UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO
ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: ORDEM JURÍDICA CONSTITUCIONAL CURSO DE MESTRADO
MARCELO SAMPAIO DE COUTO MELO
O PAPEL DA INTENÇÃO LEGISLATIVA NA INTERPRETAÇÃO JURÍDICA
FORTALEZA 2020
MARCELO SAMPAIO DE COUTO MELO
O PAPEL DA INTENÇÃO LEGISLATIVA NA INTERPRETAÇÃO JURÍDICA
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Direito.
Área de concentração: Constituição, Sociedade e Pensamento Jurídico.
Orientadora: Prof.ª Dra. Juliana Cristine Diniz Campos.
FORTALEZA 2020
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará
Biblioteca Universitária
Gerada automaticamente pelo módulo Catalog, mediante os dados fornecidos pelo(a) autor(a)
M486p Melo, Marcelo Sampaio de Couto.
O Papel da Intenção Legislativa na Interpretação Jurídica / Marcelo Sampaio de Couto Melo. – 2020. 84 f.
Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Direito, Programa de Pós-Graduação em Direito, Fortaleza, 2020.
Orientação: Profa. Dra. Juliana Cristine Diniz Campos.
1. Interpretação jurídica. 2. Intenção comunicativa. 3. Intenção do legislador. 4. Fatos institucionais. 5. Pragmática. I. Título.
MARCELO SAMPAIO DE COUTO MELO
O PAPEL DA INTENÇÃO LEGISLATIVA NA INTERPRETAÇÃO JURÍDICA
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Direito.
Área de concentração: Constituição, Sociedade e Pensamento Jurídico.
Aprovada em: 28/01/2020.
BANCA EXAMINADORA
Prof.ª Dra. Juliana Cristine Diniz Campos (Orientadora) Universidade Federal do Ceará (UFC)
Prof. Dr. Marcelo Lima Guerra Universidade Federal do Ceará (UFC)
Prof. Dr. Juraci Mourão Lopes Filho Centro Universitário Christus (UNICHRISTUS)
AGRADECIMENTOS
À minha mãe, Patrícia Sampaio, pelo carinho, compreensão e apoio incondicionais desde sempre.
À minha companheira e melhor amiga, Sarah Papa Limão (sic), por me incentivar a ingressar neste programa de mestrado, por me estimular a ser uma pessoa melhor em geral, por me fazer sentir que sou a pessoa mais sortuda do mundo e por ser a causa de 99% das minhas risadas e sorrisos no dia-a-dia.
Ao Prof.ª Dra. Juliana Diniz, pela orientação neste trabalho e por ter reavivado meu interesse em Filosofia do Direito através do seu seminário sobre positivismo jurídico.
Ao Prof. Dr. Marcelo Guerra, pela orientação desde o curso de graduação e por ter sido, por larga margem, a maior influência na minha formação intelectual, havendo me apresentado quase todos os autores cujas contribuições formam a base teórica deste trabalho.
Ao Prof. Dr. Juraci Mourão, pela sua paciência e disponibilidade em participar tanto da banca de defesa quanto a banca de qualificação deste trabalho.
À CAPES, pelo auxílio financeiro que permitiu que a dedicação de tempo integral à execução deste trabalho.
Em memória da minha avó e madrinha, Rosina Maria Pio de Farias Jereissati
RESUMO
Este trabalho busca apresentar uma contribuição à teoria da interpretação jurídica através da análise do possível papel da intenção do legislador na construção do significado normativo. Para tanto, serão apresentadas noções basilares de normatividade, linguagem, em suas dimensões semântica e pragmática, e intencionalidade, incluindo particularmente, a noção de intenção comunicativa, cuja utilidade direta na interpretação será condicionada à verificação de determinados pressupostos. Essas noções serão desenvolvidas principalmente com base na filosofia analítica de Gilbert Ryle, Paul Grice e Robert Brandom, para, então, passar-se à análise das principais teorias sobre intenções coletivas e à discussão da intenção legislativa enquanto intenção institucionalmente formada, incluindo suas possibilidades de constituição, descoberta e uso na interpretação jurídica, o qual será defendido com base no princípio da separação dos poderes e demais fundamentos do Estado Democrático de Direito. Finalmente, a teoria desenvolvida será colocada em prática através de uma série de breves estudos de caso, a fim de melhor demonstrar como as ideias apresentadas podem ser potencialmente aplicadas pelos operadores do Direito.
Palavras-chave: Interpretação jurídica. Semântica. Pragmática. Intenção comunicativa.
ABSTRACT
This dissertation seeks to present a contribution to the theory of legal interpretation through the analysis of the possible role of the legislator’s intention in the construction of normative meaning. To fulfill this aim, there shall be the presentation of basic notions of normativity, language, in both its semantic and pragmatic dimensions, and intentionality, including, particularly, the notion of communicative intent, whose direct use in interpretation shall be conditioned to the verification of certain presuppositions. These notions shall be developed mostly with basis on the analytic philosophy of Gilbert Ryle, Paul Grice and Robert Brandom, to move onto an analysis of the major theories about collective intentions and to the discussion of legislative intent as an institutionally formed type of intention, including its possibilities of constitution, discovery and use in legal interpretation, which will be defended with basis on the principle of separation of powers and other fundaments of the Democratic State of Law. Finally, the theory developed shall be put to practice through a series of brief case studies to better demonstrate how the ideas presented can potentially be applied by legal officials and lawyers.
Keywords: Legal interpretation. Semantics. Pragmatics. Communicative intent. Legislator’s
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 10
2 A NATUREZA NORMATIVA DA LINGUAGEM ... 16
2.1 Pensamento sentencioso ... 19
2.2 Normas como trilhos da mente e tickets de inferência ... 21
2.3 Independência das normas de suas respectivas formulações linguísticas .... 23
2.3.1 Distinções do comportamento normativo ... 24
2.4 O significado semântico através das inferências autorizadas, impostas e proscritas pelas normas que constituem conceitos ... 25
2.5 O significado pragmático através da interação entre normas semânticas e normas pragmáticas ... 27
2.6 Distinções entre semântica e pragmática ... 30
3 O PAPEL COMUNICATIVO DAS INTENÇÕES ... 33
3.1 Entre semântica, pragmática e intenções ... 36
3.1.1 Tensão entre intenção comunicativa e significado ... 37
3.1.2 Contexto cooperativo com propósito comunicativo ... 39
3.1.3 Possibilidade de descoberta da intenção ... 41
3.1.4 Conclusões sobre possibilidade de uso da intenção na comunicação ... 42
4 INTENÇÕES LEGISLATIVAS NA INTERPRETAÇÃO JURÍDICA ... 46
4.1 Intenções coletivas ... 46
4.1.1 Tipos de surgimento e interdependência ... 49
4.1.2 Panorama de outras teorias ... 51
4.2 Intenções institucionais ... 54
4.2.1 O inevitável poder constitutivo das normas ... 58
4.3 Intenção legislativa ... 61
4.3.1 Resposta à objeção de impossibilidade de constituição ... 62
4.3.2 Resposta à objeção de impossibilidade de descoberta ... 65
4.3.3 Resposta à objeção quanto ao uso em si ... 66
4.3.4 Distinções em relação à teoria de intenção legislativa de Richard Ekins ... 68
4.4 Estudos de caso ... 70
4.4.2 Constituição de união estável homoafetiva ... 73 4.4.3 Condenação de acusados de assédio sexual em contextos educacionais
através do art. 216-A do Código Penal ... 76 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 79 REFERÊNCIAS ... 81
10
1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho busca oferecer uma contribuição à teoria da interpretação jurídica mediante a propositura de certas noções sobre linguagem, nas suas dimensões semântica e pragmática, e sobre intenção comunicativa. Essas noções são desenvolvidas com base em obras de filósofos da tradição analítica/anglo-saxã, com especial destaque a Gilbert Ryle, cujas observações filosóficas, direta ou indiretamente, permeiam todo este trabalho.
Em particular, é notório que boa parte da análise aqui desenvolvida se ocupa de realizar o que Ryle denominou de cartografia conceitual1, atividade filosófica que consiste em
traçar as conexões entre diferentes conceitos. A ideia de Ryle é a de que, tal como o habitante de uma cidade é capaz de se guiar facilmente pelas suas ruas, sabendo, através da familiaridade com pontos de referência, em quais esquinas dobrar para chegar onde deseja, mas ainda assim ser incapaz da abstração necessária para traçar um mapa que estabelece, de outro ponto de vista, as relações entre as diversas ruas, um usuário competente de uma linguagem pode também conhecer intimamente seus conceitos através do uso, mas ainda assim ser incapaz de estabelecer conexões gerais e abstratas entre eles. Caberia ao filósofo, portanto, elaborar esses mapas conceituais, trazendo à tona verdades que ficam subjacentes ao uso ordinário da linguagem. É esse tipo de análise filosófica que é realizada adiante neste trabalho quando, por exemplo, se estabelece que uma intenção antecedente consiste numa espécie de disposição, estabelecendo uma relação “cartográfica” entre os conceitos de intenção e disposição.
Conforme mencionado inicialmente, o objetivo final dos diversos exercícios filosóficos que seguem ao longo deste trabalho é prestar uma contribuição à teoria da interpretação jurídica. O estudo e qualificação da atividade interpretativa no Direito é essencial para se dar a adequada conformação a um sistema jurídico, na medida em que este é composto por normas, as quais não se confundem com os textos que as veiculam. Cada dispositivo legal (texto) é potencialmente passível de ser interpretado de diversas maneiras, o que vale dizer que diversas normas podem ser extraídas da sua moldura normativa2,
oferecendo ao intérprete jurídico diversas soluções distintas e incompatíveis entre si para a solução de um caso concreto.
1 RYLE, Gilbert. Abstractions. In: ______. Collected Papers: Volume 2. Nova York: Routledge, 2009, p.
448-458.
11 Essa variedade de possibilidades interpretativas ocorre tipicamente em casos que caem numa zona de penumbra dos conceitos utilizados em um texto legal, efeito ocasionado pela vagueza que é inerente à linguagem e desta indissociável. Se um texto legal determina que somente bicicletas podem transitar em ciclovias, pode ser argumentado que é vago se essa determinação abrange ou não bicicletas modernas com motores elétricos. Em outras palavras, cabe ao intérprete do Direito decidir pela validade da norma que poderia ser formulada como “bicicletas, inclusive as motorizadas, podem transitar em ciclovias” ou pela validade da norma que poderia ser formulada como “bicicletas, exceto as motorizadas, podem transitar em ciclovias”. E o texto, em si, não será de ajuda nessa tarefa, surgindo daí a necessidade de eventualmente se recorrer a elementos extratextuais (como, conforme será aqui defendido, a intenção legislativa) para a aplicação do Direito.
A vagueza linguística não é a única dificuldade inerente à atividade interpretativa. A ambiguidade linguística (quando mais de um conceito está atrelado à mesma palavra) pode também levar ao mesmo estado de indeterminação do significado e consequente expansão da moldura legislativa. E, ainda que o texto legislativo esteja livre de vaguezas relevantes3 ou
ambiguidades, resta a possibilidade de dissonância entre a intenção legislativa e o que foi efetivamente legislado, ou ainda de imprevisão do corpo legislativo quanto a certos contextos de aplicação da lei criada, conduzindo a resultados injustos ou de outro modo indesejáveis. Essas complicações, naturais à aplicação do Direito, tornam claro que interpretar um texto jurídico significa abrir um leque de possibilidades normativas, e ao operador jurídico cabe escolher e defender uma dentre as diversas possíveis normas a serem “extraídas” da moldura de um dispositivo jurídico.
É através da atividade interpretativa que um sistema normativo jurídico é efetivamente constituído. Porque as cortes têm a palavra final sobre a norma a ser aplicada, interpretar e aplicar o Direito implicam uma importante etapa da própria construção de um sistema normativo. Antes de aplicadas e sedimentadas pelo Judiciário, as normas que podem ser extraídas de uma legislação restam num estado em potencial, não podendo-se propriamente dizer que já pertencem ao sistema jurídico. É necessário, então, aceitar que o Direito não sai pronto e acabado dos órgãos legislativos para ser simples e automaticamente
3 Menciona-se vaguezas “relevantes” aqui pois, conforme demonstrou Hart em “The Concept of Law” (p.
12-13), até as mais inofensivas previsões legislativas são passíveis de entrada numa zona de vagueza conforme se esforce para problematizar seu uso. A previsão de que contratos devem ser assinados para serem considerados válidos é improvável de oferecer dificuldades de aplicação, mas se for imaginado um contrato que foi assinado, por exemplo, somente na primeira página ao invés da última, encontramos um caso que entra na zona de vagueza dessa singela formulação normativa.
12 aplicado pelos órgãos judiciais num simplório silogismo.
Nesse contexto, a investigação do papel da intenção legislativa na interpretação jurídica traz grandes consequências para qualquer ramo do Direito, podendo vir a mudar radicalmente o desfecho dos mais diversos casos concretos. Em uma análise mais ampla, possuem profundas implicações para o princípio da separação de poderes as possibilidades de que um órgão legislativo seja capaz de, institucionalmente, formar uma intenção própria, que se manifesta na própria realização do ato legislativo, e de que essa intenção seja descoberta pelos operadores do Direito, ainda que de forma incerta ou aproximada. A importância do próprio princípio da separação de poderes, por sua vez, é óbvia, na medida em que constitui, dá fundamento da própria organização do Estado Democrático de Direito, a qual pressupõe que o Judiciário aplique o Direito a casos concretos de acordo com que ficou estabelecido de um modo geral e impessoal por um órgão independente de representantes do povo.
Por tudo quanto exposto acima, é preciso ter consciência da inegável importância da atividade interpretativa, cujas complexidades deixam ampla margem para o debate, requerendo esforço argumentativo e merecendo ampla consideração acadêmica. Apesar disso, o estudo da interpretação no Brasil tem frequentemente se restringido à mera e rasa apresentação de uma série de métodos hermenêuticos. A discussão sobre os méritos e virtudes desses métodos e sobre como escolher entre um deles quando conduzem a solução antinômicas tem sido limitada e insípida. Assim, o estudo especializado da Hermenêutica Jurídica (como usualmente se prefere qualificar o estudo da interpretação no País) praticamente se limita a fornecer um leque de ferramentas interpretativas que são utilizadas para conduzir casos concretos ao desfecho que simplesmente “parece” mais justo (ou mais conveniente) ao intérprete.
Entretanto, a defasagem do estudo da Hermenêutica no País não advém somente da sua limitação a somente apresentar os diferentes métodos que podem ser utilizados pelo intérprete. Além de serem insuficientes para constituírem um verdadeiro guia à solução (ou soluções) mais correta(s) do caso concreto, os métodos interpretativos da Hermenêutica Clássica e da Nova Hermenêutica Constitucional também completamente ignoram as modernas contribuições da Teoria e Filosofia do Direito e da Filosofia da Linguagem (pelo menos na sua vertente analítica) ao estudo da interpretação e da linguagem como um todo.
Questões acerca da intenção legislativa, ou seja, da intenção de um órgão legislativo que estaria por trás de uma lei, informando quais normas deveriam poder ser extraídas da sua moldura, foram abandonadas pela doutrina jurídica nacional pela ampla aceitação da ideia de que a “intenção do legislador” não existiria, tratando-se de mero artifício
13 retórico4, ou, de que a intenção legislativa seria, no mínimo, impossível de ser descoberta pelo
intérprete5, ou ainda que, mesmo que apreensível, a vontade do legislador não deveria servir
de parâmetro para a interpretação jurídica6. Ainda que esse abandono da noção de intenção
legislativa também possua notável representação entre teóricos do Direito estrangeiros, como Jeremy Waldron7 e Ronald Dworkin8, o debate acerta do tema permanece vivo e atual no
cenário acadêmico internacional, sendo alimentado por diversas contribuições da Filosofia Analítica que são utilizadas para providenciar uma teorização adequada sobre intenções coletivas e intenções institucionais, as quais já foram inclusive incorporadas também por teóricos do Direito para tentar dar uma explicação do caso específico da atuação de órgãos legislativos.
Entre as modernas obras de teóricos do Direito que trabalham o uso da intenção legislativa na interpretação jurídica, será utilizado como referência principal o trabalho de Richard Ekins sobre o tema, intitulado “The Nature of Legislative Intent”9, cujas
contribuições serão contrastadas com as provenientes de obras de outros autores que são tidos como referência em teoria da interpretação jurídica, como os supramencionados Ronald Dworkin e Jeremy Waldron. Ekins parte de uma concepção de linguagem que estabelece uma equivalência entre significado e intenção comunicativa10. Tomando como premissas que a
promulgação de uma legislação é uma espécie de ato comunicativo11 e que a comunicação é
baseada primariamente na descoberta de intenções, Ekins desenvolve uma teoria da intenção legislativa a fim de explicar como esta empresta significado aos atos legislativos.
De acordo com Ekins, apoiado principalmente no trabalho de List e Petit12, um
órgão legislativo teria uma intenção própria, constituída institucionalmente e aberta ao público e aos próprios membros do parlamento, sem ser passível de redução às intenções específicas destes13. Assim, o autor apresenta um argumento cogente contra as duas mais
4 MAGALHÃES FILHO, Glauco Barreira. Hermenêutica jurídica clássica. 3ª ed. Florianópolis: Conceito
Editorial, 2009, p. 72-73.
5 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Introdução ao estudo do direito. São Paulo: Atlas, 1989, p. 264-298. 6 GRAU, Eros Roberto. Ensaio e discurso sobre a interpretação/aplicação do direito. 5ª ed. São Paulo:
Malheiros, 2009, p. 129.
7 WALDRON, Jeremy. Legislators intentions and unintentional legislation. In: MARMOR, Andrei (Org.). Law
and Interpretation. Oxford: Clarendon Press, 1997, p. 327-340.
8 Para uma análise da noção de intenção legislativa em Dworkin, conferir: EKINS, Richard. Legislative intent in
law's empire. Ratio juris, v. 24, fasc. 4, p. 435-460, 2011.
9 EKINS, Richard. The nature of legislative intent. Nova York: Oxford University Press, 2012. 10 Ibidem, p. 209-211.
11 Ibidem, p. 211-217.
12 LIST, Christian; PETIT, Philip. Group Agency. Oxford: Oxford University Press, 2011. 13 EKINS, 2012, p. 71-76.
14 comuns objeções à noção de intenção legislativa: a objeção de que seria impossível falar em uma intenção legislativa (ou “do legislador”) quando um órgão legislativo possui uma composição diversa e cada um de seus membros possui intenções próprias e a objeção de que a intenção legislativa seria inacessível aos intérpretes por estar confinada à consciência de cada um dos legisladores.
Se a intenção é do próprio órgão legislativo, estabelecida institucionalmente, são irrelevantes as intenções pessoais de cada legislador. A normatividade interna constitutiva do órgão legislativo estabelece qual a intenção que valerá como a própria intenção do órgão na promulgação de um ato legislativo, tipicamente sendo aquela apresentada pelo autor do projeto de lei, tal como emoldurada durante a apresentação deste para aprovação ou rejeição dos demais membros do órgão através do voto. Dessa forma, aos membros, isoladamente considerados, cabe somente decidir entre aderir ou não à proposta, tal como apresentada com sua intenção publicamente acessível. Os estados mentais individuais de cada legislador, acusados de serem possivelmente inacessíveis e até contraditórios, acabam sendo irrelevantes para a teoria de intenção legislativa proposta.
Apesar de iluminadora quanto à construção da intenção legislativa por meios institucionais, a tese de Ekins será criticada quanto à sua dependência excessiva na intencionalidade para a explicação do significado, na medida em que Ekins chega a propor a abolição da distinção entre o significado de uma asserção e a intenção comunicativa do seu autor. O presente trabalho adota uma concepção puramente normativa de significado, tanto em sua dimensão semântica, endossando o “Inferencialismo” de Robert Brandom14, quanto na
sua dimensão pragmática, endossando as máximas conversacionais propostas por Paul Grice15. Na particular teoria comunicativa aqui proposta, o uso direto da intenção do autor do
ato comunicativo será tomado como medida subsidiária e condicionada à presença de três pressupostos: deverá haver uma tensão entre significado e intenção comunicativa; o contexto comunicativo deverá valorizar o uso da intenção; e, por fim, a intenção deve ser passível de descoberta ou dedução.
Entretanto, antes de se adentrar nessa análise sobre semântica e pragmática, para posteriormente analisar a noção de intenção e seu possível papel comunicativo e, enfim, considerar particularmente a noção de intenção legislativa e seus possíveis usos na interpretação jurídica, será primeiro necessário realizar uma análise relativamente
14 BRANDOM, Robert. Making it explicit: reasoning, representing, and discursive commitment. Cambridge:
Harvard University Press, 1998.
15 aprofundada da noção de norma a fim de explicar seu papel na constituição do significado linguístico. É a isso que se dedicam as próximas considerações.
16
2 A NATUREZA NORMATIVA DA LINGUAGEM
Através de que processo se dá a aquisição de significado? Como se forma um conceito, transformando o que antes era uma sequência arbitrária de caracteres (e/ou sons) numa palavra pertencente a uma linguagem? E, afinal, no que consistiria o significado adquirido? Como determinar esse significado? Essas questões há muito têm ocupado a mente de filósofos, linguistas e (em menor medida) juristas.
A Filosofia Analítica de autores como Frege16 e Russell17 e surgiu em larga parte
como um projeto eminentemente dedicado à construção de um vocabulário técnico e formal que demonstraria as relações lógicas subjacentes aos conceitos das linguagens naturais18.
Através dessas análises lógicas com um novo vocabulário de notações formais, propunha-se que o significado de conceitos e frases se dava através da descoberta de “condições de verdade”. A Filosofia Analítica era, assim, exclusivamente voltada a uma análise semântica, estudando-se o significado das palavras dissociado de uma maior contextualização.
Esse panorama mudou radicalmente com a publicação de “Philosophical Investigations” por Wittgenstein19. Ele propôs que, ao invés de se trabalhar com qualquer
noção abstrata e formalística de significado, analise-se diretamente o uso das palavras e como elas se inserem em jogos de linguagem20, inaugurando o que ficou conhecido como a “virada
pragmática”. Wittgenstein afirmou que utilizar um conceito assemelha-se a jogar um jogo, cada conceito tendo suas próprias regras e estabelecendo o que pode ou não ser feito com ele. O conceito de saber, por exemplo, não admite que alguém declare (honestamente) que saiba de algo sobre o qual não possua quaisquer evidências de que seja verdade21. Se um lunático
declara saber que a civilização humana vai acabar em 2021 pela intervenção direta de uma divindade, e acidentalmente sua previsão torna-se verdade por razões que ele ignorava, como um asteroide colidindo com o planeta, certamente não seria correto admitir que ele sabia o
16 FREGE, Gottlob. On sense and reference. In: MARTINICH, A. P. (Org.); SOSA, David (Org.). Analytic
philosophy: an anthology. Oxford: Blackwell Publishing, 2001, p. 7-18.
17 RUSSELL, Bertrand. On denoting. In: MARTINICH, A. P. (Org.); SOSA, David (Org.). Analytic philosophy:
an anthology. Oxford: Blackwell Publishing, 2001, p. 32-40.
18 Linguagens naturais são linguagens que se desenvolveram naturalmente através de processos culturais, como
português, inglês, chinês etc. Essa categoria se contrapõe a das linguagens formais, que são mais artificiais e normalmente têm escopo limitado, tendo como exemplos as linguagens criadas por filósofos para realizar notações lógicas, a linguagem matemática, ou a linguagem binária utilizada em computadores.
19 WITTGENSTEIN, Ludwig. Philosophical investigations. 4ª ed. London: Wiley Blackwell, 2009. 20 Ibidem, p. 45.
21 Para uma análise aprofundada do conceito de saber e das suas repercussões para a epistemologia, conferir:
17 que ia acontecer, apesar da sua previsão estar (parcialmente) correta. Poder-se-ia dizer que, nesse caso, ele tentou fazer uma jogada inválida no jogo de linguagem do conceito de saber.
Na verdade, então, o significado não se trata propriamente do uso em si das palavras, mas da normatização do uso, que constitui o conceito/jogo. A sequência de caracteres “mãe” possui seu sentido em virtude de haver se estabelecido, através de normas, quais os usos apropriados para “mãe”, constituindo-o numa palavra da língua portuguesa. Normas dispõem que “mãe” pode ser usado para se referir ao genitor do sexo feminino de uma pessoa. E com o passar do tempo e com a evolução da linguagem, essas normas podem ter mudado, autorizando como apropriado o uso de “mãe” para se referir a mães adotivas, por exemplo.22 Essa normatização é suficiente para fazer surgir um significado: A partir do
momento em que falante e interlocutor tenham domínio das normas que constituem os jogos de linguagem, que, por sua vez, compõem os diversos conceitos, eles estão aptos a interagir através desses jogos, e a comunicação torna-se possível.
A esse ponto pode surgir uma objeção: quando se utiliza um conceito, seja falando ou interpretando, normalmente não se tem “em mente” uma norma, pelo menos não no sentido de tê-la explicitamente expressa por uma voz interna, ao contrário do que a análise acima possivelmente tenha feito parecer. Usamos a palavra “mãe” e entendemos seu significado “automaticamente” sem ter que recorrer mentalmente à formulação linguística de qualquer tipo de norma. É uma realidade muito distante do que ocorre na aplicação de uma norma jurídica, por exemplo, que normalmente é um processo que exige esforço consciente, tendo-se a formulação linguística da norma a ser aplicada como um guia explícito que tem que ser constantemente (ou pelo menos frequentemente) lembrado.
Aceitando-se a descrição acima como verdadeira, como poderia ser sustentada uma teoria normativa de significado? Acontece que esse uso da formulação linguística de uma norma como guia pode ser comparado ao uso de “rodinhas” para se aprender a andar de bicicleta. A partir do momento em que uma norma é completamente internalizada, esse instrumento pedagógico se faz desnecessário, tal como as “rodinhas” são dispensáveis para um ciclista competente. De forma semelhante, nós não precisamos ter em mente normas linguísticas para utilizá-las, pois elas já foram internalizadas por força do seu uso constante no cotidiano23. Chega a ser comum que alguém atinja fluência em uma linguagem através de
22 Sobre o processo de evolução conceitual, conferir: BRANDOM, Robert. Between saying and doing: towards
an analytic pragmatism. Oxford: Oxford University Press, 2008, p. 95-102.
23 RYLE, Gilbert. Conscience and moral convictions. In: ______. Collected Papers: Volume 2. Nova York:
18 métodos informais e, ainda assim, não consiga dar uma formulação linguística às normas sintáticas e gramaticais que naturalmente tenha passado a dominar. Apesar desse falante fluente utilizar essas normas naturalmente e sem dificuldades, ele terá dificuldade de transmitir seu conhecimento pela incapacidade de formulação linguística das normas. E essa é uma das razões pelas quais um falante competente de uma língua pode acabar não sendo um bom professor dela.
As afirmações acima sobre normas linguísticas são generalizáveis para diversos tipos normativos24. O que se conhece como “leis da natureza” são, na verdade, regras que
possuem em seu consequente fenômenos físicos, químicos ou biológicos, ao invés de um “dever ser”. Obviamente essas regras não se destinam diretamente a guiar condutas humanas, e, por isso, chamá-las de normas pode ser uma impropriedade. Mas elas, tais como quaisquer normas, servem como “tickets de inferência”, conceito que será melhor explicado abaixo. Ainda que não sejam utilizadas para guiar a ação dos seus usuários diretamente, podem fazê-lo indiretamente: alguém olha para um céu pesadamente nublado e utilizando o ticket de inferência relevante, que teria “se o céu está com nuvens pesadas e cinzentas então há alta chance de chuva” como uma possível formulação linguística, essa pessoa decide levar consigo um guarda-chuva antes de sair de casa. E essa “lei da natureza” pode também ser internalizada a ponto de não ser necessário mentalizar qualquer formulação linguística sua, dispensando a necessidade de se conscientemente efetuar a inferência correlata antes que se tome uma ação com base na informação relevante.
É talvez no uso de normas de performance que se observa com maior clareza a separação entre o uso perfeitamente internalizado de uma norma e o seu uso com necessidade de auxílio de uma formulação linguística e de uma inferência com representação mental sentenciosa, noção que também será melhor explicada adiante. Um fenômeno cientificamente estudado é o de que, em situações de estresse, pode ocorrer um rebaixamento de um nível de competência inconsciente para um nível de competência consciente, demarcando uma necessidade de se ter, de modo explícito, em mente, normas de competência para a execução de uma tarefa, com consequente perda de performance25. Como Gilbert Ryle afirma, seguir
24 Não se está aqui usando a distinção regras e princípios proposta em: ALEXY, Robert. Teoria dos direitos
fundamentais. Trad. de Virgílio Afonso da Silva. 2ª ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2008.
25 BEILOCK, Siam. CARR, Thomas. On the fragility of skilled performance: what governs choking under
19 uma norma ao mesmo tempo em que se observa mentalmente sua formulação linguística é como correr olhando para os próprios pés: deve-se ter cuidado para não acabar tropeçando26.
2.1 Pensamento sentencioso
Os comentários acima sobre normas e suas formulações linguísticas implicitamente endossam uma visão de mente e pensamento que será agora explicitada. Seu principal preceito é o de que para agir de modo inteligente (seguindo normas) não é necessário qualquer tipo de conversa introspectiva consigo mesmo antes ou durante a ação. Quando se descreve alguém como sagaz, engenhoso, sábio ou esperto, se está atribuindo a essa pessoa uma certa excelência de disposição constituída pela sua internalização de normas correlatas e manifestada diretamente na sua performance com estas. Ser proficiente e consistente em arrazoar e argumentar, por exemplo, significa aplicar normas de inferência às proposições sob consideração, mas não é necessário que se considere as proposições e, ao mesmo tempo, observe-se (mentalmente) uma fórmula que pode descrever a norma aplicada. Simplesmente considera-se as proposições eficientemente, e é isso que constitui a ação inteligente27.
Ryle demonstra que acaba por incorrer num regresso ao infinito a posição contrária, que insiste que um diálogo interno e introspectivo é imprescindível para que uma ação seja passível de descrição como inteligente e considerada. Se o próprio controle e escolha das palavras com as quais pensamos pode ser descrito como tendo sido performado de forma inteligente ou cuidadosa, a postura de que esse tipo de performance (inteligente ou cuidadosa) deve necessariamente ser precedida por um pensamento em palavras, que pode, por sua vez, também ser descrito da mesma forma, acarretará na pressuposição de uma corrente sem fim de pensamentos, um diálogo interno infinito28. A conclusão é simples:
comportamentos ou ações inteligentes, cuidadosos, sábios, sagazes ou habilidosos não podem ser tidos necessariamente como consequências de uma mentalização explícita de certas proposições.
Esse pensamento constituído pela mentalização de certas proposições é descrito por Ryle como pensamento sentencioso. É possível que a confusão desse tipo de pensamento
26 RYLE, 2009a, p. 202.
27 Idem. Knowing how and knowing that. In: ______. Collected Papers: Volume 2. Nova York: Routledge,
2009a, p. 232.
20 como algo que deve necessariamente preceder uma ação inteligente seja um sintoma de um arraigado preconceito de supervalorizar o “saber que” em detrimento do “saber como”. Ryle demarca a distinção entre esses dois tipos de conhecimento explicando que o “saber que” consiste basicamente em armazenar informações (proposições) que se tem como verdadeiras, sendo largamente tido pelo público não filosoficamente educado como a única manifestação de inteligência, ao passo que o “saber como” consiste num conhecimento operativo de normas que permite desempenhar ações com maior precisão, habilidade e eficiência29. Esse
preconceito é precisamente a razão pela qual facilmente se atribui inteligência a campeões de jogos televisionados de trivia, mas dificilmente se faz o mesmo para um esportista particularmente habilidoso. E esse mesmo preconceito também possivelmente é uma das principais razões pelas quais o currículo de cursos de Direito são tão repletos de disciplinas que envolvem pouco mais do que a memorização de um sem-número de formulações linguísticas de normas, sem qualquer preocupação de ensino da habilidade de utilizá-las na prática.
Ironicamente, a despeito do preconceito de supervalorização do “saber que”, Ryle demonstra também que qualquer verdadeiro “saber que” é reduzível a um “saber como”. Afinal, não se diria que alguém verdadeiramente “sabe que” algo sem que se também saiba ao menos como responder certas perguntas envolvendo o assunto30. Por exemplo, ainda que
alguém tenha memorizado a proposição “Fortaleza e Natal estão a 530km de distância”, não se pode falar essa pessoa realmente sabe que Fortaleza e Natal são separadas por 530km de distância sem que ela saiba como utilizar o conhecimento dessa proposição em resposta à pergunta “Qual a distância entre Fortaleza e Natal?”. E ainda que ela possa responder a essa pergunta básica, pode ser dito que seu conhecimento é de certa forma incompleto se ela não souber como deduzir, por exemplo, que uma terceira cidade fica a 265km de distância de ambas Natal e Fortaleza a partir da informação de que ela se situa exatamente no ponto médio da distância entre essas capitais. Como se verá adiante, esse tipo de conhecimento operativo de normas de inferência é essencial para que se possa afirmar que alguém possui domínio pleno do significado de um conceito linguístico.
De todo modo, ao presente trabalho, o que releva é o fato de que a racionalidade humana não é um mero predicado de pensamentos sentenciosos. Ações ou comportamentos inteligentes, cuidadosos, sábios, sagazes ou habilidosos podem ser (e frequentemente são)
29 RYLE, 2009a, p. 223-235. 30 RYLE, loc. cit.
21 executados independentemente de qualquer tipo de diálogo interno ou mentalização antecedente de proposições, e isso não implica dizer que normas não são utilizadas nesses tipos de ações e comportamentos, como se verá adiante.
2.2 Normas como trilhos da mente e tickets de inferência
É comum esquivar-se de propor uma definição precisa do que seria uma norma.31
E enquanto não se tentará estabelecer aqui qualquer proposição sobre o status metafísico das normas, deve ser esclarecido agora que se trabalhará com a noção de “normas como trilhos da mente”, proposta por Ryle32. Apesar de poder causar estranhamento o uso de uma noção tão
metafórica e aparentemente “solta” em algo que se propõe ser um trabalho acadêmico rigoroso, a concessão se justifica pelo peculiar poder elucidativo dessa metáfora. Ela faz sentido dos mais diversos fenômenos associados a normas, tais como os já descritos acima, e será ainda de especial valia na análise da pragmática que será realizada adiante.33
Na maioria dos casos, para funcionarem como trilhos da mente, normas desempenham o papel de “tickets de inferência”34, que autorizam a passagem de uma
premissa (os fatos estabelecidos como suporte fático da norma) a uma conclusão (a ação ou “reconhecimento” exigido pela norma). De fato, a única situação em que uma norma possivelmente não seria utilizada como ticket de inferência seria aquela em que ela é utilizada por um usuário perfeito da norma, aquele que a teria internalizado sem a necessidade de qualquer debate interno sobre sua aplicação – e mesmo nesse caso a ausência de inferência é questionável, pois é possível que a inferência simplesmente não seja mentalizada sentenciosamente.
De qualquer modo, até mesmo o usuário perfeito da norma pode ser instado a defender suas ações, quando também poderá recorrer explicitamente à norma que atuou como trilho da sua mente. Essa norma estaria constituída como um ticket de inferência que validaria sua conduta, formulado linguisticamente para poder ser comunicado a terceiros. Portanto,
31 Para uma visão alternativa, de normas como razões, cf.: RAZ, Joseph. Practical reason and norms. Oxford:
Oxford University Press, 2009.
32 RYLE, 2009a, p. 233.
33 Além disso, vale notar que grande parte do nosso conhecimento e vocabulário possui também raízes
metafóricas, sendo derivados de nossas experiências sensoriais diretas. Sobre o tema, ver: LAKOFF, George.
Women, fire and dangerous Things: what categories reveal about the mind. Chicago: The University of Chicago
Press, 1987.
34 RYLE, Gilbert. ‘If’, ‘so’ and ‘because’. In: ______. Collected Papers: Volume 2. Nova York: Routledge,
22 apesar de o uso irreflexivo das normas ser dotado de uma certa primariedade, e da sua análise ser de maior utilidade para o desenvolvimento do presente trabalho neste ponto, na medida em que se cuida de normas da linguagem que em maior parte são perfeitamente internalizadas pelos seus usuários, é necessário reconhecer que, na prática jurídica e em diversos outros empreendimentos racionais humanos, é o uso das normas através da referência às suas possíveis formulações linguísticas que adquire destaque, por estar mais em evidência através do seu papel fundamental na argumentação35.
Foi Hart quem primeiro delineou essa distinção entre o aspecto interno e o aspecto externo das normas36. Internamente, normas são utilizadas diretamente pelos seus usuários, de
modo “automático” e plenamente internalizado ou como tickets para inferências conscientes em casos de internalização incompleta ou hesitação (com debates internos). Externamente, e aqui a formulação linguística torna-se essencial, uma norma pode ser apresentada a terceiros como um ticket de inferência, apresentando um argumento cuja conclusão é dar a uma conduta ou reconhecimento o status de devido.
Os aspectos interno e externo das normas constantemente se relacionam. Imagine um instrutor de dança que tem plenamente internalizadas as normas de sua rotina de dança: “Um passo para frente, um passo para trás”, ou, numa formulação que deixa explícito os operadores lógicos, “Se o último passo foi para frente, então o próximo passo deve ser para trás.”. O instrutor, ao decidir que instruções dar aos seus alunos, não precisa realizar inferências conscientes ou mentalizar uma formulação linguística da norma num pensamento sentencioso, pois esta já se encontra, para ele, num estado de plena internalização. Este é o aspecto interno. Entretanto, para efetivamente dar as instruções, ele deverá verbalizar uma formulação linguística da norma a fim de que seus estudantes eventualmente a internalizem e não precisem mais do seu auxílio. E o caso não seria essencialmente diferente se, ao invés de simplesmente ensinar, o mestre de dança precisasse convencer outros de que os passos que ele usa são os passos corretos. “A regra é passo para frente e então passo para trás, como requer a tradição” ele poderia dizer, precisando verbalizar uma formulação linguística da regra que ele já internalizou a fim de defender sua validade, ou seja, defender que ela se integra a outras
35 Sobre argumentação jurídica, conferir: MACCORMICK, Neil. Rhetoric and the rule of law: a theory of legal
reasoning. Oxford: Oxford University Press, 2009; ALEXY, Robert. A theory of legal argumentation: the theory of rational discourse as theory of legal justification. Ed. revisada. Oxford: Oxford University Press, 2010; e GUERRA, Marcelo. Normas, inferências e práticas: uma teoria institucional-argumentativa do Direito. No prelo.
23 normas que constituem um sistema; nesse caso, um sistema que, por sua vez, constitui um certo tipo de dança tradicional.
A este ponto já deve restar claro que o aspecto externo exsurge em contextos pedagógicos e argumentativos em geral. E por estes contextos colocarem as normas tão em evidência, fazendo apelos diretos às suas formulações linguísticas, é natural (porém equivocado, como demonstrado acima) que se pense que somente quando se faz referência expressa às respectivas formulações linguísticas é que se está efetivamente utilizando normas. Pelo fato de ser o Direito uma prática eminentemente argumentativa e serem as normas jurídicas complexas e infrequentemente utilizadas, sendo, assim, menos passíveis de completa internalização, o operador e/ou estudioso do Direito é particularmente suscetível a formar essa visão distorcida que oculta a multitude de usos das normas no nosso cotidiano37.
2.3 Independência das normas de suas respectivas formulações linguísticas
A análise das normas realizada até agora é de certa forma uma extensão da separação entre texto e norma, já incontroversa na Filosofia do Direito. A distinção é fácil de ser demonstrada. Imagine-se que uma placa à frente de um restaurante diz “Deve-se usar sapato neste estabelecimento”. Se o texto da placa é pintado de azul, certamente não se diria que a norma em si agora é azul; se as letras têm seu tamanho aumentado, certamente não se diria que a norma ficou maior.
O que se busca estabelecer aqui, no entanto, vai além da mera distinção entre texto e norma. A formulação de normas como trilhos da mente nos permite visualizar que normas podem ser completamente independentes de qualquer formulação linguística. Considerando que a forma lógica de qualquer norma segue um padrão que pode ser formalizado como “Se X, então Y”, não se verifica qualquer dependência de linguagem para que alguém estabeleça para sua própria mente os “trilhos” que levam da identificação do contexto X para a ação Y. Portanto, além de não ser necessário qualquer tipo de texto para o estabelecimento de uma norma, não é estritamente necessário qualquer tipo de formulação linguística em geral, apesar de, na prática, normas serem formuladas linguisticamente ou pelo menos capazes de o serem, contanto que se possua um vocabulário para demarcar o contexto, ação e operadores lógicos pertinentes.
37 Até renomados teóricos do Direito, como Neil MacCormick, são suscetíveis a formar essa visão distorcida,
como demonstrado pela passagem em: MACCORMICK, Neil. Institutions of law: an essay in legal theory. Oxford: Oxford University Press, 2007, p. 70-76.
24 Isso não significa que não há normas que efetivamente devem sua existência à linguagem. Normas jurídicas são um exemplo clássico disso, sendo elas tipicamente constituídas através de uma elaboração legislativa que erige uma formulação linguística canônica da qual se pode interpretar uma ou mais normas. Mas esse tipo de criação não só não é um fato ínsito a qualquer tipo de norma, como também sequer é algo necessariamente verdadeiro sobre qualquer norma jurídica. Afinal, foi somente com o advento do Estado Moderno que a produção legislativa se intensificou e tomou papel central nos sistemas jurídicos38. Anteriormente, e principalmente entre povos germânicos e escandinavos, o
costume figurava como uma das principais fontes do Direito, o que vale dizer que o que se fazia era a incorporação de normas costumeiras aos sistemas jurídicos, e estas tipicamente só passam a receber formulações linguísticas após efetivamente começarem a se sedimentar enquanto normas.
Em resumo, para os objetivos aqui perseguidos, o que pode se extrair de mais importante desses comentários são os fatos de que normas não precisam ser derivadas de formulações linguísticas e de que é possível postular a existência de normas através da sua manifestação em certos comportamentos, a despeito de possivelmente não se poder dar uma formulação adequada delas. Isso será relevante adiante, quando se estabelecer a noção aqui defendida de pragmática como referente a um conjunto de normas gerais sobre comunicação.
2.2.1 Distinções do comportamento normativo
É importante, após as considerações realizadas acima, deixar claro que ainda existem distinções entre comportamentos e ações embasados em normas plenamente internalizadas e, portanto, sem necessidade de qualquer pensamento sentencioso, e comportamentos que, apesar de também não dependerem da mentalização de proposições, normas e inferências, não são propriamente normativos, desenvolvendo-se por força do mero instinto. O comportamento baseado exclusivamente no instinto advém principalmente da interação de características biológicas de um organismo com o seu ambiente visando à satisfação de suas necessidades e, o que é mais importante para traçarmos uma distinção, não se trata de um comportamento aprendido, ao contrário daquele que é constituído e guiado por normas. Isso não significa que um comportamento que advém do instinto não possa ser
38 BIROCHI, Italo. Alla ricerca dell'ordine: fonti e cultura giuridica nell'età moderna. Torino: G. Giappichelli
25 aprimorado através de normas – um jovem selvagem pode ser impelido pelo instinto a caçar e, após conhecer um caçador experiente, pode ser ensinado a seguir e internalizar regras de performance que aperfeiçoem e tornem mais eficiente essa prática, aprimorando-a e elevando-a (pelo menos pelevando-arcielevando-almente) elevando-além do mero instinto.
Por fim, é necessário ainda comentar sobre a relação entre comportamentos normativos plenamente internalizados e os meros hábitos. Estes podem ser compostos por normas internalizadas, podendo assim constituir espécie daquele gênero. O que os distingue dos demais comportamentos normativos é que as normas que constituem o mero hábito não são cogentes, faltando-lhes justificativa – salvo o apego ao próprio hábito. Se alguém é instado a explicar por que prefere dormir de um lado da cama do que do outro, provavelmente lhe faltará palavras, salvo para afirmar que é assim que prefere dormir. Se alguém, por outro lado, é instado a explicar por que empunha sua lança de uma maneira peculiar ao caçar, é possível que responda de imediato que é porque isso melhora sua performance na caça.
2.3 O significado semântico através das inferências autorizadas, impostas e proscritas pelas normas que constituem conceitos
Esse intervalo para uma análise detida sobre normas permite que agora se volte, com o arcabouço teórico necessário, à continuação da análise iniciada acima sobre significado, a fim de que finalmente se estabeleça uma postura quanto ao possível papel da intenção na sua construção. Em resumo, os seguintes pontos foram estabelecidos nas passagens acima sobre normas:
a) atuam como trilhos da mente, levando da identificação de um contexto antecedente a uma conduta ou reconhecimento consequente, representando “tickets de inferência”, que autorizam a passagem de uma premissa a uma conclusão;
b) são independentes de suas possíveis formulações linguísticas, apesar de estas possuírem valor pedagógico e argumentativo (utilidade principalmente no que Hart chamou de “aspecto externo”);
c) são passíveis de graus variáveis de internalização, tornando-se mais dispensável a mentalização da respectiva formulação linguística conforme o usuário se torna mais proficiente no uso da norma; e
26 d) há, portanto, um universo de normas internalizadas que utilizamos
cotidianamente, dentre as quais se incluem as mais diversas normas linguísticas.
Retomando a análise sobre significado, é preciso, inicialmente, realizar um reparo à exposição conduzida acima sobre o uso da palavra “mãe”. No exemplo utilizado, afirmou-se que bastaria estabelecer, através de normas, o uso de uma série de caracteres e/ou sons (“mãe”) como apropriado para realizar um tipo de referência (“genitor do sexo feminino de uma pessoa”) para que daí já surja um significado. E, enquanto essa análise está correta, ela se afiguraria incompleta para a maioria dos nossos conceitos, porque alguém que domina somente a norma que estabelece uma referência para uma palavra não domina, ainda, propriamente, o conceito em si por trás dessa palavra.
Imagine, por exemplo, um papagaio que foi ensinado a reagir emitindo os sons correspondentes a “vermelho!” sempre que aviste um novo objeto vermelho. Pode-se dizer que esse papagaio teria domínio do conceito de “vermelho”39? Certamente não, pois esse
papagaio não seria capaz de formular as demais inferências que são autorizadas pelas normas que constituem o conceito. Ele não seria capaz de chegar à conclusão de que um objeto, por ser vermelho, não pode ser azul, ou à conclusão de que um objeto, por ser vermelho, reflete luz em certas faixas de comprimento de onda40. Da mesma forma, não se tem uma apreensão
completa do conceito de “mãe” sem se entender que, se alguém é a mãe (biológica) de alguém, não pode, ao mesmo tempo, ser também o pai (biológico).
Isso não quer dizer que o domínio da mera referência seja completamente destituído de significado ou de valor pedagógico. Como nosso exemplo anterior permite constatar, uma criança tipicamente aprende primeiro a apontar para aquela que lhe é indicada por adultos como sua mãe, para somente depois entender que não pode ter duas mães, o por que de aquela mulher em específico ser sua mãe ao invés de outras, e assim por diante. Dessa forma, há um gradual processo de internalização das normas que compõem um conceito e, por consequência, das inferências que são por elas autorizadas.41
39 A análise desse exemplo, que constitui um exercício filosófico, foi primeiro conduzida por Brandom, em
termos semelhantes, em: BRANDOM, Robert. Articulating reasons: an introduction to inferentialism. Cambridge: Harvard University Press, 2001, p. 48-49.
40 Esse entendimento é de certa forma análogo a como Ryle demonstra que um “saber-que” pressupõe um
“saber-como” em: RYLE, 2009a, p. 223-235.
41 Sobre como adquirimos conceitos, ver: RYLE, Gilbert. Thinking thoughts and having concepts. In: ______.
27 São essas possíveis inferências, implícitas nas normas que constituem um conceito, que dão o seu significado semântico42. Essa teoria, proposta Robert Brandom, é
denominada pelo seu autor como “Inferencialismo”43, e, apesar de competir com diversas
outras teorias de significado, espera-se que, devido ao restrito escopo deste trabalho, seu uso aqui, como referencial teórico, seja justificado pela sua adequação explicativa.
Brandom estabelece sua teoria de significado dentro da racionalidade argumentativa humana, que ele chama de “jogo de dar e pedir razões”44. Em um breve resumo
da sua teoria, ele propõe a divisão das inferências conceituais entre aquelas que justificam o uso do conceito, como, por exemplo, a assertiva de que um objeto reflete luz no comprimento de onda correspondente a “λ = 7 . 10-7 m” serve como premissa para a assertiva de que esse
objeto é vermelho, e aquelas a que o uso de um conceito implicitamente comprometem o usuário, como, por exemplo, a assertiva de que um objeto é vermelho requer que se aceite a assertiva de que esse objeto é colorido45.
Note-se, entretanto, que essa categorização das inferências conceituais não é rígida, e determinadas assertivas são passíveis de integrar ambos os tipos, a depender do contexto: a afirmação referente ao comprimento de onda pode tanto servir como premissa justificativa do uso do conceito de vermelho como também é uma conclusão necessária a partir do seu uso. De qualquer modo, essa categorização é aqui apresentada somente com o intuito de melhor ilustrar a teoria de Brandom. Para os propósitos deste trabalho, só é relevante saber que a noção de semântica aqui defendida é informada pelas inferências autorizadas, impostas ou proscritas por cada conceito.
2.4 O significado pragmático através da interação entre normas semânticas e normas pragmáticas
A exposição acima sobre “Inferencialismo” e semântica deixa ainda inexplorado o aspecto pragmático da comunicação. Mas, antes de se iniciar a exposição sobre esse assunto, um esclarecimento: não é preciso dizer que a pragmática se diferencia da semântica
42 Há controvérsia sobre ser a sentença ou a palavra a menor unidade de verdadeiro significado. De qualquer
modo, pode-se seguramente afirmar que o significado de uma sentença é, pelo menos parcialmente, uma função do significado das palavras que a compõem, fazendo com que a discussão seja irrelevantes para os propósitos deste trabalho.
43 BRANDOM, 2001, p. 45-78. 44 Ibidem, p. 14.
28 puramente por dizer respeito ao uso contextualizado da linguagem. Como já exposto acima, o significado semântico é composto pelas normas que compõem nossos conceitos, estabelecendo seus possíveis usos e as inferências das quais podem fazer parte. E normas são inerentemente contextualizadas, pois a forma lógica delas estabelece a descrição de um contexto de uso no seu antecedente (identificado em Direito como “suporte fático” ou “fato gerador”), ou pelo menos de um protótipo de contexto, sem a riqueza de detalhes de um contexto concreto. É, aliás, por causa do contexto embutido nas normas que se pode fazer sentido dos diversos exemplos discutidos neste trabalho.
O que, então, realmente diferencia o significado pragmático de uma frase ou palavra do seu significado semântico? A pragmática frequentemente é necessária porque conceitos de linguagens comuns tendem a ter significado amplo demais para comunicar de modo seguro e rápido. As normas que os compõem têm antecedentes cujos contextos de uso envolvem mais situações do que a que o falante deseja apontar, permitindo mais inferências do que desejaria o falante. Se alguém conta a um amigo que viu sua esposa jantando com um homem, entende-se, pragmaticamente, que ela estava jantando com outro homem, que não o seu marido, interlocutor da conversa. Mas, semanticamente, a inferência de o que o homem em questão pode ser o próprio destinatário da mensagem é plenamente autorizada. Não há qualquer norma constituinte do conceito de “homem” que excluiria o marido em questão da sua abrangência: ele é, inegavelmente, um homem.
De modo semelhante, a pragmática também serve para eliminar ambiguidades ocasionadas pelo fato de mais de um conceito estar atrelado à mesma palavra. Se alguém afirma para seu amigo, enquanto visivelmente come a fruta, que “a manga está podre”, o significado pragmático dessa frase desautoriza a interpretação de que se trataria de um problema relacionado a vestuário, considerando que essa intepretação seria aparentemente irrelevante para o contexto.
Vale destacar, a pragmática pode servir também para alargar o significado de conceitos e frases, como quando a interação entre pragmática e semântica deixa claro que se está utilizando um conceito de forma metafórica, com um sentido figurado. Mas isso é mais uma opção aberta aos usuários de uma linguagem do que estritamente uma necessidade imposta pela necessidade de rapidez e segurança na comunicação, como a restrição do significado o é.
A fim de facilitar a troca de informações, a pragmática entra em ação com normas gerais de comunicação que tornariam (pelo menos) não recomendadas determinadas inferências que seriam, de outro modo, plenamente autorizadas pelas normas semânticas.
29 Essas normas pragmáticas foram chamadas por Grice de máximas conversacionais e enumeradas por ele em caráter não exaustivo46; em resumo, elas são divididas nas seguintes categorias:
a. Máximas de quantidade – faça com que sua contribuição conversacional seja o mais informativa o possível, sem dizer demais nem de menos.
b. Máximas de qualidade – não diga o que você acredita ser falso e não diga nada que você não consiga apoiar com evidência adequada.
c. Máxima de relevância – faça sua contribuição relevante para a conversa. d. Máximas de maneira – evite obscuridades, ambiguidades, seja breve e
organizado.
Como já adiantado acima, a enumeração dessas máximas constitui rol meramente exemplificativo. É possível (até mesmo provável) que existam máximas além daquelas listadas por Grice, e isso não é evidência de que elas não são normas ou de que a pragmática como um todo não seria informada por normas. Como já demonstrado acima, uma norma pode existir e ser apreendida independentemente da sua formulação linguística. As máximas conversacionais já existiam antes de Grice buscar identificá-las; seu esforço foi no sentido de explicitar uma realidade pré-existente, não de a constituir. Desde o advento da linguagem, as pessoas intuitivamente se comunicam com o auxílio de normas pragmáticas, utilizando-as como guias para a elaboração e interpretação de mensagens, independentemente de qualquer esforço no sentido de uma formulação canônica ou sistematização dessas normas. O fato de Grice possivelmente não ter sido bem-sucedido em identificar todas as normas gerais que modelam, na prática, o significado semântico de nossos conceitos, criando o significado pragmático, não implica que este não tenha natureza normativa.
Por outro lado, é possível que nem todas as máximas conversacionais de Grice sejam propriamente regras pragmáticas, no sentido de afetar o significado semântico de conceitos quando utilizados na prática. As máximas de maneira, por exemplo, apesar de importantes para a boa comunicação, não parecem ter qualquer função de modelar o significado semântico de um conceito e/ou frase. Seguir a norma de evitar ambiguidades ou obscuridades pode orientar o falante a moldar o conteúdo de sua frase de uma certa maneira, mas, depois que a frase foi emitida, o conhecimento do interlocutor acerca dessa máxima de maneira não irá alterar sua interpretação: ou a máxima foi seguida e a fala está livre de
46 GRICE, 1998, p. 28. Deve ser notado que Grice dedicou-se ao estudo de implicaturas conversacionais que são
produzidas através da violação das suas máximas, enquanto a análise que segue foca na modulação do significado através da concordância com estas.
30 ambiguidades e obscuridades ou não o foi e agora o intérprete terá que lidar com esses “obstáculos”, e a máxima não prestará auxílio algum nessa tarefa interpretativa. Considere, em contraste, como uma máxima de quantidade e/ou de relevância, o dever de trazer a lume informações que contrariam as prováveis expectativas do interlocutor. “Faça-me um príncipe!” o humilde ladrão fala para o gênio da lâmpada – e havendo o ladrão explicitado antes seu desejo de se tornar realeza, o significado pragmático do seu pedido exclui a interpretação, por parte do gênio, de que o ladrão deseja que um príncipe seja feito para ele, apesar de, semanticamente, seu pedido ser ambíguo.
O exemplo acima mostra um caso excepcionalmente evidente (e bastante esotérico) de atuação de regras pragmáticas sobre o significado semântico, mas esse fenômeno é pervasivo em toda a comunicação. Imagine, para um exemplo mais cotidiano, que um elevador para em um andar e alguém do lado de fora pergunta aos passageiros “Está subindo?”. As normas semânticas que regem os conceitos que compõem essa frase admitem a interpretação de que se está questionando se o elevador está se movendo para cima no exato momento da pergunta. Entretanto, tendo em vista que é facilmente observável que o elevador está parado e não em ascensão naquele momento, responder à pergunta correspondente a essa interpretação semântica não acrescentaria qualquer informação nova, sendo, portanto, irrelevante. A máxima de relevância, então, atua como norma pragmática para excluir a interpretação a interpretação em questão. Alguém que respondesse “O elevador está parado, não consegue ver?”, apesar de ter respondido à pergunta de uma forma que não viola sua semântica, certamente poderia ser acusado de não ter um bom domínio da linguagem por não ter atentado à pragmática incidente sobre a situação.
2.5 Distinções entre semântica e pragmática
Através da exposição acima, já é possível traçar uma distinção segura entre pragmática e semântica. Enquanto a semântica diz respeito ao regramento que constitui conceitos específicos e como eles se combinam para formar frases com significado, a pragmática trabalha com um conjunto de normas gerais que restringe ou alarga as possibilidades de inferências (o que vale dizer significados) proporcionadas pela semântica dos conceitos utilizados.
Naturalmente, há casos que irão propor um certo desafio a essa distinção, possivelmente caindo numa zona de vagueza. No exemplo em que alguém conta ao seu amigo que a esposa deste foi vista com outro homem, poder-se-ia apontar diretamente para uma
31 norma de que quando se usa “homem” nesse contexto se está falando de alguém que não o próprio interlocutor, ao invés de apelar para algum tipo de máxima conversacional mais geral da qual essa norma poderia ser derivada. A regularidade de certos usos da linguagem pode levar à cristalização dessas normas derivadas e é questionável se estas fazem parte dos conceitos (semântica) a que dizem respeito ou não. Mas, ainda que se trate de um genuíno caso de vagueza – e não é certo que o seja – esse não é um golpe fatal ou sequer propriamente um defeito à distinção proposta entre semântica e pragmática; afinal, a vagueza é um fenômeno inerente à linguagem, e há quem diga à própria realidade47.
Merece destaque também a distinção de “força” entre normas semânticas e pragmáticas. O conteúdo derivado de normas pragmáticas, i.e., o significado pragmático, constitui meras implicaturas48, passíveis de serem canceladas pelo falante. No exemplo
anterior, em que alguém avisa a um amigo que viu sua esposa com um homem, ele poderia cancelar a implicatura pragmática adicionando, logo em seguida, “O homem era você.”. E, ainda que ele não o fizesse, seu amigo teria que conceder que jamais foi dito que o homem em questão não podia ser ele mesmo, o próprio interlocutor. Por contrariar as normas pragmáticas (e, portanto, o sentido pragmático) essa defesa, apesar de estritamente correta, em termos de semântica, irá parecer vazia para qualquer falante competente e honesto da linguagem. Ainda assim, é inegável que os argumentos semânticos são, de alguma maneira, mais cogentes que os pragmáticos.
A este ponto, pode restar ainda algum ceticismo de que a linguagem, tanto em sua dimensão semântica quanto pragmática (e, por extensão, também o próprio processo interpretativo), seja constituída por regras. Dan Sperber e Deirdre Wilson afirmam que a construção de significado se dá por um processo dedutivo não-normativo, supostamente em contraposição a teorias de significado que baseadas no que eles chamam de “processos de decodificação”49, como o seria a teoria de Grice50. No entanto, Sperber e Wilson jamais
chegam a sequer indicar o que constituiria um processo de decodificação e como este seria essencialmente diferente dos processos dedutivos que eles propõem como essenciais à atividade interpretativa. Afinal, ambas dedução e decodificação são atividades que dependem
47 BAKER, Lynne Rudder. The metaphysics of everyday life: an essay in practical realism. Cambridge:
Cambridge University Press, 2007, p. 123-141.
48 GRICE, 1998, p. 32.
49 Richard Ekins comunga dessa visão, como demonstrado em: EKINS, 2012, p.209-211.
50 WILSON, Deirdre; SPERBER, Dan. Relevance: communication and cognition. 2ª ed. Oxford: Blackwell
32 de inferências, e, como já apontado acima, normas são precisamente tickets de inferência, essenciais ao raciocínio humano em geral.
A única crítica que Sperber e Wilson levantam diretamente à Grice é a de que seu rol de máximas conversacionais é incompleto51, mas, novamente, como já demonstrado
acima, a falha de Grice em explicitar todas as normas pragmáticas (se é que este era seu projeto) não é prova da inexistência dessas normas ou de que a comunicação não possui caráter normativo.
Em contraponto, pode-se afirmar que a talvez maior evidência de que há, sim, normas – implícitas e sem formulação canônica, mas ainda normas – que constituem nossa linguagem semanticamente e embasam nossa comunicação pragmaticamente é o fato de que, em todos os exemplos até aqui utilizados e em incontáveis outros que podem ser produzidos, qualquer pessoa com domínio da linguagem e uma descrição apropriada do contexto relevante será guiada para chegar sem dificuldades às mesmas conclusões que as aqui apresentadas acerca da interpretação mais sensata a ser dada na maioria dos casos.
33
3 O PAPEL COMUNICATIVO DAS INTENÇÕES
Antes de se adentrar propriamente no papel da intenção na comunicação, cabe, assim como foi feito em relação ao conceito de norma, estabelecer claramente o que se entende por intenção: estar comprometido52 com a realização de um estado de coisas53. Isso
não significa que não se possa, frente a circunstâncias inesperadas, desistir do curso de ação que levaria à satisfação de uma intenção, e esta, ainda assim, ter sido uma intenção genuína. O que é definitivamente proscrito pelo conceito de intenção é somente que se esteja comprometido a um estado de coisas para cuja realização o sujeito sabe que não tem condições de contribuir. Não se pode, por exemplo, ter a intenção de ressuscitar alguém morto há dias, pelo menos não quando se tem um conhecimento básico de medicina para saber que isso é impossível.
Obviamente, é possível se comprometer a algo sem ter qualquer intenção de honrar o compromisso assumido. Entretanto, a noção de “compromisso”, que pode ser dissociado de intenção, denota uma obrigação assumida perante terceiros, derivada de normas morais (o que se pode observar inclusive pelo uso do verbo “honrar” para denotar seu cumprimento). É somente nesse primeiro sentido que se pode afirmar que alguém “tem um compromisso”. O comprometimento em tornar um estado de coisas realidade que constitui uma intenção, por outro lado, é de natureza primariamente privada (o que não impede que se torne pública ao ser comunicado) e denota não uma obrigação, mas um ânimo, determinação ou disposição do sujeito. Nesse segundo sentido não se pode dizer que se “tem um compromisso”, mas somente que se “está comprometido” à realização de um estado de coisas54.
A análise acima já permite antever que o conceito ao qual se referirá por “intenção” neste trabalho não é o conceito filosófico que, de acordo com Searle, denota uma capacidade da mente pela qual esta se direciona a objetos e estados de coisas no mundo55.
Doravante, quando se mencionar intenção, pode-se presumir que se está referindo à noção
52 A noção de comprometimento aqui utilizada é derivada de: TUOMELA, Raimo. Social ontology: collective
intentionality and group agentes. Oxford: Oxford University Press, 2013.
53 A noção de estado de coisas aqui utilizada é derivada de: GUERRA, Marcelo. Normas, inferências e práticas:
uma teoria institucional-argumentativa do Direito. No prelo.
54 A análise da distinção entre os conceitos de estar comprometido e ter um compromisso é análoga àquela
realizada por Hart quanto aos conceitos de estar obrigado e ter uma obrigação, possivelmente constituindo um indício de que a forma abstrata de (pelo menos alguns) verbos pressupõe normatividade, enquanto a forma ativa não. A análise de Hart encontra-se em: HART, 1995, p. 82-85.
55 SEARLE, John. Making the social world: the structure of human civilization. Oxford: Oxford University