CAPÍTULO 2 –TRANSFERÊNCIA TECNOLÓGICA: EXPERIÊNCIA DAS

2.9 Consultoria docente e a mobilidade com o meio empresarial

O docente, na Alemanha, tem autorização para realizar atividades secundárias, desde que não haja prejuízo à suas atividades habituais, sendo o limite superior, na maioria dos estados, de cerca de um quinto do tempo total de trabalho (Abramson et al., 1997). As atividades secundárias estão sujeitas à aprovação oficial, sendo rotina no caso dos professores titulares, mas muito difícil, no caso dos assistentes, o que inviabiliza o desenvolvimento de atividades secundárias em conjunto (Abramson et al., 1997).

Consultoria e pesquisa acadêmica têm objetivos muito diferentes no que diz respeito aos avanços teóricos. Enquanto a consultoria tem foco, na maior parte das vezes, nos benefícios imediatos e nas aplicações específicas, a pesquisa acadêmica enfatiza a replicabilidade, a generalidade e introduz variáveis não investigadas previamente (Shugan, 2004), embora para o autor, tais atividades sejam complementares e contribuam para o avanço recíproco.

No contexto da consultoria, o papel das Universidades de Ciências Aplicadas merece ser mencionado, pois em contraste com as demais universidades, promovem a educação e o desenvolvimento das capacidades orientadas para a prática, demandando dos professores substancial consultoria para a indústria, especialmente em relação às soluções para os problemas que emergem do trabalho diário das empresas (Abramson et al., 1997). Além disso, os alunos destas escolas politécnicas preparam suas monografias sobre assuntos relacionados com as empresas industriais (Weert e Soo, 2009).

De acordo com a EFI (2009), a Alemanha conta com uma trajetória bem sucedida de relações entre universidade-indústria por meio dos contratos de pesquisa e trabalhos de consultoria externa, especialmente em setores-chave como a química, engenharia mecânica e construção de veículos rodoviários.

A principal forma de transferência de pessoal para a indústria inclui a formação de recursos humanos e a transferência permanente de pessoal científico da universidade para a indústria (Abramson et al., 1997). As leis alemãs aplicáveis aos servidores públicos dificultam aos pesquisadores o deslocamento entre universidade, empresas, e na sociedade, além de não facilitarem a mobilidade internacional dos cientistas (EFI, 2009).

As universidades alemãs, especialmente as faculdades técnicas, têm uma longa tradição de nomeação de pesquisadores de alto nível da indústria como professores (Abramson et al., 1997).

2.9.1 O cientista empresário: Spin Offs e Start Ups

Os resultados de pesquisas, frequentemente, requerem desenvolvimento posterior antes de se tornarem negócios viáveis e aceitáveis para financiamento privado, pois são divulgados em um estágio muito inicial de desenvolvimento (BMBF, 2012). Por isso, têm o potencial de mercado geralmente incerto, além de exigirem desenvolvimento adicional substancial antes que possam ser trazidos para o mercado. (Thursby et al., 2001).

O governo federal alemão mantém programa que prepara os pesquisadores para a criação de empresas34 e também apoio a projetos industriais que exigem desenvolvimento complicado e arriscado35. Neste caso, são apoiadas também a fase de viabilidade tecnológica, desenvolvimento de protótipos, elaboração de plano de negócios e a fundação da empresa, seguida do apoio às operações comerciais e estratégias de busca de financiamento (BMWI, 2012).

34 Um exemplo é o Programa do BMBF, denominado GO-Bio, no qual são financiados projetos selecionados em concorrência, com orçamento anual de 150 milhões de euros. Disponível em http://www.go-bio.de/

35 Programa EXIST mantido pelo BMWi – Ministério Federal da Economia e Inovação, disponível em http://www.exist.de/englische_version/index.php Para cobrir suas despesas, os empresários recebem um subsídio entre 800 a 2.500 euros por mês, dependendo do seu grau, por um período máximo de 12 meses. Além disso, eles recebem materiais e equipamentos (no valor de 10.000 euros para start ups individuais e 17.000 euros para start-ups de equipe), o financiamento para treinamento (5.000 euros) e, se necessário, abono de família de 100 euros por mês e criança. A universidade ou instituição de pesquisa não-universitária oferece infraestrutura e assitência técnica durante a fase de pré-implantação.

Spin-offs são empresas derivadas de outras e/ou que contam, entre seus fundadores, com um pesquisador, um técnico especializado ou um estudante de doutoramento ligado à universidade e que foi criada com a finalidade de comercializar uma patente universitária.

Já as empresas denominadas start ups são aquelas incubadas, pelas universidades ou outras instituições e que contam, na maior parte das vezes, com recursos públicos para o capital semente, na qual os produtos estão em fase de desenvolvimento e pesquisa de mercado.

Para EFI (2009), novos empreendimentos são uma forma particularmente sustentável da transferência de tecnologia, porque o conhecimento não codificado do pesquisador pode ser transferido e aplicado eficazmente. Entretanto, segundo a Comissão, há questões complexas para as universidades e instituições de pesquisa, que dizem respeito aos direitos de propriedade industrial, ao envolvimento da instituição científica no novo empreendimento, ao direito de regresso do empreendedor e, ainda, ao tipo de apoio que as instituições universitárias, ou de pesquisa, podem oferecer aos interessados na criação de uma empresa.

Para Franzoni e Lissoni (2005), o desenvolvimento tecnológico é muito mais o resultado de um esforço empresarial, e consideram que os mais proeminentes cientistas atuam muito bem como empresários e se relacionam com a indústria, mesmo na ausência de incentivos específicos para patentes e criação de empresas.

Especialistas concordam que a Alemanha precisa, particularmente, avançar em novas empresas baseadas em intensa pesquisa e recomendam que o governo federal e os estados facilitem o envolvimento de universidades e instituições de pesquisa em empresas spin-off (EFI, 2009).

Franzoni e Lissoni (2005) afirmam que os cientistas acadêmicos definem suas pesquisas e agendas educacionais, tendo em mente ao mesmo tempo, as perspectivas de carreira oferecidas por campos de pesquisa diferentes, a necessidade de atrair assistentes talentosos para seus laboratórios e preocupações mais imediatas, como a obtenção de uma renda suplementar.

Segundo os mesmos autores, um dos problemas para o empreendedorismo é o financiamento inicial, que pode ser resolvido se o instituto de pesquisa tem participação no capital. A nova empresa, segundo os autores, muitas vezes precisa adquirir direitos de patentes que são de propriedade da universidade ou instituição de pesquisa, mas não tem liquidez suficiente para pagar por eles, sendo a solução a troca dos direitos de propriedade

industrial pelas ações da nova empresa, modelos ainda raros e vistos, com ceticismo, inclusive no meio acadêmico.

No documento Ambiente regulatório no qual se inserem as instituições científicas e tecnológicas brasileiras e os aspectos comparativos com as congêneres da Alemanha e dos Estados Unidos (páginas 59-62)