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Contadores com trempe (par) Cabinets on a stand (pair)

Índia, Goa

Século XVII (meados)

Teca, ébano e marfim; ferragens de cobre dourado 126,3 x 82,5 x 48,5 cm;

125,6 x 82 x 46,5 cm

India, Goa Mid-17th century

Teak, ebony and ivory; gilded copper fittings 126.3 x 82.5 x 48.5 cm;

125.6 x 82 x 46.5 cm

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uma longa história de fabrico que se estende até o século XVIII, espelha o alto nível da marcenaria produzida então em Goa.

Exemplos desta produção goesa, que pode ser datada com mais precisão, sobrevivem na forma de arcazes e outros móveis de sacristia que ainda hoje se encontram na Sé Catedral de Santa Catarina em Goa, na Casa Professa do Bom Jesus, e noutras sacristias das igrejas de Goa, e também no mobiliário de algumas casas patrícias e aristocráticas tradicionais de Goa. Alguns destes móveis de igreja, aí construídos de propósito, são muito grandes, indicando uma produção local, na região de Goa.3 As principais características desta produção são: construção em teca; faixeados e embutidos de ébano e, mais raramente, em sissó;

decoração de enrolamentos vegetalistas, por vezes com animais e pás-saros estilizados, ou de natureza puramente geométrica, com padrões complexos de círculos secantes (como o exemplo presente), ou padrões mais simples de losangos, triângulos e quadrados. Sobre a rica decoração de embutidos, as ferragens de cobre dourado, recortadas e vazadas – co-nhecida localmente por “obra de Santa Mónica”, aludindo ao convento do mesmo nome em Goa – mais sublinham o carácter exuberante desta produção.

Embora semelhantes contadores com trempe, isolados, desta produção sobrevivam em diversas colecções públicas e privadas na Eu-ropa, é difícil encontrar pares como o presente.4 Um contador com trempe semelhante, isolado, embora de maiores dimensões (150 x 140 x 69 cm), faixeado não a ébano como os presentes exemplares mas a sissó, e com as figuras entalhadas, que servem de pernas, na forma de atlantes de estilo europeu, pertence ao Victoria and Albert Museum, Londres (inv. 777-1865).5

3 Veja-se Amin Jaffer, Luxury Goods from India. The Art of the Cabinet-Maker, London, V&A Publications, 2002, pp. 56-57, cat. 21.

4 Para um exemplar semelhante, veja-se Pedro Dias, Mobiliário [...], pp. 273-274.

5 Veja-se Amin Jaffer, Luxury [...], pp. 58-59, cat. 22.

eighteenth century, summarises the high level of cabinetmaking in Goa.

Examples of this Goan production, which can be more accurate-ly dated, survive in the form of sacristy cabinets and chests of drawers found in the Se Cathedral of Goa (Sé Catedral de Santa Catarina), the Basilica of Bom Jesus (Casa Professa do Bom Jesus) and in other sacristies of Goan churches, and also in the furnishings of some traditional Goan patrician and aristocratic houses. Some of this purpose-built church furniture is very large in size, indicating a local production, within the region of Goa.3 The main features of this production are as follow: con-struction in teak; veneered and inlaid in ebony and occasionally in East Indian rosewood; featuring a decoration either of vegetal scrolls, some-times with stylised animals and birds, or geometric in nature, such as complex diaper patterns of interlocking circles (like the present exam-ple), or more simple patterns of lozenges, triangles and squares. Over the rich marquetry decoration, finely crafted pierced openwork gilded copper fittings – known locally as “Santa Monica work”, alluding to the homonymous Goan convent – add to the opulence of this production.

Although similar single cabinets on stand of this production sur-vive in a number of private and public collections in Europe, matching pairs are harder to find.4 A similar, albeit larger single cabinet on a stand (150 x 140 x 69 cm), veneered in East Indian rosewood rather than in ebony like the present example, and with the sculpted supporting figures that make up the legs in the form of European-style atlantes, belongs to the Victoria and Albert Museum, London (inv. 777-1865).5

3 See Amin Jaffer, Luxury Goods from India. The Art of the Cabinet-Maker, London, V&A Publications, 2002, pp. 56-57, cat. 21.

4 For a similar example, see Pedro Dias, Mobiliário [...], pp. 273-274.

5 See Amin Jaffer, Luxury [...], pp. 58-59, cat. 22.

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Esta rara pedra de Goa sobreviveu com a sua caixa e trempe originais. A caixa quase esférica que envolve a pedra consiste em duas calotes hemisféricas forjadas a partir de chapa de prata, depois dourada, que servem de forro interior, cada uma coberta por calotes hemisféricas ligeiramente maiores. Estas, em prata vazada e cortada a cinzel, são re-puxadas e cinzeladas. O forro e as calotes hemisféricas vazadas unem-se por rebite ao centro. A caixa esférica fecha sob pressão; o rebordo da metade um pouco menor desliza dentro da maior, cujo rebordo é emol-durado por um largo fio de prata de meia-cana. A decoração vazada consiste num padrão em espiral de enrolamentos vegetalistas irradiando de uma roseta central e um friso estreito de enrolamentos vegetalistas ondulados junto ao rebordo. A trempe, com vestígios de douramento original a azougue, consiste num aro circular moldurado, onde repousa a caixa esférica, e os três pés ondulados em chaveta produzidos por fundição. A complexidade do padrão em treliça é de alguma forma se-melhante à sofisticada decoração vazada de tipo j li do cofre-relicário de São Francisco Xavier, e que tem as suas origens nas complexas de-corações islâmicas que encontramos entre as refinadas artes de corte dos sultanatos do Decão, tradições artísticas que abrangem uma área geográfica que inclui também Goa. Este famoso cofre, hoje no Museu de São Roque em Lisboa (inv. OR 392) e datado de 1686-1690, foi encomendado pelo governador do Estado Português da Índia, Rodrigo da Costa († 1690).1 Pedras de Goa (ou lapis de Goa em latim) ou pedras cordiais eram um produto medicinal com origem na botica jesuítica do Colégio de São Paulo em Goa; uma criação de meados do século XVII de Gaspar António, irmão leigo de origem florentina, como substituto para as raras e valiosas pedras bezoar – secreções estomacais de nature-za orgânica e mineral não digeridas pela cabra bezoar (cat. 6) – que chegavam a Goa via Ormuz que, à época, se haviam tornado mais difí-ceis de obter a preços razoáveis.2 Por mandado régio, as pedras de Goa tornaram-se monopólio dos jesuítas a 6 de Março de 1691. De fabrico humano e produzidas em grandes quantidades pelos jesuítas em Goa, o produto da sua venda ascenderia anualmente a cinquenta mil xerafins, um valor astronómico de quinze milhões de reais. Com base na maioria das receitas que sobreviveram, estas pedras de Goa, quase esféricas ou em forma de ovo e cobertas a folha de ouro, seriam feitas de almíscar

1 Hugo Miguel Crespo, Jóias da Carreira da Índia (cat.), Lisboa, Fundação do Oriente, 2014, pp. 139-143, cat. 124.

2 Veja-se Christopher John Duffin, “Lapis de Goa: the «Cordial Stone»”, Pharmaceutical Historian, 40.2, 2010, pp. 22-32; e John Duffin, “Lapis de Goa: the «Cordial Stone» – Part Two”, Pharmaceutical Historian, 40.3, 2010, pp. 43-46.

This rare Goa stone has survived with its original case and stand.

The almost spherical container enclosing the stone consists of hemi-spherical halves raised from gilded silver sheet, which act as an interior lining, each covered by slightly larger hemispherical halves. These, in pierced openwork silver, obtained by chisel-cutting, are decorated in repoussé and chased. The lining and pierced openwork hemispherical halves are held together with one rivet each in the centre. The spherical case closes by pressure; the edge of the slightly smaller half, sliding into the larger one, the edge of which is encircled by a wide half-round silver wire. The openwork decoration consists of a swirling pattern of vegetal scrolls radiating from a central rosette, and a narrow frieze of un-dulating vegetal scrolls near the edges. The tripod stand, with traces of its original fire gilding, comprises a circular moulded circlet, where the spherical container rests, and the three silver cast bracket-shaped curling supports. The complexity in design, a trellis or lacework, is somewhat similar to the sophistication of the j li-type trellis decoration of the reliquary-casket of Saint Francis Xavier, which finds its origins in the complex Islamic decorations that we find among the refined courtly arts of the Deccan Sultanates, and artistic traditions spanning a geo-graphic area also including Goa. This famous casket, now in the Museu de São Roque, Lisbon (inv. OR 392) and dated to around 1686-1690, was commissioned by the Governor of the Portuguese State of India, Rodrigo da Costa (†1690).1 Goa stones (pedras de Goa in Portuguese, and lapis de Goa in Latin) or cordial stones, were a medicinal prod-uct which originated in the Jesuit’s apothecary (botica) of Saint Paul’s College in Goa (Colégio de São Paulo); a mid-seventeenth century creation of Gaspar António, a lay brother of Florentine origin.2 It was created as a substitute for rare and valuable bezoar stones – stomach secretions of an organic and mineral nature not digested by the bezoar goat (cat. 6) – which reached Goa via Hormuz and had at the time become more difficult to obtain at reasonable prices. By royal mandate, Goa stones became a Jesuit monopoly on 6th March 1691. Man made in large quantities by the Jesuits in Goa, its sale would amount annually to fifty thousand xerafins, an astronomical fifteen million reais. Accord-ing to most of the recipes that have survived, these Goa stones, which are almost spherical or egg-shaped and covered with gold leaf, would

1 Hugo Miguel Crespo, Jóias da Carreira da Índia (cat.), Lisboa, Fundação do Oriente, 2014, pp. 139-143, cat. 124.

2 See Christopher John Duffin, “Lapis de Goa: the «Cordial Stone»”, Pharmaceutical Historian, 40.2, 2010, pp. 22-32; and John Duffin, “Lapis de Goa: the «Cordial Stone» – Part Two”, Pharmaceutical Historian, 40.3, 2010, pp. 43-46.