CAPÍTULO III: Século XIX sul-rio-grandense: Sangue e literatura
3.3 Construindo uma identidade cultural regional
Sobre o século XIX, segundo Guilhermino Cesar (1971, p. 70):
A vida intelectual, naquele período, não deixou de brotar aqui e ali – modestos olhos d’água que em 1868 iriam formar a rumorosa torrente do Partenon Literário. Os gaúchos deram nesse período excelente testemunho de si mesmos. Fizeram a vigília das armas, mas não olvidaram o cultivo do espírito. Literariamente, produziram pouco, que foi muito, dada a limitação dos recursos a seu dispor. Escreveram versos, fizeram jornalismo, cultivaram a história episódica e narrativa.
O século XIX foi o violento “século do sangue” no Rio Grande do Sul; afirmação pesada, mas parcialmente verdadeira, pois a região se viu constantemente envolvida numa “polvadeira beligerante”, como vimos no capítulo anterior.44 Isso “marcará” a região e, consequentemente, afetará, em diferentes medidas, as vidas do povo local de modo geral. Mesmo assim, começava-se a desenvolver na região uma literatura. Pode parecer ironia que tal arte surja em meio às tantas mortes e inquietações administrativas, mas veremos como nada acontece por acaso.
Escolhemos algumas balizas fundamentais para, com essas, entendermos a construção da identidade cultural do gaúcho sul-rio-grandense, sempre mantendo conexão com o pano de fundo de interesse que é a ligação com a música gaúcha que se gestará no estado a partir do século seguinte e o que há nessa identidade cultural do gaúcho sul-rio-grandense (a qual fala, entre outras coisas, de liberdade e peleia) que se alterou ou se manteve. Seguem abaixo as balizas que separamos.
3.4 “A Divina Pastora” de Caldre e Fião, 1847
Desse romance, considerado o primeiro no Rio Grande do Sul, de autoria de José Antônio do Vale Caldre e Fião, virá a primeira construção literária que versa claramente sobre a diferença entre o gaúcho sul-rio-grandense e os demais sul-rio-grandenses.
A despeito de nos tornarmos repetitivos, a literatura do Rio Grande do Sul, assim como qualquer outra forma de arte, foi (e continuará sendo) “filha do seu tempo”. Pois bem, em “A Divina Pastora”, encontramos uma imagem de gaúcho sul-rio-grandense bem anterior ao próprio gaúcho apresentado por José de Alencar (mais conhecido nacionalmente); mais de vinte anos antes. Buscamos compreender de que forma Fião sintetizou, em uma obra que possui 174 anos, a imagem de dois seres regionais no século XIX, ou seja, procuramos investigar as origens das crenças regionais a respeito do gaúcho sul-rio-grandense e do sul-rio-grandense, justamente para constatarmos as diferenças básicas entre os dois na literatura.
43 Salientamos que não nos focaremos nas observações a respeito das primeiras crônicas informativas dos séculos XVI, XVII e XVIII do Rio Grande do Sul, mesmo porque a literatura que escreve sobre o tema que buscamos surgiu no século XIX.
44 No Capítulo II, fizemos um recorte das batalhas que concluímos serem as mais importantes para o nosso tema em questão. Vale recordar que, durante o século XIX, o Rio Grande do Sul se envolveu em outras peleias também. Afinal, o clima de tensão e hostilidade na região era constante.
Alertamos que não é uma “medida de temperatura” fácil de ser mensurada, tampouco o
“termômetro” pode ser colocado de qualquer forma num “corpo” tão distante de nós, pois a narração de um romance do século XIX em si não é a própria história factual da região do Rio Grande do Sul do século XIX. Enquanto historiadores, ao nos aproximarmos de uma obra de literatura, escrita há quase dois séculos, precisamos “sacudir o pó da distância temporal” para tentar descobrir o que Fião quis dizer e representar, levando em conta os contextos regional e nacional nos quais ele estava inserido. Isso nos remete a uma passagem de Fábio Pestana Ramos (2003, p. 4) que bem recorda que,
“ao historiador, diante da literatura como fonte, cabe reordenar a leitura do mundo feita pelo autor, selecionar os fatos de interesse histórico e separá-los da narrativa poética, aparar as arestas”.
O fato é que antes das canções gaúchas sul-rio-grandenses do século XX surgirem, trazendo determinados tipos de enunciações sobre o gaúcho do mesmo estado, a literatura regional já construía bases identitárias sobre esse ser. Ignorar esse fato seria padecer de um grave “estrabismo metodológico, teórico e conceitual”.
A primeira coisa que observamos em “A Divina Pastora” é que o termo ‘gaúcho’ nunca aparece como sinônimo de sul-rio-grandense. Fião vai empregar sempre o termo ‘Rio-Grandense’ para se referir à personagem principal, e não como ‘gaúcho’, corroborando, portanto, que, a ressignificação do termo é posterior a 1847, ano da obra.
Os gaúchos não eram os rio-grandenses. Gaúchos eram membros de outro grupo social que convivia com os sul-rio-grandenses. Isso nos remete à fala do professor Guazzelli em “Debate TVE I TVE - Revolução Farroupilha” (2017) que, conforme a transcrição abaixo, comenta o seguinte:
Só uma outra coisinha... Que eu acho que é importante... Nós estamos usando aqui gaúcho e a gente usa sem querer, como sinônimo de rio-grandense. E gaúcho é outra coisa, quer dizer...
Hoje é sinônimo de rio-grandense, não há dúvida. [...] O gaúcho era o bandido, era o ladrão, era um vago, um vagabundo, era um sujeito que... Se chamasse o Bento Gonçalves de gaúcho, ele dava um tiro no sujeito. Isso era uma ofensa. O gaúcho vai ser incorporado ao longo do XIX como sinônimo do campeiro. E só mais tarde o patrão vai também se considerar gaúcho, mas isso é um processo que, enfim, custa muito tempo. Na Argentina e no Uruguai, alguém de nós que mora na cidade, não pode ser chamado de gaucho. O gaucho é aquele que tá lá no campo, interiorano. [...] Nos documentos, nos jornais, nos três jornais farroupilhas, do período farroupilha, O Povo inclusive é um que estão reeditando ali no acampamento farroupilha. Não vai encontrar uma referência de um general a outro general ou oficial como um grande gaúcho. Eles se chamavam de continentinos, de conterrâneos, acreditavam que estavam criando... compatriotas, uma nova pátria de camaradas, porque eles eram camaradas de farda, mas nunca de gaúcho. De cidadão, mas nunca de gaúcho [...] porque era ofensivo, como diz o professor Guazzelli.
Como nosso objetivo é buscar, em uma possível ordem cronológica, o maior número possível de elementos que denunciem (indiciem) como o gaúcho do Rio Grande do Sul e o sul-rio-grandense vêm sendo narrados, a fim de observarmos os elementos da construção da identidade cultural que, entre outras coisas, “funde” essas duas personagens, procuramos, nesse romance, observar o que a forma de escrever de Fião revela sobre sua própria época e seu contexto regional, concomitante com a própria narrativa do romance em si, pois foi com esse viés que encontramos informações sobre a época em que ele foi escrito, logo, podendo indiciar como os gaúchos e sul-rio-grandenses da época
eram encarados social, cultural e politicamente, tomando muito cuidado para não cairmos em anacronismos. Estaremos, então, buscando entender o elo entre a obra e o autor. Sobre isso, Pesavento (2005, p. 42), comenta que, “a proposta da História Cultural seria, pois, decifrar a realidade do passado por meio das suas representações, tentando chegar àquelas formas, discursivas e imagéticas, pelas quais os homens expressaram a si próprios e o mundo”.
A segunda coisa que nos chamou a atenção em “A Divina Pastora” é o fato de “Colomim” e
“Susana” (duas personagens negros e escravos) possuírem uma relação de afeto e carinho com os seus senhores, mas não possuindo sentimento de vergonha ou tristeza com a situação de escravidão à qual se encontravam submetidos. Isso nos remete à ideia de “democracia pastoril” que, segundo vários discursos (inclusive de tradicionalistas), teria havido no Rio Grande do Sul do século XIX, discurso que não condiz com o consenso historiográfico. Conforme Pesavento (1993, p. 389),
A simplicidade do campo, a bravura das gentes, a imensidão da terra só limitada pela fronteira conquistada pela força das armas, articulam a constituição de uma sociedade livre. [...] a sociedade que se constitui é sem classes, “naturalmente” democrática, de salutar camaradagem entre chefes e subordinados, confundidos nas lides do campo e da luta. Não há dominantes e dominados, mas sim, gaúchos, exemplificados na alegoria do centauro: metade homem, da qual herda os princípios da nobreza de alma e honradez; metade cavalo, simbolizando a força, a intrepidez, a mobilidade de quem conhece jugos.
Golin (1983a, p. 14), contemporâneo de Pesavento, cita Fernando Henrique Cardoso (1962, p.
116) no que toca à essa ideia de “democracia pastoril”, demonstrando que o autor contesta essa tese, oriunda “diretamente do processo de autoconsciência deformada da camada senhorial e não é senão a sua ideologia”. Além disso, essa ideia não se sustenta (possui atributos contraditórios), pois, nas palavras de Cardoso, é ao mesmo tempo “autocrática, democrática, senhorial e igualitária”.
Essa visão vai atingir consequentemente a literatura, a qual se desenvolvia na região, especialmente na prosa de ficção, onde vemos que a ideologia da democracia gaúcha “propõe uma interpretação do passado pela idealização da pretensa igualdade racial e social”. Ainda sobre a ideia de “democracia pastoril”, temos uma contribuição valiosíssima de Mário Maestri contida na obra de Setembrino Dal Bosco (2015, p. 8):
A partir, sobretudo dos anos 1970, reconhecida, a contragosto, a importância demográfica da população escravizada no passado rio-grandense, a historiografia regional a nacional esforçaram-se para manter a instituição terrível fora das porteiras da fazenda pastoril, o cadinho mítico-sagrado onde se fundiram as elucubrações apologéticas sobre a formação rio-grandense e a proposta de sua diversidade em relação ao resto do Brasil – o RS como região diversa de resto do Brasil, já que essencialmente produto do trabalho do braço do homem livre. O mito da democracia pastoril sulina, de indiscutível origem platina, pressupunha a existência de um gaúcho idealizado, verdadeiro monarca dos pampas, sem contradições com seu explorador, o estancieiro. Nessa invenção da tradição, criava-se um trabalhador pastoril como um verdadeiro jogo, irmanando o peão e o estancieiro, verdadeiros companheiros de lida e de luta. Como então reconhecer o caráter hegemônico do “cativo campeiro” na grande estância sulina?
Por sua vez, Kopp (2001, p. 115) diz que
O tempo fez também o papel de continuar legitimando a brancura gaúcha. Na concepção folclórica da estância há o discurso da democracia, onde peão e patrão tomam chimarrão
juntos [...]. Hipótese, francamente, ideologizada. [...] colonos não possuíam escravos, portanto, os negros não pertencem àquela composição original.
João Cezimbra Jacques (1979b, p.45, grifos nossos em negrito), criador do Grêmio Gaúcho em Porto Alegre (como veremos mais à frente deste trabalho) e considerado o “patrono do tradicionalismo gaúcho” pelo MTG, tinha uma opinião muito clara e carregada de preconceitos sobre os negros e sua participação na composição populacional do Rio Grande do Sul em 1883:
É indispensável também não olvidar os negros africanos, que o egoísmo, móvel da capital das baixezas e das discórdias humanas, impeliu aos traficantes a abusarem da natural
inferioridade moral dessa raça, para introduzi-los não só nesta província em pequeno número, como em maior, nas outras partes do Brasil e de toda a América, não para melhorar-lhes as miseráveis condições, a que o dever e dignidade nos impõem, mas sim para torná-los brutas máquinas de produção. Este elemento muito pouco se tem combinado com os brancos, devido a uma natural repugnância na aproximação dos sexos, especialmente o feminino branco com o sexo masculino negro;
A terceira observação da obra “A Divina Pastora” que nos chamou a atenção é o fato de que ela foi publicada em forma de folhetim, direcionada para o público leitor da Corte em 1847. Isso em uma época, claro, em que a maioria do povo brasileiro era semianalfabeta ou completamente analfabeta.
A quarta observação é o fato de que Fião descreve a culinária, os costumes, os hábitos, a ideia de uma família tradicional sul-rio-grandense, os bailes, as danças, a paisagem do bioma Pampa e a paisagem de uma antiga Porto Alegre ainda muito “jovem”.
A quinta observação é a de que a Revolta Farroupilha acabou em 1845 e o romance é de apenas dois anos depois, portanto, se torna uma espécie de “escrita do tempo presente” para Caldre e Fião, trazendo nos elementos da narrativa (proporcionalmente) a visão de alguém que, direta e indiretamente, de forma próxima e distante, presenciou o acontecimento, frisando que é a mesma época em que se começa a tentativa de um incipiente pensamento nacionalista no Brasil, no que toca à sua identidade enquanto nação. Isso precisa ficar muito destacado, pois o autor deixa claro em sua narrativa a intenção de mostrar aos brasileiros da Corte real como eram os habitantes da província do Rio Grande do Sul à época, focando principalmente em seus modos de vida.
O romance possui uma narrativa de conflito, desenrolada durante a própria Revolta Farroupilha.
Tal conflito acontece na “jovem” Porto Alegre, mostrando, de um lado, “Almênio” e, de outro,
“Edélia” — “A Divina Pastora” — como os dois agentes protagonistas. Almênio, a princípio, é adepto das causas farroupilhas, mas posteriormente passa para o lado dos legalistas, e só recebe aprovação sentimental do amor de Edélia quando toma essa decisão. Nos excertos da obra de Fião (1992, pp. 27–28), lemos:
Almênio, jovem de 23 anos, no ardor das paixões violentas, filho de abastados pais, julgou cumprir um dever, apresentando-se no campo da batalha em defesa dos sagrados ideais da liberdade e no calor do prélio fazer provar ao que julgava inimigos o fio da sua espada.
Inflamado pelo ardor marcial esquecera a casa paterna; [...] Ele tinha desobedecido.
Há um conflito interno em Almênio, entre a impetuosidade de um jovem que quer desbravar o
mundo e se sentir fazendo parte de algo e o arrependimento ao ver a tristeza que causara nos pais.
Fião deixa isso salientado na obra, focando na ingenuidade e imaturidade da idade de Almênio.
Outros três pontos importantes, conforme salientamos diversas vezes até agora no trabalho (e veremos salientados nas canções) é (I) a relação do homem do Sul com o cavalo, (II) com a liberdade e (III) com a disposição “inata” às peleias. Almênio é descrito como um hábil cavaleiro e até mesmo seu cavalo recebe trechos em que sua importância é extremamente destacada, quase “fundindo”
cavalo e homem. Cavalo, assim, é fundamental elemento integrante da formação da identidade cultural sulina sobre o gaúcho brasileiro.
Almênio apeia de seu cavalo e dos próprios utensílios que usa para montar por sobre o lombo do animal, faz sua cama improvisada ao chão. É um exímio e elegante dançarino dos bailes (fandangos).
É um soldado cristão que toma o mate e come churrasco, dois elementos que ultrapassarão o século XIX, chegando às letras das canções gauchescas do século XX. Fião usa o termo em maiúsculo,
“Rio-Grandense”, e acopla todas essas características à personagem, as mesmas que aparecerão durante muito tempo em personagens posteriores das letras de canções e da literatura como, por exemplo, “Capitão Rodrigo” de Érico Veríssimo (1981).
Mas retornemos ao ponto principal que nos interessa neste trabalho: onde está o gaúcho sul-rio-grandense em “A Divina Pastora” de Caldre e Fião, o primeiro romancista do século XIX do Rio Grande do Sul?
Está, ainda, inserido dentro de uma ideia negativa, depreciativa e antagônica comparada à que virá posteriormente, o que se conecta com a dinâmica de recepção histórica e com a ressemantização do termo, que, no início, referia-se a um ser malvisto pela sociedade, como vimos nas explicações do termo ‘gaúcho’. Na p. 38 da obra, lemos que o gaúcho é um “homem baixo, gordo e que trajava à gaúcha, tendo nos pés grandes chilenas45 de prata, e armado com uma enorme faca”.
Almênio tem sua trama narrada em um ambiente citadino, a jovem Porto Alegre do século XIX, e, mesmo na cidade, a personagem não se esquece dos ensinamentos, costumes, hábitos e valores que herdou do mundo campestre da Pampa; elementos do bioma que perpassam obras e aparecem repetidamente em muitas letras de canções gaúchas nos séculos XX e XXI.
Almênio é valente, nobre soldado e culto, pois possui estudo e um grau de refinamento próprio de quem habitava os centros urbanos da época. Nesses elementos, construídos por Fião, se vê a contrariedade ao gaúcho da época, pois esse, ao contrário daquele, é selvagem, livre, solto, vago, gaudério, analfabeto e antagonista à vida citadina46. Podemos resumir isso em uma espécie de
45 Tipo específico de esporas.
46 Esse é mais um ponto interessante, pois, nas letras de canções gaúchas sul-rio-grandenses, tanto do século XX como do século XXI, aparecerão várias narrativas onde o gaúcho é o antagonista da vida citadina, tendo no campo, no mundo rural, pampeano e de Campanha o seu “habitat natural” ou o pago desejado do qual ele tem saudade, e que abandona por ilusões. Também se constroem narrativas, nessas letras das canções, em que a cidade é o local onde o gaúcho se perde, torna-se “menos gaúcho”, ou até mesmo deixa de ser gaúcho, como é o caso da letra de “João Saudade”, construída por Vaine Darde e musicada por Pedro Neves, que retrata o êxodo rural onde um gaúcho abandona o campo e se torna catador de papelão na cidade. Em um trecho dessa letra, lemos “Por que, oh! João / Deixaste o galpão e a lida campeira
antítese entre o “civilizado” e o “bárbaro”. Fião (1992, p. 51) diz que “Eles chegavam nesta hora à vista de Porto Alegre, que em meus transportes poéticos apelidei de Princesa das Coxilhas, desta cidade de fadas, ninho mimoso do heroísmo, galardoada pelo Imperador Dom Pedro II como o título de leal e valorosa”. Interessante frisar que Porto Alegre recebeu essa alcunha de “leal e valorosa”
justamente por combater os farrapos.47
Por fim, uma personagem de não menor importância no romance é “Francisco”, que encarna o vilão, contrário à ideia de “mocinho” em Almênio. Francisco é um jovem que não possui recomendação de nenhuma pessoa idosa na sociedade, portanto, não é bem-visto moral e civicamente. É um homem perverso, covarde, tão bonito quanto Almênio, porém, sendo o oposto do Rio-Grandense, um sedutor que “arruinava” a vida das moças inocentes, fato que quase acontecera com a própria “Divina Pastora”. Francisco duelará com Almênio, perdendo a luta e sendo desprezado pelo “herói” do romance.
Concluímos que a “Divina Pastora”: (1) “denuncia” (indicia) que o termo gaúcho, como hoje é concebido (sinônimo de sul-rio-grandense), será reconstruído posteriormente ao ano de 1847, pois, na obra, o gaúcho é oriundo do campo (do meio pastoril) e ainda não serve de aglutinação gentílica a todos da região; (2) Fião representa em Almênio o campeiro que vai à cidade, mas que não perde os costumes agropastoris e que, claro, não é (ainda) o gaúcho, ao contrário, se diferencia desse em aspectos externos (do vestuário) e internos (personalidade) de sua imagem; e (3) é um romance escrito logo que a Revolta Farroupilha tinha acabado, lembrando ainda que em excertos da p. 45 da obra, Fião deixa claro de que lado estava como escritor, do lado dos legalistas da corte.