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Construtos básicos da teoria de consumo de status

Os significados culturais implícitos nos bens e serviços transcendem o contexto das relações de troca e classificam as pessoas por aquilo que elas consomem. Nesse sentido, os bens e serviços têm papel fundamental na interpretação e classificação de status na sociedade. No que se refere à relação entre consumo e status, foco principal deste estudo, duas grandes correntes teóricas podem ser identificadas. Uma corrente de estudos teóricos defende a teoria de Veblen e Simmel, além de estendê-la para o campo internacional. Os chamados global trickle down models focam na análise da busca por status, nos países em desenvolvimento, por meio da imitação do estilo de vida e consumo de bens de países desenvolvidos. A emulação interclasse se transforma numa emulação intercultural e internacional. Nesse modelo, os produtos dos EUA e de países europeus operam como símbolos de status desejados e perseguidos por cidadãos de países em desenvolvimento (USTUNER; HOLT, 2010).

Alguns estudos têm analisado o consumo de países em desenvolvimento como um processo em que a classe média busca status no consumo de produtos de países desenvolvidos, notadamente dos EUA e Europa. Estudos no Brasil (O’DOUGHERTY, 2002), Zimbabwe (BELK, 2000) e Índia (CHAUDHURI; MAJUMDAR, 2006) demonstraram a influência simbólica dos produtos do chamado primeiro mundo (mundo industrializado) no consumo da classe média nesses países estudados. Assim, processos de localização, cujas commodities relacionadas ao mundo desenvolvido (também chamado de West World) são submetidas a uma reinterpretação coletiva e adaptação do uso, fazem-nas ter significado local. Estes processos, também chamados de indigenização ou globalização, fazem parte do mecanismo de incorporação de símbolos do primeiro mundo na construção do status social de economias em desenvolvimento (USTUNER; HOLT, 2010).

A segunda corrente teórica advém dos estudos do sociólogo francês Pierre Bourdieu, que se centrou no consumo de status, por meio de um modelo multidimensional evidenciado na França, nos anos 1960. Existem três construtos básicos na teoria de Bourdieu: capital cultural, habitus e campo social. Esses três elementos se relacionam e constituem o âmago da teoria de consumo de status por ele desenvolvida. Bourdieu reestabeleceu o papel fundamental e construtivo da cultura na inequalidade social num período em que estudos econômicos deterministas predominavam (LE ROUX et al., 2008). Nos últimos anos, o trabalho de Bourdieu (1984) revitalizou os estudos sobre consumo de status ao trazer o conceito de capital cultural para explicar porque as pessoas consomem determinados produtos e adotam certos estilos de consumo. Este autor afirma, ainda, que a cultura passou a representar um fator de destaque na determinação da classe social e do comportamento de compra.

Segundo Bourdieu, os julgamentos de gostos e de preferências não são o reflexo da estrutura social, mas um meio de afirmar ou de conformar uma

vinculação social. Em Distinction, ele expõe duas ideias centrais. De um lado, as relações de poder, como categoria de dominação, as quais são analisadas pela metáfora do capital cultural em que se apoia o princípio da reprodução social. De outro, o entrecruzamento das relações de poder com as várias formas de ações organizadas favorece a capacidade dos indivíduos para elaborar estratégias que, contudo, não ultrapassam as relações de desigualdades sociais (SOUZA, 2004; VASCONCELLOS, 2002).

Para Bourdieu, a vida social pode ser concebida como um jogo multidimensional de status em que as pessoas fazem uso de três tipos de recursos (capital econômico, capital social e capital cultural). Assim, o “capital” deixa de ser apenas um recurso econômico e passa a incluir tudo aquilo que é “decisivo para assegurar o acesso privilegiado a todos os bens e recursos escassos em disputa na competição social” (SOUZA, 2013, p. 58).

O capital cultural, principal foco da análise, consiste de um conjunto de gostos, habilidades, práticas e conhecimentos distintivos e raros e existe em três formatos básicos: o corporificado, o objetificado e o institucionalizado (BOURDIEU, 1984). O “capital cultural corporificado”, por meio de conhecimento prático, habilidades e disposições, manifesta-se no comportamento, na forma de se vestir, no falar, dentre outros. O “capital cultural objetificado” se refere a posses de objetos culturais e, por implicação, manifesta- se nos julgamentos de gosto envolvidos na sua aquisição. Já, o “capital cultural institucionalizado”, por meio de diplomas e certificados que assegurem a sua posse, confere honra derivada primariamente das qualificações educacionais relacionadas ao diploma e à reputação da instituição de ensino.

As formas pelas quais o capital cultural é utilizado como fonte de valor e de distinção variam de acordo com o contexto. O capital cultural é um recurso valioso, pois pode ser transformado em capital social e capital econômico. Uma pessoa com alta escolaridade pode utilizar sua expressão de gostos para

conseguir se distinguir socialmente e pode adquirir vantagens econômicas, ao conseguir ocupações mais complexas e raras e, consequentemente, mais valorizadas.

O conceito de capital cultural, elaborado por Bourdieu, foca no processo sistemático pelo qual indivíduos escolarizados, nas formas legítimas de cultura, possuem vantagens sobre classes populares e trabalhadores que não têm acesso a essas formas legítimas de cultura. A diferenciação entre cultura legítima, ou alta cultura, relacionada a classes mais altas, e cultura popular, preferida pelas classes trabalhadoras, é um dos principais focos de análise de Bourdieu por meio de extensivo trabalho empírico.

O capital cultural é acumulado e reproduzido, segundo Bourdieu, fundamentalmente pelo habitus. Famílias com alto nível educacional, interagindo com outras famílias de mesmo nível social, que estudam em colégios e universidades de prestígio, em áreas que enfatizam pensamento abstrato e crítico e o papel do simbólico, fazem com que as elites culturais sejam subjetivamente incorporadas nos modos de pensar, sentir e agir simbolicamente distintivos, processo denominado por Bourdieu de habitus. Da mesma maneira, indivíduos de classes trabalhadoras, estudando em colégios de menor prestígio e convivendo com famílias de mesmo nível, irão adquirir gostos distintos e característicos de um nível de capital cultural mais baixo (BOURDIEU, 1984; HOLT, 1998).

O conceito de habitus se refere à importância da herança cultural como forma de perpetuação das diferenças. Por meio de rotinas e hábitos compartilhados desde a juventude, em complemento ao acesso à educação, as diferenças de classe e capital cultural são reproduzidas de geração em geração, dificultando a mobilidade interclasse.

Assim, o conceito de habitus corresponde a uma matriz, determinada pela posição social do indivíduo, e que lhe permite pensar, ver e agir nas mais

variadas situações. O habitus traduz, dessa forma, estilos de vida, julgamentos políticos, morais e estéticos, que irão se refletir em diversos aspectos da vida social, com destaque para o consumo cultural. Ele é, também, um meio de ação que permite criar e/ou desenvolver estratégias individuais ou coletivas. Pierre Bourdieu elabora, assim, um sistema teórico que não cessará de desenvolver: as condições de participação social seriam baseadas na herança social. O acúmulo de bens simbólicos e outros estão inscritos nas estruturas do pensamento (mas também no corpo) e são constitutivos do habitus pelo qual os indivíduos elaboram suas trajetórias e asseguram a reprodução social (SOUZA, 2004).

Vale ressaltar que, no sistema brasileiro de educação, o caminho para a educação gratuita em instituições de ensino superior de qualidade, geralmente, passa pelas instruções primária e secundária obtidas em escolas particulares caras. Essas desigualdades são explicitamente reconhecidas pelos segmentos de classe média que usufruem de tais vantagens. Muitos afirmam que os mais pobres são deixados sem educação de propósito, ou seja, que o governo tem o plano de mantê-los ignorantes e, portanto, mais manipuláveis (O’DOUGHERTY, 2002).

O conceito de habitus, talvez, seja o mais controverso de todos os conceitos propostos por Bourdieu. Pelo fato de ter sido testado empiricamente, na França, na década de 1960, sua pretensa universalidade tem sido colocada à prova. Lahire (2004) fez uma análise empírica, na França, que contesta o conceito de habitus, tendo em vista que seus resultados demonstraram que a maioria das pessoas possuíam gostos culturais “dissonantes”, não se encaixando nas fronteiras cultura legítima versus popular de Bourdieu.

Diversas críticas a Bourdieu, também, são feitas no ramo da educação (COLEMAN, 1983; GOLDTHORPE, 2007), mostrando que o sistema educacional seria o mecanismo que permitiria a mobilidade social frente a uma origem pobre. Ele é criticado por uma visão determinista, que nega a

possibilidade de mobilidade de classe, ou, em outros termos, nega a possibilidade de aquisição de capital cultural por parte de indivíduos oriundos de classes mais baixas. Nesse sentido, o conceito de habitus tem sido adaptado e reinterpretado em estudos mais recentes (BENNETT et al., 2009; USTUNER; HOLT, 2010).

O terceiro conceito fundamental da sociologia de classe de Bourdieu é o conceito de campo social. O campo consiste no espaço em que ocorrem as relações entre os indivíduos, grupos e estruturas sociais, com uma dinâmica que obedece a leis próprias, mobilizadas por disputas que ocorrem em seu interior com o objetivo de ser bem-sucedido nas relações estabelecidas entre os seus componentes, seja no nível dos agentes, seja no nível das estruturas (BOURDIEU, 1984). Com relação aos campos, Bourdieu acreditava numa homologia e que, embora artes visuais, literatura, cinema, música e outros gozassem de autonomia, princípios similares de classificação se aplicavam aos vários campos. Hoje em dia, por exemplo, as classes médias têm buscado opções exóticas e diferenciadas como forma de diferenciação em campos novos, como viagens para destinos exóticos, consumo verde, esportes alternativos e movimentos sociais (TAPP; WARREN, 2010).

Com base nesta concepção, DiMaggio (1982) realizou um estudo para avaliar o impacto do capital cultural sobre as notas de estudantes do ensino médio norte americano. Para tanto, lançou mão de autorrelatos sobre envolvimento dos estudantes (em termos de atitude, atividades e informação) com arte, música e literatura. A escolha destes três fatores é justificada pelo autor, com base na obra de Bourdieu, como sendo em virtude de se configurarem como fatores que discriminam indivíduos de Alto Capital Cultural (ACC ou HCC - Higher Cultural Capital) daqueles que possuem Baixo Capital Cultural (BCC ou LCC - Lower Cultural Capital).

Seguindo a mesma linha, Holt (1998) realizou um estudo propondo investigar se a teoria proposta por Bourdieu, ainda, aplicava-se ao contexto norte americano, mesmo décadas após a sua criação. Desta forma, o autor avaliou se variações nos recursos de capital cultural incorrem em diferenciações sistemáticas nos gostos e práticas de consumo de indivíduos de uma pequena cidade dos EUA. Por meio de uma escala de capital cultural, o autor descobriu, então, diferenças nos gostos e práticas de consumo entre indivíduos de ACC e de BCC e defendeu que o consumo continua a servir como um potente local de reprodução das classes sociais.

Um refinamento importante da obra de Bourdieu é feito por Peterson (1992), que lança novos elementos no debate sobre capital cultural, ao criar o conceito de “onívoro cultural”, representando indivíduos da classe média educada cujos gostos se espalham tanto por cultura popular quanto erudita. Esse ecletismo poderia ser uma nova forma de distinção, visto que o domínio e conhecimento de diversas formas de cultura seria o capital cultural num novo formato, diferente do esnobismo da cultura legítima apresentado por Bourdieu. O onívoro cultural seria uma estratégia diretamente ligada às mudanças tecnológicas que democratizam, de certa forma, o acesso cultural. A mídia digital permite o acesso a formas culturais legítimas de forma mais universal e barata. Assim, a informação se prolifera e se reproduz de forma mais complexa do que em períodos anteriores (LASH, 2002). A distinção passaria a operar não mais no nível do acesso privilegiado, mas, sim, da capacidade de transitar entre diversas formas de expressão cultural, identificando, em primeira mão, novas tendências oriundas de tribos e produtores culturais alternativos.

Bennett et al. (2009) denominam de engajamento cultural essa capacidade de ser flexível e bem informado sobre diversos tipos de produção cultural. Eles identificaram diferentes formas de engajamento cultural: enquanto alguns grupos preferem o consumo cultural em casa, utilizando internet, DVD

ou televisão, outros são mais adeptos do consumo cultural externo, como ir ao cinema, teatro e museus. As formas de lazer cultural estão diretamente ligadas à estrutura familiar, limitações físicas decorrentes da idade ou acesso cultural (cidades pequenas apresentam menos opções culturais do que os grandes centros urbanos). Nesse sentido, estes autores propõem uma desagregação do conceito de capital cultural, constituído por um conjunto de ativos culturais de diferentes formas, que revelam as maneiras variadas pelas quais os recursos culturais são organizados e mobilizados por meio de diferentes tipos de relação social.

No campo das análises sobre consumo de classe em países em desenvolvimento, as ideias de Bourdieu, de um consumo cultural nacional diferenciado interclasses, opõem-se à visão de um modelo de status internacional de origem vebleriana, decorrente da dominação de algumas culturas sobre outras. No entanto, a concepção de uma sociedade nacionalmente delimitada não se aplica nos dias atuais, em que as relações entre cultura e sociedade possuem características transnacionais (BENNETT et al., 2009). Além disso, a possibilidade da mobilidade social tem sido cada vez mais reconhecida, demandando uma revisão dos princípios básicos estabelecidos por Bourdieu.

Nesse sentido, estudos específicos devem ser conduzidos em países em desenvolvimento, a fim de verificar como os processos de incorporação externa e diferenciação de classes operam em diferentes contextos. Em importante estudo com mulheres de classe média da Turquia, os pesquisadores Ustuner e Holt (2010) chegaram a resultados que evidenciam uma dinâmica própria de acumulação de capital cultural que levam a uma revisão do conceito de habitus.

Da mesma forma que Bennett et al. (2009), Friedland et al. (2007) e Holt (1998), acredita-se que a importância da alta cultura, em termos de arte, é menos importante no Brasil, como nos EUA e Inglaterra, do que na França dos anos 1960 de Bourdieu. Numa cultura de massa, o acesso aos produtos é maior e a

distinção parece operar mais em práticas que exigem engajamento, como culinária, esportes como mergulho e outras práticas. A apropriação cultural hoje em dia é muito mais fácil por causa da internet e do avanço da mídia de massa, fazendo com que a chamada “alta cultura” não seja tão inacessível quanto antigamente.

Em trabalho conduzido na Turquia (USTUNER; HOLT, 2010), o processo de acúmulo de capital cultural é desterritorializado e o habitus parece menos importante do que uma habilidade adquirida para interpretar, apreender e internalizar os padrões de consumo estrangeiros, geralmente, por meio de viagens internacionais ou intercâmbio. É um processo menos inconsciente e mais planejado. As faixas mais baixas de capital cultural (classe média baixa), por sua vez, são mais ligadas à cultura nacional e tentam demarcar status por outros mecanismos.

Além disso, Schor (2007) destaca uma série de evidências de que existe uma forte tendência de inovações de consumo cultural nas áreas de moda, arte, linguagem e música se originarem nas áreas pobres e se disseminarem por diversas classes sociais em nível nacional. Nesses casos, o processo de trickle-

down estaria operando no sentido inverso, ou seja, estaria ocorrendo o trickle-up.

Em geral, a classe dominante no Brasil, também, parece ter marcado sua distinção por viagens internacionais, consumo de marcas de luxo, uso de novas tecnologias, entre outros. A abertura econômica, no início dos anos 1990, permitiu que produtos importados invadissem o país e fizessem parte do consumo de uma parcela cada vez maior da classe média.

Muitas pesquisas focam a importância da classe econômica/social para o acesso a melhores condições materiais, em termos de acesso à saúde, conforto e bens de consumo funcionais (GOLDTHORPE; MARSHALL, 1992). O boom nas vendas de telefones celulares, eletrodomésticos, carros e casa própria demonstram que, num primeiro momento, produtos funcionais são os mais

procurados com o incremento de renda e potencial de consumo. Mas o aumento da renda pode, também, significar aumento do interesse no consumo cultural, como educação e viagens (ALASSE, 2011). Alguns desses itens indicam uma preocupação com aquisição de capital cultural e sua reprodução para as gerações futuras. Além disso, o maior acesso às universidades pode ter impacto significativo na mobilidade sociocultural e não somente econômica.

Percebe-se, desta forma, como os conceitos e critérios evoluíram ao longo do tempo em uma tentativa dos estudiosos de adaptar as ferramentas desenvolvidas por outros pesquisadores, de modo que se aproximem ao máximo de realidades e contextos específicos. Porém, há de se considerar que, em virtude das peculiaridades de cada localidade, algumas adaptações, também, precisam ser feitas para o melhor ajuste das ferramentas às características de cada país ou cultura. Além disso, a categorização de grupos como classe baixa, média ou alta apresenta vários desafios metodológicos e distintas possibilidades de abordagem, como serão apresentados nas próximas seções, que se referem ao conceito de classe média.