3 O PAPEL COMUNICATIVO DAS INTENÇÕES
3.1 Entre semântica, pragmática e intenções
3.1.2 Contexto cooperativo com propósito comunicativo
O segundo requisito para o uso de intenções comunicativas a ser aqui comentado é o de que o contexto de uso da linguagem deve ser cooperativo e o propósito de uso deve ser comunicativo.
No contexto comunicativo prototípico65 em que se tem duas pessoas numa
conversa oral informal, há total cooperação entre os interlocutores, diminuindo a resistência a que um deles retifique ou especifique o que dizer para que melhor se aproxime do que queria dizer, da sua intenção comunicativa.66 Esse contexto prototípico, entretanto, não é o único
tipo de contexto em que a linguagem pode ser utilizada com propósito comunicativo. Há contextos comunicativos com aspecto competitivo67 ou estratégico68, nos quais é natural que
65 Para a noção de protótipo conceitual, ver: LAKOFF, 1987.
66 Uma análise precisa da facilidade de uso da intenção comunicativa em contextos informais pode ser
encontrada em: SCHAUER, Frederick. Playing by the rules: a philosophical examination of rule-based decision- making in Law and in Life. Nova York: Oxford University Press, 1991.
67 Afirmar que uma prática tem um aspecto competitivo não implica que ela não envolve também cooperação,
pois há sempre a cooperação em pelo menos participar na prática. Uma partida de futebol ou um debate são práticas tipicamente competitivas, mas seus participantes, além de competir, precisam cooperar ao menos no uso das normas que constituem a prática.
68 Sobre o uso estratégico do discurso no Direito, ver: MARMOR, Andrei. Can the law imply more than it says?
On some pragmatic aspects of strategic speech. In: ______ (org.); SOAMES, Scott (org.). Philosophical
40 um interlocutor tenha interesses contrapostos ao outro e, por isso, exija que este fique vinculado ao conteúdo efetivo da sua mensagem (seu significado pragmático aparente), negando-lhe a oportunidade de apresentar retificações ou especificações.
Os aspectos competitivo e estratégico do uso da linguagem ficam especialmente em evidência quando a linguagem é utilizada como meio de constituir normas, criando práticas institucionais, tal como ocorre no Direito ou mesmo em jogos recreativos.
Os interesses contrapostos que denotam o aspecto competitivo exigem uma maior segurança na comunicação que não se coaduna com o livre uso direto da intenção comunicativa – apesar de que em certos casos de indeterminação de significado o uso da intenção possa se mostrar ainda como a alternativa mais razoável. É da presença de interesses contrapostos que surge, por exemplo, a necessidade de cuidado ao se redigir contratos, fazendo com que a prática contratual adote uma linguagem muito mais técnica e precisa do que a utilizada em conversas informais, a fim de dar mais segurança aos contratantes. Vale notar que a lei brasileira estabelece que, na interpretação contratual, se observará a intenção que reste consubstanciada na sua redação, mas essa previsão sinaliza mais a necessidade de respeito à pragmática do que de descoberta direta da genuína intenção de cada um dos contratantes.
Já o aspecto estratégico de um contexto comunicativo pode, por outro lado, fazer com que seja do interesse do emissor de uma mensagem que seu conteúdo se mantenha parcialmente indeterminado. É o que acontece quando um órgão legislativo intencionalmente utiliza expressões vagas para dar maior liberdade interpretativa a órgãos julgadores, ou ainda quando um órgão legislativo usa expressões vagas para ocultar suas intenções do público.
É necessário considerar ainda usos da linguagem que, cooperativos ou não, não possuem a estrita comunicação como objetivo principal. O uso de linguagens formais, tendo como exemplo mais evidente a matemática, já foi analisado acima, demonstrando como a linguagem pode ter usos solitários, totalmente dissociados da comunicação. Mas há ainda usos da linguagem que possuem intenção comunicativa, mas propositalmente deixam o significado parcialmente indeterminado, não com um propósito propriamente estratégico, como o considerado no parágrafo anterior, mas com intuito artístico. É nesse sentido que um escritor pode intencionalmente deixar aspectos de uma história abertos para interpretação, e, apesar de não se tratar de um uso propriamente de linguagem, é também assim que um pintor pode criar uma obra com o intuito de convidar seus apreciadores a imprimirem sobre ela interpretações próprias. Pode-se dizer, inclusive, que, pelo menos para algumas escolas
41 artísticas, essa abertura a uma diversidade de interpretações é constitutivo do próprio conceito de arte.
É possível afirmar que essa diversidade de objetivos entre as diversas instituições aqui comentadas (Direito e variadas tradições artísticas69) se refletem na adoção de normas
pragmáticas para cada qual que são pelo menos parcialmente diferenciadas entre si, além de também se diferenciarem daquelas que integram a pragmática do contexto prototípico de uma conversa informal, às quais Grice buscou dar uma formulação através das suas máximas conversacionais.
Adiantando parte da discussão que será levada mais a fundo no penúltimo capítulo deste trabalho, Dworkin defende que a intenção legislativa seja ignorada para que se adote uma prática interpretativa no Direito que se assemelhe à prática artística (ou pelo menos à concepção que ele descreve de prática artística), preconizando que o intérprete deva simplesmente dar a um diploma legislativo a sua melhor interpretação considerando o propósito de fazer justiça e promover o bem comum, independentemente do estado de coisas que esse órgão possivelmente tenha buscado realizar com a lei a ser interpretada70. Como
tanto o Direito como as práticas artísticas possuem natureza institucional cujas finalidades se distanciam em alguma medida do objetivo prototípico comunicacional representado por uma conversa informal comum, a proposta de Dworkin se afigura possível, em tese. Entretanto, a adoção da postura sugerida por Dworkin não pode ser uma consequência automática da constatação da sua possibilidade. Ela carece de fundamentação, especialmente frente aos princípios democráticos que regem o moderno Estado Democrático de Direito, como será melhor demonstrado adiante.