3 A NATUREZA DIVERSA DA CENTRALIDADE URBANA
3.1 Conteúdos, processos e formas da centralidade urbana em Natal
Ao propormo-nos à apreensão da natureza de centralidade urbana em Natal, temos claro que tal empreendimento há que ser feito segundo diversas dimensões, uma vez que indicamos como pressuposto que a centralidade urbana é constituída de natureza diversa. Diversa em seus conteúdos, processos e formas, os quais carecem de ser expressos na forma plural, face à sua diversidade.
Iniciamos o desenvolvimento desta subseção tratando do comércio, enquanto conteúdo norteador ou gerador de centralidade urbana, dada a sua proeminência na Cidade do Natal, no contexto do desenvolvimento da economia terciária e da produção do seu espaço urbano. Entretanto, sabemos que outros conteúdos presentes na dinâmica urbana presidem a conformação de centralidades, como: o histórico, o cultural, o ideológico, o simbólico, a gestão, dentre outros. Essa é a razão pela qual defendemos ser a centralidade urbana de natureza diversa.
Temos aludido a respeito da importância do comércio para a cidade, em momentos anteriores deste trabalho, e reforçamos: o comércio é a razão de ser da cidade (PINTAUDI, 2015); enquanto que a cidade também pode ser vista como um lugar de trocas (FERNANDES, 2014). Acrescentamos ainda o pensamento de Barreto; Lima (2007, p. 21), os quais defendem que
No mundo, o surgimento e o crescimento da atividade comercial estão diretamente relacionados ao grau de prosperidade das cidades, tornando-se o principal elemento motivador de investimentos em infra-estrutura, como estradas e transportes. Daí ser caracterizada como uma atividade tipicamente urbana.
O comércio, enquanto atividade terciária proeminente no espaço urbano de Natal, será então o ponto de partida para apreendermos e explicitarmos a centralidade urbana, dentre outros conteúdos que lhes são geradores.
Reafirmamos nossa concepção de que fora constituído um Núcleo do Centro
Histórico de Natal, do qual participaram solidariamente os bairros Cidade Alta,
Ribeira e Alecrim, cada um com os atributos que lhes eram inerentes para a consecução das suas respectivas centralidades. E assim, daremos continuidade a essa concepção ao tratarmos do desenvolvimento do comércio na Cidade do Natal, só que, dessa vez, partindo do bairro da Ribeira; seguindo-se com o da Cidade Alta; e, por fim, abordando o do Alecrim. A razão desta sequência se faz em função da dinâmica do comércio que nos foi apresentada, ao examinarmos a bibliografia atinente à temática, bem como ao desenvolvermos a pesquisa de campo.
Ao falarmos da complementaridade entre esses três bairros – Ribeira, Cidade Alta e Alecrim – na estruturação de um Núcleo do Centro Histórico de Natal, essa condição de complementaridade nos autoriza a propor que a centralidade urbana em Natal pode ser apreendida, além da sua diversidade, também por uma multicentralidade, que consiste na complementaridade entre diversas áreas.
Parafraseando Sposito (2010), diríamos que, se verificamos a multiplicação de centros, estamos diante de uma multicentralidade, desde que estes centros estabeleçam entre si relações de complementaridade. Esta condição de complementaridade na conformação do Núcleo do Centro Histórico de Natal foi por nós exposta na segunda seção, ao indicarmos que a Cidade Alta deu início à formação do espaço urbano de Natal, com a fundação da cidade, vindo a desenvolver em seguida o comércio; que a Ribeira desenvolveu seu comércio voltado para a exportação-importação, em função do Porto de Natal; e que o Alecrim estabeleceu contato com o interior do estado do RN, fazendo a ligação entre a Cidade Alta, a Ribeira e o interior do estado, desenvolvendo também o seu comércio.
Desta forma, configurou-se uma condição de complementaridade, em que cada área contribuiu com os atributos que lhes eram inerentes, naquele momento,
para a formação do Núcleo do Centro Histórico de Natal. E, ao examinarmos bibliografia atinente à temática, ao obtermos dados primários, por ocasião da pesquisa de campo, e também ao analisarmos dados secundários, temos observado que essa condição de multicentralidade persiste.
A condição oposta à multicentralidade, sobre a qual julgamos pertinente referir, é a policentralidade, que se configura pela concorrência entre áreas de um dado espaço urbano, estando estas a procura de exercer cada uma maior poder de atração em relação às demais (SPOSITO, 2010). Descartamos essa possibilidade ao nosso objeto de estudo, em função do que segue.
Em primeiro lugar, porque entendemos que os centros que se conformam em Natal, desde aquele ao qual denominamos Núcleo do Centro Histórico de Natal, às novas centralidades, cada um apresenta, segundo seus atributos, a centralidade que lhe é inerente, atendendo a contento àqueles que demandam seus conteúdos, sejam estes de comércio, de serviços, de caráter histórico, de gestão, entre outros.
Em segundo lugar, porque não estamos enveredando, neste trabalho, por um trabalho de quantificação, à procura do que venha a ser centro ou subcentro, segundo uma abordagem de hierarquização dos centros.
Em terceiro lugar, e por fim, porque estamos tratando a centralidade urbana em sua diversidade, que em certa medida, considera aspectos quantitativos, como dados de comércio e serviços, índices de fluxos e frequentação, mas que abrange também aspectos qualitativos e subjetivos, como aqueles ligados às dimensões histórica, simbólica, até mesmo à dimensão ideológica, como nos foi revelado por ocasião da pesquisa de campo.
Retomando a discussão sobre a contribuição do comércio para a formação das centralidades urbanas, defendemos que o mesmo exerce um poder de atração sobre as pessoas, formando fluxos, gerando centralidades. As pessoas, aqui tratadas como consumidores, são então atraídas porque se beneficiam no processo de troca, porque têm suas demandas atendidas, como apontam Barreto; Lima (2007, p. 19): “A maioria dos economistas aceita a teoria de que o comércio beneficia a ambos os parceiros, porque se um não fosse beneficiado não participaria da troca, e rejeita a noção de que toda troca tem implícita a exploração de uma das partes.”
O benefício mencionado no pensamento dos autores citados estaria para o atendimento à demanda do consumidor, assim como a suposta “exploração” estaria para o processo de reprodução do capital, representado pela margem de lucro, o
que é intrínseco ao ambiente capitalista, e que faz parte do seu processo de reprodução. Neste trabalho, interessa-nos essa temática à medida que identificamos estreita relação entre a dispersão da centralidade urbana, com a formação de novas centralidades, e o processo de reprodução do capital. Ou seja, podemos asseverar que novas centralidades estão sempre a surgir porque, se de um lado a sociedade apresenta novas demandas, o capital, igualmente demanda sempre novos espaços para reproduzir-se. Estes espaços se apresentam então sob a forma de novas centralidades.
A Ribeira passou a apresentar a função de bairro comercial desde a segunda metade do século XIX, concomitante ao desenvolvimento do comércio no RN, conforme expõe a obra “Memória do comércio do Rio Grande do Norte”, de Barreto; Lima (2007, p. 26): “Há unidade de opinião entre os historiadores potiguares de que o nosso comércio só veio a assumir um fluxo maior na segunda metade do Século XIX.”
Pela sua condição natural, margeada pelo estuário do Rio Potengi, o bairro da Ribeira passou a abrigar o Porto de Natal, o qual foi de importância capital para o desenvolvimento do comércio no bairro, sendo, naquele momento, o principal centro comercial da cidade, cuja relação de exportação-importação se estreitava com o estado de Pernambuco. A respeito dessa relação comercial e do surgimento do Porto, a matéria publica num jornal local, Tribuna do Norte, sob o título “Ruas guardam história do comércio”, elucida:
Em meados do século 19 consolidou-se o comércio na região, na maioria de artigos que chegavam e partiam pelo Potengi em uma relação negocial dominada por Pernambuco. Mais tarde, essa vocação para centro de comércio de mercadorias pelos navios se consolidaria com a construção do Porto de Natal (RUAS..., 2016, não paginado).
Ao rememorar o comércio no RN, tendo como foco o referido bairro quando do início da sua formação comercial, Barreto; Lima (2007, p. 28) assim o caracterizam:
A Ribeira, conhecida também por Cidade Baixa, nasceu banhada pelas águas do rio Potengi. Seu desenvolvimento urbano foi impulsionado pela construção do porto, cujas obras foram iniciadas no final do século XIX [apesar de criado oficialmente só em 1932]. É importante ressaltar que, a partir da segunda metade do Século XIX,
a Ribeira consolidou sua função de bairro comercial, povoado de
grandes armazéns onde eram guardadas as mercadorias importadas ou para exportação e a instalação de várias agências bancárias, graças à presença dos soldados americanos nos anos
[19]40 do Século passado (grifos nossos).
Ao resgatarmos algumas informações importantes da citação, temos a presença do Porto de Natal enquanto forma, cujo processo de exportação- importação evidenciava o conteúdo da incipiente centralidade urbana em formação, respeitadas as proporções à época. Outras formas que merecem destaque são os armazéns, alguns dos quais ainda estão presentes na paisagem urbana do bairro, testemunhando um período áureo do comércio que se fazia internamente, articulado ao que se projetava internacionalmente; e as agências bancárias, instaladas principalmente por ocasião da presença de soldados norte-americanos, no contexto da Segunda Guerra Mundial.
As ruas dentre as quais se desenvolviam de forma mais expressiva as atividades comercias ligadas à dinâmica do comércio na Ribeira eram as seguintes
Mapa 06):
a) Rua Doutor Barata, que era conhecida como Rua das Lojas, local do comércio chique da cidade; abrigava a “Formosa Syria”, em 1927, loja de comércio sofisticado;
b) “Rua Frei Miguelinho, antes 13 de Maio, é a continuação da Dr. Barata. Concentrava o comércio e, principalmente, os bancos da cidade [...]” (BARRETO; LIMA (2007, p. 29);
c) “A Rua Chile, antiga Rua do Comércio, era sinônimo de trabalho e desenvolvimento” (BARRETO; LIMA, 2007, p. 29).
Mapa 06 – Ruas do comércio inicial na Ribeira
FONTE: Mapa base: NATAL..., 2016a; Informações: BARRETO; LIMA (2007); Pesquisa de Campo, 2016. Elaboração: Francisco Júnior/CREA 210044763-7
Na verdade, ao examinarmos a descrição das ruas ao longo das quais a atividade comercial se desenvolvia na Ribeira, por ocasião da pujança das atividades agroexportadoras do RN, tendo como produtos principais o algodão e o açúcar, vemos que as atividades comerciais se desenvolviam em apenas duas ruas: a Chile, que era a do Porto; e a Doutor. Barata/Frei Miguelinho. Ademais, apontamos que esta última, enquanto rua secundária à do Porto, conforma-se paralelamente à Rua Chile, que é a principal rua do Porto de Natal, a qual “[...] foi desde as primeiras décadas do Século XX, ou talvez até antes, a artéria que abrigava as maiores firmas importadoras e exportadoras de Natal, com os seus respectivos armazéns de depósito” (BARRETO; LIMA, 2007, p. 29).
Mas não só as atividades portuárias concorreram para o desenvolvimento urbano do bairro da Ribeira. A presença dos soldados norte-americanos, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, associada à movimentação financeira das atividades comerciais próprias do Porto de Natal, fez impulsionar também a atividade financeira, com a presença de agências bancárias, assim como a vida noturna, que desde então legou ao bairro a reputação de boemia, pela presença de seus cabarés, que passavam a funcionar por volta das vinte e uma horas, quando as famílias da cidade se recolhiam (CASCUDO, 1999).
Naquele momento de mudanças por que passava o contexto urbano natalense, na década de 1940, com a presença das tropas norte-americanas, causando impactos significativos, desde hábitos de consumo a oferta de moradias, opções de lazer, serviços de alimentação e higiene, entre outros, o ponto de encontro dos soldados norte-americanos estava focado na Ribeira, movimentando significativamente a economia dos bares e casas noturnas. Assim, “A Ribeira era o ponto onde empreendimentos surgiam e carreiras políticas se firmavam. A Guerra fizera correr ali muito dinheiro” (BARRETO; LIMA, 2007, p. 83, grifos nossos).
Para que possamos reafirmar a posição da Ribeira enquanto bairro comercial por excelência no contexto urbano de Natal até o fim da Segunda Guerra Mundial, antecedendo até mesmo o que fora declarado “Centro” – o bairro Cidade Alta –, por sua condição histórica, indicamos que
A curva do tempo leva [...] à velha Ribeira dos anos [19]40 [...]: o antigo comércio, o porto, os navios. Tudo era na Ribeira. Médico,
dentista, tudo era ali lá. Sapatarias, comércio de grosso e varejo.
Avenida Dr. Barata, na Tavares de Lira e girava o mundo
empresarial. Lá também prosperavam os grandes armazéns de estivas e cereais. Os trens abasteciam a cidade com produtos vindos de Recife. Até combustível vinha de trem (BARRETO;
LIMA, 2007, p. 88, grifos nossos).
Um olhar atento sobre o trecho ora citado resume o que discorremos até o momento do texto a respeito da Ribeira enquanto bairro constituinte do Núcleo do
Centro Histórico de Natal, e sua condição de ser central: o porto, o comércio, a
comunicação via mar com Recife; enfim, o foco das atenções comerciais da Cidade do Natal estava voltado para a Ribeira.
Mas a expressividade da Ribeira enquanto centro de negócios no espaço urbano de Natal cedeu lugar ao bairro da Cidade Alta, como relatam Barreto; Lima (2007, p. 29-30) que
Com o término da II Guerra Mundial, o bairro da Ribeira entrou num lento processo de redução de suas atividades comerciais, o que foi causado pela fuga dos dólares americanos e, sobretudo, pela transferência de várias firmas comerciais para a Cidade Alta.
Ao rememorarmos o período expressivo da Ribeira enquanto centralidade no espaço urbano de Natal, indicamos um transcurso entre a segunda metade século XIX e a primeira metade do século XX. Portanto, um período de uma média de cem anos, quando então cedeu lugar a uma nova centralidade comercial, representada, naquele momento do pós Segunda Guerra Mundial, pelo bairro da Cidade Alta.
O bairro Cidade Alta, como já expusemos na seção anterior, teve o atributo histórico para sua condição de ser central, por ter ocorrido nele a fundação da Cidade do Natal. Seguiu-se um incipiente processo de produção do espaço, motivado pela produção da moradia, vindo a adquirir a função comercial de forma mais expressiva só após a Segunda Guerra Mundial, quando o bairro da Ribeira entrou em processo de redução da sua importância comercial no contexto urbano de Natal. O relato a seguir informa que
Era um bairro predominantemente residencial antes da II Guerra Mundial e eram poucas as casas comerciais existentes em suas ruas. O Paço da Pátria era o ponto comercial mais importante da Cidade Alta. Tudo era desembarcado ali, procedente de Macaíba, São Gonçalo, Redinha e de outras povoações (BARRETO; LIMA (2007, p. 30).
As reminiscências da função comercial marco zero podem ser depreendidas do trecho que segue: “O Curral do Açougue, a Praça do Peixe e as quitandas espalhadas pela antiga rua Nova [Avenida Rio Branco], indicavam a vocação comercial daquele logradouro público” (CAVALCANTI NETO, 2010, não paginado). A Avenida Rio Branco foi, desde os seus primórdios, capital para o desenvolvimento comercial do bairro Cidade Alta, visto que nela se instalaram as primeiras e mais diversificadas lojas de comércio e serviços, sendo considerada, conforme trecho a seguir, um “marco” na estruturação do comércio local:
Como marco da expansão comercial da Cidade Alta na década de [19]40 podemos consignar a abertura na avenida Rio Branco da Loja Brasileiras (agosto de 1940); o Cassino Natal (outubro de 1943); a Fábrica Santa Lígia, de fiação de tecelagem de estopa e fabricação de sacos, de Cavalcanti Moura & Cia (1945); a Sorveteria Rio Branco (maio de 1945), o Bar Bolero, situado em frente ao hoje inexistente Cinema Rex, de Rui Araújo (1947); e o Posto Esso, instalado pela Sandart Oil Company of Brazil (BARRETO; LIMA, 2007, p. 30, grifos nossos).
Estas são apenas algumas das empresas que operavam na Avenida Rio Branco quando a Cidade Alta passou a ocupar o lugar central no espaço urbano natalense, que fora perdido pela Ribeira, ainda na década de 1940, com a saída dos soldados norte-americanos, que representavam demanda solvável para o comércio e os serviços que eram praticados no entorno do Porto de Natal. Mas, certamente, outras lojas menos expressivas também desenvolviam suas atividades, tanto na Avenida Rio Branco quanto em outras ruas paralelas ou transversais a ela, todas no bairro da Cidade Alta.
Dado que nossa preocupação ora se volta à importância da Avenida Rio Branco para a estruturação do comércio da Cidade Alta enquanto centralidade no espaço urbano de Natal, é importante ressaltarmos que a mesma foi prolongada por duas vezes: em 1916, no seu trecho compreendido entre a Rua Apodi e o Baldo, por ação do Presidente da Intendência, Romualdo Galvão; e em 1935, fazendo o prolongamento da referida avenida desde a Cidade Alta até a Ribeira, na gestão do prefeito Miguel Bilro. Dessa forma, “Surgia assim a segunda via de acesso entre a Cidade Alta e a Ribeira facilitando o tráfego entre aqueles dois importantes bairros de Natal” (CAVALCANTI NETO, 2010, não paginado).
Atualmente, a Avenida Rio Branco continua a ser de singular importância para que possamos apontar a Cidade Alta enquanto centralidade no contexto urbano de Natal, tanto porque continua a apresentar sua função comercial, pela presença de um conjunto de empresas de comércio e de serviços, quanto porque por ela passa o mais expressivo número de fluxos de transportes individuais, de cargas e de transportes coletivos do bairro em tela, articulando fluxos com ruas transversais, e até mesmo com bairros adjacentes, como: Ribeira, Roca, Tirol, Petrópolis, entre outros, e até mesmo com toda a cidade. É por razão que estamos denominando, neste trabalho, a avenidas deste porte como Eixo Dinamizador do Terciário (EDT), juntamente com outras que adquirem essa mesma função no contexto natalense. Isto porque, por sua função de dar fluidez ao tráfego de pessoas e mercadorias, por viabilizar o movimento no espaço urbano, dinamiza a economia terciária de tantos outros eixos dinâmicos que lhes são secundários.
O bairro Cidade Alta consegue mesclar e preservar seu atributo de centralidade histórica ao de centralidade comercial, não só pelo fato da fundação da Cidade do Natal ter sido efetivada nesse bairro, mas também pela memória do comércio. Um dado que sempre vem à tona, por exemplo, em noticiários, estudos e entrevistas, é o caso do mercado público do bairro, que teve sua expressividade interrompida por um incêndio tido como “misterioso”. E esse assunto é recorrente porque essa forma mercado público dava notoriedade ao centro ora em evidência na Cidade do Natal, que era a Cidade Alta, havendo mais de cem pontos comerciais no interior do mercado (PAIVA, 2015). E apesar de sabermos que esses mercados tradicionais são constituídos de pequenos negócios, mesmo assim, o número significativo de uma centena de negócios fazia dinamizar uma avenida que já concentrava as atividades comerciais de então, como a Rio Branco. Assim, como
A população de Natal, que ainda não contava com os modernos
recursos da ‘era da máquina’, no campo da conservação de alimentos, era conduzida a adquirir diariamente os gêneros
alimentícios. O Mercado Público tornou-se então um ponto de encontro, um local onde eram divulgados os acontecimentos da Cidade, em primeira mão. Ali comentavam-se os assuntos mais diversos, políticos, sociais e, até mesmo, ‘os ridículos enredos provincianos’ (CAVALCANTI NETO, 2010, não paginado, grifos nossos).
tela, o qual se refere ao incremento quanto à oferta da energia elétrica na Cidade do Natal, que tendo sido instalada em 1911, passou por melhorias significativas, com a transmissão da energia da Hidroelétrica de Paulo Afonso, na Bahia, na década de 1960, o que possibilitou àqueles mais abastados da sociedade natalense adquirirem refrigeradores, possibilitando assim a prática da conservação de alimentos, dispensando a ida diária ao mercado, para atender seu consumo doméstico. Isto porque a chegada da energia elétrica estava inserida na política de desenvolvimento implementada pela SUDENE.
Certamente, é dessa prática cotidiana de ir ao mercado que o bairro Cidade Alta, mais precisamente, a Avenida Rio Branco, passou a ganhar notoriedade enquanto centralidade no contexto urbano de Natal. Assim como o Porto de Natal fora para a Ribeira importante forma no sentido da conformação da centralidade urbana desde o período agroexportador até à presença dos soldados norte- americanos, o Mercado Público da Cidade Alta igualmente fora importante forma na estruturação do comércio, dos serviços, e até mesmo da vida política e social do bairro Cidade Alta.
O Mercado Público foi mais um equipamento de comércio a auxiliar na consolidação da formação comercial do bairro, que já vinha se concentrando na Avenida Rio Branco, que era o lugar de encontro dos citadinos natalenses, como defendem Barreto; Lima (2007, p. 31) que
Não se pode reconstituir a memória da Cidade Alta sem falar sobre o ‘Café Grande Ponto’, instalado nos anos [19]20 [...]. Foi ponto de destaque na paisagem da capital potiguar, sobretudo, nas décadas