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Construindo o Capital Social

No documento Download/Open (páginas 95-98)

Nesta categoria iremos avaliar a participação política das mulheres envolvidas nos trabalhos da Alternativa FM e a construção do empoderamento na perspectiva do capital social via a experiência de uma rádio comunitária.

4.2.1 Participação política.

Conforme vimos no capítulo 3, não foi relatado pelas entrevistadas um histórico de recorrente participação política. Em alguns casos, as mães, tias, avós dessas jovens eram sócias da Amunam, ou existiam ligações de algum parente em associações de moradores por exemplo, porém, mesmo em situações como essas, as jovens não detalharam muito acerca das participações dessas pessoas nesses espaços.

No entanto, ao ingressarem na Amunam e depois na Rádio Alternativa FM, em muitas circunstâncias, as mulheres tiveram a oportunidade de representar a Associação ou a Rádio em fóruns, seminários, congressos, onde são tratados assuntos de interesse da Amunam ou da

emissora. Assim, tomando como base as ideias de Jara (2001) percebe-se um incentivo na geração do capital social dessas jovens uma vez que são proporcionados relacionamentos sociais que interferem na vida social e política delas. As articulações se dão com grupos de diversos lugares que trabalham com assuntos de gênero, cidadania, inclusão social, meio ambiente, comunicação comunitária, temáticas presentes nas práticas da Amunam e da Rádio Alternativa FM.

Essa é a coisa que eu mais gosto, de me articular com outras pessoas, para adquirir mais conhecimento e pôr em prática aqui as coisas boas que a gente encontra lá fora. É muitíssimo importante, nossa, você aprende tanta coisa, tanta coisa na sua mente, coisas que você não conhecia, você começa a conhecer, e o mais importante ainda é aprender as coisas e pôr em prática (Entrevistada 4).

Essas articulações favorecem a formação do capital social entre esses grupos e geração de capital humano, já que são incentivados relacionamentos e construídos conhecimentos também. E as radialistas reconhecem a importância da participação política e das articulações para o desenvolvimento das atividades da rádio e delas enquanto profissionais da área:

Isso é o que faz a rádio crescer, né? Se ficar só ali, parado, você não vai sair dali, enquanto você fazendo amizade com pessoas de fora, de outros estados, outros países, isso é o que vai levar você a crescer (Entrevistada 5).

Eu acho importante, porque é uma troca de experiências, pessoas que estão lá fora às vezes sabem mais do que a gente. A gente que tá começando agora, a gente precisa colher mais experiências e é bom não só para o desenvolvimento da gente, como da rádio (Entrevistada 3).

Portanto, pode- se inferir que a participação política foi amplamente incentivada a partir do ingresso das jovens na Amunam e na Alternativa FM. E essa participação política das mulheres nos espaços onde são tomadas decisões acerca dos trabalhos desenvolvidos na Associação e na Alternativa FM está intimamente relacionada à construção do capital humano e social das mulheres da emissora. Sem falar que, diariamente, nos trabalhos da Rádio, as atividades que geram comprometimento e cooperação são elementos que contribuem decisivamente para a obtenção de solidariedade e capital social entre as mulheres radialistas.

4.2.2 Alternativa FM e empoderamento.

Ao longo da pesquisa e a partir dos depoimentos das entrevistadas constatou-se que as atividades realizadas pelas radialistas da Alternativa FM envolvem ações colaborativas e compartidas que acabam gerando afinidade. Essas ações se relacionam, de acordo com Sanchís e Espino (2008) ao empoderamento. Jara (2001) entende que o empoderamento aponta as condições dos indivíduos tomarem controle sobre suas condições de vida, de trabalho, e envolve qualificação para desempenharem suas funções. O empoderamento gerado a partir dos trabalhos na Alternativa FM pode ser verificado a partir da afinidade que existe entre as radialistas no ambiente de trabalho, proporcionando o desenvolvimento das atividades de forma que todas sejam beneficiadas.

A gente aqui se entende, é como se fosse uma família, a gente não se trata como se fosse só amigos de trabalho, se trata como se fosse uma família, porque sempre que alguém tá precisando de alguma coisa, ou alguma ajuda, a gente sempre tá lá (Entrevistada 5).

Ao mesmo tempo, a relação de proximidade permite às profissionais perceber o quanto o trabalho precisa ser realizado em sintonia, pois cada uma depende da outra:

Uma coisa que até hoje eu não gosto é quando as pessoas deixam de fazer seus afazeres, ou então, fazem mal feito, e não sabem que fazendo aquilo mal feito vai prejudicar o outro, porque tudo é um círculo e se sair alguma coisa errada, vai prejudicar os outros também (Entrevistada 4).

O compartir se expressa nos trabalhos diários na rádio, sendo muito comum que uma radialista repasse para a outra determinada função aprendida, corroborando o entendimento de Jara (2001) quando expressa que um indivíduo passa a ser um agente importante para replicar o conhecimento adquirido para outras pessoas. Isso contribui para que, numa eventualidade, seja possível contar com qualquer uma das funcionárias para o desenvolvimento de uma função:

O conhecimento, quando ele fica guardado para si só, de nada ele tem valia, mas quando você expande e procura firmar parcerias, o trabalho fica bem melhor e é uma forma de estar mostrando o nosso trabalho (Entrevistada 1).

A parceria aparece como destaque importante dentro das práticas radiofônicas. Essas podem ser relacionadas ao que defende Putnam (2001) quando diz que o capital social depende da superação dos interesses egoísticos e atuação em benefício da coletividade.

A parceria eu acho que é fundamental aqui. Aqui você não faz só uma coisa, quando você

tá fazendo uma determinada atividade, chega outra pra você fazer... Na rádio tem que ter

pessoas que façam o que você faz também, e é o que acontece aqui (Entrevistada 4).

O controle das funções que desenvolvem diariamente na rádio é exemplificado através do depoimento de uma das operadoras da Alternativa FM. A entrevistada relata que o aprendizado extrapola o espaço da rádio, de forma que até em outros ambientes é possível aplicar o conhecimento que obteve a partir dos trabalhos na emissora, no caso citado no depoimento, conhecimentos técnicos:

A cada programa a gente vai se atualizando a aprendendo. Quando eu vou para algum evento, a gente já sabe, a gente que tá nesse meio, a gente já sabe: o microfone tá ruim, o som tá baixo, o som tá abafado, tá ruim o som (Entrevistada 3).

A partir do empoderamento gerado com os trabalhos na Rádio Alternativa é possível inferir que as mulheres radialistas tornam-se muito mais capacitadas profissionalmente e donas de seus próprios projetos de vida, uma vez que têm despertadas habilidades que algumas dessas mulheres não tinham consciência de que possuíam. Assim, notadamente percebe-se a construção paulatina do capital social. A partir do trabalho colaborativo o conhecimento é compartilhado e mantém-se num ciclo que provém o seu crescimento, nesse ritmo torna-se viável o surgimento de mulheres mais empoderadas e capazes de desenvolver- se e trabalhar no sentido de também melhorar o ambiente em que atuam profissionalmente, política e socialmente.

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