2 SER HUMANO, ANIMAIS E MEDICINA 24
2.5 TIPOLOGIAS 43
Como observado anteriormente, muitos animais foram utilizados como co- terapeutas5 durante o desenvolvimento das práticas de TAA. Segundo Caetano
(2010), apesar dos cães e cavalos serem os mais utilizados nas sessões terapêuticas brasileiras, vários animais podem ser aplicados na A/E/TAA, desde que sejam submetidos a avalições veterinárias constantes e testados quanto ao comportamento, aptidão, obediência, saúde e socialização. No caso de animais domésticos, Klein (2007) observa que estes devem ser sociáveis e adestrados, acompanhados de um condutor ou profissional adequado para guiá-lo, enquanto os selvagens devem sempre possuir acompanhamento integral de um veterinário ou biólogo, com o objetivo de sempre o reinserir ao ambiente natural.
2.5.1 Equoterapia
Também chamada de Hipoterapia, a equoterapia utiliza-se de cavalos nas sessões terapêuticas e é desenvolvida por médicos, psicólogos e fisioterapeutas de forma intensa há mais de um século (DOTTI, 2014). O termo foi adotado no Brasil em 1989, junto da criação da Associação Nacional de Equoterapia (ANDE-Brasil), registrada no Ministério do Desenvolvimento, da Industria e do Comércio em 1999. Tal fato foi resultado do reconhecimento do CFM em 1997, e pela lei 5.499/95 que inclui o método nos serviços especializados oferecidos pelo SUS, ambos os acontecimentos já citados anteriormente.
Para Silva, J. (2011) e Dotti (2014), a terapia não é uma técnica de ensino à montaria, mas sim de estímulos dos músculos do corpo do paciente a partir de movimentos dinâmicos e rítmicos, objetivando a melhora do equilíbrio, da postura e da coordenação motora. Segundo Althausen (2006), devido o passo do cavalo assemelhar-se ao do ser humano, o paciente realiza um movimento tridimensional, contemplando aqueles para os lados, para cima, para baixo, e para frente e para trás (Figuras 14 e 15).
5 Co-terapeuta: termo utilizado pela primeira vez pela Dra Nise da Silveira para designar os animais que participavam das sessões terapêuticas no centro psiquiátrico D. Pedro II. O termo ainda é muito utilizado no Brasil, pois indica que o papel do animal como facilitador das terapias convencionais (DOMINGUES, 2007).
Figura 14 - Cavalo co-terapeuta com criança paraplégica
Figura 15 - Menina portadora de Síndrome de Down em sessão terapêutica
FONTE: BROOKS (2016) FONTE: DIONÍSIO (2013)
Semelhante a equoterapia, mas menos comum, a Assinoterapia utiliza o burro na prática equestre a partir de técnicas de educação e reeducação do paciente, visando a melhoria de danos motores, cognitivos, sensoriais, afetivos e comportamentais (SILVA, J., 2011).
2.5.2 A/E/TAA com gatos
Sem um termo específico para a prática, Dotti (2014) afirma que as A/E/TAA com gatos levam em conta várias condicionantes, como pacientes com alergias, pele muito fina ou com feridas, o que restringe sua prática. Marques (2008) observa que os gatos normalmente são indicados quando o paciente tem medo ou alergia de cães. Para Allievi et al (2015), o uso de gatos não só é mais restrito, como também os estudos na área são escassos, devido ao adestramento mais lento e o pouco conhecimento sobre seu comportamento. Entretanto, a maioria dos gatos apresentam boa receptividade com o contato humano, principalmente os filhotes, dado a alta sociabilização desta fase da vida do animal. O fato contraria muitos autores, os quais não os indicam uma vez que o filhote pode trazer riscos aos pacientes, dado seu instinto exploratório e a necessidade de explorar suas garras e dentes.
Apesar da natureza mais independente, os gatos são animais delicados, carinhosos e transmitem a sensação de segurança (DOTTI, 2014). São capazes de respeitar as limitações apresentadas pelos pacientes durante as interações, sendo
bastante aplicados a autistas, esquizofrênicos e pessoas com problemas de comunicação. Além disso, auxiliam na redução de estresse e da pressão arterial, auxiliando na melhora de problemas cardíacos (ALLEVI et al, 2015). Nas Figuras 16 e 17 são apresentados gatos terapeutas com diferentes tipos de pacientes.
Figura 16 - Gato como co-terapeuta
educacional Figura 17 - Sessão terapêutica com gatos em lar de idosos FONTE: MARTINS; BALBINI; STANQUINI
(2014) FONTE: RAMIREZ (2014)
2.5.3 Delfinoterapia
A delfinoterapia realiza as sessões terapêuticas com o auxílio de golfinhos. A ideia de se utilizá-los foi formulada em 1960 nos Estados Unidos por John Lilly, neuroanatomista de cetáceos6 que estudou a comunicação entre seres humanos e
golfinhos na época, considerado então o precursor do método (LOPES, 2007). Praticando exercícios na água, a atuação dos golfinhos como co-terapeutas resulta na melhora da capacidade motora dos pacientes, bem como a capacidade comunicativa, a independência, a serenidade e a cooperação (LOPES, 2007).
Apesar da grande procura por este tipo de tratamento, Dotti (2014) afirma que não é uma cura milagrosa, como as pessoas acreditam. O autor ressalta, ainda, que os efeitos da interação são idênticos, ou até mesmo similares ao convívio com outros co-terapeutas, não justificando os valores abusivos que são cobrados pelas sessões (Figura 18).
6Cetáceo: Ordem de mamíferos completamente aquáticos a qual os golfinhos pertencem. Caracterizados pelo corpo afilado e cabeça grande, são desprovidos de pelos e possuem a cauda terminando em nadadeira larga e horizontal. Fazem parte desta ordem também as baleias, botos e cachalotes, por exemplo (MICHAELIS,2015)
2.5.4 Bototerapia
Apesar da problemática apresentada, ocorre no Amazonas a atuação da Bototerapia, uma vertente da delfinoterapia que envolve o boto-vermelho, cetáceo encontrados nos rios da Amazônia. Criado em 2005 pelo fisioterapeuta Igor Simões Andrade, o método não só prevê a aplicação gratuita da TAA, como também a preservação do animal, ameaçado de extinção. A aplicação da co-terapia promove o aumento da autoestima e ameniza os efeitos negativos das deficiências dos pacientes, os quais não possuem condições para pagar um tratamento clínico (Figura 19). Além da preservação e do tratamento complementar, o projeto atua na inclusão social, pesquisa e integração com a natureza (SAMPAIO, 2012).
Figura 18 - Sessão de Delfinoterapia Figura 19 - Sessão de Bototerapia
FONTE: CULEK (2014) FONTE: SIMÕES (2009)
2.5.5 Cinoterepia
A Cinoterapia, juntamente com a equoterapia, são a modalidades mais recorrentes de terapias com animais. O método aplica cães nas sessões terapêuticas como instrumento reforçador, estimulador e reabilitador global do paciente, em decorrência dos benefícios emocionais que o convívio com o animal pode estabelecer para pessoas de diferentes idades, classes sociais e condições de saúde (SILVA, J., 2011). O cão é um animal doméstico facilmente adestrado, busca interagir espontaneamente resultando no afeiçoamento dos pacientes com maior facilidade (CAETANO, 2010).
A terapia com cães trabalha com aspectos psicológicos e educacionais de crianças, auxiliando no desempenho escolar e na redução da agressividade, bem como nos aspectos psiquiátricos, ajudando na prevenção de ansiedade e depressão. Na atuação com idosos, a aplicação destes co-terapeutas auxilia principalmente na reabilitação motora em casos de doenças crônicas e neuromusculares.
Segundo Monteiro (2009) apud Caetano (2010), os cães terapeutas são capazes de estimular o exercício físicos dos pacientes, auxiliando na recuperação da maioria das enfermidades. Além disso, a interação diminui o estresse, baixando a frequência cardíaca, a pressão arterial e o colesterol do ser humano.
A socialização do cão, por sua vez, é uma característica fundamental para a Terapia Assistida, pois a capacidade dos animais interagirem com seres humanos de forma coerente e aceitável é o fator principal utilizado no processo de tratamento dos pacientes (ANDERLINI, 2009 apud SILVA, J., 2011).
Conforme descreve Silva, J. (2011), os cães auxiliam na realização de atividades que desenvolvem a fala, o equilíbrio, o autoconhecimento e a imaginação dos pacientes. A autora, ainda, diferencia a cinoterapia da equoterapia, sendo que, enquanto o trabalho com cavalos desenvolve o movimento pélvico do paciente, os cães auxiliam na realização de movimentos que crianças e idosos haviam perdido (Figuras 20 e 21).
Figura 20 - Sessão de cinoterapia para
crianças hospitalizadas Figura 21 - Sessão de cinoterapia em lar de idosos
FONTE: MAGALHÂES (2015) FONTE: BOTELHO (2012)
Dotti (2014) observa que todo e qualquer cão dotado de amabilidade e empatia com seres humanos podem tornar-se co-terapeuta, mas aconselha a não participação de cães idosos e filhotes, restringindo a faixa etária entre 1 e 9 anos de idade, bem como fêmeas no cio. Os filhotes, por sua vez, possuem a necessidade de morder, o
que pode machucar os pacientes. Além disso, mesmo que saudáveis, é importante evitar o contato com o rosto dos pacientes, principalmente daqueles com deficiência imunológica, o que pode ocasionar o desenvolvimento de doenças.
2.5.6 Outras Espécies
A Terapia Assistida por Animais pode utilizar-se, ainda, de outros animais que não necessitam de treinamentos complexos como os já citados. Roedores como hamsters, chinchilas, furões, porquinhos-da-índia e coelhos, aves domésticas – principalmente calopsitas – lhamas, peixes e répteis, como lagartos e serpentes, foram utilizados ao longo da história, e ainda são nos dias atuais, apesar da menor difusão (Figura 22).
À exemplo, desde 2000 a professora da FMV/USP Dra. Maria de Fátima Martins desenvolve o Projeto Dr. Escargot (Figura 33), integrando os moluscos a ambientes escolar e hospitalar, auxiliando no aprendizado, no aprimoramento ético, moral, na cidadania e na qualidade de vida de crianças e idosos. (DOMINGUES, 2007; DOTTI, 2014).
Figura 22 - Terapia envolvendo coelhos. Figura 23 - Projeto Dr. Escargot