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Capítulo 4 – Casos de estudo

4.1. Herdade do Peso

4.1.1. Consumo de água

Analisando primeiramente o consumo de água relacionado com a vinha, é importante fazer uma separação da área total de vinha em dois grandes setores. A Herdade do Peso II (corresponde aos 50 hectares) tem uma maior necessidade de água que a Herdade do Peso I. Os 50 hectares abrangem apenas videiras novas, onde o principal objetivo é fazer a vinha crescer. Por esta razão não existe, por enquanto, monitorização das horas de rega anuais despendidas, sendo o valor estimado de aproximadamente 12 horas semanais por setor durante quatro meses, entre junho e setembro. A área total está dividida em 19 setores e todos eles com diferentes áreas. Cada setor tem um conjunto de válvulas que rega sempre com o mesmo caudal, de modo a que cada videira receba dois litros de água por hora. É, portanto, possível estimar o número de videiras por hectare a partir da equação (3.12) e o consumo de água usando a equação (3.11). A tabela (4.1) apresente para cada ano a área da vinha (que é igual em ambos os anos), consequentemente, também o número de videiras; o consumo de água estimado para a rega e, por último, o consumo efetivo faturado pela EDIA, que foi para 2015 de € 10.312 e para 2016 de € 18.311.

Tabela 4.1 - Número de videiras, rega estimada e faturada na Herdade do Peso II.

Ano base 2015 2016

Área (ha) 49,5 49,5

Número de videiras (unidade/ha) 6 322 6 322

Rega estimada (m3) 130 986 130 986

Faturas de água – EDIA (m3)

183 442 121 169

Nos outros 70 hectares existe monitorização e registo sobre a rega anual. A área total está dividida por 23 setores, com áreas diferentes. Cada setor também tem um conjunto de válvulas reguladas para um determinado caudal de modo a cumprir os dois litros de água por hora por videira. O número de horas de rega é previamente estudado a partir das necessidades das plantas. São realizadas cerca de três a nove análises foliar por setor, por semana, que determinam o stress hídrico das diferentes folhas, permitindo averiguar se é necessário regar o setor e se sim, o número de horas. Caso haja necessidade de regar alguns setores, o número de horas é inserido na central de bombagem, podendo ser diferente por setor. Por conseguinte, usando as equações (3.11) e (3.12), é possível calcular o consumo total de água estimado e o número de videiras por hectare, respetivamente. A tabela (4.2) apresenta para cada ano a área da vinha (que é igual em ambos os anos) e consequentemente, também o número de videiras; o consumo estimado de água para a rega, o que implicou gastos de gestão de recursos hídricos de € 68 e 72, para 2015 e 2016, respetivamente.

Tabela 4.2 - Número de videiras, rega estimada e contabilizada na Herdade do Peso I.

Ano base 2015 2016

Área (ha) 71,6 71,6

Número de videiras (unidade/ha) 6 235 6 235

Rega estimada (m3) 86 363 66 372

A diferença entre o valor estimado e o valor medido é nos dois anos significativamente grande, nos dois anos apresentados. Obtendo diferenças de quase 70 mil e 40 mil metros cúbicos de água, para 2015 e 2016 respetivamente. Esta imprecisão deve-se ao facto de o contador na central de bombagem não funcionar corretamente, não contabilizando todas as passagens de água.

Na figura (4.2) podemos encontrar os consumos de água mensais estimados para a rega, para os anos de 2015 e 2016. De notar que as unidades estão em milhares de metros cúbicos. Em 2016, estima-se que se tenha consumido menos 20 mil metros cúbicos de água do que em 2015.

Figura 4.2 - Consumo de água anual dos anos de 2015 e 2016, na Herdade do Peso I. Tabela 4.3 - Valores obtidos pela estação meteorológica da Herdade do Peso II.

Ano base 2015 2016

Precipitação anual (mm) 480 560

Dias de verão 179 158

Duração de ondas de calor4 (dias) 42 30 Ocorrência de temperatura superior

a 35ºC (horas) 220 320

Como a precipitação anual em 2016 foi superior a 2015, é de esperar que o consumo de água para a rega seja efetivamente inferior. Contudo esta diferença é de apenas 5,6 metros cúbicos de água, para a área de 70 hectares. O menor consumo de água em 2016, foi influenciado também, pelos dias de verão e pelas ondas de calor, menos significativas do que em 2015. Relativamente a agosto, é provável que tenha sido um mês mais quente e seco do que em 2015, tendo sido necessário regar mais a vinha.

4 “Considera-se que ocorre uma onda de calor quando num intervalo de pelo menos 6 dias consecutivos, a

temperatura máxima diária é supeior em 5ºC ao valor médio diário no período de referência.” Fonte:

https://www.ipma.pt/pt/enciclopedia/clima/index.html?page=onda.calor.xml. 0 5 10 15 20 25 30 35 40

Junho Julho Agosto Setembro

Co ns um o de á g ua - re g a ( M m ³) 2016

Rega - Herdade do Peso I

Figura 4.3 - Precipitação acumulada para os meses de agosto a outubro, para os anos 2015 e 2015 e a média entre 2011 e 2016. Fonte: estação meteorológica da Herdade do Peso.

Analisando as duas figuras explica-se facilmente o porquê de ter sido necessário regar mais no mês de setembro em 2016, do que em 2015. A precipitação em setembro de 2016 foi bastante inferior ao mês respetivo de 2015, cerca de menos de 18 mm (ou 18 l/m2). Esta diferença representou aproximadamente uma descida de 22,5 %. Como a precipitação anual influência diretamente as necessidades de rega desse mesmo ano a tendência climática atual irá implicar consequências para o consumo de água no setor, nas próximas décadas.

O consumo de água na vinha é representado maioritariamente pela rega, contudo existem outros setores como o uso de água para tratamentos fitossanitários, adubação e herbicidas. Para a zona de 70 hectares o consumo é bastante baixo uma vez que as maquinarias espalham os produtos com vapor de água, ou seja, há um menor desperdício. Enquanto na zona de 50 hectares ainda não se usa o mesmo processo, gastando significativamente mais água. As tabelas (4.4) e (4.5) caracterizam o gasto de água para as duas áreas de vinha para os tratamentos aplicados nas mesmas.

Tabela 4.4 - Água gasta para tratamentos fitossanitários, herbicídias e inseticidas para a Herdade do Peso II.

Área de 50ha (HP II) Número de depósitos por tratamento Capacidade de um depósito (l) l/tratamento Volume água (m3) 16 1600 25.600 25,6 Tratamentos/ano Fitossanitários 6 - 25.600 153,6 Inseticidas 2 - 25.600 51,2 Herbicidas 420 [l/ha] - 21.000 21,0 Total anual 226

Tabela 4.5 - Água gasta para tratamentos fitossanitários, herbicídias e inseticidas para a Herdade do Peso I.

Área de 70 ha (HP I) l/tratamento Tratamentos/ano Volume de água (m3)

Fitossanitário 21.600 6 129,6

Inseticida 21.600 2 43,2

Herbicidas 2,17 [l/ha] - 0,15

Total anual 173

Em 2016, devido à seca continua, foi necessário encher a barragem com quase 290 mil metros cúbicos de água, provenientes do Alqueva. Este valor é certamente superior ao consumo total de água num ano. Portanto apenas uma pequena parte foi utilizada, enquanto uma outra foi consumida em 2017 e espera- se que ainda uma parcela de água seja para consumir em 2018 (ano corrente). Caso esta tendência continue por alguns anos – de aumento continuo de procura de água no Alentejo e precipitação acumulada anual inferior à média – irá ser necessário recorrer novamente ao enchimento “não natural” (pelas águas da chuva) da barragem da Herdade do Peso.

Resumidamente a tabela (4.6) representa o consumo de água anual, onde se teve em conta: i. A rega na Herdade do Peso II (50 hectares) é o valor real dado pelas faturas da EDIA;

ii. A rega na Herdade do Peso I (70 hectares) é dada pelo quadro de horas introduzido na central de bombagem;

iii. A água utilizada nos tratamentos é uma estimativa, a partir do número de tratamentos realizados por ano e os depósitos de água correspondentes.

Tabela 4.6 - Consumo anual de água gasto na vinha nos anos de 2015 e 2016 (HP).

Ano base 2015 Fração do

consumo total 2016

Fração do consumo total Rega 50 ha – faturas EDIA (m3) 183.442 68 % 121.169 64 % Rega 70 ha – estimativa (m3) 86.363 32% 66.372 35 % Tratamentos 50 ha – estimativa (m3) 226 0,08 % 226 0,09 % Tratamentos 70 ha – estimativa (m3) 173 0,06 % 173 0,12% Total (milhares de m3) 270 - 188 -

Em 2015 foi o ano de maior consumo de água, cerca de 685 metros cúbicos de água por hectare a mais que em 2016, o que implicou maiores custos associados. Analisando a tabela (4.6) conclui-se que a água gasta para tratamentos é pouco significativa comparada com as necessidades de rega – menos de um por cento. A área de 50 hectares é que necessitou de maiores quantidades de água por hectare, nos últimos anos. Neste caso de estudo, em ambos os anos, a vinha nova necessitou em média do dobro da água por hectare que a vinha matura. Portanto, a vinha necessita de maior quantidade de água na fase inicial da sua vida útil.