3. F ORMAÇÃO DE CONTRATOS DE CONSUMO EM ESPECIAL
3.1. Análise do regime por referência às práticas comerciais
3.1.2. Contratos celebrados no domicílio ou a estes equiparados
3.1.2.5. Contratos celebrados em local indicado pelo profissional
A alínea d) do n.º 2 do artigo 13.º equipara aos contratos celebrados no domicílio os “celebrados no local indicado pelo fornecedor, ao qual o consumidor se desloque, por sua conta e risco, na sequência de uma comunicação comercial feita pelo fornecedor ou pelos seus representantes”. Esta situação não se encontra abrangida pela Directiva 85/577/CE, pelo que se trata de uma novidade da lei portuguesa.
De entre as várias modalidades de celebração de contratos previstas no artigo 13.º, esta é porventura, a par dos contratos celebrados no domicílio469, a que mais problemas coloca actualmente no que diz respeito à protecção dos consumidores.
469 Após uma significativa diminuição, o número de contratos celebrados no domicílio voltou a aumentar bastante desde o início do século, em grande parte devido ao incremento da concorrência no sector das comunicações electrónicas, sendo que o domicílio constitui um local privilegiado para a comercialização dos serviços de telefone, Internet e televisão por cabo.
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Trata-se de uma prática muito comum: o consumidor é contactado telefonicamente pelo representante de uma empresa, sendo informado de que foi premiado, por exemplo, com uma viagem ou com um electrodoméstico, bastando que se desloque a um determinado local para receber o prémio; aí, o consumidor tem de assistir a uma apresentação de um bem ou de um serviço e é confrontado com uma técnica de comercialização muito agressiva e eficaz, que o leva à celebração de um ou mais contratos470. Igualmente usual é a prática que consiste em interceptar uma pessoa na via pública e convidá-la a entrar num estabelecimento comercial, sendo então confrontada com a técnica de comercialização agressiva.
Para a aplicação do regime aos contratos previstos nesta alínea é necessário, desde logo, que a relação que existe entre as partes possa ser qualificada como relação de consumo, que o contrato não tenha por objecto os bens ou os serviços referidos no artigo 14.º e que a iniciativa do contacto não tenha partido do consumidor (pressupostos do n.º 1, que se aplicam neste âmbito).
Acrescem aos pressupostos referidos, aqueles que constam da própria alínea d): o contrato deve ser celebrado no local indicado pelo fornecedor; o consumidor deve deslocar-se a esse local por sua conta e risco; e, aquela deslocação específica tem de ser promovida pelo fornecedor, no âmbito de uma comunicação comercial.
Em relação ao primeiro aspecto, note-se que esta norma não restringe a aplicação do regime aos contratos celebrados fora do estabelecimento comercial do
470 É esta a situação tratada no Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra, de 18 de Maio de 2010, Processo n.º 3472/08.1TBVIS-A.C1 (Isaías Pádua): “o contrato pelo qual um cidadão adquire, a uma sociedade que promove a sua comercialização, um cartão que permite o acesso, com descontos, a determinados bens e serviços – na sequência de um telefonema feito por colaborador daquela que o convida a deslocar-se a um hotel a fim de aí receber determinado prémio com que alegadamente havia sido contemplado -, deve ser equiparado, na sua disciplina jurídica, aos contratos de venda ao domicílio”. Para uma descrição de uma situação real, cfr. MÁRIO FROTA, “Direito de Arrependimento – Parecer”, in RPDC, n.º 24, 2000, pp. 78-86. Na Sentença do Julgado de Paz de Lisboa, de 28 de Março de 2008, Processo n.º 687/2007 (Maria de Ascensão Arriaga), pode encontrar-se um resumo de algumas situações comuns no que respeita a esta categoria de contratos: “em regra, são iguais as situações em que os interessados/consumidores sustentam perante o tribunal a sua pretensão à anulação ou declaração de nulidade dos contratos: sujeição a grande pressão e em reuniões muito longas pelos vendedores; deslocações imediatas a casa dos entrevistados, possíveis contratantes, com pedido e reprodução (fotocópia) imediata de documentos destes; muitas facilidades na prestação dos serviços; muitos benefícios; possibilidade de denúncia do contrato em caso de insatisfação sem explicar o prazo para o efeito ou confundindo-o com o prazo de garantia dos bens; insuficiência, e mesmo ausência, de informação sobre o contrato de crédito; falta de identificação da entidade financeira e dos custos do empréstimo; pedido de várias assinaturas sem que os contratantes possam perceber bem o que assinam, como sucede com as livranças em branco”.
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fornecedor. Pelo contrário, os contratos celebrados no estabelecimento comercial do fornecedor encontram-se abrangidos pela norma e constituem um dos casos mais comuns de aplicação do regime. Por esta razão, e ao contrário do que sucede na Directiva, o capítulo não tem como título os contratos celebrados fora do estabelecimento. Este título poderia criar no intérprete dúvidas sobre a inclusão dos contratos previstos nesta alínea d) e celebrados no estabelecimento no regime de protecção consagrado, dúvidas que, assim, com um título mais genérico (“Contratos ao domicílio e outros equiparados”), não devem existir. Assim, não é relevante o local, apenas a circunstância de este ser indicado pelo fornecedor. Não obsta à aplicação do regime a circunstância de o fornecedor, no contacto que estabelece com o consumidor, indicar vários locais, podendo este escolher livremente a qual deles se desloca. Neste caso, o local não deixa de ser indicado pelo fornecedor.
A exigência de que o consumidor se desloque ao local indicado pelo fornecedor por sua conta e risco deve ser interpretada restritivamente, tendo em conta a finalidade da norma. Com efeito, o objectivo consiste em proteger o consumidor nos casos em que é contactado por um fornecedor para se deslocar a um determinado local, onde vai ser confrontado com uma técnica de comercialização de bens, não tendo qualquer relevância, no espírito deste preceito, a forma como o consumidor chega ao local indicado. Aliás, o método utilizado ainda é mais agressivo, justificando-se especialmente a protecção, se o fornecedor, em vez de apenas sugerir ao consumidor que se desloque ao local em causa, o acompanhar pessoalmente, recolhendo-o no sítio onde este se encontre. Assim, “por sua conta e risco” deve ser interpretado restritivamente, no sentido de deslocação voluntária ao local indicado pelo fornecedor.
A deslocação deve ainda ser promovida pelo fornecedor, na sequência de uma comunicação comercial. A expressão “comunicação comercial” não tem neste preceito o sentido genérico de publicidade. Para a aplicação do regime, não basta, assim, um convite genérico para que os consumidores em geral se desloquem a um determinado local. É necessário que o contacto entre fornecedor e consumidor seja directo, no sentido que este seja especificamente convidado a deslocar-se ao local onde vai ser celebrado o contrato. O contacto pode ser estabelecido directamente, no domicílio, no local de trabalho ou na via pública, ou à distância, através de contacto telefónico, de carta, de e-mail ou de uma mensagem escrita.
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Note-se que, no caso de o convite ser feito à distância, o que acontece num número significativo de situações em que a previsão desta alínea se verifica, estamos perante uma modalidade curiosa de contratos, em que o primeiro contacto entre as partes é feito à distância e os contratos são equiparados a contratos celebrados no domicílio.
Apesar de o contrato não ser celebrado à distância, nestes casos deve aplicar-se o n.º 3 do artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 143/2001, que estabelece que “caso a comunicação seja operada por via telefónica, a identidade do fornecedor e o objectivo comercial da chamada devem ser explicitamente definidos no início de qualquer contacto com o consumidor”. Aplica-se igualmente a alínea c) do n.º 1 do artigo 9.º do Decreto-Lei n.º 57/2008, de 26 de Março, diploma que estabelece o regime das práticas comerciais desleais, na medida em que esta considera enganosa a prática comercial “em que o profissional não refere a intenção comercial da prática, se tal não se puder depreender do contexto”471. Para além das sanções contra-ordenacionais a que pode estar sujeito o fornecedor que não indique o objectivo comercial da chamada ou de qualquer outro contacto com o consumidor, os contratos que posteriormente venham a ser celebrados no local indicado pelo fornecedor podem ser anulados com fundamento na omissão anterior desta informação (v. artigo 14.º, n.º 1, do Decreto-Lei n.º 57/2008).
3.1.3. Contratos celebrados em estabelecimentos automatizados