2.3 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA GERENCIAL
2.3.3 Contabilidade pública e a contabilidade pública gerencial
As administrações públicas, de todas as esferas de governo, desenvolvem suas atividades em prol da sociedade mediante a execução do orçamento público, que consiste, basicamente, em arrecadar as receitas orçamentárias e aplicá-las por meio das despesas orçamentárias na realização dos serviços públicos ou na expansão das ações governamentais, por intermédio de novos bens públicos. Esses fatos econômico-financeiros gerados pelas organizações públicas são registrados pela contabilidade pública.
A contabilidade pública é uma especialização da Ciência Contábil que registra, controla e estuda os atos e fatos administrativos e econômicos operados no patrimônio de uma entidade pública, possibilitando a geração de informações, variações e resultados sobre a composição deste, auferidos por sua administração e pelos usuários (ANDRADE, 2007, p. 5).
O objeto da contabilidade pública é o patrimônio público e suas variações. E seus objetivos são produzir com oportunidade e fidedignidade, informações por meio de relatórios que sirvam aos administradores públicos como ferramenta no processo de tomada de decisões e que essas possam ser tomadas de forma segura (ANDRADE, 2007); (KOHAMA, 2008).
Com base no artigo 85, da Lei Federal n° 4.320/64, que versa sobre normas gerais de direito financeiro para a elaboração e controle dos orçamentos e elaboração dos balanços públicos, de ambas as esferas de governo, estabelece como devem ser organizados os serviços da contabilidade pública.
Art. 85 – Os serviços de contabilidade serão organizados de forma a permitir o acompanhamento da execução orçamentária, o conhecimento da composição patrimonial, a determinação dos custos dos serviços industriais, o levantamento dos balanços gerais, a análise e a interpretação dos resultados econômicos e financeiros (BRASIL, 1964).
A finalidade dos serviços contábeis nas administrações públicas, além, de auxiliar os gestores com suas informações no processo de tomada de decisões, também, buscam
evidenciar a situação destes gestores quanto à arrecadação das receitas, a realização de despesas e a situação dos bens públicos que estão sob sua administração, contribuindo, desta forma, para o fortalecimento do accountability.
Na administração pública, segundo Slomski (2003, p. 367) “[...] é, certamente, onde mais deve estar presente a filosofia da accountability (dever de prestar contas), pois, quando a sociedade elege seus representantes, espera que os mesmos ajam em seu nome, de forma correta, e que prestem conta de seus atos”.
Os gestores públicos administram recursos públicos que são custeados e formados pela população, desta forma, é primordial que a gestão destes recursos seja feita de forma eficiente e eficaz, para que possam ser otimizados, trazendo mais e melhores retornos à coletividade, por meios das ações governamentais, suprindo as demandas sociais e cumprindo com a missão institucional dos entes públicos. Porém, a plenitude da competência de gerir os recursos públicos, somente será efetivada ser houver informações que contribuam com o processo de gestão.
Segundo Oliveira (1992) o propósito básico da informação é o de habilitar a organização a alcançar seus objetivos pelo uso eficiente dos recursos disponíveis, nos quais se inserem pessoas, materiais, equipamentos, tecnologia, dinheiro, além da própria informação.
Afonso (1999, p. 7) defende a necessidade de se desenvolver “[...] um sistema de informações capaz de criar um ambiente gerencial onde a informação se torne um elemento indutor e facilitador das ações dos gestores para a otimização do resultado”. Diante da premissa que a contabilidade é um sistema de informações, o ambiente gerencial sugerido pelo autor pode ser propiciado pela contabilidade gerencial.
Iudícibus (1998, p. 21) conceitua contabilidade gerencial como sendo “[...] todo procedimento, técnica, informação ou relatório contábil feito ‘sob medida’ para que a administração os utilize na tomada de decisões [...]”.
Atkinson et al (2000, p. 67) trazem a definição de contabilidade gerencial do Institute of Management Accounting, como sendo “[...] o processo de identificação, mensuração, acumulação, análise, preparação, interpretação e comunicação de informações financeiras usadas pela administração para planejar, avaliar e controlar dentro de uma empresa e assegurar o uso apropriado e responsável de seus recursos”.
Segundo Horngren, Sundem e Stratton (2004) tanto os usuários internos (gestores) como os externos utilizam a informação contábil, mas a maneira como o fazem difere. O tipo de informação contábil que eles demandam também pode diferir. A contabilidade gerencial refere-se à informação contábil desenvolvida para gestores dentro da organização. Em outras
palavras, a contabilidade gerencial é o processo de identificar, mensurar, acumular, analisar, preparar, interpretar e comunicar informações que auxiliem os gestores a atingir seus objetivos organizacionais.
A principal meta da contabilidade gerencial é fornecer informações que ajudem os gerentes a planejar, a controlar as atividades da empresa e a tomar decisões (JIAMBALVO, 2002).
Embora, tradicionalmente a informação contábil gerencial tem sido tratada como financeira, com o passar dos tempos ela passou a incorporar também informações operacionais ou físicas, ou seja, informações não financeiras. Hongren, Foster e Datar (2000, p. 2) afirmam que a “[...] Contabilidade Gerencial mensura e relata informações financeiras, bem como, outros tipos de informações que ajudam os gerentes a atingirem as metas da organização”. Mesma conotação de Hansen e Mowen (2001, p. 28) quando expõem que “A contabilidade gerencial se preocupa especificamente com a forma como informações [...]
financeiras e não-financeiras devem ser usadas para o planejamento, controle e tomadas de decisão”.
Ricardino (2005, p. 10) corrobora expondo que contabilidade gerencial é:
[...] um conjunto de demonstrações e análises de natureza econômica, financeira, física e de produtividade, que é disponibilizado para que grupos de pessoas, com objetivos comuns, voltados à gestão [...], possam receber informações que permitam planejar, avaliar e controlar o emprego de recursos próprios ou de terceiros, com vistas a atingir uma determinada meta.
A contabilidade gerencial está atrelada às necessidades dos gerentes e não às do público externo, ela é substancialmente diferente da contabilidade financeira. A contabilidade gerencial está voltada mais para o futuro, dá menos importância à precisão, enfatiza os segmentos da organização, em vez da organização como um todo, não é limitada pelos princípios contábeis geralmente aceitos e nem é obrigatória (GARRISON; NOREEN, 2001, p.
20).
Iudicíbus (1998, p. 15) afirma que a contabilidade gerencial pode ser caracterizada como:
[...] um enfoque especial conferido a várias técnicas e procedimentos contábeis já conhecidos e tratados na contabilidade financeira, na contabilidade de custos, na análise financeira e de balanços, etc., colocados numa perspectiva diferente, num grau de detalhe mais analítico ou numa forma de apresentação e classificação diferenciada, de maneira a auxiliar os gerentes das entidades em seu processo decisório.
A contabilidade pública gerencial tem por finalidade gerar informações sobre: os custos de produção e/ou prestação de serviços públicos; a aplicação dos recursos disponíveis;
o desempenho dos departamentos ou setores que compõem a entidade pública e da entidade como um todo; a execução orçamentária, financeira e patrimonial; bem como, subsidiar o planejamento e o controle das organizações públicas visando atingir os melhores resultados possíveis com os recursos que estão sob o seu controle.
A contabilidade pública gerencial não se prende as questões legais, normativas e formais, seu objetivo é gerar informação que contribuam para o processo de tomada de decisões e para este fim tem ampla liberdade. Porém, a principal base que a contabilidade pública gerencial utiliza para cumprir com suas funções é a contabilidade pública, como ocorre nas entidades privadas, em que a base da contabilidade gerencial é a contabilidade societária. O Quadro 4, abaixo, estabelece as principais diferenças entre a contabilidade pública e contabilidade pública gerencial.
Contabilidade Pública Contabilidade Pública Gerencial Propósito Demonstrar a execução orçamentária,
financeira e patrimonial ocorrida com o ente público no desenvolvimento de suas atividades perante seus usuários externos: a sociedade.
Demonstrar os reflexos das decisões internas tomadas pelos gestores públicos diante das metas e resultados especificados, envolvendo, além, dos aspectos financeiros, informações relativas ao desempenho financeiro e operacional da entidade, bem como, o retorno sobre as decisões anteriormente tomadas.
Usuário das
informações Externo: Legislativo, Tribunais de Contas, sociedade e demais órgãos de controle externo.
Interno: gestores públicos, funcionários e demais agentes internos.
Tipo de
Informações Atrelada a execução orçamentária, caráter
orçamentário, financeiro e patrimonial. Mensuração física e financeira das metas e resultados alcançados pela organização pública.
Características
das Informações Objetiva, confiável, auditável, consistente. Mais subjetiva e sujeita a juízo de valor, válida, relevante e tempestiva.
Escopo Agregada, demonstra as informações da
entidade como um todo. Desagregada, informa as decisões e ações por unidades e/ou órgãos.
Restrições Regulamentada: dirigida por regras, como a Lei 4320/64, e segue os princípios fundamentais da contabilidade e demais normas vigentes, grande interferência da Legislação.
Desregulamentada: sistemas e informações determinadas pela administração para satisfazer suas necessidades estratégicas e operacionais. Atrelada aos resultados orçados.
Enfoque da Informação no Tempo
Histórica, atrasadas (informações passadas). Atualizada, tempestiva e orientada para decisões futuras.
Prazos de geração da informação
Segue o estabelecido na legislação vigente e nas normas editadas pelos órgãos fiscalizadores externos, segue uma periodicidade.
Não segue um padrão pré-estabelecido, depende das necessidades dos usuários, não está atrelada a periodicidade.
Relatórios
gerados Sintéticos, visam resumir os resultados da execução orçamentária e seus reflexos no patrimônio da entidade, segue uma normatização para sua apresentação.
Detalhados, preocupam-se com partes da entidade, serviços ofertados, resultados e metas por eles atingidos, não são padronizados.
QUADRO 4 – CONTABILIDADE PÚBLICA VERSUS CONTABILIDADE PÚBLICA GERENCIAL FONTE: O autor (2008)
No entendimento de Reis, Slomski e Ribeiro (2005) a aplicação gerencial nas administrações públicas seria o processo pelo qual os gestores da coisa pública passariam a se preocupar não só com a aplicação dos recursos de forma correta, sob o aspecto legal, mas também sob a ótica da eficácia e da eficiência na aplicação dos recursos públicos.
A adoção de aspectos gerenciais na administração pública representa a mudança nos métodos de controle, eliminando o controle a posteriori e punitivo para uma abordagem preventiva e orientadora, mediante a análise sistemática e permanente dos programas de governo (SILVA, 2004, p. 216).
A contabilidade pública deve assegurar que a informação seja completa, objetiva, confiável, cumprindo o que determina a legislação, inclusive quanto a sua divulgação. E a contabilidade pública gerencial utiliza-se de várias técnicas que permitam a geração de informações relevantes, tempestivas que atendam as necessidades dos gestores públicos e os auxiliem no processo decisório, objetivando a eficiência e a eficácia das ações públicas e, conseqüentemente, que os resultados esperados sejam atingidos. Contribuindo, dessa forma, para a o fortalecimento da Administração Pública Gerencial.