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O CONTATO DE CRIANÇAS BRASILEIRAS COM OS DIREITOS HUMANOS

No Brasil, na última quinzena de setembro de 2019, demos início a aplicação dos jogos na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) João da Maia Braga, localizada no bairro Passo das Tropas – Distrito de Pains, cidade de Santa Maria. A escola existe há 69 anos, atendendo atualmente 362 alunos do Maternal 1 e 2 (com

crianças de 2 e 3 anos), Pré-Escola (crianças de 4 e 5 anos), o Ensino Fundamental completo (do 1ª ao 9ª ano, com crianças entre 6 e 14 anos), sendo todos em turno diurno e o Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Ensino Fundamental (do 6º ao 9º ano) à noite.

Da verba de R$ 1.900 recebidos mensalmente de órgão federal, a escola fornece uma merenda por turno e também almoço para o maternal, cujas crianças permanecem o dia todo na escola. Pela verba baixa, uma média de 13 centavos por criança, a escola intercala essa merenda entre lanches como bolachas, leite ou suco e refeições de sal mais completas como arroz e feijão. Para a manutenção geral da escola, a compra de material de limpeza e expediente com gastos fixos, entre outros gastos, o município envia R$ 2 mil por mês para a escola decidir junto com o Círculo de Pais e Mestres (CPM) e o Conselho Escolar como será gasto esse valor.

Embora não possua transporte da prefeitura, alguns alunos recebem mensalmente passagem da Associação dos Transportadores Urbanos de Passageiros de Santa Maria (ATU), sendo muitas vezes o único meio desses alunos chegarem até a escola. Devido a isto, as crianças não contempladas pela prefeitura com este cartão, muitas vezes, ficam impossibilitadas de ir para a aula. Outras crianças residem no distrito do Passo do Verde, localizado no sul do município de Santa Maria, e nesse caso recebem o auxílio transporte da Transton Transportes LTDA – Transporte Interurbano e Interestadual. Além do distrito do Passo do Verde, a escola possui alunos do Bairro Passo das Tropas, Passo da Capivara e Pau a Pique, todos pertencentes ao Distrito de Pains.

O projeto foi aplicado em uma turma de 4ª série, com crianças de 9 a 11 anos, e uma turma de 5ª série, com crianças de 10 a 12 anos, sendo 2 encontros semanais, quinta e sexta-feira, com duração de 1h30min a 2h por encontro. Dedicamos os dois primeiros encontros em ambas as turmas para a realização dos jogos.

Pelo fato que a oferta da instituição em que o projeto foi aplicado em Maputo ser de atividades extracurriculares, sendo organizada em turmas de duas ou mais classes, já a EMEF João da Maia Braga segue a base curricular brasileira do ensino fundamental/básico, em que uma série, da 1ª a 9ª série, é organizada em cada uma ou mais turmas, optamos trabalhar em Santa Maria com a 4ª e a 5ª série. A escolha ocorreu principalmente por acreditarmos que a compreensão dada por essas crianças

a respeito das palavras seria mais rica de significados por possivelmente adquirirem maior conhecimento de mundo.

No caso da turma de 5ª série, eles já estavam tendo contato com os Direitos Humanos através de textos que a professora passava no quadro e eles copiavam no caderno e depois discutiam em aula sobre. Ao perguntarmos o que já haviam visto a respeito, apenas um soube dizer que se tratava do cuidado que devemos ter com o outro colega e a natureza, tendo o restante da turma concordado.

Abordamos, nas duas turmas, que os Direitos Humanos constituem os direitos que asseguram aos seres humanos ter uma vida digna e, para além disto, protegem- nos dos males. Explicamos que são os direitos que garantem que toda criança frequente a escola para que assim tenham a oportunidade de adquirir conhecimento. Então, dialogamos que aprenderiam sobre os Direitos Humanos através de dois jogos, em seguida, explicamos como funcionariam e partimos para o pátio.

QUADRO 3 – Aplicação dos jogos 1 e 2 sobre Direitos Humanos no João Da Maia Braga JOGO 1: ATRIBUTOS / CARACTERÍSTICAS

APLICAÇÃO ENSINAMENTO/ RELAÇÃO DO ARTIGO

COMO: Forma-se um círculo de cadeiras com uma a

menos ao número de crianças presentes, pois esta deve ficar no meio da roda. A criança que ocupar o centro deve dizer uma característica sua (olhos castanhos, cabelo preto), então as crianças com essa característica vão para o centro da roda junto com seu colega. A (O) responsável pelo desenvolvimento da atividade deve contar até 3 e as crianças que estão nesse círculo ocupam outra cadeira diferente da que estavam sentadas. Assim terá sempre uma cadeira a menos e sobrará uma criança para continuar a brincadeira.

ONDE: Em um pátio ou outro tipo de espaço aberto.

DURAÇÃO: Cerca de 20 a 30 minutos.

ENSINAMENTO DA BRINCADEIRA: Já em sala de

aula, perguntamos se sabiam dizer como a brincadeira se associava aos direitos humanos, em ambas as turmas, ninguém se manifestou. Perguntamos então se notaram que nem todos colegas foram para o meio, quando um colega da 4ª série disse “cabelo preto” ou quando na 5ª série falaram “pessoas altas”, eles responderam que sim. Então, explicamos que isso aconteceu devido às diferenças que possuímos e como seres humanos temos que respeitar a diversidade tanto do colega quanto a nossa própria. E sendo todos seres humanos nos tornamos iguais e livres.

ARTIGO DA DUDH: Artigo 1. Todos os seres

humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

OBSERVAÇÕES DA MEDIADORA: A 4ª série teve

mais dificuldades em definir características físicas, escolhendo mais roupas. Outra ação interessante desta turma foi que uma criança enquanto pensava na palavra começou a cuidar qual roupa outras colegas estavam usando. Esta ação foi repetida pelas outras,

principalmente, pelas meninas que pareciam querer que as outras fossem para o círculo também.

Uma característica interessante citada nessa turma foi o “pessoa morena”. Neste momento, observamos quem se identificava como ‘moreno’ ao ir de forma espontânea para o círculo. Tem um aluno negro de pele retinta, principalmente em relação ao demais colegas, que permaneceu sentado, nem se quer fez menção a se levantar, mas os colegas começaram a chamar ele e questionar o motivo dele não ir, ele só soube dizer que não era moreno. Então, intervimos explicando que o colega e, inclusive a mediadora, somos negros. Abordamos que moreno seria uma pessoa com a pele mais clara, mas que era diferente do bronzeado, já que um aluno branco havia entrado na roda e quando questionado explicou que se ele pegasse sol ficaria bronzeado/moreno. As crianças prontamente compreenderam e seguiram com a brincadeira.

As crianças da 5ª série citaram mais características físicas, usando principalmente as cores e comprimento do cabelo. No momento da explicação em sala de aula, eles comentaram de uma colega que “tem problemas”, definição deles, que demorava a entender as coisas e isso tornava ela diferente deles. No momento, explicamos que era exatamente isso: ela tinha o tempo dela de aprender, logo precisava ser tratada com algumas diferenças para entender a matéria, mas ainda era criança e precisava estudar igual todos eles. Mais tarde, viemos a saber pela professora que a menina é autista, mas que no momento estava de licença médica e não participaria do projeto.

JOGO 2: VIVO OU MORTO

APLICAÇÃO ENSINAMENTO/ RELAÇÃO DO ARTIGO

COMO: Organiza-se as crianças com uma certa

distância uma da outra para que possam se movimentar. Não há disposição certa (círculo, quadrado etc.) pode ser na configuração que ficar melhor para observar as crianças participantes, ou seja, cuidar se todas estão realizando os movimentos certos. Quando dissermos “morto” (ou baixo), todos precisam ficar de cócoras e no “vivo” (cima), todos precisam ficar de pé. Está fora do jogo quem realizar o oposto do movimento estipulado na fala.

ONDE: Em um pátio ou outro tipo de espaço aberto.

ENSINAMENTO DA BRINCADEIRA: Explicamos que

esta brincadeira, assim como a das características e a atividade do desenho, representava o direito delas ao lazer, ou seja, de fazerem e terem esses jogos, como de igual forma a participação em atividades culturais e artísticas, como a sessão de filmes que eles têm na escola e uma palestra com os bombeiros que tiveram a pouco ou até os passeios que eles realizavam. Falamos que esse direito vale tanto dentro quanto fora da escola, representado na possibilidade de eles poderem brincar na rua ou sair pra passearem com os seus familiares.

OBSERVAÇÕES DA MEDIADORA: As duas turmas

QUANTO TEMPO: Até que haja somente uma criança

por rodada. As rodadas podem serem repetidas quantas vezes quiserem.

os alunos da 4ª série tenham pedido antes que acabasse, pois estavam cansando as pernas. Na 5ª foi observado a preocupação maior dos alunos em cuidar se os colegas faziam o movimento certo, isso fez com que muitos errassem seus próprios passos.

Fonte: Elaborado pela pesquisadora Alves, 2019.

Optamos pela não aplicação do terceiro jogo por dois motivos: primeiro que o início da aplicação teve um atraso, por causa dos feriados e atividades extras que as turmas tiveram em setembro. Como segundo motivo, para seguir o cronograma que estipulamos, analisamos que a não aplicação do terceiro jogo não prejudicava a finalidade de aprendizagem das crianças, já que seguia a aprendizagem do mesmo direito já abordado no segundo jogo.

Ao final da aplicação dos jogos, já em sala, relembramos os Direitos Humanos envolvidos em cada um e aproveitamos para contextualizar a realidade deles à respeito de quais momentos estes direitos estão sendo assegurados, assim exemplificamos com: o fato de irem a escola, mesmo que entendam como uma obrigação; assim como o fato de os pais não precisarem pagar para que eles frequentem a escola; os materiais como a classe, cadeira e os livros que ganham; atividades desenvolvidas através deste projeto ou então a apresentação de um grupo teatral que eles recebem na escola; alguns exemplos, sendo inclusive, levantados ou questionados por eles. Este diálogo oportunizou ampliar o entendimento deles a respeito dos Direitos. Além disto, para que percebam que o aprendizado pode estar associado também a momentos de diversão, significou demonstrar na prática que não é somente em sala de aula que o conhecimento é adquirido, podendo estar ligado a outras ferramentas de ensino/aprendizagem.