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2   SER HUMANO, ANIMAIS E MEDICINA 24

2.3   CONTEXTO BRASILEIRO 34

Mesmo após os estudos realizados pela médica psiquiatra Nise da Silveira, a difusão da Terapia Assistida por Animais como uma prática válida, bem como os estudos científicos sobre o tema, foram escassos. Apesar disso, ao longo dos anos houve uma maior demanda e implementação de programas em instituições variadas que se utilizam de animais, resultando também na criação de centros de ensino voltados à formação na área do método (DORNELAS; DORNELAS; VIEIRA, 2015).

Segundo Domingues (2007), até o final da década de 80 não houveram registros científicos ou ações envolvendo TAA no Brasil. Apenas em 1987 o assunto voltou à tona, tematizado pela tese de doutorado da psicóloga e veterinária Hannelore Füchs. Como resultado, em 1997 Füchs iniciou os trabalhos como coordenadora do programa Pet Smile, no Hospital da Criança da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, em São Paulo. Almejando estimular nas crianças as habilidades motoras, a autoconfiança e a diminuir a ansiedade, o programa é de cunho beneficente e autossustentado e promove visitas de cães, tartarugas e coelhos em diversas escolas, asilos e hospitais de São Paulo.Conforme o informativo do próprio Pet Smile (2004), no período compreendido entre a inauguração do projeto e 2003 foram realizados 6.167 atendimentos por pessoa em dez instituições conveniadas, conforme Tabela 2.

Tabela 2 - Entidades Visitadas pelo Projeto Pet Smile entre 1997 e 2003

INSTITUIÇÃO ATENDIMENTOS

Amor Perfeito I 306

Amor Perfeito II 520

Creche São Matheus 293

Hospital da Criança 1944

I. B. Nosso Lar 1087

L. E. São Francisco 646

Lar das Crianças da CIP 85

Nefrologia Pediátrica UNIFESP 446

O.A.S.E. 290

Total Geral 6.167

Além do programa, Füchs também é fundadora da Associação Brasileira de Zooterapia (ABRAZOO), que propicia a interação de cães, gatos e coelhos com crianças e adolescentes em hospitais e instituições diversas, contado com a ajuda de voluntários (DOMINGUES, 2007).

Na década de 90, o Conselho Federal de Medicina (CFM) reconheceu a prática da equoterapia1 como terapia e comprova a eficácia das sessões no processo de

reabilitação física de pacientes portadores de inúmeras doenças (CAETANO, 2010; SILVA, J., 2011). Como resultado, é homologado pelo Senado Federal a Lei n° 5.499/2005, que aprova o uso da equoterapia pelo SUS (SILVA, J., 2011).

Em 1998 surge o projeto Cão Terapeuta, vertente social criada pela Cão Cidadão, empresa paulista de adestramento criada pelo zootecnista Alexandre Rossi – também conhecido como Dr. Pet. O projeto promove visitas a crianças e adultos portadores de necessidades especiais, como também cursos para formação de adestradores e interessados em adestrar seus próprios cães. Contando com quarenta cães entre vira-latas e puros e visitando 160 pessoas por mês, a entidade foi reconhecida como ONG em 2013. (DOMINGUES, 2007; SOARES, 2013)

Já em setembro de 2000 ocorreu a 9ª Conferência Internacional sobre Interações Homem-Animal, sediada no Rio de Janeiro e co-organizada pela Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal (ARCA Brasil), entidade não-governamental sem fins lucrativos que representa a Associação Internacional das Organizações Homem-Animal2 (IAHAIO) no Brasil. Com o objetivo de abordar a

1 Equoterapia: Método que utiliza o cavalo nas sessões terapêuticas, visando o aperfeiçoamento da coordenação motora e do equilíbrio dos pacientes (MICHAELIS, 2015). A tipologia será esmiuçada mais adiante.

2 A IAHAIO é uma organização que “reúne entidades de todo o mundo interessadas no avanço do conhecimento e valorização das relações entre o homem e o animal. A ARCA Brasil é a representante da IAHAIO no Brasil” (ARCA BRASIL, 2016b).

relação humano-animal, a conferência foi o primeiro evento do gênero a ocorrer no hemisfério sul, reunindo 25 países para discutir o tema sob os postos de vista social, demográfico, histórico, cultural, saúde pública, psicológico, terapêutico, etológico e veterinário. (CLERICI, 2009; FERREIRA, 2012; ARCA BRASIL, 2016a).

Em 2004, a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (FMV/USP), em parceria com a Faculdade de Odontologia, do campus Araçatuba, iniciam o projeto “Cão Cidadão Unesp”, com o objetivo de investigar as reações que os animais provocam em crianças com necessidades especiais. Os resultados apontaram que o comportamento dos pacientes melhorou coma presença dos cães, colaborando no atendimento dentário dos profissionais. Em decorrência disso, no ano seguinte a FMV/USP inclui na grade curricular do curso a disciplina de Zooterapia, resultando no preenchimento total das vagas da primeira turma (DOMINGUES, 2007). No ano seguinte, a Universidade de Santo Amaro (UNISA), em parceria com a Organização Brasileira de Interação Homem-Animal Cão Coração (OBIHACC), promoveu estágios de TAA para os graduandos do curso de fisioterapia. A OBIHACC, por sua vez, também inicia seus cursos de extensão universitária para capacitação na área de AAA/TAA, realizando seis edições até 2007.

A organização tornou-se referência na realização de atividades e terapias com animais, atendendo instituições nas áreas de terapia ocupacional, psicologia e fisioterapia com a colaboração de voluntários e cães, além dos próprios profissionais. Na Figura 10 são apresentadas sessões de fisioterapia do Curso de Extensão de TAA e AAA promovido pela OBIHACC em São Paulo, 2006.

Figura 10 - Sessão de fisioterapia do Curso de Extensão de AAA e TAA da OBIHACC, em São Paulo, 2006

Jerson Dotti, fundador e administrador do Projeto Cão do Idoso, publica em 2005 seu livro “Terapia & Animais”, referencial brasileiro para aprofundamento nas metodologias dirigidas a AAA e TAA e desenvolvidos após as experiências que observou no programa. Os apontamentos que formam esta monografia, em sua grande maioria, são baseados no livro em questão. O Projeto Cão do Idoso, por sua vez, foi fundado em 2000, na cidade de São Paulo, com o objetivo de promover visitas de voluntários e cães em casas de apoio, além de sessões de terapia com profissionais da saúde e cães terapeutas (DOMINGUES, 2007).

Em 2007 é criado o Projeto Bicho Solidário pela médica veterinária e professora Fernanda de Toledo Vieira, da Universidade de Vila Velha (UVV), no Espírito Santo. O programa iniciou a partir de visitas a cada 15 dias em casas de passagem de Vila Velha que abrigavam crianças e adolescentes. Atualmente é desenvolvido apenas na Policlínica de Referência da UVV com crianças portadoras de deficiências neurológicas e conta com profissionais de medicina, medicina veterinária e fisioterapia, estagiários e voluntários (DORNELAS; DORNELAS; VIEIRA, 2015).

O I Congresso Brasileiro de Atividade, Educação e Terapia Assistida por Animais (A/E/TAA), evento cientifico organizado pela OBIHACC, ocorreu em 2007 e foi realizado na cidade de São Paulo, resultando em 40 trabalhos registrados nos anais, dentre eles relatos de experiência, projetos e pesquisa (DOMINGUES, 2007).

No ano seguinte, a OBIHACC encerra suas atividades e fecha suas portas. Para evitar o término dos projetos e atendimento já tão consolidados, profissionais e voluntários da ONG fundam o Instituto Nacional de Ações e Terapia Assistida por Animais (INAATAA). Atuante até o presente momento, o INAATAA proporciona melhorias na saúde física, mental e emocional de crianças e idosos através da TAA, beneficiando em torno de 400 pessoas por mês (INAATAA, 2012).

Além de visitar hospitais e asilos, a ONG ministra três cursos de capacitação de voluntários, sendo estes o Curso Básico, destinado a qualquer voluntário com ou sem conhecimento prévio; Curso de Adestramento de Cães Terapeutas, àqueles que já fizeram o curso básico e estão interessados em entender e praticar o treinamento de cães terapeutas e; Curso Avançado para a Área da Saúde, voltado para profissionais da saúde interessado em aprimorar seus conhecimentos sobre a TAA e vertentes (Figuras 11 e 12).

Figura 11 - Voluntários e cães terapeutas INAATAA

Figura 12 - Silvia Fedeli Prado, presidente da INAATAA, em sessão terapêutica.

FONTE: INAATAA (2012) FONTE: INAATAA (2012)

Em 2010, o Projeto Pêlo Próximo inicia suas atividades no Rio de Janeiro. Com o apoio de uma equipe multidisciplinar de profissionais da saúde, realizam Atividade, Educação e Terapia Assistida por Animais com crianças, idosos, portadores de necessidades especiais e escolas. Atualmente o projeto é o único realizado no Rio de Janeiro com parceria da Secretaria Estadual da Saúde, promovendo visitas à hospitais públicos da cidade (PÊLO PRÓXIMO, s.d.)

Como foi observado, as pesquisas científicas, as publicações específicas em jornais e revistas e até mesmo a expansão da utilização de animais para fins terapêuticos vem tomando proporções maiores no contexto brasileiro, reforçando a divulgação e aumentando o interesse da população. Dessa forma, a TAA e suas vertentes vem conseguindo difundir ainda mais a eficácia das terapias assistidas como opção de tratamento, mobilizando pesquisadores de diversas áreas e aperfeiçoando cada vez mais seus métodos (DOMINGUES, 2007).