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CAPÍTULO II: Dos confrontos, os símbolos

2.3 Guerra do Paraguai

Forças militares do Rio Grande do Sul, pertencentes à monarquia brasileira, articularam-se para

“auxiliar” no confronto contra os paraguaios e para defenderem as fronteiras do Rio Grande do Sul, principalmente porque nessas fronteiras territoriais entre as nações da época havia fazendas e estâncias de gado. Sobre essa fronteira, Rafael José dos Santos (2009, p. 20) diz que,

Regionalidades de fronteiras são particularmente significativas no Rio Grande do Sul sob, pelo menos, dois aspectos: o primeiro, de natureza histórica, diz respeito aos estabelecimentos de limites em relação aos vizinhos platinos e os desdobramentos desse processo na própria história do Estado, e na construção de uma determinada representação de identidade; o segundo, relacionado ao primeiro, refere-se propriamente às práticas cotidianas dos atores sociais que vivem nestes espaços

O combate que durou de 1865 a 1870, trouxe uma peça da vestuária do gaúcho que seria permanentemente defendida e representada como um de seus elementos essenciais: a bombacha;

ícone material (artefato cultural, conforme definimos no Capítulo I) da alteridade do gaúcho sul-rio-grandense, hoje usada por vários adeptos da tradição gaúcha do estado, ligados ou não ao MTG e também, músicos (tradicionalistas ou não).

Segundo Golin (2004, pp. 49–58), “no século XIX, grande parte dos empórios brasileiros e rio-pratenses, além de outros mercados do globo, eram abastecidos pelos ingleses”. Isso pelo fato de que a Inglaterra, com suas fábricas “a todo o vapor”, produzia, para o mundo todo, milhares de peças para

35 Veremos no capítulo seguinte, como a literatura, nesse processo de idealizar o “antigo gaúcho histórico das revoltas”, terá um papel fundamental, principalmente em torno da Sociedade Partenon Literário.

36 Ver bibliografia, Lilian Abelin (2020).

os fardamentos militares de países aliados.

Quando ocorreu, entre 1853 e 1856 a chamada “Guerra da Crimeia", segundo Golin (2004, pp. 49–58, grifos nossos em itálico), “as fábricas inglesas forneciam uma peça característica para a cavalaria turca, o “pantalão turco” ou a “von vacha”, indumentária comum a diversos povos cavaleiros”.

Mas ao fim da guerra, a fim de distribuir o excedente de fardamento que havia sobrado, o mercantilismo inglês revendeu “aos comerciantes da Bacia do Prata, que passaram a comercializar essa peça”, como Golin (pp. 49–58) nos recorda.

Deflagrada então a Guerra do Paraguai, a vestimenta foi adequada para distribuição de alguns soldados do conflito. Golin (2004, pp. 49–58) diz que

Os gaúchos arregimentados constituíam tipos especiais, destros cavaleiros, em suma, dotados de todos os atributos campeiros. Por “servirem” quase sempre, na cavalaria, estes indivíduos que não pertenciam às tropas regulares receberam como fardamento a “bombacha” – a peça turca. Além de se tornar fardamento militar ou miliciano, a bombacha na origem de sua penetração no Prata, já ficou impregnada desse conteúdo social: roupa de gaúcho, de mestiço e de negro. Quando esses combatentes retornaram da Guerra do Paraguai trouxeram consigo o

“seu” fardamento militar, que no âmbito do conflito, os assinalava excludentemente. Uma plebe semidespida, que cobria suas “partes” com o chiripá, que deixava as “partes de fora” – como gostavam de se expressar, com evidente moralismo os viajantes da época -, aos poucos, começou a reproduzir a bombacha como vestimenta.

E sobre como a construção simbólica da bombacha foi impregnada no Rio Grande do Sul, Golin (2004, pp. 49–58) encerra dizendo que

Contudo, a sua representação, depois que a gauchada e os peões regressaram, impregnou-se de sentido histórico como vestimenta simbólica. Com o decorrer do tempo, não só os ex-soldados tinham adotado a bombacha. Reproduzida pelas costureiras crioulas, os demais homens foram aderindo a sua “magnitude”. Assim, a bombacha espalhou-se introjetando uma contradição:

por um lado, era sobra de guerra, resto de fardamento; portanto, digna da peonada, dos gaúchos andantes, etc. Por outro, representava a medalha popular, ostentada por essa mesma plebe, uma maneira de afirmar a sua participação em um evento “superior” ao seu cotidiano e de situar-se em um fenômeno magnânimo, mesmo que tenha sido, como se sabe, um

genocídio. Consequentemente, a bombacha transformou-se em uma vestimenta civil que, confeccionada na América meridional, perdeu bastante de seu aspecto industrial e foi sendo adaptada às condições regionais.

Assim, não é de se estranhar que essa peça da indumentária do gaúcho, com o tempo, tendesse a aparecer em específicas narrativas e letras de canções locais, além de ser amplamente usada por várias pessoas da região, incluindo performances musicais em variados ambientes. Não é nada difícil encontrarmos letras de canções que comentam sobre a bombacha, o amor referente a ela, os usos e rituais que a envolvem, inclusive ideais de liberdade. Dois exemplos bem ilustrativos para compreendermos como a bombacha é narrada em canções gaúchas do Rio Grande do Sul, seguem abaixo (com grifos nossos em negrito). Abaixo, a primeira letra (transcrição):

Viva a bombacha37

37 LEONARDO. Viva a bombacha. Porto Alegre. Gravações Elétricas S.A. 1984. LP. 4 min.

Os cristãos batiam cascos, os mouros se defendiam Espadas, lanças, Cruzadas traçavam rumos na história Os orientais ostentavam calças largas que faziam Mais leves às cavalgadas na derrota ou na vitória Era a bombacha chegando para gáudio do campeiro Que cavalgou nos potreiros laçando, fazendo aparte Pra bailanta, hora de arte, jogo de osso ou carteado.

Era a veste domingueira feita de brim ou riscado Viva a bombacha, tchê viva a bombacha

Não interessa se faz frio ou sol que racha Viva a bombacha, tchê viva a bombacha Não interessa se faz frio ou sol que racha

Foi depois da grande guerra, me falou um castelhano Que a bombacha foi usada pelos gaúchos pampeanos Historiadores da terra garantem que o nobre pano É uma herança legada por beduínos araganos

A verdade é que a bombacha é de muitos continentes Mas foi com nossos valentes que ganhou notoriedade Uniu o campo à cidade e a juventude do pampa Lhes dando uma nova estampa raízes de liberdade

Abaixo, a segunda letra (transcrição):

Estampa38

Se esta bombacha que eu uso te incomoda

Te asseguro não é moda, é a mais pura tradição Ela é do tempo em que luxo e riqueza

Não mostravam a beleza da vida deste peão Se esta bombacha se confunde com a terra É que o seu pano encerra toda a dureza da lida Está surrada de tanto aguentar o repuxo

E ser parceira do gaúcho que é grandeza de sua vida

38 OS SERRANOS. Estampa. Porto Alegre. Gravadora RBS DISCOS. RGE. 1991. LP. 3 '30 ''.

Se esta bombacha que eu uso impõe respeito É que trago no meu peito herança de peleador Pelo Rio Grande minha pátria enternecida

Retratas bombacha amiga todo o meu sincero amor Pelo Rio Grande minha pátria enternecida

Retratas bombacha amiga todo o meu sincero amor

Que se curvem outros povos, outras raças, É um bombachudo que passa, galo de briga e bagual Cuiudo e guapo, esse tronco galponeiro

Não verás no mundo inteiro outra estampa igual