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CAPÍTULO 1: A SOBERANIA INDIVIDUAL: EM BUSCA DA

1.2. Consumo e comunicação: os objectos dos nossos desejos

O hedonismo, quando dominante, desvaloriza os valores do trabalho e da poupança, frutos da moderação e do sacrifício, inerentes ao investimento num futuro melhor. O prazer, os estilos radicais, a autenticidade, permitem viver intensa e imaginativamente o presente, na busca da euforia repetida e permanente. O processo de infantilização da sociedade desvaloriza o esforço, a persistência, a maturidade, para a qual deve tender o esforço educativo. Em seu lugar, promovem- se os valores do prazer, da espontaneidade, experimentando-se intensamente todos os momentos da vida (Pinto, s/d).

A soberania do indivíduo apoia-se, então, na publicidade, na moda, no crédito e no consumo, que ditam a constante renovação das pessoas e dos objectos. O consumo «pedagógico» responsabiliza o consumidor por cada opção, obrigando- o a reflectir sobre os efeitos do seu acto na saúde e no meio ambiente.

O mundo dos bens e serviços que são oferecidos impele para a permanente aquisição e substituição, num consumo insaciável nunca inteiramente satisfeito, pois nunca se poderá ter tudo o que se deseja e o que nem se imagina vir a desejar. É uma questão de oportunidade. A constante denegação das coisas, descrita com exactidão por Bruckner (1996: 46), institui uma ruptura com pequeníssimas inovações: “funda-se um simulacro de perenidade sobre algo de perecível”. Neste domínio, a liberdade só angustia quando não se pode comprar. De resto, são os objectos que nos distinguem, oferecendo-se ao nosso desejo, sem dúvidas ou interrogações. Diversos estudos demonstraram que um dos espaços mais procurados pelos grupos são os hipermercados e os centros comerciais. Neles encontram a cor, a luz, o calor, a música e as diversões.

Robb (2001) denuncia a classificação estereotipada das crianças como materialistas pois são os próprios adultos que utilizam a posse para definir o seu sentimento de identidade. É injusto julgar os mais novos por pretenderem comprar

roupa de marca ou jogos de computador quando são precisamente os adultos que «perseguem» o carro ou a aparelhagem electrónica mais recente.

A renúncia que a poupança implica é substituída pelo impulso da aquisição, pela possibilidade de ter, instantaneamente, o objecto do nosso desejo. O consumo consola porque é “beneficamente” desresponsabilizador, mas transporta no seu âmago o vazio. Ultrapassado o inebriante momento da compra, nada resolve, nada constrói, nada acrescenta ao núcleo essencial do ser: “Há sempre uma vida após o supermercado e a televisão, tal é o drama” (Bruckner, 1996: 66).

O individualismo expressa-se, contraditoriamente, pelo consumo de bens e serviços produzidos em massa, num mundo dominado pela superficialidade. A identidade das pessoas é constantemente fragmentada, numa mistura de estilos, ideias e opiniões, que promove e dificulta, simultaneamente, o sentido do «eu» (Miles, 2000).

Sendo verdade que os objectos são mais do que instrumentos, uma vez que constituem parte importante da nossa experiência de vida (Baptista, 1998), a sua excessiva valorização quebra os laços de solidariedade e de partilha, sobrando tão somente a preocupação com a satisfação de interesses particulares. A lógica fácil e imediata do consumo, descrita por Bruckner, tende inclusivamente a estender-se a outros sectores da vida social, como a educação e a história. Há que contrariá-la, ponderadamente, com a razão. Entre o servilismo e a negação absoluta, há que encontrar a forma correcta de gerir o consumismo.

A omnipresença do eu e a proeminência que assume em relação a outros valores, é contida, conforme observámos, por determinados limites, considerados intoleráveis. A exposição do sofrimento, a violência, ou o mau trato infantil, apesar de unanimemente reprovados, continuam a ser manchete de jornal ou notícia de abertura dos telejornais. A inaceitabilidade destas práticas, testemunhos da ineficácia da apologia dos direitos humanos, desencadeia um mecanismo de rejeição que as afasta para longe, mesmo que ocorram ali ao lado, em simultâneo com o olhar escandalizado. Paradoxalmente, a sucessão em catadupa de imagens e

De facto, a televisão aproxima-nos diariamente da desgraça, com a sucessão de tragédias que nos apresenta. Contudo, esta familiaridade torna-nos mais indiferentes e insensíveis, pelos sentimentos de habituação, impotência e leveza que desperta. A saturação informativa desresponsabiliza, em vez de mobilizar, prende-se ao instante, em vez de impulsionar a acção profunda e sistemática: “A identidade, o sentimento de nós próprios e do que somos, e até do que viremos a ser, são constantemente refractados através das imagens dos media” (Brown, 1998: 38).

Assistimos, dos nossos sofás, à substituição da informação pela comunicação: a televisão “aborda os problemas gerais através de exemplos particulares, com os quais as pessoas se possam identificar, dramatiza, apela aos sentimentos. Pretende «fazer viver em directo» o acontecimento, como se o espectador fosse um actor, dissolvendo as fronteiras entre o público e o privado” (Prost, 1991: 149).

Independentemente de todas as críticas, é inegável que os mass media ocupam um papel central nas nossas vidas, como nunca desempenharam até ao presente. As casas equipam-se de televisões, de equipamento áudio e de computadores, tornando-se cada vez mais difícil ignorá-los e permanecer ao mesmo tempo um participante activo ou pelo menos conhecedor das mudanças que ocorrem no mundo. Por outro lado, as crianças têm acesso através da televisão a inúmeras fontes de informação e a diferentes pontos de vista, de uma forma muito mais diversificada que os seus pais tiveram acesso com a sua idade. Os próprios vídeo games permitem adquirir habilidades no processamento de mensagens que serão de grande utilidade num futuro que menos utilizará, ao que tudo indica, o papel e a impressão (Robb, 2001).

Os media servem-nos diariamente heróis e vilões, acções altruístas e louváveis a par de condutas marginais altamente reprováveis. O jovem presta-se exemplarmente a ambos os papéis, sendo-lhe imputado, em determinados momentos, o pior e o melhor «deste mundo», servindo de escape à pressão social. Foco de ansiedade, os menores transformam-se em símbolos da «doença social».

De imediato, “são requeridas medidas urgentes, desde políticas para parar o desemprego, à criação de mais clubes juvenis, até à aplicação de mais pesadas punições” (Brown, 1998: 48). A inocência e a pureza da infância foram definitivamente corrompidas, não restando outra alternativa segundo este discurso senão a de regressar “ao mais forte autoritarismo, censura e regulação” (idem : 51).

A socióloga recorda, porém, que a «cultura de punição», verdadeiro imperativo ideológico, ignora o facto de a situação marginal de alguns jovens ter tido, na sua génese, falhas de actuação do Estado em lhes assegurar níveis mínimos de protecção. Os jovens são reprovados por não cumprirem as suas obrigações cívicas, apesar do Estado não cumprir os seus deveres para os proteger. E a cidadania é composta por deveres face ao bem público, e pelo direito de por ele ser abrangido, como todos os outros cidadãos. Não obstante, conclui, os crimes de abuso sexual não sofrem a mesma resposta punitiva, sendo tratados como casos especiais, afastando-se do sistema penal.

Goldson (2001) refere-se inclusivamente a um discurso institucional de «demonização» da infância, centrado no micro-nível da responsabildade individual, que ignora as condições sócio-económicas e os déficits públicos de actuação preventiva. A infância e a juventude são «institucionalmente adulteradas».

A presença nos meios de comunicação social, provocada pela inadaptação ou pela violência, atribui uma notoriedade social que estes jovens não obteriam pelos meios legítimos. Walgrave (1996, b) conclui que os media aceleram certos processos de marginalização. Por outro lado, a dramatização que operam provoca o medo do crime no público que serve por sua vez para legitimar as referidas políticas de maior controlo e firmeza.

Sarmento (2001) constata que a imagem relatada pelos media dos quotidianos das crianças é marcada pela violência e pela crise, em torno da polaridade exclusão-vitimização, reproduzindo um modo de construção da realidade que desumaniza o mundo da infância. Brown (1998) acrescenta o facto de os jovens dificilmente serem descritos como vítimas de crimes, exceptuando os

institucionais (família, escola e instituições de acolhimento) ou nos espaços públicos não adquirem notoriedade ou difusão nos media. Estas perspectivas contrariam a posição de Strecht (1999), que considera positiva a difusão desta expressão patológica, por constituir um apelo reflexivo sobre os problemas da infância.

Eis o retrato de uma sociedade ocupada em projectar os seus medos nos mais jovens, com medo de reconhecer a dimensão dos crimes praticados pelos adultos contra si. A marginalidade apregoada desta forma negativa gera precisamente a sua reprodução, dificultando a abertura de «passagens» para a inclusão social.