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Conteúdo mínimo da declaração do profissional

No documento OSC ONTRATOS DEC ONSUMO (páginas 130-134)

3. F ORMAÇÃO DE CONTRATOS DE CONSUMO EM ESPECIAL

3.1. Análise do regime por referência às práticas comerciais

3.1.1. Contratos celebrados à distância

3.1.1.2. Deveres pré-contratuais

3.1.1.2.1. Conteúdo mínimo da declaração do profissional

O n.º 1 do artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 143/2001 estabelece que o fornecedor deve colocar à disposição do consumidor361, antes da celebração do contrato, elementos relativos à “identidade do fornecedor e, no caso de contratos que exijam pagamento adiantado, [ao] respectivo endereço”, às “características essenciais do bem ou do serviço”, ao “preço do bem ou do serviço, incluindo taxas e impostos”, às “despesas de entrega, caso existam”, às “modalidades de pagamento, entrega ou execução”, à “existência do direito de resolução do contrato […]”, ao “custo da utilização da técnica de comunicação a distância, quando calculado com base numa tarifa que não seja a de base”, ao “prazo de validade da oferta ou proposta contratual” e à “duração mínima do contrato, sempre que necessário, em caso de contratos de fornecimento de bens ou prestação de serviços de execução continuada ou periódica”.

361 Não se trata de um dever do consumidor, como se poderia inferir da expressão utilizada na lei (“o consumidor deve dispor […]”), mas de um dever do profissional.

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É importante salientar que estes elementos constituem parte ou a totalidade da declaração negocial do fornecedor, devendo constar desta, pelo menos, os elementos referidos. O contrato que vier a ser celebrado incluirá, obrigatoriamente, estas cláusulas. A identidade e o endereço do fornecedor são os únicos elementos de entre aqueles que estão previstos no artigo 4.º que não têm relevância directa como cláusulas integrantes da declaração negocial do fornecedor, constituindo puros dados informativos.

Justifica-se uma referência específica à alínea h) do n.º 1 deste artigo, que estabelece que o profissional deve indicar o “prazo de validade da oferta ou proposta contratual”. Perante uma norma na Directiva que refere o prazo de validade da

oferta362, palavra que não tem no léxico jurídico português um significado unívoco, a lei portuguesa resolveu inovar, embora mantendo o pouco rigor do texto comunitário. Em primeiro lugar, quer o diploma comunitário quer a lei portuguesa parecem consagrar como único modelo admissível para a celebração de contratos à distância a aceitação de proposta. Este é o modelo claramente mais utilizado na contratação, com consumidores, à distância, mas não será, em princípio, o único admissível (veja-se, por exemplo, a possibilidade de o contrato se formar na sequência de diálogo concentrado num período de tempo, através de telefone ou de um programa de discussão na Internet). Em segundo lugar, coloca-se a questão central suscitada por esta alínea, que consiste em saber a que se refere a palavra oferta, sendo útil para a sua resolução estabelecer qual o significado de “oferta ou proposta contratual”. A conjunção ou 363 significa uma contraposição entre as duas palavras, tendo a lei pretendido adicionar à palavra oferta, que constava da Directiva, a palavra proposta, aumentando, assim, o nível de protecção conferido? Ou trata-se de uma clarificação, assumindo a lei que a mesma realidade pode ser traduzida, quer pela palavra oferta, quer pela palavra

proposta, não havendo, neste caso, qualquer diferença em relação à Directiva? Entende-se que a última interpretação sugerida é a que melhor se enquadra com uma análise sistemática do diploma. Com efeito, se oferta tiver um significado diferente do

362 O artigo 4.º, n.º 1, alínea h), da versão portuguesa da Directiva refere-se ao “prazo de validade da oferta ou do preço”.

363 Note-se que, apesar de os termos não serem os mesmos, mantém-se a conjunção ou da Directiva, substituída, no direito francês, por e.

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de proposta, será, em princípio, uma referência a convite a contratar364. Ora, os convites a contratar não têm um prazo de validade – pelo menos, juridicamente relevante –, uma vez que não se forma um contrato com a simples aceitação, podendo ser recusada, pelo emitente do convite, a proposta apresentada, a posteriori, pelo seu destinatário, quer esta seja ou não apresentada dentro do prazo. Aliás, se fosse este o sentido da lei, a referência a convite a contratar, em vez de oferta, que suscita alguns problemas de interpretação no direito português, seria mais adequada. Por outro lado, o artigo 4.º da Directiva parece estar concebido no sentido de considerar como uma proposta o fornecimento ao consumidor dos elementos aí previstos. O ou tem o objectivo de não retirar da norma portuguesa a palavra-chave da norma comunitária (oferta), que é, no entanto, clarificada pela palavra proposta, que surge depois da conjunção, não em oposição à palavra anterior, mas em sinonímia com esta. Assim, entendemos que esta alínea obriga o profissional a indicar o prazo de validade da proposta contratual, sendo que todos os elementos constantes das restantes alíneas a integram. Desta análise resulta uma vez mais que a informação pré-contratual que deve ser prestada ao consumidor tem uma relevância contratual directa, constituindo mesmo a declaração contratual (proposta) emitida pelo fornecedor. A informação pré- contratual a que se refere a norma confunde-se, assim, com o conteúdo mínimo da declaração do profissional, que constitui uma proposta contratual365.

Sobre esta questão, é importante referir o direito francês, uma vez que, apesar de a expressão não constar das disposições do Code Civil que tratam da formação de contratos em geral, a offre é uma declaração de uma pessoa, na qual esta dá a entender a sua intenção de contratar em determinadas condições, bastando a aceitação dessas condições para a formação do contrato366. Offre pode assim ser traduzida para português, em termos jurídicos, pelo termo proposta. Ora, a versão francesa da Directiva refere-se a “durée de validité de l’offre ou du prix”. O artigo L. 121-18, n.º 5, do Code de la consommation impõe que a proposta contratual contenha a indicação do seu próprio prazo de validade e do prazo de validade do preço nela inserido. O

364 CARLOS FERREIRA DE ALMEIDA, Contratos, Vol. I, cit., p. 119, refere que, “com alguma imprecisão, usa-se por vezes a palavra “oferta” para designar tanto a proposta como o convite a contratar”.

365 Para mais argumentos neste sentido, v. infra 3.1.1.3.2.

366 Cfr. JACQUES GHESTIN, La Formation du Contrat, cit., p. 260, e THIBAULT VERBIEST, La Protection

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diploma francês substituiu a conjunção ou pela conjunção et (e), o que parece mais adequado, nomeadamente por assim não permitir que o profissional apenas refira o prazo de validade do preço, omitindo o da proposta contratual, como resultava possível do texto da Directiva. De qualquer forma, a referência ao preço parece desnecessária, uma vez que este é um dos elementos que deve constar obrigatoriamente, nos termos de outra alínea da Directiva e de outro artigo do diploma francês, da proposta, não podendo ser omitido em relação a qualquer contrato. Ora, sendo assim, o elemento preço integra a proposta, não tendo autonomia em relação a ela, pelo que o prazo de validade do preço será o da proposta, a não ser que exista uma variação do preço no tempo, mas, neste caso, para além de se poder considerar que não se trata da mesma proposta, este elemento tem de ser fornecido ao abrigo das normas que impõem a indicação do preço.

No direito italiano, o termo proposta tem o mesmo sentido do que no direito português: é o que resulta do artigo 1326, primeiro parágrafo, do Codice Civile, que estabelece que “o contrato está celebrado no momento em que a parte que emitiu a proposta tem conhecimento da aceitação”367. No entanto, tanto a Directiva como o diploma de transposição368 referem offerta e não proposta.

Já no direito espanhol, é o próprio artigo 1262.º do Código Civil que estabelece que o consentimento se manifesta pela existência de uma oferta e de uma aceptación. A oferta é uma declaração negocial que deve conter todos os elementos necessários para a existência, posterior, de um contrato369, supondo uma proposta definitiva, no sentido de que manifesta a intenção de se obrigar na sequência da aceitação pela outra parte370. Logo, tal como no direito francês, no direito espanhol a palavra oferta tem o sentido que normalmente é dado no direito português à palavra proposta.

367 Cfr., sobre os requisitos da proposta, AAVV, Il Contratto in Generale, Vol. II, G. Giappichelli Editore, Torino, 2000, pp. 57 a 59, e M. GRONDONA, “La Conclusione del Contratto”, in I Contratti in

Generale, Vol. III, UTET, Torino, 2000, pp. 3-29, pp. 4 a 7. 368 Decreto legislativo 22 maggio 1999, n.º 185.

369 Cfr. LUIS DÍEZ-PICAZO E ANTONIO GULLÓN, Sistema de Derecho Civil, Vol. II, 9.ª edição, Editorial Tecnos, Madrid, 2002, p. 65.

370 Cfr. MANUEL ALBALADEJO, Derecho Civil – II – Derecho de Obligaciones, Vol. I, 10.ª edição, José Maria Bosch Editor, Barcelona, 1997, p. 384.

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