somente a vida consegue dizer o som das letras
5.4 Construindo e Reconstruindo as Irregularidades da Língua
Na atividade descrita abaixo, podemos perceber que o educador-educando já compreendeu que determinados sons da fala podem ser representados por diferentes letras do alfabeto e que, portanto, nossa escrita é cheia de irregularidades, como nos ensina Lemle (2004, p. 18) ao afirmar que a relação entre letras e sons no português representa um casamento poligâmico. Nessa atividade, o Sr. Lucas demonstra como já consegue fazer uso do conhecimento sistematizado da língua para dar conta de resolver a situação a seguir:
O educador-educando e a educadora-alfabetizadora estão fazendo a leitura de frases e palavras escritas pelo educador-educando e refletindo sobre como e porque ele escreveu determinadas palavras de determinada forma.
E: Muito bem Seu Lucas! Aqui ó o senhor escreveu perfeito. Só porque /: deve existir também Larissa com Ç porque nome de gente num existe muita regra. Mas o mais comum é usá otra letrinha pra fazê o SSA aqui no Larissa.. I: o S?
E: Muito bem! Mas /: Isso. O S! Mas vamos ver, ele tá acompanhado /: ele vai ficá acompanhado, de namorá, pegando bonde com duas vogais?
I: Um-rum.
E: Então o S quando tá namorando, de bonde-bonde dos dois lados com as duas vogais ele num vale S/:
I: Ele é um Z, né?
E: Vale Z. Muito bem! Então qual otra forma que agente poderia escrevê o SSA?
I: Pode sê sem S ou um Z, né?Porque o S serve di Z. Só que o Z num serve de S, né?
E: Mas existe uma otra formazinha /: olha pro senhor vê que aqui ele vai formar SSA, é quando a gente põe dois?
I: Dois S.
E: Dois S. Fala Lari-ssa. Muito bem! (TA33CC05080621-22)
O Sr. Luquinha demonstra que a sua prática letrada se re-configurou bastante, pois consegue perceber que o fonema /s/ quando está entre duas vogais representa
como na palavra “Larissa” pode ser representado pelas letras “Ç” e “S”. O escritor-leitor iniciante ainda pode grafar esse fonema /s/ com a letra “c”, uma vez que em termos fonológicos a sílaba “ce” e a letra “c” são representadas pelo mesmo fonema [k]. Essa relação de concorrência sonora pode ser ainda mais dificultada se o escritor fizer sua análise fonológica com base na sílaba canônica – CV, consoante + vogal – e construir a hipótese que “C+A” é igual a “CA”, então, “C+E” é igual a “KE”, quando na verdade, “C+E” é igual ao fonema /k/.
Em uma atividade de exploração das irregularidades da língua, a educadora- alfabetizadora começa a trabalhar verbalmente com o educador-educando palavras nas quais há ocorrência de encontro vocálico e, ao mesmo tempo, trabalha a noção de sílaba, na tentativa de desconstruir a hipótese de monogamia entre letras e sons.
E: Ah! Então quer dizer que a gente pode ter uma palavra que é dividida em sílabas onde cada sílaba, cada pedacinho, pode ter cinco letras ou pode ter só?
I: Duas. Letras na sílaba
E: Uma, como no “O” do ri-o I: Hum hum
E: Tá vendo? Então isso aqui é importante porque na hora de ler a gente vai aprender que num é esse a esse, a esse, a esse. Não. É esse aqui vai fazer um só, TRANS. Assim como só esse aqui fala a otra partezinha do ri-o. [apontando para o “O” da palavra rio escrita no papel] Certo?! Até que é divertido num é? Eu acho divertido! Como é que pode ser, né?!
I: é igual “sô”. E: Como? I: Falá “sô”. E: Pois é. Sô. I: Só duas letra.
E: Só duas letras. E só um? I: Só uma vez: sô.
E: Sô! Só uma sílaba, só uma partezinha. Num é?! I: Com duas letras faz um nome.
E: Isso mesmo. I: é só “sô”. E: Sô. E aquela: ô!/: I: Né/:
E: “Ô”! [o “O” do rio] Faz um nome e que é só uma letra, né isso? Então a gente tá descobrindo que os nome, eles pode ter varias letras ô só uma letra, né? Muito bem! Agora assim, a gente descobriu que rio /:
I: /: Uma letra forma um nome, né?! E: Uma letra forma um nome.
I: Porque só RI então nóis tamo ruino, né? E: MUITO BEM SEU LUCAS!
I: Então é RI. RI. “Ri” de riso, gargalhada E: RI.
I: Depois cê põe o “O”. Já modifica de RI /: deu RI já fica o RIO, né?! (TA33CC05080609)
Nessa atividade a educadora-alfabetizadora estava trabalhando com intuito de ajudar o educador-educando a solidificar as noções do princípio alfabético, bem como construir a consciência fonológica tanto em relação à estrutura global das palavras, quanto às partes das mesmas. O educador-educando demonstrou, nessa atividade, compreender não apenas isso, mas conseguiu ir além, descobrindo que quando se muda uma das seqüências fonológicas de uma das partes da palavra, isto é, da sílaba, esta mudança pode dar origem a uma nova palavra com significado bem distinto da anterior.
Ao partir da palavra “ri” com o significado de “riso” e ao acrescentar a letra “O”, ele percebe que criou uma nova palavra, com um outro significado bem distinto da anterior. As palavras “ri” e “rio” são, a princípio, palavras com grafia e significados distintos. Porém, no contexto de uso em que o verbo “rir” é conjugado no tempo do presente do indicativo, na primeira pessoa do singular (eu rio), a palavra passa a ter a mesma pronúncia e a mesma grafia é, portanto, homófona e homógrafa da palavra “rio”. Isto quer dizer que elas têm a mesma pronúncia e grafia, mas possuem significados diferentes.
Assim, o educador-educando e a educadora-alfabetizadora vão, juntos, descobrindo o que é refletir sobre a língua materna, construir relações entre conhecimento sistematizado e suas vivências cotidianas, ele enquanto sujeito iniciante na arte da escrita e ela enquanto educadora-alfabetizadora e pesquisadora. Ambos vão, cada vez mais, construindo relações entre vida e conhecimento, oralidade e escrita e participando de modo muito mais atuante e descontraído do mundo letrado.
Já mostrei até aqui como o Sr. Luquinha foi re-configurando sua prática letrada e de maneira indireta indiquei que ao fazer isso, ele ia impondo à educadora- alfabetizadora novos desafios, uma vez que ela só tinha domínio de conhecimentos lingüísticos básicos e quase nenhuma prática pedagógica. Foi no decorrer do processo de ação-intervenção com o educador-educando que ela foi construindo esses saberes por meio de leituras, de trocas com alfabetizadoras mais experientes e professores que trabalham com a formação. Isso foi possibilitando uma reflexão da sua práxis pedagógica no sentido que coloca Paulo Freire (2000, 1985a): ação – reflexão – ação. E foi em virtude disto que a sua prática pedagógica e sua investigação foi, de fato, se tornando uma práxis pedagógica no sentido freireano do termo.
5.5 Construindo e Reconstruindo a Práxis Pedagógica: da alfabetização ao