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1. CONSIDERAÇÕES GERAIS

1.2. Elementos que Integram a Responsabilidade Civil

1.2.4. Culpa

Após a evolução experimentada pela responsabilidade civil, deixando de ser simples vingança a qualquer ato que conduza ao dever de indenização, surgiu, então, a necessidade da culpa como elemento indispensável, ou seja, o elemento subjetivo da responsabilidade civil, o elemento volitivo que deve ser avaliado na conduta do agente.

Conforme preleciona a doutrina dominante, a noção da responsabilidade decorrente da culpa teve início a partir da Lex Aquilia, do século III a. C. Referida lei, embora de criada como regulamentação de ordem penal, estabelecia que haveria o dever de responder pelo dano toda vez em que não houvesse legalmente autorizada para a conduta (daí decorrendo o conceito vigente de dano injusto). Posteriormente, esta noção foi se alastrando, passando a se conceber a culposa a conduta toda vez em que não houvesse justo motivo que autorizasse a ter provocado o dano.

A adoção da culpa possibilita a vida em sociedade, e torna a responsabilidade civil uma ciência mais justa, fazendo desaparecer a insegurança social de responder indistintamente por todos os atos que resultarem em dano.

Como ensina OROZIMBO NONATO, a noção tradicional de responsabilidade civil pela culpa atente às inspirações de equidade e de justiça.67

Na análise da culpa, estava em questão, inicialmente, a conduta do indivíduo em face ao ordenamento jurídico, de forma que, agindo este em contrariedade (desconformidade) com um dever que lhe é imposto. É uma falta a um dever, decorrente da inobservância de uma conduta (positiva) que do agente poderia se esperar. Diferentemente, para a análise da culpa no caso de omissão,

66 ALVIM, Agostinho. Op. cit., p. 370-371.

67 Apud CARVALHO SANTOS, João Manoel de. Op. cit., p. 325.

somente poderiam ser consideradas as condutas que legalmente se poderia espera, como visto anteriormente.

Pela evolução da responsabilidade civil, nota-se que há um crescente aumento de seu campo, passando a ser considerado como culposa a conduta, não só contrária aos preceitos legais, mas a outras condutas aguardadas e esperadas de um homem médio.68

Como expressa OROZIMBO NONATO:

O ato ilícito não é apenas o que a lei proíbe: o direito desborda do domínio augusto do texto legal.

Falando em negligência e imprudência, diz PIERE DE HARVEN, admite o legislador tôda uma técnica da vida dos homens em sociedade, técnica demasiadamente ampla para ser definida em lei e que, não obstante, tem de ser respeitada para a possibilitação da vida em sociedade.69

Nesta condição, qualquer ação ou omissão do agente, que importasse inobservância de um dever estabelecido validamente pelo legislador (agir com culpa), causando prejuízos a outrem, desejados ou não, acarreta o dever de reparar o dano. Trata-se, pois, da chamada responsabilidade subjetiva, pela qual o elemento culpa é indispensável. E que é a regra geral vigente no direito pátrio, tanto para a responsabilidade delitual (ato ilícito), conforme preceitua o art. 186 do CCb, como na esfera contratual (art. 393 CCb).

Como se vê, desde sua origem, houve uma ampliação muito grande da concepção de culpa, deixando de ser simplesmente uma idéia de inobservância de um dever legal, passando para uma noção de infração de um dever esperado, tanto de ordem legal, como social, moral, etc. CAIO MÁRIO, baseado nas lições de SAVATIER, assevera que, ao estabelecer-se o conceito de culpa:

É necessário assentar se impossível faze-lo sem partir da “noção de dever”, que ele analisa em várias hipóteses ou espécies (deveres legais, deveres de

68 ALVINO LIMA (Culpa e Risco, p. 40) ressalta que as necessidades prementes da vida, o surgir dos casos concretos, cuja solução não era prevista na lei, ou não era satisfatoriamente amparada, levaram a jurisprudência a ampliar o conceito de culpa e acolher, embora excepcionalmente, as conclusões das novas tendências doutrinárias.

69 Apud CARVALHO SANTOS, João Manoel de. Op. cit., p. 325.

família, deveres morais, obrigações de observas os regulamentos, dever geral de não prejudicar a outrem etc.).70

Como ressalta ORLANDO GOMES71, trata-se de um desvio de comportamento. Está, portanto, diretamente ligada à conduta aguardada em um homem médio72, sendo que este procede em desconformidade com o que se podia e devia esperar.

Como ressalta FÁBIO HENRIQUE PODESTÁ, a noção de culpa está diretamente ligada à própria noção de previsibilidade, sendo que só se pode cogitar de culpa quando o evento é previsível.73

Conceituar culpa é tarefa árdua, mormente nos dias atuais, onde o conceito, e a amplitude de sua abrangência, é muito mais larga. Como esclarece MÁRIO MOACYR PORTO “culpa” é caleidoscópio de mil faces, que varia ao sabor das convicções pessoais de cada autor que se propõe a defini-la.74

JOSÉ DE AGUIAR DIAS, por exemplo, a conceitua como sendo:

a falta de diligência na observância de norma de conduta, isto é, o desprezo, por parte do agente, do esforço necessário para observá-la, com resultado, não objetivado75, mas previsível, desde que o agente se detivesse na consideração das conseqüências eventuais de sua atitude.76

CAPITANT, citado por SERPA LOPES, entende a culpa como sendo:

o ato ou omissão constituindo um descumprimento intencional ou não, quer de uma obrigação contratual, quer de uma prescrição legal, quer do dever

70 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Op. cit., p. 67.

71 GOMES, Orlando. Obrigações, p. 263.

72 Talvez seja oportuna uma revisão desta concepção de culpa, vinculando-se à idéia da conduta de um homem médio, uma vez que na culpa levíssima, a conduta de um homem médio não seria suficiente para evitar o dano, entretanto, não elidiria o dever de indenizar, como se impõe no caso da culpa levíssima, uma pessoa especial poderia evitar. Parece mais oportuno estabelecer-se a regra fundada em outro elemento, como é o caso da previsibilidade.

73 PODESTÁ, Fábio Henrique. Op. cit., p. 199.

74 PORTO, Mário Moacyr. Op. cit., p. 23.

75 Cabe uma ressalva a este conceito, pois o resultado pode até mesmo ser esperado e desejado, como ocorre com o caso do dolo. Somente no seu conceito mais restrito (stricto sensu) é que seria correto o conceito.

76 DIAS, José de Aguiar. op. cit., p. 127.

que incumbe ao homem de se comportar com diligência e lealdade nas suas relações com os seus semelhantes.77

Assim, como a culpa é elemento indispensável, pode ser conceituada como conduzir-se contrariamente àquilo que seria esperado, infringindo uma conduta esperada, quer por se tratar de um dever legal, moral, social, religioso ou até familiar, causando um dano intencionalmente ou que, embora não desejado, houvesse o agente ponderado com um mínimo de diligência, poderia ter previsto o resultado danos.

No documento RESPONSABILIDADE CIVIL DO ODONTÓLOGO (páginas 30-33)