escolha que mostra que todo conjunto pode ser bem-ordenado, isto ´e, para todoX existe≤tal que (X,≤) ´e bem-ordenado) e, a exemplo do Teorema 12.1, utiliza o axioma da substitui¸c˜ao para que n˜ao precisemos “ter controle” sobre a imagem da fun¸c˜ao usada no passo indutivo.

Para o pr´oximo teorema, usaremos a seguinte defini¸c˜ao: se (X,≤) ´e um conjunto bem-ordenado e x ∈ X, denotamos por x o conjunto dos elementos de X menores do que x, isto ´e, o conjunto {y ∈X : (y≤x)∧(y6=x)}.

Teorema 13.7 (recurs˜ao transfinita) SejaF(x, y)uma f´ormula tal que∀x∃!yF(x, y) seja verdadeira. Seja (X,≤) um conjunto bem-ordenado. Existe uma ´unica fun¸c˜ao f cujo dom´ınio ´e X e que satisfaz, para todo x∈X,

F(f|x, f(x))

Demonstra¸c˜ao: Considere G(x, f) a seguinte f´ormula:

(x∈X)∧(f ´e fun¸c˜ao)∧(dom(f) =x ∪{x})∧ ∀y(y≤x→F(f|y , f(y)))

No documento Elementos da Teoria dos Conjuntos (páginas 66-103)

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