2. O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E A RESPONSABILIDADE CIVIL
2.2. Conceitos Fundamentais
2.2.1. Consumidor
O conceito de consumidor iniciou-se a partir da concepção econômica, onde se entende que o consumidor é o destinatário da produção de bens. Embora
134 PASQUALOTTO, Adalberto. Op. cit., p. 49.
este conceito não seja suficiente para a análise do CDC, efetivamente, não se poderia desprezá-la a fim de estabelecer o conceito jurídico.
Mas o conceito jurídico não pode partir de uma situação específica, pois a relação de consumo, nos dias atuais, é, por demais ampla135. Por isso, na acepção jurídica, o conceito de consumidor pode ser analisado sob dois prismas:
Eis que, para a ciência jurídica o estudo do “consumidor” possui basicamente dois escopos: um que considera o consumidor enquanto categoria, e por isso merecedor da tutela jurídica; e outro enquanto um dos participantes de uma relação jurídica de consumo.136
Embora possa ser reconhecido que toda definição possa ser perigosa, mormente em se tratando de um conceito legislativo, o ponto de partida obrigatório é o estabelecido pelo legislador, através do art. 2º do CDC:
Art. 2o. Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final.
Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo.
Entretanto, vê-se que toma por base um dado fático (intervir na relação de consumo), o que faz deste conceito insuficiente para se estabelecer a abrangência do CDC, eis que, em seu caput, somente abraçou somente uma das vertentes da análise jurídica, uma vez que estabelece o conceito de consumidor padrão (também denominado standart ou stricto sensu), sendo este, portanto, quem adquire o produto ou serviço como destinatário final.
135 ANTONIO HERMEN V. BENJAMÍN (O Conceito Jurídico de Consumidor, in RT 628, p. 70), destaca: Pensamos que, de fato, há consumidores e consumidores! Por trás da estratificação social, das diferenças em poder aquisitivo, das várias capacidades de receber e digerir informações e, por último, das necessidades não coincidentes, pode-se vislumbrar uma área de identificação ampla fragmentada, sim – não particularizada ao indivíduo-consumidor ou ao grupo-consumidor, mais ou menos homogênea para toda a coletividade indeterminada de consumidores. As contradições interpessoais e de classe não modificam a identificação de um interesse típico do consumidor, que consistiria na expectativa de todos os consumidores de receberem produtos e serviços de boa qualidade, a preços justos e com informação adequada sobre os mesmos. É que o consumidor, para efeitos jurídicos, se caracteriza mais pela destinação que dá ao bem do que pela qualidade ou valor do bem em si.
136 DONATO, Maria Antonieta Zanardo. Op. cit., p. 44.
Critica MARIA ANTONIETA ZANARDO DONATO o conceito, mas ressalta que três elementos se revelam claramente destacados no conceito legal de consumidor padrão:
Observando-se o conceito fornecido pela lei, verifica-se que o legislador pátrio, ao conceituar o consumidor, buscou, mormente, defini-lo em seu elemento teleológico, isto é, condicionando a sua existência à prática de um ato, qual seja a aquisição ou a utilização do produto ou serviço, que deverá ser sempre realizado tendo em vista a sua qualidade de destinatário final, ou seja, visando a retira-lo do mercado, ultimando a sua função no ciclo produtivo.
...
Compõe-se, dessa maneira, o conceito emanado do art. 2º do Código de Defesa do Consumidor, pela conjugação do elemento subjetivo (sujeito):
pessoa física ou jurídica; do elemento objetivo (objeto) produtos ou serviços;
e do elemento teleológico (finalidade): caracterizado pela destinação a ser conferida ao produto ou ao serviço, que será sempre finalística, opondo-se, pois, à comercialização, revenda ou qualquer outra destinação intermediária que possa ser conferida ao produto ou serviço.137
No que tange ao elemento subjetivo, quis claramente o legislador abranger todo e qualquer sujeito de direito que possa ser o destinatário final, não havendo o porque limitar-se a pessoa física somente, abrangendo também a pessoa jurídica e, porque não, as próprias entidades despersonalizadas, tal como ocorre com a massa falida ou mesmo o condomínio.
O elemento objetivo (produto ou serviço), é o bem fornecido ao consumidor e que lhe traz satisfação, e que será analisado adiante (itens 2.2.3 e 2.2.4).
Já no que se refere ao elemento teleológico (finalidade), destaca claramente que o objeto deve ser adquirido com o intuito de ser destinatário final.
Não pode ser utilizado como insumo para a produção de outros bens que serão comercializados (mantidos na cadeia produtiva), como, por exemplo, a aquisição de tinta para fabricação de brinquedos.138
137 Idem, p. 65-66.
138 Parece importante, neste sentido, estabelecer o limite deste entendimento, pois, MARIA ANTONIETA ZANARDO DONATO destaca duas posições doutrinárias, uma finalista e outra maximalista. Para a primeira, destinatário final seria, não só quem adquirisse o produto como destinatário final (destinatário fático), sendo imprescindível, também, a finalidade econômica, ou seja,
Outro conceito de consumidor é o conceito coletivo, estabelecido pelo parágrafo único do art. 2o. do CDC. Neste dispositivo, o legislador reconheceu a necessidade da tutela dos interesses difusos e coletivos, de todos os que, ainda que não sejam diretamente quem celebrem o ato negocial (contrato), sejam destinatários finais do bem, tal como as pessoas que consomem o bolo de uma festa.
Um outro conceito de consumidor é aquele que não realiza um ato contratual de consumo, mas que assim são considerados por equiparação legal (arts. 17 e 19 do CDC139).
Os consumidores equiparados são aqueles que são afetados pelo acidente de consumo.140 São os denominados consumidores bystanders. Portanto, para que seja considerado consumidor basta tão somente que tenham seu patrimônio diminuído em razão de um produto ou serviço, cuja responsabilidade, nos termos do CDC, seja imputável ao fornecedor.141
Em verdade, são somente vítimas, mas que, para fins de proteção legal pelo acidente de consumo, são equiparados a consumidores, sendo-lhes assegurado os mesmos direitos, tal como aqueles que celebraram diretamente o contrato de consumo.
Novamente toma-se por base um dado fático, como ressalta ADALBERTO PASQUALOTTO:
não estar adquirindo o bem para utilização profissional. Já em relação à segunda, basta somente a realidade fática, ou seja, quem retira o produto da cadeia produtiva e o consome (op. cit., p. 90-92).
139 Art. 17. Para efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento.
Art. 29. Para fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas.
140 Há que se ressaltar que, embora seja de difícil existência, quiçá somente admissível no âmbito teórico, mesmo na relação de consumo realizado com os profissionais da odontologia, também seria possível admitir-se o consumidor bystanders. De outro lado, os consumidores por equiparação, na forma do art. 29, são evidentemente tutelados pelo CDC.
141 Como destaca MARIA ANTONIETA ZANARDO DONATO (op. cit., p. 195): Mostra-se suficiente que a vítima, para que seja equiparada ao consumidor, tenha sido atingida em sua esfera jurídica pelos efeitos do acidente de consumo, interessando à perquirição que ora se almeja, o conhecimento de que a pessoa foi atingida em sua incolumidade físico-psíquica ou em sua incolumidade econômica.
Importa, única e tão-somente, o fato de ter sido atingida. Ou seja, ter seu patrimônio diminuído em decorrência de um evento danoso que foi provocado pelo produto e que a responsabilidade é imputada ao fornecedor. O simples fato de a pessoa ter sido atingida pelo acidente de consumo apresenta-se como pressuposto básico, a princípio, para que haja a sua inclusão na categoria de vítima equiparada a consumidor.
O dado fático está mais nítido no conceito extensivo de consumidor, que protege os utentes. Não há entre eles e o fornecedor nenhum vínculo direto, nem mesmo relação contratual fática ou contrato social. Todavia eles estão protegidos na hipótese de um acidente de consumo.142
A segunda forma de vítima equiparada é a estabelecida pelo art. 29 do CDC, ou seja, todo aquele que, ainda que não celebre a relação contratual, esteja sujeito às práticas comerciais vedadas pelo legislador por contrárias ao interesse legislativo, quer seja na fase pré-contratual (como os sujeitos a propaganda enganosa ou abusiva) ou mesmo contratual (sujeitando-se a cláusulas abusivas, por exemplo). Como ressalta SILVIO LUÍS FERREIRA DA ROCHA são aqueles que, ainda que não sejam partes no contrato, mas que podem vir a ser.143
Importante salientar é que, como observa ANTONIO HERMEN V.
BENJAMIN144, em qualquer destas formas legislativas (quer seja do consumidor padrão, bystander, coletivo ou de outra forma equiparado), o conceito de consumidor fica sem sentido se não o tomarmos em contraposição a alguém. Deste modo, somente será considerado consumidor se analisado em oposição ao fornecedor em uma relação de consumo.