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Unidade de análise e sujeitos da pesquisa

3 METODOLOGIA

3.2 Unidade de análise e sujeitos da pesquisa

A unidade de análise foi a classe média da região metropolitana de Belo Horizonte, MG, tendo em vista sua importância econômica e cultural no

contexto brasileiro. Os sujeitos da pesquisa foram homens da classe média, na faixa de 25 a 45 anos, nos moldes propostos por Ustuner e Holt (2010), os quais entrevistaram 36 mulheres turcas como sujeitos da pesquisa, sendo 21 de ACC (Alto Capital Cultural) e 15 de BCC (Baixo Capital Cultural). Vale ressaltar que Holt (1998) realizou uma pesquisa nos EUA onde foram entrevistadas dez pessoas de ACC e, também, dez pessoas de BCC, a qual inspirou aquele trabalho de Ustuner e Holt (2010) e, por conseguinte, esta pesquisa. Em pesquisas similares, Ponte e Mattoso (2013) entrevistaram 12 mulheres (sendo seis de BCC e seis de ACC) e Macedo (2014) entrevistou 25 pessoas (13 mulheres e 12 homens), também, de diferentes níveis de capital cultural. Pasdiora e Brei (2014, p. 808), por sua vez, entrevistaram 36 crianças brasileiras de ambos os gêneros (20 da classe baixa e 16 da classe alta) e, em função das dificuldades na condução da pesquisa e das possíveis diferenças entre os gêneros, os autores sugerem que “estudos futuros analisem as dimensões de gênero envolvidas no processo de formação dos hábitos de consumo”. Por tanto, nesta pesquisa, foi envolvido somente o público masculino (42 participantes), da classe média e já numa fase adulta; com isso, buscou-se atenuar a influência de outras variáveis importantes, como gênero, idade e capital econômico, já que o foco foi identificar a influência do capital cultural ligada à estrutura de classe. Deste modo, buscou-se, ainda, complementar o estudo de Ustuner e Holt (2010) que envolveu somente mulheres.

Como critério de seleção dos entrevistados pertencentes à classe média, optou-se pela adoção do Critério de Classificação Econômica Brasil (CCEB), desenvolvido pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), também, chamado de “Critério Brasil” (ABEP, 2014). Conforme apresentado anteriormente (no item 2.5.1), esta metodologia utiliza o levantamento de características domiciliares (posse de automóveis, geladeiras, dentre outros) e escolaridade do chefe da família para classificação e diferenciação social em

classes econômicas, algo, portanto, mais próximo de um comportamento de consumo (foco desta pesquisa) e que vai além dos critérios que utilizam simplesmente o fator renda. Este argumento foi posteriormente reforçado pelo estudo comparativo de critérios de estratificação realizado por Kamakura e Mazzon (2016). Vale ressaltar que, em pesquisas similares, Macedo (2014) utilizou o critério da SAE (famílias com renda per capita entre R$291 e R$1.019 por mês) e Ponte e Mattoso (2013) utilizaram o critério da CPS/FGV (renda familiar mensal de R$1.200 a R$5.174), para selecionarem os participantes da classe média.

Conforme a metodologia de classificação da ABEP, os respondentes foram pontuados, conforme os itens de características domiciliares (QUADRO 5), a escolaridade da pessoa de referência da família e os serviços públicos recebidos (QUADRO 6) e classificados conforme os cortes e suas respectivas classes econômicas (QUADRO 7). A aplicação na pesquisa deste critério de classificação está apresentada no Questionário de Recrutamento dos Entrevistados (APÊNDICE B).

Quadro 5 Pontuação do Critério Brasil para as características domiciliares

Quadro 6 Pontuação do Critério Brasil para a escolaridade da pessoa de referência da família e para os serviços públicos recebidos

Fonte: ABEP (2014, p. 2)

Quadro 7 Cortes e suas respectivas classes econômicas do Critério Brasil

Fonte: ABEP (2014, p. 3)

Em um trabalho comparativo entre as metodologias da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) e da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), Gasparin (2014) considerou que haveria a seguinte correspondência entre as classes sociais e econômicas indicadas pela ABEP e pela SAE: as Classes D e E (da ABEP) são equiparadas respectivamente às Classes “Extremamente Pobre e Pobre” (da SAE); a Classe C2 (da ABEP) corresponde à Classe “Vulnerável” (da SAE); a Classe C1 (da ABEP) equivale à “Baixa Classe Média” (da SAE); a Classe B2 (da ABEP) corresponde à “Média Classe Média” (da SAE); a Classe B1 (da ABEP) é equiparada à “Alta Classe Média” (da SAE) e; a Classe A (da ABEP) equivale

às Classes Altas (da SAE). Desta forma e utilizando as classificações de Quadros, Gimenez e Antunes (2013) tomaram como base as Classes B1, B2 e C1 da ABEP, consideradas “Classe Média” (por correspondência com a alta, a média e a baixa classe média da classificação da SAE) com pontuação variando de 23 a 44 pontos conforme o critério da ABEP (QUADRO 5). Portanto, as classes B1 e B2 foram consideradas, por este trabalho, como sendo a classe média tradicional ou simplesmente a classe B, por sua vez, a classe C1 foi considerada a nova classe média ou simplesmente a classe C (portanto, a classe C2 foi descartada por corresponder à classe “vulnerável” da SAE).

Juntamente com o critério de classificação econômica da ABEP e para melhor “direcionar” a busca de entrevistados, uma vez que as Classes B e C1 representam 50,8% da população de Belo Horizonte – MG (ABEP, 2014), foi utilizado o critério de ocupação profissional de integrantes da classe média (QUADRO 8), ocupações estas indicadas por diferentes autores. Assim, foram buscados respondentes nas seguintes categorias profissionais: trabalhadores não manuais de rotina (exemplo: secretários, professores do ensino fundamental, jornalistas e vendedores de lojas), pequenos proprietários, trabalhadores manuais qualificados, trabalhadores não qualificados, conforme indicação de Scalon e Salata (2012); auxiliares de escritório, atendentes, vendedores, garçons, professores primários, policiais, auxiliares de enfermagem, atendentes de telemarketing, categorias utilizadas por Martins (2014), por indicação de Quadros, Gimenez e Antunes (2012); e feirantes, conforme acrescenta Souza (2010). Quadros, Gimenez e Antunes (2013) e Santos (2005) acrescentam, ainda, as seguintes categorias profissionais: especialistas autoempregados (médicos, advogados, engenheiros, dentre outros), empregados especialistas, gerentes, pequenos empregadores, supervisores, empresários e professores de ensino superior.

Categorias Profissionais Autores

Trabalhadores não manuais de rotina (secretários e jornalistas, dentre outros), trabalhadores manuais qualificados, trabalhadores não qualificados.

Scalon e Salata (2012)

Pequenos proprietários (empregadores). Santos (2005) e Scalon e Salata (2012)

Feirantes. Souza (2010)

Professores primários (ensino fundamental) e vendedores de lojas.

Martins (2014), Quadros, Gimenez e Antunes (2012) e Scalon e Salata (2012)

Auxiliares de escritório, atendentes, garçons, policiais, auxiliares de enfermagem.

Martins (2014) e Quadros, Gimenez e Antunes (2012) Atendentes de telemarketing. Martins (2014) e Souza (2010) Especialistas autoempregados (médicos,

advogados, engenheiros, dentre outros), empregados especialistas, gerentes, supervisores, empresários e professores de ensino superior.

Quadros, Gimenez e Antunes (2013) e Santos (2005)

Quadro 8 Categorias profissionais da classe média a serem utilizadas na pesquisa

Foi utilizada a escala de capital cultural, desenvolvida por Holt (1998) e utilizada por Ustuner e Holt (2010), com adaptações à realidade brasileira, a fim de classificar os informantes, de acordo com a intensidade de capital cultural e permitir a comparação e a influência dos diferentes níveis no comportamento de consumo de status. A escala de Holt (1998) utiliza as seguintes medidas: nível educacional do pai, ocupação do pai, nível educacional do entrevistado e ocupação do entrevistado.

Reconhecendo a importância cada vez maior das mulheres na sociedade e grande aumento no nível de escolaridade feminino nos últimos anos (FRIEDLAND et al., 2007) e, seguindo a metodologia adotada por Macedo (2014), foram incorporadas a escolaridade e a ocupação da mãe no critério de Holt (1998) e Ustuner e Holt (2010). Os aspectos educacionais e profissionais, também, foram utilizados por Lemos, Dubeux e Rocha-Pinto (2014) e são

respaldados por Bourdieu (1984), para o qual, para adquirirem capital cultural elevado, as pessoas precisariam ter altos níveis educacionais, pensamento abstrato e profissões que enfatizassem a produção simbólica.

Além disso, tendo em vista o aumento do número de estudantes universitários em faculdades e universidades particulares, acredita-se que muitos deles se enquadrem no perfil de classe média. No entanto, considera-se que o

status conferido a um diploma de uma universidade federal ou particular

tradicional seja superior e, portanto, na quantificação do capital cultural esse fator foi considerado. Cabe destacar que Bourdieu, também, fez essa distinção no caso da França, considerando mais valiosos, em termos de capital cultural, os diplomas das chamadas grandes écoles.

Para fins de análise, os indivíduos foram separados em dois grupos (alto e baixo capital cultural), de acordo com sua pontuação na escala de capital cultural. Deste modo, o nível de escolaridade recebeu pontuações, conforme o Quadro 9 e, quanto à ocupação dos entrevistados, a pontuação foi calculada, conforme apresentado no Quadro 10.

Escolaridade Pontuação

Menor que o Ensino Médio 1

Ensino Médio e Curso Técnico (Completos) 2

Superior Incompleto 3

Curso Superior Completo em IES Privada não renomada 4 Curso Superior Completo em IES Federal e Privada renomada

(exemplo: PUC e FGV) 5

Pós-Graduação ou Mestrado (Completos) 6

Quadro 9 Escolaridade dos entrevistados

Ocupação Pontuação

Serviço Manual (não exige qualificação) 1

Serviço de Apoio ou Administrativo Básico (requer algum curso ou

treinamento básico) 2

Vendas, Técnico Básico, Gerencial Básico ou Pequeno Empreendedor 3 Profissional Alto Nível Técnico ou Gerencial e Cultural de Nível

Básico 4

Profissional Liberal Especializado e Cultural de Alto Nível 5

Quadro 10 Ocupação dos entrevistados

Fonte: adaptado de Holt (1998), Macedo (2014) e Ustuner e Holt (2010)

O capital cultural foi calculado, via soma da pontuação total dos pais do entrevistado dividido por dois, mais a pontuação de escolaridade e de ocupação do próprio entrevistado. Assim sendo, a pontuação total poderá variar de 4 a 22 pontos, com pontuação média de 13 pontos; esta pontuação média serviu de limite entre baixo e alto capital cultural. E os níveis de capital cultural foram definidos conforme apresentado no Quadro 11.

Nível de Capital Cultural Pontuação

Baixo Capital Cultural (BCC) Até 13 pontos Alto Capital Cultural (ACC) Acima de 13 pontos

Quadro 11 Nível de capital cultural dos entrevistados

Fonte: adaptado de Macedo (2014), Holt (1998) e Ustuner e Holt (2010)

Embora sejam possíveis diversas combinações de escolaridade e ocupação profissional do entrevistado e de seus pais, simplificadamente, uma pessoa de BCC caracteriza-se (ele e os seus pais) por não ter curso superior e por ter ocupação profissional até o nível 3: médio gerencial, técnico básico ou como pequenos empreendedores (QUADRO 10). Por outro lado, para atingir uma pontuação condizente com Alto Capital Cultural, o entrevistado (ele e os seus pais) precisaria ter o curso superior ou acima e ocupar atividades profissionais

de níveis mais elevados do Quadro 10 (nível 4 ou acima): alto nível técnico e gerencial, médio e grande empresário, dentre outros.