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De fato, poder´ıamos definir, sem problemas, (a, b, c) como (a,(b, c)), e ter´ıamos a mesma propriedade de duas triplas serem iguais se, e somente se, as coordenadas correspondentes s˜ao iguais.

Podemos estender essa defini¸c˜ao paran-uplas ordenadas. Formalmente (mas nem tanto), definimos (a1, . . . , an) como ((a1, . . . , an−1), an). ´E bom lembrarmos que essa defini¸c˜ao recursiva ainda n˜ao pode ser feita rigorosamente na linguagem de primeira ordem, pois utiliza o teorema de recurs˜ao sobre classes, que ainda n˜ao vimos.

Paran ≥2 definimosAno conjunto dasn-uplas (a1, . . . , an) tais queai ∈A, para todo i entre 1 e n. Na metalinguagem, formalizamos An como An−1×A, sendo que A1´e, por defini¸c˜ao, o pr´oprio conjuntoA. Vemos, por essa defini¸c˜ao, queA2 =A×A.

Outra maneira, mais precisa, de definirmos An ´e como o conjunto das fun¸c˜oes (como veremos daqui a pouco) den em A.

8.4 Fun¸ c˜ oes

Uma fun¸c˜ao de A em B ´e uma rela¸c˜ao que associa a cada elemento de A um ´unico elemento de B. Posto isso formalmente temos a seguinte defini¸c˜ao:

Defini¸c˜ao 8.5 Dizemos que uma rela¸c˜ao F entre A e B ´e uma fun¸c˜ao de A em B se para todox∈A existe um ´unico y∈B tal que (x, y)∈F. Isto ´e, F ´e uma fun¸c˜ao deA em B se a seguinte f´ormula ´e verdadeira:

(F ⊂A×B)∧∀x(x∈A→ ∃y((x, y)∈F))∧∀x∀y∀z(((x, y)∈F∧(x, z)∈F)→(y=z)) . Notemos que a f´ormula dada ´e uma conjun¸c˜ao de trˆes subf´ormulas. A primeira diz que uma fun¸c˜ao de A em B ´e uma rela¸c˜ao entre A e B. Ou seja, para todo par ordenado (x, y) ∈ f temos x ∈ A e y ∈ B. A segunda subf´ormula diz que todo elemento de A ´e contemplada pela fun¸c˜ao F (quando n˜ao exigimos essa condi¸c˜ao, dizemos que f ´e umafun¸c˜ao parcial deA em B). Finalmente, a terceira subf´ormula nos diz que a fun¸c˜ao s´o relaciona um elmento de B, para cada elemento de A.

Denotamos porAB o conjunto das fun¸c˜oes de Aem B. Deixamos como exerc´ıcio ao leitor provar a existˆencia de AB, pois ´e uma simples aplica¸c˜ao do axioma da separa¸c˜ao. Essa nota¸c˜ao funciona como um s´ımbolo funcional da linguagem.

Mantendo a tradi¸c˜ao, usaremos preferencialmente letras min´usculas para denotar fun¸c˜oes.

Se f ´e uma fun¸c˜ao de A em B, dizemos que A ´e o dom´ınio de f – que ser´a denotado por dom(f) – e o conjunto {b ∈B :∃a((a, b)∈ f)} ´e chamado de imagem de f – que ser´a denotada porim(f).

Normalmente se utiliza o termo contradom´ınio de uma fun¸c˜ao para designar o conjuntoB, quando a fun¸c˜ao ´e deAemB. Todavia, esse termo n˜ao ´e muito adequado na defini¸c˜ao aqui adotada de fun¸c˜ao, j´a que, dada uma fun¸c˜ao f, n˜ao ´e poss´ıvel

“recuperar” o contradom´ınio. Por exemplo, se tomarmos o conjunto (supondo que j´a temos constru´ıdos os n´umeros reais) {(x, y)∈R2 :y=x2}, esse pode tanto ser visto como uma fun¸c˜ao deRemRquanto uma fun¸c˜ao deRemR+(os reais n˜ao-negativos).

Por outro lado, essa ambiguidade n˜ao existe ao definirmos o dom´ınio e a imagem a partir da fun¸c˜ao. ´E poss´ıvel “recuperar” o dom´ınio e a imagem de uma fun¸c˜ao.

Abaixo seguem as defini¸c˜oes do dom´ınio e imagem a partir da fun¸c˜ao, e a tarefa de mostrar que essas defini¸c˜oes cumprem o prometido ´e deixada ao leitor:

dom(f) ={a∈[ [

f :∃b((a, b)∈f)}

im(f) ={b ∈[ [

f :∃a((a, b)∈f)}

Nessas defini¸c˜oes ´e bom notar em como os axiomas do par e das partes “empa-cotam” os conjuntos, enquanto o axioma da uni˜ao “desempacota”.

Tamb´em notamos que as mesmas defini¸c˜oes podem ser aplicadas para rela¸c˜oes bin´arias quaisquer.

Como uma fun¸c˜ao associa a cada elemento do dom´ınio um ´unico elemento da imagem, podemos introduzir a seguinte nota¸c˜ao: se (x, y) pertence a uma fun¸c˜aof, denotamos y por f(x). Essa nota¸c˜ao s´o ´e poss´ıvel, pois, para x ∈ dom(f), existe um ´unico y satisfazendo (x, y)∈f. Por´em, precisamos ser mais cautelosos com essa nota¸c˜ao do que somos com outras como a do par ({a, b}), da uni˜ao de dois conjuntos (a∪ b) e do par ordenado. Isso porque, enquanto as outras nota¸c˜oes valem para quaisquer termos,f(x)s´o est´a bem definido quando f ´e uma fun¸c˜ao e x pertence ao dom´ınio def. Logo, n˜ao podemos desavisadamente introduzir essa nota¸c˜ao como um s´ımbolo funcional bin´ario da linguagem, pois f(x) n˜ao est´a definido para quaisquer conjuntos f ex.

Outra nota¸c˜ao que podemos introduzir – comum na linguagem cotidiana da ma-tem´atica – ´e f : A −→ B para designar que f ´e uma fun¸c˜ao de A em B, ou, em outras palavras (ou melhor, s´ımbolos), f ∈A B. A nota¸c˜ao f : A −→ B deixa impl´ıcito que f ´e uma fun¸c˜ao, o dom´ınio de f ´e A e a imagem de f est´a contida em B. Se escrevemos que f :A−→B ´e sobrejetora, isso significa quef ´esobrejetora em rela¸c˜ao a B. Ou seja, que a imagem def ´eB. Da mesma forma, quando escrevemos quef :A−→B ´e bijetora, dizemos quef ´e bijetora em rela¸c˜ao aB, isto ´e, ´e injetora e tem imagem igual a B.

Suponha que f ´e uma fun¸c˜ao de A em B e que C ´e um subconjunto de A.

Definimos

f|C = (C×B)∩f

arestri¸c˜ao de f ao conjunto C. Fica como exerc´ıcio ao leitor mostrar quef|C´e uma fun¸c˜ao de C em B.

Dizemos que uma fun¸c˜ao f : A −→ B ´e injetora se, para todo x, y ∈ A temos que, se x 6= y, ent˜ao f(x) 6= f(y). Ou seja, quando dois elementos distintos do dom´ınio nunca s˜ao mapeados para o mesmo elemento da imagem. Dizemos que f ´e sobrejetora em rela¸c˜ao a B se para todo y ∈ B existe x ∈ A tal que f(x) = y. Ou seja, quando B ´e a imagem de f. A necessidade de relativizarmos aB a defini¸c˜ao de sobrejetora vem daquele problema anteriormente mencionado, sobre a impossibilidade de “recuperarmos” o contra-dom´ınio de uma fun¸c˜ao. Quando est´a claro no contexto qual contradom´ınio est´a sendo considerado (quando, por exemplo, escrevemos que

“f ´e uma fun¸c˜ao de A em B”) dizemos apenas que a fun¸c˜ao ´e sobrejetora, mas ´e necess´aria uma cautela extra para esse tipo de nomenclatura.

8.4. FUNC¸ ˜OES 57 Uma fun¸c˜ao f : A −→ B ´e bijetora (ou bijetora em rela¸c˜ao a B) quando ´e injetora e sobrejetora (em rela¸c˜ao a B). Nesse caso tamb´em dizemos que A ´e uma bije¸c˜ao entreAeB. No cap´ıtulo sobre conjuntos equipotentes discutiremos melhor a propriedade de existir uma bije¸c˜ao entre dois conjuntos (lembram-se da introdu¸c˜ao, sobre como comparar tamanhos de conjuntos infinitos?)

Ainda h´a algumas defini¸c˜oes a serem introduzidas, com as quais o estudante de matem´atica deve estar bem acostumado. Se f e g s˜ao fun¸c˜oes, e im(g) ⊂ dom(f), ent˜ao definimos a fun¸c˜ao composta def eg da seguinte forma:

f◦g ={(x, z)∈dom(g)×im(f) :∃y((x, y)∈g∧(y, z)∈f}

Novamente, ´e preciso tomar cuidado com essa nota¸c˜ao, pois ela s´o faz sentido dentro das hip´oteses estritas apresentadas acima.

Exerc´ıcios

1. Encontre uma defini¸c˜ao alternativa para par ordenado de modo que o Teo-rema 8.2 continue valendo. Justifique.

2. Prove que A×B =∅ se, e somente se A=∅ou B =∅.

3. Prove que, se A⊂C eB ⊂D, ent˜ao A×B ⊂C×D.

4. Vale a rec´ıproca do exerc´ıcio 3? Justifique.

5. Descreva todos os elementos de P(2×2).

6. Escreva uma f´ormula de primeira ordem, de trˆes vari´aveis livres, sem abreviaturas da linguagem de teoria dos conjuntos, que significa “x´e uma fun¸c˜ao de y em z”.

7. Prove que, se f e g s˜ao injetoras, ent˜ao f ◦g ´e injetora. Mostre, atrav´es de um contra-exemplo, que a rec´ıproca n˜ao ´e verdadeira.

8. Em quais condi¸c˜oes temos AB ⊂C D? Justifique.

9. Dada uma rela¸c˜ao R, definimos a inversa de R – que ser´a denotada por R−1 – como o conjunto {(y, x) : (x, y)∈R}. Com base nisso, prove as seguintes asser¸c˜oes:

(a) Para toda rela¸c˜aoR existe R−1.

(b) Sef ´e uma fun¸c˜ao, f−1 ´e uma fun¸c˜ao se, e somente se, f ´e injetora.

(c) Sef egs˜ao fun¸c˜oes injetoras tais queim(g)⊂dom(f), ent˜ao (f◦g)−1 =g−1◦f−1. 10. Prove que existe uma fun¸c˜ao injetora de ω em ω que n˜ao ´e sobrejetora (em rela¸c˜ao a ω).

Cap´ıtulo 9

Aritm´ etica dos n´ umeros naturais

J´a definimos o conjunto dos n´umeros naturais e mostramos que esse satisfaz os axi-omas de Peano. Vamos, agora, definir as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao, como fun¸c˜oes deω×ω em ω. Para isso, precisamos, antes, definir o teorema da recurs˜ao.

Teorema 9.1 (da recurs˜ao) SejamX um conjunto, x um elemento de X e g uma fun¸c˜ao de X em X. Ent˜ao existe uma ´unica fun¸c˜ao f de ω em ω tal que

• f(0) = x;

• f(n+) = g(f(n)), para todo n∈ω.

Demonstra¸c˜ao: Usando o axioma da separa¸c˜ao, defina o conjunto

C ={R ∈ P(ω×X) : (0, x)∈R∧ ∀n∀y((n, y)∈R→(n+, g(y)))∈R}.

Claramente ω×X ∈ C. Logo, C ´e n˜ao-vazio. Podemos, portanto, definir o conjunto f =\

C

Precisamos provar que f ´e uma fun¸c˜ao e que satisfaz a condi¸c˜ao para pertencer aC. Afirma¸c˜ao 1: f ∈ C

O procedimento da demonstra¸c˜ao da afirma¸c˜ao 1 ´e an´alogo `a demonstra¸c˜ao que ω ´e um conjunto indutivo. Como (0, x) ∈R, para todo R ∈ C, ent˜ao (0, x) ∈f. Se (n, y)∈f, ent˜ao (n, y)∈R, para todoR ∈ C. Logo, pela hip´otese sobre os elementos de C, (n+, g(y))∈ R, para todo R ∈ C. Logo, (n+, g(y))∈f, concluindo a prova da afirma¸c˜ao.

Afirma¸c˜ao 2: f ´e uma fun¸c˜ao de dom´ınio ω

Vamos provar, por indu¸c˜ao, que para todo n ∈ ω vale a f´ormula P(n), definida abaixo:

P(n)≡ ∃y((n, y)∈f)∧ ∀y∀z(((n, y)∈R∧(n, z)∈R)→(y =z)) 59

Vamos provarP(0). Pela afirma¸c˜ao 1, (0, x)∈f. Vamos provar que, se (0, y)∈f, ent˜ao y =x. Suponha, por absurdo, que existe y 6=x tal que (0, y) ∈ f. Considere R = f r{(0, y)}. Vamos verificar que R ∈ C. De fato, (0, x) ∈ R, pois (0, x) ∈ f e x 6= y. Se (n, y) ∈ R, ent˜ao (n, y) ∈ f, pois R ⊂ f. Logo, (n+, g(y)) ∈ f (pela afirma¸c˜ao 1). Comon+ 6= 0 (axioma 4 de Peano), temos que (n+, g(y))∈f´e diferente de (0, y) e, portanto, pertence a R.

Portanto, conclu´ımos que R∈ C, o que implica que f ⊂R. Como R⊂f, temos f =R, absurdo, pois (0, y)∈f e (0, y)∈/ R.

Vamos agora provar que P(n) implica P(n+).

Assumindo P(n) como verdadeiro, temos que existe y tal que (n, y) ∈f. Logo, como f ∈ C, temos que (n+, g(y))∈f, provando a “primeira parte” de P(n+).

Agora supomos, por absurdo, que existe z 6= g(y) tal que (n+, z) ∈ f. Defina R=f r{(n+, z)}. Vamos verificar que R ∈ C,

Como n+ 6= 0, continuamos tendo (0, x) ∈ R. Suponha que (m, v) ∈ R. Como f ∈ C e R ⊂ f temos que (m+, g(v)) ∈ R. Se m 6= n, o axioma 3 de Peano nos garante que m+ 6=n+, logo, (m+, g(v))6= (n+, z), provando que (m+, g(v))∈ R. Se m = n, pela hip´otese indutiva P(n) temos que v = y (pois (n, y) ∈ f), e j´a vimos que (n+, g(y) ∈ f. Como z 6= g(y), tamb´em temos que (n+, g(y) ∈ R. Provamos, com isso, que R ∈ C o que novamente contradiz com o fato de R estar contido propriamente em f. Isso conclui a demonstra¸c˜ao da afirma¸c˜ao 2.

Das afirma¸c˜oes 1 e 2 segue imediatamente o teorema. Sendo f uma fun¸c˜ao de dom´ınioωe satisfazendo as condi¸c˜oes da fam´ılia de conjuntosC, temos que (0, x)∈f, o que significa que f(0) = x. Como, para todo n, temos, pela pr´opria defini¸c˜ao de fun¸c˜ao, (n, f(n))∈f, da afirma¸c˜ao 1 segue que (n+, g(f(n))∈f, o que significa que f(n+) =g(f(n)).

A unicidade da fun¸c˜ao f pode ser provada por indu¸c˜ao. Suponha que existe h satisfazendo as mesmas condi¸c˜oes do teorema estabelecidas para f. Temos que f(0) =h(0), pois ambos s˜ao iguais a x. Se f(n) =h(n), ent˜ao g(f(n)) =g(h(n)), e ambos s˜ao iguais a f(n+) e h(n+). Logo, por indu¸c˜ao, f =h.

9.1 Aritm´ etica dos n´ umeros naturais

J´a definimos ω como o conjunto dos n´umeros naturais, e mostramos que ele satisfaz os axiomas de Peano. Falta definir a aritm´etica. Ou seja, precisamos definir duas fun¸c˜oes deω×ω em ω que correspondem `as opera¸c˜oes de soma e produto.

A ideia geral da defini¸c˜ao da soma ´e utilizar o teorema da recurs˜ao para definir, para cada n´umero natural m, uma fun¸c˜aosm :ω −→ω tal que

sm(0) =m sm(n+) = (sm(n))+

e definimos m +n como sm(n). Utilizando novamente o teorema da recurs˜ao e a defini¸c˜ao das fun¸c˜oes acima podemos definir, para cada n´umero natural m, uma

9.1. ARITM ´ETICA DOS N ´UMEROS NATURAIS 61 fun¸c˜aopm :ω−→ω tal que

pm(0) = 0 pm(n+) = pm(n) +n e definimos m·n como pm(n).

Essa defini¸c˜ao de soma e produto ainda precisa ser melhor justificada, para po-demos constru´ı-la axiomaticamente. Fa¸camos isso.

Teorema 9.2 Existe uma fun¸c˜ao s de ω em ωω tal que s(m)(0) = m e s(m)(n+) = (s(m)(n))+, para todos n, m∈ω.

Demonstra¸c˜ao: Usando o axioma da separa¸c˜ao defina

s={(m, f)∈ω×ωω:∀n((f(0) =m)∧(f(n+) = (f(n))+))}

Pelo teorema da recurs˜ao, utilizando-o para a fun¸c˜ao g = {(n, n+) : n ∈ ω}, para cada m existe uma ´unica f satisfazendo as condi¸c˜oes descritas na defini¸c˜ao de s. Logo, s ´e uma fun¸c˜ao.

Defini¸c˜ao 9.3 Definimos a opera¸c˜ao de soma emω como a fun¸c˜ao + :ω×ω−→ω dada por +((m, n)) =s(m)(n). Denotamos +((m, n)) por m+n.

Teorema 9.4 Existe uma fun¸c˜ao p de ω em ωω tal que p(m)(0) = 0 e p(m)(n+) = p(m)(n) +m, para todos n, m∈ω.

Demonstra¸c˜ao: Usando o axioma da separa¸c˜ao defina

p={(m, f)∈ω×ωω :∀n((f(0) = 0)∧(f(n+) = (f(n) +m)))}

Tomando a fun¸c˜aog ={(i, j)∈ω×ω :i+m=j}, o teorema da recurs˜ao garante

que p´e uma fun¸c˜ao.

Defini¸c˜ao 9.5 Definimos a opera¸c˜ao de produto emω como a fun¸c˜ao·:ω×ω−→ω dada por ·((m, n)) =p(m)(n). Denotamos ·((m, n)) por m·n.

Da defini¸c˜ao de soma e produto seguem os seguintes axiomas da aritm´etica de Peano, quando adicionamos os s´ımbolos funcionais bin´arios + e · `a linguagem da aritm´etica:

m+ 0 =m m+n+= (m+n)+

m·0 = 0 m·n+= (m·n) +n

Eventualmente usaremos a nota¸c˜aoxy para representar x·y.

Exerc´ıcios

1. Use o teorema da recurs˜ao para definir a fun¸c˜aof(n) = 2n, paran ∈ω.

2. Use o teorema da recursao para definir a potencia¸c˜ao entre os n´umeros naturais (adote 00 = 1).

3. Prove a propriedade comutativa da adi¸c˜ao no conjunto dos n´umeros naturais.

4. Prove a existˆencia do conjunto dos n´umeros primos.

Cap´ıtulo 10

Axioma da regularidade

At´e agora, todos os axiomas que vimos garantem a constru¸c˜ao de alguns conjuntos partindo apenas do conjunto vazio. O pr´oximo axioma garante quetodosos conjuntos s˜ao constru´ıdos a partir do vazio. Tamb´em ir´a evitar coisas como x ∈ x e ser´a ´util em teoria dos modelos para fazermos indu¸c˜ao sobre a rela¸c˜ao de pertinˆencia.

Axioma 8 (da regularidade) Para todo conjunto x n˜ao-vazio existe y∈x tal que x∩y=∅.

∀x(x6=∅ → ∃y(y∈x∧x∩y=∅)) Teorema 10.1 N˜ao existem x e y tais que x∈y e y∈x.

Demonstra¸c˜ao: Sejam x e y conjuntos quaisquer. Vamos provar que x /∈ y ou y /∈x.

Usando o axioma do par, tome z ={x, y}. Como z n˜ao ´e vazio, pelo axioma da regularidade existe w ∈ z tal que w∩z = ∅. Se w = x, isso implica que y /∈ x. Se w=y, isso implica que x /∈y, provando o teorema.

Corol´ario 10.2 N˜ao existe x tal que x∈x.

Demonstra¸c˜ao: Aplique o teorema anterior para x=y.

O axioma da regularidade garante que n˜ao existe uma sequˆencia infinita de-crescente na rela¸c˜ao de pertinˆencia. Ou seja, n˜ao existe uma sequˆencia da forma . . . x3 ∈ x2 ∈ x1 ∈x0. ´E claro que essa express˜ao n˜ao est´a de acordo com a “norma culta” da linguagem l´ogica. Formalizando essa afirma¸c˜ao, deixamos como exerc´ıco ao leitor provar o seguinte fato:

Afirma¸c˜ao: N˜ao existe uma fun¸c˜aof de dom´ınio ω tal que f(n+)∈ f(n), para todo n∈ω.

Conclu´ımos desse resultado que, para qualquer conjunto x, se tomarmos um elemento de x, e um elemento de um elemento de x, e um elemento de um elemento de um elemento dex, assim sucessivamente, chegaremos, ap´os uma quantidade finita de passos, no conjunto vazio.

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E bom notar que se, por um lado, n˜´ ao existe uma sequˆencia infinita decrescente, na rela¸c˜ao de pertinˆencia, por outro lado, como veremos no pr´oximo cap´ıtulo, ´e poss´ıvel existir uma sequˆencia infinita crescente. Ou seja, sequˆencias infinitas da forma x0 ∈x1 ∈x2. . . existem (os n´umeros naturais, por exemplo).

Exerc´ıcios

1. Usando o axioma da regularidade, prove que n˜ao existem x, y, z tais que x ∈y, y∈z e z ∈x.

2. Usando o axioma da regularidade, prove que n˜ao existemw, x, y, ztais quew∈x, x∈y, y∈z ez ∈w.

3. Use o axioma da regularidade para provar que o conjunto vazio pertence a todo conjunto transitivo n˜ao-vazio.

4. Prove que n˜ao existe x tal que P(x) =x.

5. Prove que existe um modelo para teoria dos conjuntos em que valem os axiomas do par, da uni˜ao e das partes, mas n˜ao valem os axiomas do vazio e da regularidade.

Dica: Considere um modelo formado por um ´unico elementox tal que x∈x.

Cap´ıtulo 11

Constru¸ c˜ ao dos conjuntos num´ ericos

J´a temos constru´ıdos os n´umeros naturais e as fun¸c˜oes de soma e produto entre n´umeros naturais. Neste cap´ıtulo aprenderemos a construir os conjuntos dos n´umeros inteiros, racionais e reais.

11.1 Rela¸ c˜ ao de equivalˆ encia

Para construirmos o conjunto dos n´umeros inteiros a partir do conjunto dos n´umeros naturais, e o conjunto dos n´umeros racionais a partir do conjunto dos n´umero inteiros, precisamos, antes, desenvolver o conceito de rela¸c˜ao de equivalˆencia.

Defini¸c˜ao 11.1 Dizemos que uma rela¸c˜aoR⊂X×X´e umarela¸c˜ao de equivalˆencia em X se satisfaz as seguintes propriedades, para todosx, y, z ∈X:

• Reflexividade: xRx;

• Simetria: se xRy ent˜aoyRx;

• Transitividade: sexRy e yRz ent˜ao xRz.

Definimos oconjunto das classes de equivalˆencia de R como X/R={Y ∈ PX :∃x∀y(y∈Y ↔xRy)}

Os elementos de X/R s˜ao, obviamente, chamados de classes de equivalˆencia, tamb´em denotado do seguinte modo:

X/R={[x] :x∈X}

onde

[x] ={y∈X :xRy}

Teorema 11.2 SejaRuma rela¸c˜ao de equivalˆencia em um conjuntoX. As seguintes afirma¸c˜oes s˜ao verdadeiras:

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(a) S

X/R=X;

(b) ∅∈/ X/R;

(c) Para todos Y, Z ∈X/R, se Y 6=Z ent˜ao Y ∩Z =∅;

(d) Se x ∈ Y e todo Y ∈ X/R, para todo y ∈ X temos que xRy se, e somente se, y∈Y.

Demonstra¸c˜ao: Usaremos a nota¸c˜ao [x] para o conjunto {y∈X :xRy}.

Dado x ∈ X, temos que x ∈ [x], uma vez que, pela propriedade reflexiva, xRx.

Isso prova (a). Como todo elemento deX/R´e da forma [x], para algum x∈X, isso prova tamb´em a parte (b)

Para provar (c), assumindo que Y e Z s˜ao dois elementos de X/R que n˜ao s˜ao disjuntos, mostraremos que Y =Z. Sejam x∈Y ∩Z e y0, z0 ∈X tais que Y = [y0] e Z = [z0]. Dadoy ∈Y, temos, por defini¸c˜ao, que y0Ry. Logo, pela simetria,yRy0. Mas como x ∈ Y, temos y0Rx. Pela transitividade temos yRx. Mas, como x ∈ Z, temos z0Rx e, pela simetria,xRz0. Logo, a transitividade nos d´ayRz0 e, novamente pela simetria, z0Ry, o que prova quey∈Z. Isso conclui queY ⊂Z e um argumento an´alogo mostra que Z ⊂Y, provando queY =Z.

Mostremos a parte (d). Se Y ∈ X/R, existe y0 ∈ X tal que Y = [y0]. Como x ∈ Y, temos que y0Rx e, portanto, xRy0. Se yRx, por transitividade e simetria temosyRy0 ey0Ry, de onde temos quey ∈Y. Por outro lado, sey ∈Y, temosy0Ry

e, portanto, xRy, concluindo a prova do teorema.

Em outras palavras, o Teorema 11.2 parte (d) nos diz que duas classes de equi-valˆencia [x] e [y] s˜ao iguais se, e somente se, xRy.

No documento Elementos da Teoria dos Conjuntos (páginas 55-66)

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